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A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado. A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio. A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas. A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só. |
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Revérbero. Trava-se a luta. A luz ainda apenas fragmentos de asa de borboleta. Baixa a garganta dos insectos. E das rãs. O escuro está perdido de morte. Também o frio começa a tremer. Cadáver que deixa de o ser, voa. Num estertor. Quase inapercebido. Só luaceiro de hóstia, amarelão pálido, gotas, ferradura, meia-lua a arder, lume inteiro, roda, o sol. Os pinheiros, verdes, as águas, pratas, os ares, brasas. Partos. Almoço para os olhos. Aconchego, quente. Mais quente. Olha ali a sombra. Que surdiu sem patas, fora raposa. Fio invisível, quase, a cana estremece sem motivo, pequenos elementos enrodilhados e do rio todo sai a carpa. Tal as de outros dias actua no palco, acto imprescindível ao orgasmo do que pesca. Mão côncava, brutal, aperta-lhe o dorso, mulher violada sem voz. Cansado, desistido, aparentemente dócil e conforme, o peixe. Humidez, oval forma, olhos de carneiro. Objecto inútil e consumado, no camaroeiro esconde-se. A paisagem fecha-se. Pálpebra. |
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O medo está contido todo nos ouvidos. É por essa porta que ele entra. O animal brutal. As primeiras visitações ocorrem na infância, provenientes de familiares e adjacentes, insuflado pelos primeiros sob a forma de protecção e pelos outros com o intuito de delir raivas. Próprias. Essas vozes, essas sugestões, esses apelos, esses arrombamentos mentais começam de entrelaçar-se com os ruídos, os gemidos, os gritos, os roucos, os silvos, os gonzos, todos os riscos de tímpano que resultam da fricção física e que estão sempre próximos das casas. E se avolumam na distância delas. Uma das suas formas é o ranger, que não sendo de dentes mas de cama, como se sabe, pode nada ter a ver com medos. A colagem do susto vai evoluindo gradualmente, colhendo argumentos e confirmações nas sombras, nos ventos desbragados, nos sótãos e nas caves, no escuro mais ou menos denso, seco ou húmido que existe sob os leitos, a lenha, os pátios, as pontes, nas grutas e desvãos. Pior é quando a noite de todo se cerra e todos os sons se tornam suspeitos, e todos os movimentos criam imaginação de vultos presentes, providos sempre de intenções e poderes demoníacos. Pior ainda quando a noite desagua no pesadelo, onde o corpo da criança é rasgado por convulsões violentas, porque o zoom de seus olhos alveja ladrões e bruxas e mortes de família, acordando invariavelmente de boca uivante e olhos saltando de terror. Muita vez, o corpo da criança mudado em homem não obtém de superar estes traumas. Quando o consegue, apercebe-se de que foi alvo de mais um ludíbrio. Que jogaram em suas costas as dimensões todas de um negro filme negro. E verifica que a noite é vazia, tal como as grutas e os sótãos. Excepto de entulho e animalejos, insectos, batráquios, morcegos, ratos, de cujo visgo ou enjoo terá também que se despojar. Porque, tal como o medo, o nojo só vive dentro de nós. E apercebe-se que o medo é demasiado crescido, possui um corpus maior que seu próprio corpo. Isto é, excedeu sua realidade. Chama-se medo, por exemplo, ao receio de um cão ou à maldade de um indivíduo. E ele agora sabe que aos dois apenas tem que os enfrentar. Nada mais. Devolvendo sensações. Obrigando o medo a fazer ricochete. Há que dar peito a toda essa colecção de teias ou de espadas que foi urdida para te fazer submergir ou baquear. Para testar tuas forças e teus íntimos poderes. E que, nalguns casos, provou ou construiu caracteres fracos, temperamentos frágeis, corpos fluidos de braços caídos e olhar esbugalhado. Se te usares na pradaria, o espaço espraiado, e os paus da tua força, obténs a construção de uma cerca onde aprisionas o medo. Cerca que vai reduzindo, minguando. Até se circunscrever à concha fechada da tua mão. |
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Como de outras vezes, fugia espavorido da casa de infância e ia até ao início do campo de trigo. O cigarro ainda no lábio não acendido. Apaziguado. Os campos jazem de braços caídos. Além, as casas que formam o lugar erguidas sem murmúrio. O pinhal mais alto sem se mexer. Bem diferentes sítios estes dos que eram quando estava apaixonado. Da primeira mulher que não propiciava resposta física, os campos, sobretudo, funcionavam como poço fundo. De águas em que se gastaria (e gostaria) de afogar. Por não possuir mais mundo para oferecer aos pés que mal sentia. Na era da segunda o trigo e o pinhal buliam inquietos. Pouco cuidando ele de saber se o rumo daria no enlace ou no vazio. Vendaval onde a dúvida não angustiava, e o final, como veio a acontecer, seria mais procurado que acontecido. No terceiro caso, último mas também contemporâneo, toda a paisagem ria. O amor era pleno e mútuo e satisfeito. E ele também, possesso dela, ria de todas as eras que vivera ou imaginara olhando aquelas hastes ou aqueles ramos. A que apenas dava valor de mero cenário. Por angústia, por castração, por saciedade, todas essas faces estavam deitadas. Como o trigo do campo. Como a folhagem no montado em que permitia repousar o olhar. Apaziguado. Afinal, o que amara? Trincando de breve sabor o tabaco agora aceso, balbucia alto, furtando autores consagrados: - Amei o amor! E só! |