agosto 06, 2008

LAUREANO SILVEIRA

Amante / a quem a morte / alcança ainda nu / antes de ser vestido / pela velhice



             

Quase sempre acontece que o poeta se veste com as suas próprias palavras. E com elas se vai embora.

 Ao folhear as 5 páginas de cultura do muito justamente laureado JN, edição do dia de hoje, não se encontra a referência sequer a qualquer escritor.
          Muito menos a autor português.
          Muito menos a Laureano Silveira. Apesar de licenciado em História da Arte e doutorado em Literatura Ibero-Americana pela Vanderbilt University, Nashville [Tennessee, EUA], autor de cinco livros de poesia: Os caprichos [Limiar, 1987], A metafísica do insecto [Kíron, 1988], Os secretos felinos [Limiar, 1991], O lado negro do lado branco [Limiar, 1993] e Os retratos [Pedra Formosa, 1998], apesar de aceso crítico nomeadamente da poesia existencial de Egito Gonçalves, de revelação de Poesia/1984, ex-aequo, da Associação Portuguesa de Escritores, de docente do Ensino Superior, e de muitas coisas mais.
          Afinal o Laureano, que morrera de véspera, aparece em páginas pagas do JN, no necrológio, onde a Escola a que pertencia e a família cumprem o doloroso dever de participar o seu desenlace. 

Como escrevi em breve artigo, apesar do “movimento da morte” do poema “Vigília”, apesar das “mãos invisíveis / da recém-chegada” do poema “Viver”, apesar da aparência, nem “Vigília” nem “Viver” falam, demonstram ou desenvolvem terrenos tomados pela morte. Da vida, pelo contrário. Quer a que resiste ou residua nos retratos, quer a que resiste ao óbvio trabalho da foice na árvore genealógica.
         Face ao lado branco das notícias, sufoco as minhas palavras com as do poeta.
         Que com elas se veste. Reatando, in memoriae, o “crime supremo de viver a vida”.

Aí lhes deixo os poemas citados, “Vigília” e “Viver”, simbólicos em hora de morte, e o último e-mail com que me disse, mal me conhecendo, “até sempre!”

          VIGÍLIA
Contemplar o retrato
é atravessar o rio da vigília,
um rio cujas águas correm para a nascente
sobre um silêncio consciente e lúcido
que aquieta o olhar
como na campânula do sono

a luz da vida se humilha suavemente

e quase extingue.

 

Nesse contemplar

o corpo aguenta a pressão invisível

da passagem do tempo

e o olhar que é contemplado

e nos contempla

atravessa o além e a realidade e o sonhar.

 

Nesta travessia é o nosso viver

que comparece no sonho

e nos sustenta

quando vacilante, quase irreconhecível

e perdido

o corpo é um engenho misterioso

que fabrica a violência

e o deslumbramento

de acordar.

 

Todavia, há no retrato

uma familiaridade perversa,

um movimento convidativo, cheio de falsidade

que a partir do limite de fragilidade

do ser

busca prender-se à vida.

 

Esse movimento

é a morte.

 

(in Os Retratos)

 

 

          VIVER
A morte dos pais viaja

e chega na mesma embarcação

que traz aos filhos

os sinais irreverentes

da velhice

 

e é nessa circunstância

que acontece

a extraordinária metamorfose

do ser:

 

quanto mais a alma, infusa, escorre

para o interior da identidade

e fixa o ser à vida,

mais o corpo o altera e desfigura

e o desenraíza e abandona

atraindo o amor de que ele é presa.

 

É então que as identidades

se confundem

que os filhos se assemelham,

perturbadoramente, aos pais

e que a vida recebe os seus mistérios

das mãos invisíveis

da recém-chegada.

                                                            À memória de meu Pai

 

Inédito do livro em construção

“NOCTURNOS, MATINAIS E VESPERTINOS”

       

          E-mail

 “Amigo Antero Barbosa
Grato pela sua generosa mensagem.
Sobre poesia e poetas, o melhor é lê-los.
Se quiser enviar-me um endereço, terei o maior prazer em enviar-lhe os meus
livros (pelo menos, os que não tiver).
E estou sempre ao dispor para conversar sobre literatura.
Abraço cordial.
Laureano Silveira”

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maio 20, 2008

Poligrafia

"Soneto já antigo" é o maior poema em português do século XX
Breve entrevista com Miguel Tamen

 



             

Soneto Já Antigo

                              Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
                              dizer aos meus amigos aí de Londres,
                              embora não o sintas, que tu escondes
                              a grande dor da minha morte. Irás de

                              Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
                              que eu nada que tu digas acredito),
                              contar àquele pobre rapazito
                              que me deu tantas horas tão felizes,

                              Embora não o saibas, que morri...
                              mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
                              nada se importará... Depois vai dar

                            
a notícia a essa estranha Cecily
                             que acreditava que eu seria grande...
                             Raios partam a vida e quem lá ande!

***

Miguel Tamen é professor universitário (Stanford University e Universidades de Lisboa e de Chicago), dedicando-se fundamentalmente ao ensino de Teoria da Literatura.

Eis alguns dos seus livros publicados:

“Hermenêutica e mal-estar” (1987);
“Manners of Interpretation” (1993);
“The Matter of the Facts” (2000);
“Friends of Interpretable Objects (2001);
“Artigos Portugueses” (2002).

Eis, também, a breve entrevista que nos concedeu, onde revela o seu extraordinário carácter de frontalidade, subtileza, argúcia e desassombro. 

Antero Barbosa
"Século de Ouro - Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX" é uma obra notável, construída por várias dezenas de ensaios altamente válidos, alguns dos quais de nível elevadíssimo. Ainda assim, atrever-me-ia a considerar o breve ensaio de Miguel Tamen, o seu, em cima do "Soneto já Antigo" de Álvaro de Campos, como o melhor de todos.

Um dos aspectos que me leva a considerar o ensaio referido como o considero, assenta numa asserção que vem já de Eduardo Lourenço e do seu "Canto do Signo" de 1993: "da criação como crítica à crítica como ficção". Concorda que o seu ensaio espelha esta última faceta?

Miguel Tamen
Não. O meu ensaio não tem nada a ver com ficção. É simplesmente a verdade sobre o soneto de Álvaro de Campos.

AB
Ainda Eduardo Lourenço e o livro mencionado. Num dos seus mais famosos capítulos, é acentuada a influência do heterónimo de Pessoa que vimos tratando, de que até o próprio título é sintoma: "Uma Literatura Desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos".
Todavia, verifica-se, com surpresa, que os "filhos de Álvaro de Campos" apontados são todos prosadores, ao contrário do poeta que os influenciou: Bessa-Luís, Almeida Faria, Cardoso Pires, Abelaira, etc. A excepção é Herberto Hélder. Não acha haver aqui uma prosaica contradição?

MT
Não necessariamente. Os autores que Eduardo Lourenço cita são todos adultos (aliás de interesse variável). Os estragos que Álvaro de Campos causou situam-se numa idade anterior. Álvaro de Campos foi um poeta em quem (como aliás Herberto Helder) aspirantes a poetas se tenderam a revir e de quem aqueles que se tornaram poetas muitas vezes explicitamente se arrependem.

AB
Herberto Hélder que não será seguramente o mais comprovado discípulo de Campos. Outros há muito mais nítidos. Ruy Belo, por exemplo. E Nuno Júdice, que o confessa em "A Viagem das Palavras", livro publicado em 2005, sendo o ensaio de 2002.
Mas é possível acrescentar que a poesia portuguesa da segunda metade do século XX, uma das suas principais vertentes, os poetas de "Poesia 61", aborda aspectos desencontrados de Álvaro de Campos ou, mais do que isso, que estão apostados em explorar a outra margem, outras margens, de costas voltadas para ele.
O que nos levaria a uma certa negação da filiação da poesia portuguesa da segunda metade do século XX em Álvaro de Campos. Não lhe parece?

MT
Sim. Com excepções que importaria ressalvar e perceber, a ideia de que poetas sérios não escrevem como Álvaro de Campos é constitutiva da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Infelizmente, como aliás mostra bem a chamada Poesia 61, ter ideias sobre poesia não é suficiente para escrever versos de jeito e muitas vezes é o que impede que tal aconteça.

AB
Voltando ao seu ensaio sobre "Soneto já Antigo". Não deixa de ser uma ousadia seleccionar um soneto, modelo clássico, para abordar o épico dos grandes poemas à Whitman, Álvaro de Campos. Ou não será?

MT
Não. Não sou um admirador de Álvaro de Campos. Dito isto, o "Soneto já antigo" é o maior poema em português do século XX.  Não me interessa o Alvaro de Campos dos poemas longos e das apóstrofes pai, até Herberto Helder, de uma forma particular de indulgência poética que, depois das três miraculosas excepções do fim do século XIX (e de Pessoa) a fez permanecer obstinadamente menor. Interessa-me a sua prosa e alguns poemas curtos.

AB
Mas a ousadia está mesmo no ensaio. Para além de ser "crítica como ficção", há decerto uma superação deste modelo. Renegando moldes tradicionais, tais como o recurso a teorias literárias, a citações, ao abstraccionismo seco e maçador. E com o recurso a tópicos inovadores.
Dos quais mencionarei a dialética de uma elaboração que recorre de forma subtil ao passado e ao futuro. O recurso a talentos que se confundem com características do autor tratado: a ironia e o humor. E, inclusivamente, de um modo teatral, o facto de se integrar no interior da obra e confundir-se, na qualidade de destinatário, com uma das suas personagens, Daisy, presumivelmente feminina.
Que comentário lhe merece o meu?

MT
É muito simpático o que diz, mas não há qualquer ousadia no meu ensaio. Escrevi-o por impaciência para com as coisas que se escrevem sobre poesia, meio crónica social, meio pata-filosofia. A grande dificuldade do soneto de Álvaro de Campos é a apóstrofe "Olha Daisy". Perceber umas apóstrofe é o maior, e talvez o único, problema para quem lê poesia. Como é que se pode justificar o acesso a uma coisa que não foi feita para nós, e à vaidade que imagina que estamos a ser directamente chamados? O meu ensaio é só sobre isso. Mas é um ensaio imperfeito, porque prega a virtude da humildade de um modo adstringente.

 

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abril 23, 2008

PoliGafia

Prefácio

 

"Alguns Símbolos da Perplexidade"


que elaborei para o livro produzido em 2007 pela Design Editora:





                    

O título, sumamente concreto e substantivo, impele ostensivamente para zonas sensoriais e pictóricas. No entanto, “Campo de Trigo com Corvos” não é mera reprodução do quadro de Van Gogh onde o trigo, amarelo, eivado das chamas loucas do pintor, escorraça de seu seio o bando negro dos corvos. Aqui, no livro, muito para além dos afugentados, corvos há que permanecem pairantes ou, mais ainda, baixando ao rés do solo jogam-se contra as pessoas provocando a clivagem (ou a carnagem). E esta fórmula aproxima os textos de uma realidade mais humana, ainda que desumana em função de traumatismos de que se tece a evolução vital e biológica.

 Mas, na arte de contar estórias, e é um pouco do que se trata aqui, o texto recorre globalmente a técnicas específicas da pintura. Designadamente, dos seguintes modos:
             Os factos sucedem-se em tom linear, contíguos ou adjacentes, em direcção a um desfecho, previsível ou não, podendo-nos apropriar neste caso da imagem do rio que decorre e atravessa a paisagem rumo à foz.
             A disposição da narrativa procede à colocação ou disposição de cenas paralelas, quadros que se encostam na vertical, ou na horizontal, às vezes na diagonal. Lembrando um pouco os vitrais medievais que ainda hoje se encontram nas catedrais.
             Postado na posição do personagem, o narrador reavém e sintetiza em frases-cristais largas faixas de vida transcorrida. São parágrafos breves, como riscos impressionistas e apressados, que intentam ou ensaiam remover um vulto de episódios para um mínimo centro, na vã tentativa de os aprisionar. De tudo dizer, sem ceder ao uso da gordura das palavras, muitas palavras, palavras a mais, o “contar palha” da gíria.

 Por outro lado, mais do que abordagens textuais que imitam ou pretendem irritar técnicas fílmicas ou de vídeo, nota-se um apropriar de materiais atinentes ao teatro.
             Desde logo, na encenação criteriosa e fiel de palcos que suportam os personagens, a reconstrução de sítios, locais, ambientes ou atmosferas. Em que tem papel fenomenal o fluxo da enumeração. Neste exemplo, utilizaremos o conto nodal, que dá título ao livro, “Campo de Trigo com Corvos” para promover a tipificação:

             “Contratou peões de fora, tipos mal encarados de outras plagas, outras praças, gaúchos, catarinas, ˝barrigas-verdes˝”.
             Observemos como se delineiam outras estilísticas da arte de talma:

             O imprevisto é um dos recursos que pode fazer balançar o espectador na cadeira. Ele é aqui arremessado, quer surgindo de-vereda, o designado “causo”, bem assim o pandareco, quer atribuindo um rumo à história totalmente inverso, ou ao menos diverso, da lógica que as teias já desarmadas anunciavam.
             O equívoco é, como se sabe, o banquete de muitas peças de teatro. De algumas em exclusivo. Ele provoca o espectador, obriga-o à concentração e à reflexão (e ao riso ou sorriso), mantém vivo o desenrolar do evento e o esforço dos actores. Aqui também ele actua, burilando surpresa nos personagens, dando lastros de ironia às vidas encenadas, apanhando na contra-mão o leitor. Quiçá, o próprio autor terá aberto olhos aquando da elaboração dos textos.
             Alguns títulos, algumas frases, preparam para ocorrências posteriores do conto. É uma espécie de levantar do véu, destapar de roupas femininas, jogo de sedução e permeio. Que muitas vezes pode desaguar num dos recursos anteriores, anulando ou aparelhando os efeitos: o imprevisto.
             Mas, o mais robusto de todos os recursos é o golpe-de-teatro. Repare-se que a própria palavra de que vimos falando integra a nova palavra, esta, aliada a golpe. Quando tudo se encaminhava no rumo certo, quando a rotina ou a monotonia se estavam solidificando, eis que de sopetão tudo se desmorona, tudo se transtorna, ficamos submersos nas estrias que estoiraram sobre nossas cabeças, fica tudo de pernas ao ar, a mesa, a casa, o livro, o corpo, a mente.

 Apesar de usado e abusado, gasto e regasto, o conto produz-se hoje em doses avulsas. A despeito de sua condenação, final da história e seus componentes-trave: narração, tempo e espaço, decretados pelo noveau-roman.
             Não basta hoje dispor magnanimamente da arte de contar. Não basta, como a Silas Corrêa Leite, ser um domador de estórias. É condição, ainda e nomeadamente, inventar histórias, seu entrechocar, prover à invenção de uma “história nova”. Isso aconteceu, muitas vezes, neste livro. Mas vejamos algumas das várias fórmulas de história com que nos deparamos:
             Existe a história que é canto, beco e síntese em “Boémio”;
             Existe a história que se traduz inteira e integral em “O Enterro”;
             Existe a que se senta na paragem, recusa avançar de momento e aguarda o porvir em “Quando a Tragédia Bate em sua Porta”;
             Existe a história que se metamorfoseia em lenda, veste-se mágica, irreal, em “O Inventor”;
             Existe a história contida, espelho de deserto dos tártaros, com tempestade iminente mas que não desaba em “Campo de Trigo com Corvos”.

 Mas todo livro é ou pretende ser uma obra literária. E é só isso que importa. Obtê-lo, consegui-lo, é todo o mérito e valor acrescentado possível. Também aqui se obteve largamente esse desiderato. Observemos alguns dos meios. Ou fins.
             Deitando mão de uma linguagem que, afora o popular, o linguajar, a gíria, agarra os elementos específicos de dialectos, sintaxe indígena, eivando a escrita de vocábulos originados do tupi. Exercitando uma experiência genialmente rasgada noutros países de língua de expressão portuguesa por Mia Couto e Luandino.
             Dando o braço à metáfora, à imagem em novos moldes, revitalizando os textos. E desse modo obtendo o viço, a chispa, o engaste de muitas frases. Alongando a metáfora, expandindo-a, cingindo-a a personagens inteiros ou à globalidade do conto. Metáfora que se transforma em alegoria. Exemplo seguro de tudo que fica dito são os Corvos de “Campo de Trigo” e o Muro em “Anistia”.
             Lançando as palavras umas contra as outras, quando contíguas, provocando choque, conflito, traumatismo, mas também colo, enlace, anel.
             E neste particular merece realce a intensa e não pretensa construção de novos vocábulos. Fruto de tentativas ou abordagens díspares.
             Usando a colagem, a composição, errónea em aparência mas sempre imprevista, como no caso de “esposa-vítima”, “vento-coisa”, “nuvem-lesma” ou “lebre-dor”.
             Recorrendo à síncope, como se verifica em “marra” e “garra”.
             Provocando a junção, de que poderemos enunciar “enfebre”, “nágua” e “cinzazul”.
             Adstringindo a preposição, prefixada, em “de-vereda”, “de-assim” e “de-primeiro”.
             Neste campo, de trigo literário, em que muitas letras são corvos, entendo que o mais subtil e profundo recurso resulta do germinar de vocábulos novos, que estimulam os acordes da sintaxe, da fonologia e da morfologia. Realizando cambiâncias, muito pouco vistas e nada pouco inesperadas. Ousando obter o substantivo a partir do verbo, do adjectivo, ou mesmo do próprio substantivo. Obtendo ligas que só ao alquimista são permitidas. Vejamos.
             Do inúmero número de vocábulos em que se verifica um processo de alteração da categoria sintáctica, ou manutenção sintáctica por força de novo vocábulo, quer por acção da base quer do derivado, topamos estas nominalizações deverbais: “acontecência”, “havência”, “pertencimento”, “andação” ou “conhecença”.
             Como apodo de nominalização denominal, poder-se-ia citar “mentirança” e “medaço”.
             Para não jazer nas plagas do vazio, eis também uma adjectivalização denominal: “encranqueira”.

 Recuando: perante o impasse da estória, notória se torna a premência da exploração de técnicas e moldes e dados inovadores. Porque não basta à ficção reproduzir a realidade ou ser espelho do real. Isso já se fez ou é horta de outras artes. Da perícia autoral depende a superação do real. Mais: a sua subversão.
             E é o que acontece substantivamente em “Campo de Trigo”. Podemos apontar o irreal em “O Inventor”; o surreal em “Anistia”; a subversão do real (pelas palavras) em “Justiça”. Estas e outras estórias é que provocam o avanço. Deixando as restantes coladas, como pinto recém-nado a casca-de-ovo, a correntes literárias já desgastadas, ainda que recentes.
             E já que entrámos na corrente, deveremos referir a mais ousada ousadia presente neste livro. Algo que apelidaríamos de transrealismo. Obter do texto a superação do real, a sua mistificação, submeter e soterrar normas, o erigir de um outro real. Isso acontece aqui e ali, mas de forma exemplar no conto mais de todos escatológico: “O Osso” (também em “Congonha”). De que retiramos três análises resumíticas: a mulher que se dá ao pai e depois ao filho, sendo carne para o primeiro e osso para o segundo; o homem que, helo Kafka, devém canino, o filho-cão; a habituação a baixas desumanidades que impede um ser humano de reverter após uma vivência animalesca.

 Falámos de artes plásticas. De artes cénicas. De linguística. E, sobretudo, de arte literária. E corrente. Literária, claro, mas não só. Tudo muito apreciado. Mas então, e a vida? Porque é o sangue dela que muitos pretendem, ou preferem, ver escorrer das letras dos livros. Diria:
             Existe, como metáfora da terra, e dela, a vida, um extenso campo de trigo. E pequenos pontos negros no meio do trigo, os corvos. Este é o palco, é aqui que tudo decorre. Com o sol por testemunha ou sob o céu nocturno. Os pequenos pontos negros por vezes exaltam-se. Rebelam-se. Ficam loucos. Pode dar na destruição de todo o enorme campo. De trigo. E é assim que a vida se eleva (mesmo quando derrubada). Porque ela é em simultâneo

Luz e escuro;

Branco e negro;

Gozo e dor;

Água e fogo;

Campo de trigo e corvos. 

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março 11, 2008

Poligrafia



Uma estranha manhã de domingo




                              

Desloco-me aos campos de futebol, relvados, sintéticos ou pelados, quase exclusivamente para presenciar jogos de futebol juvenil, sem qualquer preocupação clubística pessoal.
Assim, preparei da seguinte forma o meu domingo de 7 de Janeiro de 2008, depois de consultada a agenda da Associação de Futebol do Porto e confirmar os dados no “Norte Desportivo” on-line:
- 1.ª parte do Pasteleira-Pedras Rubras, em Iniciados, com início às 9 horas, no campo do Ramaldense;
- Jogo completo, em Juvenis, do Padroense-Salgueiros, a partir das 10 horas, no campo do Padroense.
Manhã cedo, desloquei-me aos locais previstos e começaram as surpresas que não mais pararam:
- Havia 4 ou 5 espectadores no campo do Ramaldense mas o ambiente era de preparação, iam chegando os jogadores e o jogo, afinal, era às 10 horas;
- Um pouco antes das 10 chego ao campo do Padroense e pelo ambiente logo me apercebi que o jogo tinha começado às nove e se ia jogar já a segunda parte;
- Terminado o jogo, como não havia nada mais agendado, preparava-me para sair mas começaram a aquecer duas novas equipas: chegado a casa verifiquei na “agenda” da AF Porto que se tratava do Padroense-Porto, em iniciados, marcado para as 11 horas mas no campo do Ramaldense.
Já me desloquei a muitos estádios para jogos que foram mudados de local ou adiados. Mas nos últimos tempos, a informação tem sido mais ou menos fiável.

Apenas apresento este episódio como curiosidade e com desportivismo. Aproveito para agradecer os milhares de informações que a Associação de Futebol do Porto disponibiliza e de que todos beneficiamos.

Publicado por barbant em 11:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 13, 2008



ATIREM SOBRE A PIANISTA



                            

            Era uma vez uma menina a quem despontaram grandes orelhas. Com elas captava misturas do mistério de vozes que absorvia dos pássaros, das chuvas ou das pessoas.

            Depois cresceram-lhe os dedos. Era com eles que desenhava as curvas que as vozes lhe inspiravam. Quando, certa vez, viu um piano tocando, baixou as vozes à sua altura e, tamborilando com as mãos nos tampos das mesas, dava-lhes pequenas tareias.

            Por fim engrossaram-lhe os olhos. Que filtravam sensações do ambiente que a rodeava ou da ausência de ambiente. O olhar, enorme, bebia e cerrava as pálpebras. No escuro que se fazia, um lastro penetrava os ouvidos e os dedos esticavam-se adquirindo gestos sinuosos.

 

            De tal forma que um dia foi avistada, usando o triângulo orgânico, ouvidos, olhos, o braço direito muito estendido, a dirigir um concerto de sabiás no pé de laranja-lima do quintal.

 

            A juventude fez refinar as zonas do corpo que haviam crescido excessivamente. Domesticava-as com trabalho e ensaio, descobriu fascinada que tudo aquilo podia ser derramado numa folha de papel, onde, num rectângulo a toda a largura da página, chamado pauta, podiam ser lançados signos esquisitos como formigas que posteriormente originavam sons.

            A pauta era uma alma morta. Sempre idêntica. Mas quando transposta, com génio, para as teclas do piano, ganhava pernas e ardor. Fazendo reviver nos sons cenas sociais ou emocionais que neles haviam sido recolhidas.

 

            A maturidade permitiu-lhe domar todo aquele caos de sons e signos e sensações. Domínio que, no entanto, desabava muita vez, e a ânsia o fazia desembocar em zonas igualmente caóticas. Resultado do desígnio do que é humano, buscando incessantemente o novo e o além e o perigo.

            Entre a magia e o sofrimento, descobriu que poderia também inventar música. Roubando à vida os motivos para os lançar no papel e, por intermédio do piano ou de outro instrumento, os resgatar a uma nova vida. Onde o sentido vital se esbatia, as cenas que buscara cristalizar transformavam-se noutras, muito do que tecia em seu imaginário se perdia ou tornava obscuro.

 

            Com o reinado da destreza, do sentimento, da inspiração, atingia alguns golpes de originalidade, trepava patamares de nível. Mergulhava na fundura da profundidade como num poço. As primeiras peças tornavam-se rascunhos.

 

            Mas um dia decidiu compor uma pequena obra, ágil, alegre, que pudesse invocar o rumor da infância, o ruído das aves, o dealbar da manhã, as setas da chuva, a ardência da juvenilidade, as asperezas da paixão, mas também as orgias infantis dos adultos, suas almoçaradas, seus brinquedos de órgãos e zonas erógenas.

            Ela, menina grande, teceu de sons um vestido leve e airoso, que se erguia em trilos rápidos e dançantes, frémitos doces e riscados, tudo envolto de acentuada ironia, raio de vestido que se levantava e mostrava pernas, depois se fechava e as escondia, tocava com seda o rosto de quem se aproximava e cegava os olhos de quem o fitava intensamente.

            Vestido, todo em raios saltitantes, em que o abstracto contínuo do som podia comparar-se a grãos de sol brincando no jardim, a que todos e tudo retornava.

 

            Porque decidira ela compor esta música, tão díspar das restantes?

            Porque me propus eu, agora, a escrever este texto?

            Sei lá!

Publicado por barbant em 09:58 PM | TrackBack

agosto 02, 2007

TRIBOS III




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O que se ouve não é o ruído redondo e escuro das mulheres quase nuas, mas o riso delas enquanto deslocam a roupa para a lavagem no ribeiro próximo.

O que se ouve não é o jogo de pés que as crianças constroem correndo mas o conflito sonoro que ferem no chão brincando.

O que se ouve não é o vento da flecha nem o desfolhar das cerdas: é o ramo de prazer das caçadas e o bosque do porco-bravo ferido de morte.

O que se ouve não é a concha da tenda nem o seu interior: é o crepitar da fogueira e as palavras da estórea jorrando da boca do chefe ancião.

O que se ouve não é a lua nem a sua brancura: é o farejar dos lobos nos varais pelo luar às vezes denunciado.

O que se ouve não é o fumo nem o vermelho nem o acampamento nem a tribo: é o seu som, caótico, quente, como um rio que cresce para o ar.

Nem, aliás, se pode dizer que tudo o que se disse que se ouve se ouve. O que se ouve são sons que se desprendem dos instrumentos e, através deles, não se ouve o que se ouve: ouve-se apenas a música, música é o que se ouve e o que houve.



Letra- Antero Barbosa

Música
e Ilustração - Daniella Kai


Publicado por barbant em 03:29 PM

abril 17, 2007

Poligrafia


OS VERSOS PREMIADOS DE ALICE VIEIRA –                                  –UM CHORRILHO DE SURPRESAS



               

             

        Leia-se, com o mínimo de atenção, estes versos premiados da escritora Alice Vieira que o JL, na sua edição 11 a 24 de Abril de 2007 nos proporcionou, poupando-nos à maçada de ler o livro todo “Dois corpos tombando na água” em breve nos escaparates:

        entrego-te as palavras mais brandas

            que entre os meus dedos construí

            para alimentar de ti os recantos da casa

            invadindo o coração da noite

 

            entrego-te as palavras com a redonda luz

            das maçãs sobre a mesa   e o rumor da água

            rasgando o caminho da paixão

            em horas que já não conseguimos   sem ajuda

            recordar

            mas que habitam a mais frágil memória de nós

            próprios

 

            palavras rompendo dos meus olhos

            a invadir-te o sono   e tropeçando

            nas esquinas das frases que decoro

            ao longo dos veios da tua pele

 

            e a verdade é que nunca terei outra história

para além da que nos aconteceu

            e que ficamos à espera de um dia perceber me-

            lhor

            porque nunca ninguém se prepara convenien-

            temente

            para a chegada do amor

            e ele é sempre um convidado estranho

sentado em silêncio na penumbra da sala

            olhando os quadros   o chão   o tecto

 

            como um velho parente da província

            com medo de dizer o que não deve

 

        De facto, pode considerar-se piedosa a obra do JL, alertando-nos para a mediocridade do livro que aí vem.

            De entre o chorrilho de surpresas, anotem-se os seguintes:

            Conforme diz o Jl, a autora não escrevia poemas há 50 anos: constatando-se que tem 64, não os escrevia desde os 14.

            O prémio atribuído, “Maria Amália Vaz de Carvalho”, outorgado pela autarquia de Loures, integrava um júri constituído por dois Fernandos especialistas (o Martinho e o Pinto do Amaral), coadjuvados por um tal José Correia Tavares, da Associação Portuguesa de Escritores.

A publicidade anunciou que a obra acabou por ser a escolhida pela “intensidade lírica e excelência da realização verbal que a acompanhava”.

Fernando Pinto do Amaral, crítico literário e porta-voz do júri, considerou ser “arriscado escrever poesia de amor, devido à monotonia temática, à linguagem geralmente codificada e sujeita a lugares-comuns”. Contudo, o júri reconheceu que “Alice Vieira, com versos intensos e pungentes, conseguiu escapar a todas essas armadilhas e, num tom intimista, demonstrar a capacidade de dádiva e entrega que o amor nos ensina”.

 

Nada mais falso, como se pode verificar pela releitura do poema acima, que é um chorrilho de lugares-comuns. Não é necessária a lupa. Mas observemos alguns:

Banalidades triviais como “a verdade é que”, “nós próprios” e o “nunca ninguém”;

Expressões como esta, “invadindo o coração” retiradas? de baladas de grupos pop, El Bando Lyrics, do texto "Com você perto de mim”

É sempre assim
Com você perto de mim
Essa paixão
Invadindo o coração.

Expressões como esta, “luz redonda”, retiradas? de poetas tais como o Luiz de… Miranda:

Seguirei
até que te convertas
na própria tinta das palavras
e venhas a escrever
desde esta janela de espanto
que é o mundo
luz redonda de infinito.

            Repare-se que esta expressão se limita a inverter a “redonda luz” de Ramos Rosa e do seu livro de poemas “Mediadoras” de 1985.

Suavidade e tumulto.

Aroma da nudez.

Luz redonda, luz delícia

de evidência.

            E que a expressão “tropeçando nas esquinas” já vem da “Canção breve” da obra de Eugénio de Andrade “Os amantes sem dinheiro”:

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

 

            Anote-se que os versos de Alice Vieira nada têm a ver com os poemas de Ramos Rosa e que os de Eugénio de Andrade citado são de 1950 e plagiados.

 

            Com efeito, na era do poema, afastada já a época da poesia, ainda se premeiam versos.

 

            O presente texto foi alinhavado à pressa: sandice seria fazer o contrário: perda de tempo.

 

E que se conclui virando o cinismo contra a própria autora, glosando as suas palavras:

o velho parente da província

            não teve medo de dizer o que não deve

 

 

Publicado por barbant em 09:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 13, 2007

Está no ar!!!

 

v a g a l u m e

 

Queime-se neste lume!!!


Publicado por barbant em 10:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 16, 2007

EM MEMÓRIA



               

        Em tempos, Nel Meirelles pediu-me um prefácio para o livro que ia publicar "Teoria da Tocaia". Lamentavelmente, o livro não saiu, e agora não sabemos se sairá, já que Nel foi vítima da maior das tocaias: a morte.
        Para a sua poesia que abunda na net, aqui fica como introdução e homenagem o

                               PREFÁCIO
              A FACE OCULTA DOS DEDOS


             O prefácio pretende ser a mão, a mão que puxa o braço, o braço do leitor, provocando o encontro, o conflito, a partilha com o autor.
           
Esse gesto deve ser rodeado de todas as cautelas. Tal uma donzela desconfiada, o leitor só pode ser levado à xácara dos poemas caso a estratégia seja armada com sapiência. Ainda a donzela: não se pode agarrar com brusquidão, beijar brutalmente na boca, dar queda súbita no chão. Preferível é passar primeiro a mão nos cabelos, roçagar demais de leve a cútis do rosto, mesmo um toque quase de insecto nos ombros nus.
           
Também a mão, o prefácio, deve atender à objectividade. Não sonegar informação desfavorável. Não elogiar o inilogiável a olho nu. Não se vitimar de eventual amizade que liga prefaciador e autor.
           
A mão, tal como o autor, embora múltipla é una. Os leitores, os braços a cativar, são múltiplos e todos diferentes. Embora possam se arregimentar em grupos mais ou menos aparentados mas sempre muito sui generis.

            Vamos então delinear as várias formas de convencer e vencer o braço, os braços. Atribuindo a cada dedo da mão uma das cinco colectâneas que compõem “Teoria de Tocaia”.

            Você é leitor pouco dado a leitura de poemas? Desconfia, resiste, recua. Preferia coisas simples, de fácil entendimento, com música e musicalidade, algo que não bulisse com reflexões e pensées. Além disso, é jovem ainda, sem tempo e paciência, atributos que só mais tarde se aproximam de nós. Requer que o autor faça seu ouvido, retomando palavras ou frases em locais ulteriores: “mulher nua” será, neste caso, o seu refrão; poderá, também, neste âmbito, saborear a síntese perfeita de materiais simples e repetidos, o poema “sensa te”. Então, porque a ordem é arbitrária, apesar de não haver poesia popular aqui, dir-lhe-ei por onde começar. Mas não olvide nunca a frase que ouvi pessoalmente de enormíssimo poeta: “Leia, leia sempre, releia, volte a ler, por difícil que seja a leitura sempre ficará algo e cada vez entenderá mais”.

            No entanto, deveria começar por “andanças”. Braço no braço com o autor, regresso à louca juventude de ruas e calçadas, devaneio sinuoso por sonhos e ilusões, tudo colado no flash luminoso dos cinemas. Deslizar nas “madrugadas de aterro”, nas varandas onde “as margaridas namoram o mar”, nas “esquinas ... das artérias”.

            Ah não, você é leitor experiente, mas é mais atreito a determinadas escolas literárias. Porquê dogmas desses? As escolas literárias são todas boas quando são boas e, como na antropofagia, comem-se umas às outras. Coma-as também, isto é, não se subjugue cegamente. É certo, não é ético que um autor deite mão de todas as escolas e as misture em seus textos promiscuamente. Aqui, neste livro, só há uma escola: a de Nel Meirelles. Vê a porta? Entre nela.

            Entre pela porta principal, comece pelo princípio. “poesia”, ars poetica, auto-análise, olhar vidrado e virado sobre si próprio, umbigo, umbilical.
            Apropriando-se da arte de matar versos ou aceder aos que se “escapam” e “jazem ... / dispersos”.


             Estou vendo que você é mesmo radical, obstinado, consútil. Homem, sente nesta mesa, o festim também é variado: tem ternura, tem paixão, tem saudades, tem fogo, tem emoção, tem ironia, tem boutade, tem vida. Veja aí nesses copos, todos os líquidos de que se compõe o poema: o sangue, o mel, a ambrosia, as águas. E nos cantos, confundindo-se na toalha rendada: o luar, o riso, o vento, o oiro. Não tem mais que estender os dedos. Que estão na ponta do braço.

             “de mim” dar-lhe-á um pouco de saciedade a  sua sede. Nada melhor que um ser complexo, ainda que literário, para acalmar bocas e línguas e gargantas sôfregas. Apesar da turbulência. Mas esse stress é sua condição e sua exigência.
             Abarcando como num manual, definições tais como a de que “envelhecer é deixar a esperança / debaixo da cama”, “o brilho ... dos olhos / ofusca o momento seguinte” ou que o pequeno-almoço pode saber a “café com não”.
             E, também, lidar com a lei das compensações: “obituário” prova que o amor acaba mas a poesia não.
             E, por fim, assombrar-se com versos verdes e azuis (“o que deu fim à série”).
  

 
            Intelectual, você? Bom, aí eu já não me atrevo a sugerir, porque conselho eu não dou nunca. Saberá num relance por onde começar, onde permanecer e o que “desprezar”. Tendo sempre debaixo do braço a noção de que o erro não deve ser expulso do dicionário.

           
Seu jeito não pode deixar de ser nocturno. Então embrenhe-se nesta “noite” e se deixe envolver por seus lençóis. O intelectual vive da noite, vive na noite, aí se enterra para renascer na aurora assassina. Também os juristas, e aqui não há justiça alguma, recorrem da noite seus melhores e mais vitoriosos pareceres.
           
Por si, ancorado nesta noite, fica emparedado e submerso em “luas de virada”, subúrbios de estrelas, leitos insones, madrugadas desbotadas, ainda que se aparente reclinado em “colchão de sonhos”.


           
Apenas mais um leitor. O feminino, quer seja mulher ou homem. O que inclina cabelos compridos no branco cheiro de pinho do papel. O que traz coladas nos lábios a sensibilidade e a flexibilidade. O que casa com o ritmo das palavras e, de corpo nu, cavalga as frases até ao final da obra. Como todos os outros, você é bendito aqui. Mas só você simboliza a osmose perfeita. Apenas diferente de outras osmoses ou metamorfoses.

           
A si, minha linda, ou meu cara invertido ou meu bloco de cromossomas equilibrado, só “amor” coaduna e serve. Amor, o tema mais antigo do mundo, aqui ressumando aspectos absolutamente novos: o amor “convexo”, espalhando “... esporos / e rastros / pelo canto do espelho”, “o cheiro / do jazz(mim)”, “o espaço / curvo / que resiste / entre / o sim / e o não”.
           
Onde poderá encontrar um poema de beira de ruína”ne me quitte pas”, em que é possível sentir, grosso jorrado audível, o ruído das letras: ruído de amor. E, ainda, se a boca colares no poema “boca”, dar testemunho, um mais, de mundos permutados.


           
Enquadrados e integrados “todos” os leitores, abordemos, numa carícia, as faces mais salientes que ressaltam em originalidade do poliedro deste(s) texto(s). Retomando a mão e seus cinco dedos, usaremos ainda e sempre este numeral, como se do vale onde repousam deitados os poemas se erguessem cinco colinas, dedos redondos e abertos, porque é fundamental frisar esta capacidade fantástica da mão de se abrir e fechar. Ou, melhor, fechar e abrir.

           
Começo por aquilo que designaria de tournée. Um certo cosmopolitismo, um misturar de saberes e conhecimentos. Desaguando em geografias. Geografia física, centralizada no Brasil mas estendendo-se à restante América do Sul, insidiosa pelos Estados Unidos, buscante de uma determinada Europa. Geografia afectiva, aderente ao Rio e Pernambuco, erguendo locais da memória, relevando infâncias, vivências, pessoas que se misturaram em seu ser. Geografia cultural abarcante, de língua e linguagem, remontando aos eros gregos e aos dominus latinos e seduzida pelos sons que hoje tangem sinos: “non sense”, “ma non troppo”, “ne me quitte pas”.

           
Entremos de mergulho na face nocturna. Entretecida de luas, luar, leitos, estrelas, sombras. Há até quem lhe chame o poeta dos nocturnos: uma forma subtil de convocar Chopin às letras. De facto, o poema nasce no meio da noite e soçobra como vampiro na luz ofuscante do dia. Precisa, nem sempre da noite, mas de local recolhido, não perturbado, ou, se dia for, de um semicerrar de olhos escutante de nascente. E dessa noite faz dia, tendo sempre como alvo o fogo diurno do sol.

           
Poderíamos falar de influências. Mas seria perda de tempo, sei do repúdio do autor. De relance, alguma obtenção de abstracto pessoana, o voo da metáfora de Quintana, algum eflúvio sonoro augustista e alphonsino, a irónica agulha drummondiana. Mas não faria sentido. Algum faz, lembrar Manoel de Barros: o homem coisal, os defloramentos, a desvirginização, os vareios do dizer. Mas tudo isto não passa de mera retaguarda.
            Muito mais adequado seria falar de fluências. É um discurso e um ritmo que flui, torrencial e inspirado, sem gaguez, sem recurso a voz rouca, sem se enredar em preciosismo ou blague. Rio inclinado para a foz, buscando imanente seu declive, recorrendo à usura, ao silogismo e mesmo à coloquialidade. Veja-se o tratamento popular de um santo por “Tião”, veja-se o “cri-cri-car”, veja-se o “tec-tec” dos sapatos.
           
Como de seio fecundo, o leite escorre encaroçado de palavras.

           
O formalismo. Não arbitrário. Não despiciendo. Que, muitas vezes, inverte os atributos, como acontece em “concerto”; e noutras atribui função dupla à morfologia: veja-se o caso do verso “dos” em “descompassado”. Para não fadigar, para não repetir aqui o texto que está a seguir, enunciaremos apenas dois aspectos:
           
O uso, não indiscriminado, do prefixo “des” irradia um choque fonético e conteudal. Inverte de cabeça para baixo a incidência da escrita. Mas, sobretudo, cria o reverso, o impacto, o desabar do texto sobre os ombros de quem lê. Cindido, fracturado, estilhaçado, o texto se transforma. Em dois. Ou vários. E atinge de agulha o reino da surpresa.
           
Segundo aspecto: além da colocação subtil do caracter “:” (dois pontos) isolado em  início de verso, repare-se no imaginário que se origina da desmontagem da palavra “jasmim” em “jazz(mim)”. Mantém a flor e seu cheiro, convoca uma corrente musical das mais complexas, dispõe na horizontal as estátuas jacentes do ser, abarcando o próprio autor e suas estâncias eu / “mim”, aludindo, também, por força das vogais utilizadas a sons que retinem de forma sinestésica.  

           
Last but not the least
, faceta a meu ver a mais proeminente, aquilo que denominaria de contorcionismo. O poeta, homem másculo masculino, pela primeira vez de forma iniludível, coerente e consciente, coloca-se no feminino do parto. Recolhendo no tecido das expressões os vocábulos inerentes: “entranha”, “faca”, “uivo”, “borrifo”, “perfura”, “lambe”, “rasgo”, “útero”.
           
Exemplificando: tuas coxas (da poesia por metáfora) “abrem-se / em direcções / opostas”, carecendo de ser percutido o centro; “por isto, / porque és / me desvisto da minha pele / e calço a tua pele”; “solfejo / de frente / o parto da dor / e / existo”.
           
Invadindo a esfera que só à mulher respeita, insinuando a ilusão de que apenas recorre ou incorre na metáfora de que o poema é, também, parto. E parto, tal como poema, denuncia nascer, dor, sangue, pútridas matérias mexidas e misturadas à procura de cristalização. No ser, humano ou poético.

           
Enfim.
           
Versátil. E uno. Assim é este autor que, como já foi mencionado, é também múltiplo. Na sua unidade central. E frontal.
           
Podemos subir a escada de luar com ele.
           
Podemos descer a ruela e dar uma queca na mulher esquinada.
           
Podemos rir com ele da hipocrisia, da miséria, das lantejoulas dos avantajados.
            Podemos apertar-lhe a mão, suada de palavras e gestos e decepções, e, quem sabe?, atingir “a face oculta” dos “dedos”.
           
Podemos perfurar sua “família”.