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LAUREANO SILVEIRA Amante
/ a quem a morte / alcança ainda nu / antes de ser vestido / pela
velhice
Quase
sempre acontece que o poeta se veste com as suas próprias palavras. E
com elas se vai embora. Ao
folhear as 5 páginas de cultura do muito justamente laureado JN, edição
do dia de hoje, não se encontra a referência sequer a qualquer escritor. Como
escrevi em breve artigo, apesar do “movimento da morte” do poema “Vigília”,
apesar das
“mãos invisíveis / da recém-chegada” do poema “Viver”, apesar da aparência, nem “Vigília” nem “Viver” falam,
demonstram ou desenvolvem terrenos tomados pela morte. Da vida, pelo
contrário. Quer a que resiste ou residua nos retratos, quer a que
resiste ao óbvio trabalho da foice na árvore genealógica. Aí
lhes deixo os poemas citados, “Vigília” e “Viver”, simbólicos
em hora de morte, e o último e-mail com que me disse, mal me conhecendo,
“até sempre!” a
luz da vida se humilha suavemente e
quase extingue. Nesse
contemplar o
corpo aguenta a pressão invisível da
passagem do tempo e
o olhar que é contemplado e
nos contempla atravessa
o além e a realidade e o sonhar. Nesta
travessia é o nosso viver que
comparece no sonho e
nos sustenta quando
vacilante, quase irreconhecível e
perdido o
corpo é um engenho misterioso que
fabrica a violência e
o deslumbramento de
acordar. Todavia,
há no retrato uma
familiaridade perversa, um
movimento convidativo, cheio de falsidade que
a partir do limite de fragilidade do
ser busca
prender-se à vida. Esse
movimento é
a morte. (in
Os Retratos)
VIVER e
chega na mesma embarcação que
traz aos filhos os
sinais irreverentes da
velhice e
é nessa circunstância que
acontece a
extraordinária metamorfose do
ser: quanto
mais a alma, infusa, escorre para
o interior da identidade e
fixa o ser à vida, mais
o corpo o altera e desfigura e
o desenraíza e abandona atraindo
o amor de que ele é presa. É
então que as identidades se
confundem que
os filhos se assemelham, perturbadoramente,
aos pais e
que a vida recebe os seus mistérios das
mãos invisíveis da
recém-chegada. À memória de meu Pai Inédito
do livro em construção “NOCTURNOS,
MATINAIS E VESPERTINOS”
“Amigo
Antero Barbosa |
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Desloco-me aos campos de futebol, relvados, sintéticos ou
pelados, quase exclusivamente para presenciar jogos de futebol juvenil,
sem qualquer preocupação clubística pessoal. |
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Era uma vez uma menina a quem despontaram grandes orelhas. Com elas
captava misturas do mistério de vozes que absorvia dos pássaros, das
chuvas ou das pessoas.
Depois cresceram-lhe os dedos. Era com eles que desenhava as curvas que
as vozes lhe inspiravam. Quando, certa vez, viu um piano tocando, baixou
as vozes à sua altura e, tamborilando com as mãos nos tampos das
mesas, dava-lhes pequenas tareias.
Por fim engrossaram-lhe os olhos. Que filtravam sensações do ambiente
que a rodeava ou da ausência de ambiente. O olhar, enorme, bebia e
cerrava as pálpebras. No escuro que se fazia, um lastro penetrava os
ouvidos e os dedos esticavam-se adquirindo gestos sinuosos.
De tal forma que um dia foi avistada, usando o triângulo orgânico,
ouvidos, olhos, o braço direito muito estendido, a dirigir um concerto
de sabiás no pé de laranja-lima do quintal.
A juventude fez refinar as zonas do corpo que haviam crescido
excessivamente. Domesticava-as com trabalho e ensaio, descobriu
fascinada que tudo aquilo podia ser derramado numa folha de papel, onde,
num rectângulo a toda a largura da página, chamado pauta, podiam ser
lançados signos esquisitos como formigas que posteriormente originavam
sons.
A pauta era uma alma morta. Sempre idêntica. Mas quando transposta, com
génio, para as teclas do piano, ganhava pernas e ardor. Fazendo reviver
nos sons cenas sociais ou emocionais que neles haviam sido recolhidas.
A maturidade permitiu-lhe domar todo aquele caos de sons e signos
e sensações. Domínio que, no entanto, desabava muita vez, e a ânsia
o fazia desembocar em zonas igualmente caóticas. Resultado do desígnio
do que é humano, buscando incessantemente o novo e o além e o perigo.
Entre a magia e o sofrimento, descobriu que poderia também
inventar música. Roubando à vida os motivos para os lançar no papel
e, por intermédio do piano ou de outro instrumento, os resgatar a uma
nova vida. Onde o sentido vital se esbatia, as cenas que buscara
cristalizar transformavam-se noutras, muito do que tecia em seu imaginário
se perdia ou tornava obscuro.
Com o reinado da destreza, do sentimento, da inspiração,
atingia alguns golpes de originalidade, trepava patamares de nível.
Mergulhava na fundura da profundidade como num poço. As primeiras peças
tornavam-se rascunhos.
Mas um dia decidiu compor uma pequena obra, ágil, alegre, que
pudesse invocar o rumor da infância, o ruído das aves, o dealbar da
manhã, as setas da chuva, a ardência da juvenilidade, as asperezas da
paixão, mas também as orgias infantis dos adultos, suas almoçaradas,
seus brinquedos de órgãos e zonas erógenas.
Ela, menina grande, teceu de sons um vestido leve e airoso, que
se erguia em trilos rápidos e dançantes, frémitos doces e riscados,
tudo envolto de acentuada ironia, raio de vestido que se levantava e
mostrava pernas, depois se fechava e as escondia, tocava com seda o
rosto de quem se aproximava e cegava os olhos de quem o fitava
intensamente.
Vestido, todo em raios saltitantes, em que o abstracto contínuo
do som podia comparar-se a grãos de sol brincando no jardim, a que
todos e tudo retornava.
Porque decidira ela compor esta música, tão díspar das
restantes?
Porque me propus eu, agora, a escrever este texto?
Sei lá! |
Música

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O que se ouve não é o ruído redondo e escuro das mulheres quase nuas, mas o riso delas enquanto deslocam a roupa para a lavagem no ribeiro próximo.
O que se ouve não é o jogo de pés que as crianças constroem correndo mas o conflito sonoro que ferem no chão brincando.
O que se ouve não é o vento da flecha nem o desfolhar das cerdas: é o ramo de prazer das caçadas e o bosque do porco-bravo ferido de morte.
O que se ouve não é a concha da tenda nem o seu interior: é o crepitar da fogueira e as palavras da estórea jorrando da boca do chefe ancião.
O que se ouve não é a lua nem a sua brancura: é o farejar dos lobos nos varais pelo luar às vezes denunciado.
O que se ouve não é o fumo nem o vermelho nem o acampamento nem a tribo: é o seu som, caótico, quente, como um rio que cresce para o ar.
Nem, aliás, se pode dizer que tudo o que se disse que se ouve se ouve. O que se ouve são sons que se desprendem dos instrumentos e, através deles, não se ouve o que se ouve: ouve-se apenas a música, música é o que se ouve e o que houve.
Letra- Antero Barbosa
e Ilustração - Daniella Kai
OS
VERSOS PREMIADOS DE ALICE VIEIRA – –UM
CHORRILHO DE SURPRESAS
Leia-se,
com o mínimo de atenção, estes versos premiados da escritora Alice
Vieira que o JL, na sua edição
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Em tempos, Nel Meirelles pediu-me
um prefácio para o livro que ia publicar "Teoria da Tocaia".
Lamentavelmente, o livro não saiu, e agora não sabemos se sairá, já
que Nel foi vítima da maior das tocaias: a morte.
PREFÁCIO |
(LA MASTURBATION)
Era um ritual
quase sagrado aquele, enquanto aguardava Mariza. Fizesse chuva ou sol, ainda que
ela não aparecesse ou que nada mais acontecesse. E isso, talvez fosse tão
importante quanto a visão de Mariza abrindo o portão de ferro. Dava-lhe prazer
a espera, perfumada.
Prazer e dor, dessa matéria é feita a espera. Uma liga feita de
abelhas.
Porque não se consumava mais aquela mulher dobrada >
em duas. A<>
da carne e a da escrita? Vermelhas ambas.
Bastas promessas se haviam já cumprido.
A da religião profanada por padres com dentes e língua e mãos no olhar,
impotentes perante uma mulher de pele branca, tão branca como a lua, onde se não
parava de esconder o sangue vermelho, espalhando-se na pele o dia todo.
De igual modo, a consumação feminina, deitando sobre o leito seu corpo
de mulher como se fosse de outra, e permitindo e incitando a que o par ficasse
grudado com a boca em outra parte de seu corpo, enquanto cravava os dentes em
seu delta. E nessa foz, ele a comia e ela se deixava comer inteira, e ela foi
tudo o que o homem quis e que ela quis também.
E assim dilemática, ela era objecto e autor de óleo sobre tela, posando
com vestido azul de santa e, no rosto, um meio sorriso de puta.
Convidando em suas letras carnais ao elogio da dor e à causalidade
aceite do sofrimento. Dando-nos a noção de que rejeitava ambientes mornos de
paz ou normalidade quotidiana.
Confessando expressamente: meu Deus, prefiro o fogo, escolho a
dor.
E uma cor sobre todas adoptou e adopta: o vermelho. Que colou a sua própria
escrita, de um sangue inequívoco.
E esse foi um dos milagres, tornando Miller mulher: erotismo quase
sagrado mas rebentando nas estrias do alfabeto a que deitou mão. E o corpo todo.
Como se escrevesse muitas vezes com o útero.
Mas… mas…, assim é a vida, todo o mês sente a dor do terceiro filho.
Sente ela e sentimos nós. Aquele que não pariu. O livro impresso. A haver. Há
muito ele finge que vem, mas é fingimento que dura o tempo exacto da própria
dor.
Até que um dia, como o fruto no ramo ou no ovário o óvulo, de tanto
sol vermelho, de tanto branco esperma, caia em nossas mãos ou em nossas mãos
ascenda, podendo finalmente ser:
publicado.
Tudo o que aqui fica dito e predito está, em concreto e em promessa, e
as palavras e o jogo de lá se retiraram, em marizalourenço
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no rosto arrefecido do dia como um choro doente a incompletude cinge-se aos afectos torturados pelo tempo e invertidos mão que não chega ao ramo e de repente como a sinusóide da folha cai contra o chão In "Ramo e de repente", Editora Ausência, Nov./2005 |
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A
Editora Ausência e o autor têm o prazer de
convidar V. Ex.ª para a sessão de lançamento do livro Ramo
e de Repente de Antero Barbosa.
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Também sabes muito bem que a minha e tua concertina de amorfismo diferem bastante da dela. Sabes como eu que a nossa fuselagem já se perpetuou e já nos demos a todos os abrandecimentos que sustentam nossas defligações, não carecendo de quaisquer outros. Lembras-te daquela raivença antiga que tinha dois amantes: um para o enlevo da almadra e outro para a saucaria do correão. Poderemos considerar que o amorfismo só se consuma na relapsão física, podemos carrear inúmeras concertinas, mas nós dois já nos damos por satisfeitos, apesar de terem faltado os amatos, as carimbações, a mapiagem no cabide, no rotativismo, no seivo, na coxia (o restringimento, viria ou não, logo se veria). Penso que adivinhaste, de mim adivinhaste quase tudo, mas vou confirmar: eu afasto em regra a segunda eteromancia: não me atrai fisicamente a mulsa de que não gosto e quando a amo já não me atrai desse modo. TEXTO ORIGINAL |
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Correntes
de livros |
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Acorrentado,
de forma irrecusável, pelo desafio da Maria
(http://www.putadevida.weblog.com.pt/)
e pela diplomacia de Nel (http://www.falapoetica.blogger.com.br/),
com inícios um pouco díspares mas já entroncados, que a seguir se
transcrevem: "É
iniciada aqui uma cadeia de literatura pela blogosfera portuguesa, vou
chamar-lhe o ex-libris da tugosfera. A iniciativa foi do barrie do the
pink bee, que fez o primeiro post a 7 de março, e foi-me passada pelo
guy do non tibi spiro
para lhe dar "o sabor do sul da europa". “Meu amigo Manoel Carlos, de Agreste,
me indicou para responder a uma entrevista sobre Literatura da Língua
Portuguesa”. Usando de algum subterfúgio, eis as minhas respostas: Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro
quererias ser? Talvez “O Livro de Cesário Verde”. Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um
personagem de ficção? Qual foi o último livro que compraste? Suponho que “O Regresso do Soldado”, de Charles
Frazier. Uma frase: “Quando
lia livros mais notáveis, os destinos crués das heroínas condenadas
serviam apenas para adensar a sua tristeza”. Qual o último livro que leste? Sem subterfúgios, “da loucura dos homens”, de
Rodrigo de Faria e Silva. Uma frase: “O tímido é antes de tudo um ávido,
inepto”. Que livros estás a ler? “Sexus” (Henry Miller), “Mãe Apodrecida” (Malaparte)
e muitos outros. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta? Hipótese absurda, só na altura saberia, mas direi: - “Finisterra”, de Carlos de Oliveira; - “Os Quatro Quartetos”, de Eliot; - “No Caminho de Guermantes”, de Proust; - “O Retrato de Dorian Gray”, de Wilde; - Um livro ainda por ler, com muitas centenas de páginas. À
Mariza (http://www.marizalourenco.blogspot.com/),
na esperança de que brote uma corrente literária de ternura; Ao
Ilídio (http://www.confissoesdeumviajante.blogspot.com/), um dos grandes
escritores contra-corrente; À
Lol (http://www.aseivadosolidadgo.blogs.sapo.pt/), para que tripudie disto
tudo. |
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TÉCNICAS LITERÁRIAS: DAS |
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Vamos
utilizar o texto da “Sétima revelação” integrante do blog “A
Filha de Maria Nowacki” para ilustrar algumas dessas técnicas. A
frase "Sorri, furiosa" releva da pintura: é o jogo do contraste,
da contraluz, podemos distinguir duas cores. O branco de "sorri"
e o negro de "furiosa". "Sobre
a cama" recorre à geografia. Trata-se aqui de deslocamento de massas.
O que está sobre a cama são os objectos pessoais: deslocamento para a
direita. Mas, quem acaba de ler a primeira frase, pode perceber que quem
estava sobre a cama era o pai: deslocamento para a esquerda. E porque não
ver no texto deslocamento para ambos os lados. Vejamos
como se processa o recurso à geometria. Basta explanar a frase "Eu
era o corpo, a pele branca. Cabelos, olhos e boca". Primeiro o todo,
depois a parte, ou as partes. Agora
teremos que transcrever quase todo o primeiro parágrafo. Assim: “Encontrei-o
em meu quarto. Sobre a cama, espalhados de qualquer jeito, preservativos
misturavam-se às minhas peças íntimas”. Fizemos, de certa forma um traveling
e um zoom. Recorrendo, obviamente, a fórmulas cinematográficas.
Finalmente,
vamos proceder a uma fractura, a uma repartição. Roubando propriedades
da física. Vamos partir um provérbio em meio, como se dividíssemos um pão
em duas metades. Eis como: “Eu
estava por minha própria conta. E risco”. De
que estivemos falando? Ora, da sétima revelação. Mas o mais importante de tudo é fazer o confronto. Reler esse texto fabuloso que é a “Sétima revelação”.
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OS 10 MANDAMENTOS |