setembro 26, 2008

LAUREANO SILVEIRA

Amante / a quem a morte / alcança ainda nu / antes de ser vestido / pela velhice



             

Quase sempre acontece que o poeta se veste com as suas próprias palavras. E com elas se vai embora.

 Ao folhear as 5 páginas de cultura do muito justamente laureado JN, edição do dia de hoje, não se encontra a referência sequer a qualquer escritor.
          Muito menos a autor português.
          Muito menos a Laureano Silveira. Apesar de licenciado em História da Arte e doutorado em Literatura Ibero-Americana pela Vanderbilt University, Nashville [Tennessee, EUA], autor de cinco livros de poesia: Os caprichos [Limiar, 1987], A metafísica do insecto [Kíron, 1988], Os secretos felinos [Limiar, 1991], O lado negro do lado branco [Limiar, 1993] e Os retratos [Pedra Formosa, 1998], apesar de aceso crítico nomeadamente da poesia existencial de Egito Gonçalves, de revelação de Poesia/1984, ex-aequo, da Associação Portuguesa de Escritores, de docente do Ensino Superior, e de muitas coisas mais.
          Afinal o Laureano, que morrera de véspera, aparece em páginas pagas do JN, no necrológio, onde a Escola a que pertencia e a família cumprem o doloroso dever de participar o seu desenlace. 

Como escrevi em breve artigo, apesar do “movimento da morte” do poema “Vigília”, apesar das “mãos invisíveis / da recém-chegada” do poema “Viver”, apesar da aparência, nem “Vigília” nem “Viver” falam, demonstram ou desenvolvem terrenos tomados pela morte. Da vida, pelo contrário. Quer a que resiste ou residua nos retratos, quer a que resiste ao óbvio trabalho da foice na árvore genealógica.
         Face ao lado branco das notícias, sufoco as minhas palavras com as do poeta.
         Que com elas se veste. Reatando, in memoriae, o “crime supremo de viver a vida”.

Aí lhes deixo os poemas citados, “Vigília” e “Viver”, simbólicos em hora de morte, e o último e-mail com que me disse, mal me conhecendo, “até sempre!”

          VIGÍLIA
Contemplar o retrato
é atravessar o rio da vigília,
um rio cujas águas correm para a nascente
sobre um silêncio consciente e lúcido
que aquieta o olhar
como na campânula do sono

a luz da vida se humilha suavemente

e quase extingue.

 

Nesse contemplar

o corpo aguenta a pressão invisível

da passagem do tempo

e o olhar que é contemplado

e nos contempla

atravessa o além e a realidade e o sonhar.

 

Nesta travessia é o nosso viver

que comparece no sonho

e nos sustenta

quando vacilante, quase irreconhecível

e perdido

o corpo é um engenho misterioso

que fabrica a violência

e o deslumbramento

de acordar.

 

Todavia, há no retrato

uma familiaridade perversa,

um movimento convidativo, cheio de falsidade

que a partir do limite de fragilidade

do ser

busca prender-se à vida.

 

Esse movimento

é a morte.

 

(in Os Retratos)

 

 

          VIVER
A morte dos pais viaja

e chega na mesma embarcação

que traz aos filhos

os sinais irreverentes

da velhice

 

e é nessa circunstância

que acontece

a extraordinária metamorfose

do ser:

 

quanto mais a alma, infusa, escorre

para o interior da identidade

e fixa o ser à vida,

mais o corpo o altera e desfigura

e o desenraíza e abandona

atraindo o amor de que ele é presa.

 

É então que as identidades

se confundem

que os filhos se assemelham,

perturbadoramente, aos pais

e que a vida recebe os seus mistérios

das mãos invisíveis

da recém-chegada.

                                                            À memória de meu Pai

 

Inédito do livro em construção

“NOCTURNOS, MATINAIS E VESPERTINOS”

       

          E-mail

 “Amigo Antero Barbosa
Grato pela sua generosa mensagem.
Sobre poesia e poetas, o melhor é lê-los.
Se quiser enviar-me um endereço, terei o maior prazer em enviar-lhe os meus
livros (pelo menos, os que não tiver).
E estou sempre ao dispor para conversar sobre literatura.
Abraço cordial.
Laureano Silveira”

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março 11, 2008

Poligrafia



Uma estranha manhã de domingo




                              

Desloco-me aos campos de futebol, relvados, sintéticos ou pelados, quase exclusivamente para presenciar jogos de futebol juvenil, sem qualquer preocupação clubística pessoal.
Assim, preparei da seguinte forma o meu domingo de 7 de Janeiro de 2008, depois de consultada a agenda da Associação de Futebol do Porto e confirmar os dados no “Norte Desportivo” on-line:
- 1.ª parte do Pasteleira-Pedras Rubras, em Iniciados, com início às 9 horas, no campo do Ramaldense;
- Jogo completo, em Juvenis, do Padroense-Salgueiros, a partir das 10 horas, no campo do Padroense.
Manhã cedo, desloquei-me aos locais previstos e começaram as surpresas que não mais pararam:
- Havia 4 ou 5 espectadores no campo do Ramaldense mas o ambiente era de preparação, iam chegando os jogadores e o jogo, afinal, era às 10 horas;
- Um pouco antes das 10 chego ao campo do Padroense e pelo ambiente logo me apercebi que o jogo tinha começado às nove e se ia jogar já a segunda parte;
- Terminado o jogo, como não havia nada mais agendado, preparava-me para sair mas começaram a aquecer duas novas equipas: chegado a casa verifiquei na “agenda” da AF Porto que se tratava do Padroense-Porto, em iniciados, marcado para as 11 horas mas no campo do Ramaldense.
Já me desloquei a muitos estádios para jogos que foram mudados de local ou adiados. Mas nos últimos tempos, a informação tem sido mais ou menos fiável.

Apenas apresento este episódio como curiosidade e com desportivismo. Aproveito para agradecer os milhares de informações que a Associação de Futebol do Porto disponibiliza e de que todos beneficiamos.

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fevereiro 13, 2008



ATIREM SOBRE A PIANISTA



                            

            Era uma vez uma menina a quem despontaram grandes orelhas. Com elas captava misturas do mistério de vozes que absorvia dos pássaros, das chuvas ou das pessoas.

            Depois cresceram-lhe os dedos. Era com eles que desenhava as curvas que as vozes lhe inspiravam. Quando, certa vez, viu um piano tocando, baixou as vozes à sua altura e, tamborilando com as mãos nos tampos das mesas, dava-lhes pequenas tareias.

            Por fim engrossaram-lhe os olhos. Que filtravam sensações do ambiente que a rodeava ou da ausência de ambiente. O olhar, enorme, bebia e cerrava as pálpebras. No escuro que se fazia, um lastro penetrava os ouvidos e os dedos esticavam-se adquirindo gestos sinuosos.

 

            De tal forma que um dia foi avistada, usando o triângulo orgânico, ouvidos, olhos, o braço direito muito estendido, a dirigir um concerto de sabiás no pé de laranja-lima do quintal.

 

            A juventude fez refinar as zonas do corpo que haviam crescido excessivamente. Domesticava-as com trabalho e ensaio, descobriu fascinada que tudo aquilo podia ser derramado numa folha de papel, onde, num rectângulo a toda a largura da página, chamado pauta, podiam ser lançados signos esquisitos como formigas que posteriormente originavam sons.

            A pauta era uma alma morta. Sempre idêntica. Mas quando transposta, com génio, para as teclas do piano, ganhava pernas e ardor. Fazendo reviver nos sons cenas sociais ou emocionais que neles haviam sido recolhidas.

 

            A maturidade permitiu-lhe domar todo aquele caos de sons e signos e sensações. Domínio que, no entanto, desabava muita vez, e a ânsia o fazia desembocar em zonas igualmente caóticas. Resultado do desígnio do que é humano, buscando incessantemente o novo e o além e o perigo.

            Entre a magia e o sofrimento, descobriu que poderia também inventar música. Roubando à vida os motivos para os lançar no papel e, por intermédio do piano ou de outro instrumento, os resgatar a uma nova vida. Onde o sentido vital se esbatia, as cenas que buscara cristalizar transformavam-se noutras, muito do que tecia em seu imaginário se perdia ou tornava obscuro.

 

            Com o reinado da destreza, do sentimento, da inspiração, atingia alguns golpes de originalidade, trepava patamares de nível. Mergulhava na fundura da profundidade como num poço. As primeiras peças tornavam-se rascunhos.

 

            Mas um dia decidiu compor uma pequena obra, ágil, alegre, que pudesse invocar o rumor da infância, o ruído das aves, o dealbar da manhã, as setas da chuva, a ardência da juvenilidade, as asperezas da paixão, mas também as orgias infantis dos adultos, suas almoçaradas, seus brinquedos de órgãos e zonas erógenas.

            Ela, menina grande, teceu de sons um vestido leve e airoso, que se erguia em trilos rápidos e dançantes, frémitos doces e riscados, tudo envolto de acentuada ironia, raio de vestido que se levantava e mostrava pernas, depois se fechava e as escondia, tocava com seda o rosto de quem se aproximava e cegava os olhos de quem o fitava intensamente.

            Vestido, todo em raios saltitantes, em que o abstracto contínuo do som podia comparar-se a grãos de sol brincando no jardim, a que todos e tudo retornava.

 

            Porque decidira ela compor esta música, tão díspar das restantes?

            Porque me propus eu, agora, a escrever este texto?

            Sei lá!

Publicado por barbant em 09:58 PM | TrackBack

agosto 02, 2007

TRIBOS III




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O que se ouve não é o ruído redondo e escuro das mulheres quase nuas, mas o riso delas enquanto deslocam a roupa para a lavagem no ribeiro próximo.

O que se ouve não é o jogo de pés que as crianças constroem correndo mas o conflito sonoro que ferem no chão brincando.

O que se ouve não é o vento da flecha nem o desfolhar das cerdas: é o ramo de prazer das caçadas e o bosque do porco-bravo ferido de morte.

O que se ouve não é a concha da tenda nem o seu interior: é o crepitar da fogueira e as palavras da estórea jorrando da boca do chefe ancião.

O que se ouve não é a lua nem a sua brancura: é o farejar dos lobos nos varais pelo luar às vezes denunciado.

O que se ouve não é o fumo nem o vermelho nem o acampamento nem a tribo: é o seu som, caótico, quente, como um rio que cresce para o ar.

Nem, aliás, se pode dizer que tudo o que se disse que se ouve se ouve. O que se ouve são sons que se desprendem dos instrumentos e, através deles, não se ouve o que se ouve: ouve-se apenas a música, música é o que se ouve e o que houve.



Letra- Antero Barbosa

Música
e Ilustração - Daniella Kai


Publicado por barbant em 03:29 PM

abril 17, 2007

Poligrafia


OS VERSOS PREMIADOS DE ALICE VIEIRA –                                  –UM CHORRILHO DE SURPRESAS



               

             

        Leia-se, com o mínimo de atenção, estes versos premiados da escritora Alice Vieira que o JL, na sua edição 11 a 24 de Abril de 2007 nos proporcionou, poupando-nos à maçada de ler o livro todo “Dois corpos tombando na água” em breve nos escaparates:

        entrego-te as palavras mais brandas

            que entre os meus dedos construí

            para alimentar de ti os recantos da casa

            invadindo o coração da noite

 

            entrego-te as palavras com a redonda luz

            das maçãs sobre a mesa   e o rumor da água

            rasgando o caminho da paixão

            em horas que já não conseguimos   sem ajuda

            recordar

            mas que habitam a mais frágil memória de nós

            próprios

 

            palavras rompendo dos meus olhos

            a invadir-te o sono   e tropeçando

            nas esquinas das frases que decoro

            ao longo dos veios da tua pele

 

            e a verdade é que nunca terei outra história

para além da que nos aconteceu

            e que ficamos à espera de um dia perceber me-

            lhor

            porque nunca ninguém se prepara convenien-

            temente

            para a chegada do amor

            e ele é sempre um convidado estranho

sentado em silêncio na penumbra da sala

            olhando os quadros   o chão   o tecto

 

            como um velho parente da província

            com medo de dizer o que não deve

 

        De facto, pode considerar-se piedosa a obra do JL, alertando-nos para a mediocridade do livro que aí vem.

            De entre o chorrilho de surpresas, anotem-se os seguintes:

            Conforme diz o Jl, a autora não escrevia poemas há 50 anos: constatando-se que tem 64, não os escrevia desde os 14.

            O prémio atribuído, “Maria Amália Vaz de Carvalho”, outorgado pela autarquia de Loures, integrava um júri constituído por dois Fernandos especialistas (o Martinho e o Pinto do Amaral), coadjuvados por um tal José Correia Tavares, da Associação Portuguesa de Escritores.

A publicidade anunciou que a obra acabou por ser a escolhida pela “intensidade lírica e excelência da realização verbal que a acompanhava”.

Fernando Pinto do Amaral, crítico literário e porta-voz do júri, considerou ser “arriscado escrever poesia de amor, devido à monotonia temática, à linguagem geralmente codificada e sujeita a lugares-comuns”. Contudo, o júri reconheceu que “Alice Vieira, com versos intensos e pungentes, conseguiu escapar a todas essas armadilhas e, num tom intimista, demonstrar a capacidade de dádiva e entrega que o amor nos ensina”.

 

Nada mais falso, como se pode verificar pela releitura do poema acima, que é um chorrilho de lugares-comuns. Não é necessária a lupa. Mas observemos alguns:

Banalidades triviais como “a verdade é que”, “nós próprios” e o “nunca ninguém”;

Expressões como esta, “invadindo o coração” retiradas? de baladas de grupos pop, El Bando Lyrics, do texto "Com você perto de mim”

É sempre assim
Com você perto de mim
Essa paixão
Invadindo o coração.

Expressões como esta, “luz redonda”, retiradas? de poetas tais como o Luiz de… Miranda:

Seguirei
até que te convertas
na própria tinta das palavras
e venhas a escrever
desde esta janela de espanto
que é o mundo
luz redonda de infinito.

            Repare-se que esta expressão se limita a inverter a “redonda luz” de Ramos Rosa e do seu livro de poemas “Mediadoras” de 1985.

Suavidade e tumulto.

Aroma da nudez.

Luz redonda, luz delícia

de evidência.

            E que a expressão “tropeçando nas esquinas” já vem da “Canção breve” da obra de Eugénio de Andrade “Os amantes sem dinheiro”:

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

 

            Anote-se que os versos de Alice Vieira nada têm a ver com os poemas de Ramos Rosa e que os de Eugénio de Andrade citado são de 1950 e plagiados.

 

            Com efeito, na era do poema, afastada já a época da poesia, ainda se premeiam versos.

 

            O presente texto foi alinhavado à pressa: sandice seria fazer o contrário: perda de tempo.

 

E que se conclui virando o cinismo contra a própria autora, glosando as suas palavras:

o velho parente da província

            não teve medo de dizer o que não deve

 

 

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março 13, 2007

Está no ar!!!

 

v a g a l u m e

 

Queime-se neste lume!!!


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fevereiro 16, 2007

EM MEMÓRIA



               

        Em tempos, Nel Meirelles pediu-me um prefácio para o livro que ia publicar "Teoria da Tocaia". Lamentavelmente, o livro não saiu, e agora não sabemos se sairá, já que Nel foi vítima da maior das tocaias: a morte.
        Para a sua poesia que abunda na net, aqui fica como introdução e homenagem o

                               PREFÁCIO
              A FACE OCULTA DOS DEDOS


             O prefácio pretende ser a mão, a mão que puxa o braço, o braço do leitor, provocando o encontro, o conflito, a partilha com o autor.
           
Esse gesto deve ser rodeado de todas as cautelas. Tal uma donzela desconfiada, o leitor só pode ser levado à xácara dos poemas caso a estratégia seja armada com sapiência. Ainda a donzela: não se pode agarrar com brusquidão, beijar brutalmente na boca, dar queda súbita no chão. Preferível é passar primeiro a mão nos cabelos, roçagar demais de leve a cútis do rosto, mesmo um toque quase de insecto nos ombros nus.
           
Também a mão, o prefácio, deve atender à objectividade. Não sonegar informação desfavorável. Não elogiar o inilogiável a olho nu. Não se vitimar de eventual amizade que liga prefaciador e autor.
           
A mão, tal como o autor, embora múltipla é una. Os leitores, os braços a cativar, são múltiplos e todos diferentes. Embora possam se arregimentar em grupos mais ou menos aparentados mas sempre muito sui generis.

            Vamos então delinear as várias formas de convencer e vencer o braço, os braços. Atribuindo a cada dedo da mão uma das cinco colectâneas que compõem “Teoria de Tocaia”.

            Você é leitor pouco dado a leitura de poemas? Desconfia, resiste, recua. Preferia coisas simples, de fácil entendimento, com música e musicalidade, algo que não bulisse com reflexões e pensées. Além disso, é jovem ainda, sem tempo e paciência, atributos que só mais tarde se aproximam de nós. Requer que o autor faça seu ouvido, retomando palavras ou frases em locais ulteriores: “mulher nua” será, neste caso, o seu refrão; poderá, também, neste âmbito, saborear a síntese perfeita de materiais simples e repetidos, o poema “sensa te”. Então, porque a ordem é arbitrária, apesar de não haver poesia popular aqui, dir-lhe-ei por onde começar. Mas não olvide nunca a frase que ouvi pessoalmente de enormíssimo poeta: “Leia, leia sempre, releia, volte a ler, por difícil que seja a leitura sempre ficará algo e cada vez entenderá mais”.

            No entanto, deveria começar por “andanças”. Braço no braço com o autor, regresso à louca juventude de ruas e calçadas, devaneio sinuoso por sonhos e ilusões, tudo colado no flash luminoso dos cinemas. Deslizar nas “madrugadas de aterro”, nas varandas onde “as margaridas namoram o mar”, nas “esquinas ... das artérias”.

            Ah não, você é leitor experiente, mas é mais atreito a determinadas escolas literárias. Porquê dogmas desses? As escolas literárias são todas boas quando são boas e, como na antropofagia, comem-se umas às outras. Coma-as também, isto é, não se subjugue cegamente. É certo, não é ético que um autor deite mão de todas as escolas e as misture em seus textos promiscuamente. Aqui, neste livro, só há uma escola: a de Nel Meirelles. Vê a porta? Entre nela.

            Entre pela porta principal, comece pelo princípio. “poesia”, ars poetica, auto-análise, olhar vidrado e virado sobre si próprio, umbigo, umbilical.
            Apropriando-se da arte de matar versos ou aceder aos que se “escapam” e “jazem ... / dispersos”.


             Estou vendo que você é mesmo radical, obstinado, consútil. Homem, sente nesta mesa, o festim também é variado: tem ternura, tem paixão, tem saudades, tem fogo, tem emoção, tem ironia, tem boutade, tem vida. Veja aí nesses copos, todos os líquidos de que se compõe o poema: o sangue, o mel, a ambrosia, as águas. E nos cantos, confundindo-se na toalha rendada: o luar, o riso, o vento, o oiro. Não tem mais que estender os dedos. Que estão na ponta do braço.

             “de mim” dar-lhe-á um pouco de saciedade a  sua sede. Nada melhor que um ser complexo, ainda que literário, para acalmar bocas e línguas e gargantas sôfregas. Apesar da turbulência. Mas esse stress é sua condição e sua exigência.
             Abarcando como num manual, definições tais como a de que “envelhecer é deixar a esperança / debaixo da cama”, “o brilho ... dos olhos / ofusca o momento seguinte” ou que o pequeno-almoço pode saber a “café com não”.
             E, também, lidar com a lei das compensações: “obituário” prova que o amor acaba mas a poesia não.
             E, por fim, assombrar-se com versos verdes e azuis (“o que deu fim à série”).
  

 
            Intelectual, você? Bom, aí eu já não me atrevo a sugerir, porque conselho eu não dou nunca. Saberá num relance por onde começar, onde permanecer e o que “desprezar”. Tendo sempre debaixo do braço a noção de que o erro não deve ser expulso do dicionário.

           
Seu jeito não pode deixar de ser nocturno. Então embrenhe-se nesta “noite” e se deixe envolver por seus lençóis. O intelectual vive da noite, vive na noite, aí se enterra para renascer na aurora assassina. Também os juristas, e aqui não há justiça alguma, recorrem da noite seus melhores e mais vitoriosos pareceres.
           
Por si, ancorado nesta noite, fica emparedado e submerso em “luas de virada”, subúrbios de estrelas, leitos insones, madrugadas desbotadas, ainda que se aparente reclinado em “colchão de sonhos”.


           
Apenas mais um leitor. O feminino, quer seja mulher ou homem. O que inclina cabelos compridos no branco cheiro de pinho do papel. O que traz coladas nos lábios a sensibilidade e a flexibilidade. O que casa com o ritmo das palavras e, de corpo nu, cavalga as frases até ao final da obra. Como todos os outros, você é bendito aqui. Mas só você simboliza a osmose perfeita. Apenas diferente de outras osmoses ou metamorfoses.

           
A si, minha linda, ou meu cara invertido ou meu bloco de cromossomas equilibrado, só “amor” coaduna e serve. Amor, o tema mais antigo do mundo, aqui ressumando aspectos absolutamente novos: o amor “convexo”, espalhando “... esporos / e rastros / pelo canto do espelho”, “o cheiro / do jazz(mim)”, “o espaço / curvo / que resiste / entre / o sim / e o não”.
           
Onde poderá encontrar um poema de beira de ruína”ne me quitte pas”, em que é possível sentir, grosso jorrado audível, o ruído das letras: ruído de amor. E, ainda, se a boca colares no poema “boca”, dar testemunho, um mais, de mundos permutados.


           
Enquadrados e integrados “todos” os leitores, abordemos, numa carícia, as faces mais salientes que ressaltam em originalidade do poliedro deste(s) texto(s). Retomando a mão e seus cinco dedos, usaremos ainda e sempre este numeral, como se do vale onde repousam deitados os poemas se erguessem cinco colinas, dedos redondos e abertos, porque é fundamental frisar esta capacidade fantástica da mão de se abrir e fechar. Ou, melhor, fechar e abrir.

           
Começo por aquilo que designaria de tournée. Um certo cosmopolitismo, um misturar de saberes e conhecimentos. Desaguando em geografias. Geografia física, centralizada no Brasil mas estendendo-se à restante América do Sul, insidiosa pelos Estados Unidos, buscante de uma determinada Europa. Geografia afectiva, aderente ao Rio e Pernambuco, erguendo locais da memória, relevando infâncias, vivências, pessoas que se misturaram em seu ser. Geografia cultural abarcante, de língua e linguagem, remontando aos eros gregos e aos dominus latinos e seduzida pelos sons que hoje tangem sinos: “non sense”, “ma non troppo”, “ne me quitte pas”.

           
Entremos de mergulho na face nocturna. Entretecida de luas, luar, leitos, estrelas, sombras. Há até quem lhe chame o poeta dos nocturnos: uma forma subtil de convocar Chopin às letras. De facto, o poema nasce no meio da noite e soçobra como vampiro na luz ofuscante do dia. Precisa, nem sempre da noite, mas de local recolhido, não perturbado, ou, se dia for, de um semicerrar de olhos escutante de nascente. E dessa noite faz dia, tendo sempre como alvo o fogo diurno do sol.

           
Poderíamos falar de influências. Mas seria perda de tempo, sei do repúdio do autor. De relance, alguma obtenção de abstracto pessoana, o voo da metáfora de Quintana, algum eflúvio sonoro augustista e alphonsino, a irónica agulha drummondiana. Mas não faria sentido. Algum faz, lembrar Manoel de Barros: o homem coisal, os defloramentos, a desvirginização, os vareios do dizer. Mas tudo isto não passa de mera retaguarda.
            Muito mais adequado seria falar de fluências. É um discurso e um ritmo que flui, torrencial e inspirado, sem gaguez, sem recurso a voz rouca, sem se enredar em preciosismo ou blague. Rio inclinado para a foz, buscando imanente seu declive, recorrendo à usura, ao silogismo e mesmo à coloquialidade. Veja-se o tratamento popular de um santo por “Tião”, veja-se o “cri-cri-car”, veja-se o “tec-tec” dos sapatos.
           
Como de seio fecundo, o leite escorre encaroçado de palavras.

           
O formalismo. Não arbitrário. Não despiciendo. Que, muitas vezes, inverte os atributos, como acontece em “concerto”; e noutras atribui função dupla à morfologia: veja-se o caso do verso “dos” em “descompassado”. Para não fadigar, para não repetir aqui o texto que está a seguir, enunciaremos apenas dois aspectos:
           
O uso, não indiscriminado, do prefixo “des” irradia um choque fonético e conteudal. Inverte de cabeça para baixo a incidência da escrita. Mas, sobretudo, cria o reverso, o impacto, o desabar do texto sobre os ombros de quem lê. Cindido, fracturado, estilhaçado, o texto se transforma. Em dois. Ou vários. E atinge de agulha o reino da surpresa.
           
Segundo aspecto: além da colocação subtil do caracter “:” (dois pontos) isolado em  início de verso, repare-se no imaginário que se origina da desmontagem da palavra “jasmim” em “jazz(mim)”. Mantém a flor e seu cheiro, convoca uma corrente musical das mais complexas, dispõe na horizontal as estátuas jacentes do ser, abarcando o próprio autor e suas estâncias eu / “mim”, aludindo, também, por força das vogais utilizadas a sons que retinem de forma sinestésica.  

           
Last but not the least
, faceta a meu ver a mais proeminente, aquilo que denominaria de contorcionismo. O poeta, homem másculo masculino, pela primeira vez de forma iniludível, coerente e consciente, coloca-se no feminino do parto. Recolhendo no tecido das expressões os vocábulos inerentes: “entranha”, “faca”, “uivo”, “borrifo”, “perfura”, “lambe”, “rasgo”, “útero”.
           
Exemplificando: tuas coxas (da poesia por metáfora) “abrem-se / em direcções / opostas”, carecendo de ser percutido o centro; “por isto, / porque és / me desvisto da minha pele / e calço a tua pele”; “solfejo / de frente / o parto da dor / e / existo”.
           
Invadindo a esfera que só à mulher respeita, insinuando a ilusão de que apenas recorre ou incorre na metáfora de que o poema é, também, parto. E parto, tal como poema, denuncia nascer, dor, sangue, pútridas matérias mexidas e misturadas à procura de cristalização. No ser, humano ou poético.

           
Enfim.
           
Versátil. E uno. Assim é este autor que, como já foi mencionado, é também múltiplo. Na sua unidade central. E frontal.
           
Podemos subir a escada de luar com ele.
           
Podemos descer a ruela e dar uma queca na mulher esquinada.
           
Podemos rir com ele da hipocrisia, da miséria, das lantejoulas dos avantajados.
            Podemos apertar-lhe a mão, suada de palavras e gestos e decepções, e, quem sabe?, atingir “a face oculta” dos “dedos”.
           
Podemos perfurar sua “família”.
           
Podemos deitar-nos lado a lado no chão e expulsar a raiva da boca.
           
Podemos amar as mulheres que amou e ainda as que amará.
           
Podemos ser ele por um tempo.
           
E depois vem a libertação. Já não plena, espero. Como um cachorro depois da chuva, sacudimos a água dos pelos. E oxalá vos aperte o calor e tenhais sede de voltar a mergulhar vosso corpo, adrede poético, nesta mesma lagoa.
           
Que também é ou conduz a um rio.
           
E mais do que isso, a um poço.
           
Fundo.
           
Enfim, terrenos de suas águas.
           
Como se foram de mulher, prenhes.
            Literomania.

           
Teoria da tocaia, eis o que se ousou. Com muitos materiais (in)conscientes e, sobretudo, inscientes. Tentando demonstrar como se assumiu em carne a armadilha: da musa ao poeta, da vida ao homem, da morte à vida, da noite ao dia, da dor ao amor.
           
Gesto moldado em escrita. Acontecida no sítio genésico, os dedos, onde o sangue flui livremente e se poderá escancarar a sua face oculta. Dos dedos e de seu sangue.
           
Lendo o livro que está a seguir, cumprir-se-á a prática da tocaia. Nunca inocente. Sem retorno. Porque assim foi e será sempre sua índole. E sua pele.

Publicado por barbant em 01:33 PM | Comentários (4)

outubro 22, 2006

Tribos IX






O
primeiro som é amarelo, com força no bronze.
Tem o fogo do sol a pino, da areia do deserto
lacerando a planta do pé, e, de súbito, da
chama que se acende na folha da espada que cai.

Cai a
cabeça cortada pelo pescoço, tomba no solo com
um rasto de sangue no circuito, e o som torna-se
vermelho vivo. Da mesma cor do grito que rasga a
boca que logo se cala por ausência do jogo da
vida. E dessa cor berrante são os dedos todos,
de mãos e pés, que se estorcem no desespero já
mortal.

Surge
então a cor de um cântico, largo e plangente
coro de mulheres, louvor elegíaco derramado
como um choro que ascende e toma e tolda o
ambiente. A cor aproxima-se do negro.

Em
simultâneo, vislumbra-se o som verde das fardas
e das armas, dos buldozzers e das granadas.
Verde também, verdete, é a cor dos rostos de
quem acaso acede a presenciar a cena.

Branco
por fim é o lençol que se arremessa sobre o
corpo dividido em dois, para sempre parado e
separado da vida. Largo lençol que tapa. Não o
horror do morto mas o nosso.




Letra
- Antero Barbosa

Música
e Ilustração - Daniella Kai

Publicado por barbant em 02:50 PM

outubro 01, 2006

A Cinco-Irmãs








Vou-te falar como se fosses a Cinco-Irmãs.
 
A primeira é irmã de sangue, produzida na mesma fábrica e fruto da mesma mãe, siamesa na infância e que nas outras idades faz coincidir o nosso histograma, na desgraça quase sempre e sempre nas alegrias.
 
A segunda irmã é a melhor, a mais atraente, não mais bela porque tal não permite a tradição, mas mais dotada de sedução física, porque o corpo que nos pertence não
possui valor acrescentado a não ser para outro olhar e mãos.
 
Da terceira direi que me faz sofrer, é a que toma atitudes com as quais não concordo e não me conformo, é a que traça caminho sem ligar ao caminho que eu faria, e da minha crítica faz riso e desprezo.
 
A quarta é a que eu construo em meu egoísmo, menina ainda às vezes, que eu
componho com um vestido de luz, que eu faço crescer apenas mediante sons que podiam ser azuis.
 
A quinta tem asas, tece-se das ausências cuja intensidade só pode ser debelada pela intensidade da presença, e esta permite que cada uma das duas esqueça sua vida particular, no abraço que se fecha a nosso favor e contra tudo que insiste em nos separar.
 
A primeira me obriga, a segunda me atrai, a terceira é a que mais admiro, a quarta eu amo e a quinta me faz reviver.
 

De qual delas gosto mais? Quem sabe, Zá? Talvez da rosa-de-ventos de que se faz a intersecção das cinco.       




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Letra
- Antero Barbosa

Música
e Ilustração - Daniella Kai

Publicado por barbant em 05:47 PM | Comentários (3)

agosto 24, 2006

Coisas do Diabo



               

O João Bispo, mostrengo disforme dizia e gabava-se: “É minha, há-de ser minha!”.
A Mioma, homem esbelto, dizia ela nos serões que os aproximavam: “Mais tarde, meu amor, quando nos casarmos”.
Era Glórinhas, uma jovem beleza loira.
Eis o final do livro, “Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro:

“Decidido a deixar-se viver, matando em si o atormentado, Mioma foi bater à porta de Glórinhas. Bateu, chamou, ninguém lhe tornou resposta. Lá ao fundo da quintã pareceu-lhe ouvir um rostolhadoiro de palhas, difícil de presumir se de gente se de animais. E de coração inquieto, possuído dum terror vago, meteu pela viela para que olhava a janelinha de grade da quintã. Em face, nos amassadoiros de pedra, a Maria Morgada, que recebera o filho da  Chilandreira, a Águeda do Narciso e outras batiam adeitos de linho. Afoito, depois de dar os bons dias, Mioma empurrou a porta na fresta de varões. Empurrou-a dum alancão, e seus olhos presenciaram a monstruosidade: o João Bispo, o homúnculo hediondo, sob seu corpo seminu subjugava o corpo seminu de Glórinhas. Bocados de formosura divina confundiam-se com luaceiros de disformidade imunda. Ela debatia-se, o monstro que com uma das mãos lhe tapava a boca, com a outra tenteava seu lance. Tinha a cara a escorrer sangue, espuma nos lábios, e
 era medonho em seu papel de animal, de emissário implacável da porca madre natureza. Mioma hesitou em gritar, em chamar aquelas mulheres a ver a desonra da sua amada e o seu opróbrio. Que chamasse… subvertido, o corpo desejado cedeu… semicerraram-se-lhe os olhos… a boca já livre entreabriu-se, toda a defesa parara.
Mioma largou a fugir, a uivar, alucinado, como se levasse pelo corpo e até dentro do coração a mordê-lo, a persegui-lo, milhões de vespas em brasa.”

Usando
este texto como pretexto:
O texto trata dum triângulo, dos muitos que o mundo viu e tem para ver. Que aplicado a nós, apenas poderá ter esta semelhança: nós dois com a “madre natureza”, a rotina, que nos seduz ou nos devora, também formamos outro triângulo.
Lido este romance há muito tempo, ainda hoje impressiona o final. Querendo, impotente, alterá-lo, o que nem sequer seria justo. Porque tudo se consumou em resultado de duas vontades contra uma. Ou da força maior sobre uma defesa menor.
Mas muitas dúvidas se levantam: então tudo aconteceu junto de um grupo de mulheres que não se apercebeu dos ruídos que Mioma ouviu, estando mais longe? E se Mioma fugiu a uivar, deixando a porta aberta, não terão as mulheres entrado a tempo de evitar a desonra de Glórinhas? Isto é, que dois sexos distintos em tudo, pudessem consumar-se num gesto único. Ainda que animal.
E aqui então sobram as perguntas. Como fazer a análise de um acto, o sexual, que  é  idêntico, pelo menos fisicamente, ao dos animais? Ainda que, por vezes, um dos  seres humanos seja mais animal que humano? E que, noutras circunstâncias, como se sabe,  até entra em cena o animal, cão por via de regra?
Mais: como é a visão de cenas como esta, profundamente masculinas? Ou até machistas? Próprias de um mundo em que o homem dominava. E os escritores-homens.  E que não mudou muito, não sei os motivos ou sei-o bem, quando já muitas mulheres escrevem. E publicam. E têm estatuto.
Mais ainda: cenas destas, vivenciando-as, desagradam, repugnam, são visceralmente repelidas? Ou pelo contrário? Ou nem uma coisa nem outra? Ou encaixam de forma natural no puzzle de carruagens da vida, que delas se alimenta e  doutras bem piores? Ou melhores, depende do ângulo de visão ou do grau de preconceito.
Por fim: falar, abordar, viver actos um pouco marginais, em que o homem, arma ou vítima, violenta a mulher, que se defende por força de norma exterior e acaba por ceder por força de apelos interiores, orgânicos, tudo isto, que conclusões faz advir? Porque, reincidindo numa palavra deste parágrafo, e em frases que se vão condensando, muitas vezes ou quase sempre o homem é vencido pela mulher. Ainda que tal não se faça sentir à luz do dia. E que só conte o que se sentiu no escuro.  

Publicado por barbant em 03:59 PM

julho 29, 2006

O Douro passa por aqui

 

O DOURO PASSA POR AQUI ...



               

O Douro passa por aqui e vai-se embora, em busca do litoral.

Curiosa contradição: procura satisfazer a sua sede afastando-se dos locais em que nele se faz mais forte a satisfação da sede dos outros. Mas trata-se, também neste caso, de um mero fenómeno científico da teoria da gravidade: ele desloca-se no sentido da descida. A não ser que se possa falar de atracção cultural: em que o rio se deixa seduzir pela ponte do Eng.º
Teophile Seyrig, ou pelos Clérigos de Nazoni.

Mas a contradição permanece. Sem necessidade de fazer apelo ao ouro genuíno de um azeite que nasce da fonte do olival, à pureza terapêutica das águas, à especialidade da caça e dos enchidos ou à permanência um pouco histórica das pessoas. Nem àquela atávica escolha entre a praia e a montanha, que ainda decide, pelo menos em teoria, pela primeira. Já repararam que aqui existe o maior de todos os mares, que é um oceano megalítico?: o Marão.
Podemos agora fazer o contraponto entre dois exageros: o pessimismo de Camilo e o irrealismo de Torga.


De Camilo, usaremos a transcrição de um diálogo do primeiro capítulo do “Amor de Perdição”, entre D. Rita, dama do Paço, e seu marido, Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, recentemente nomeado juiz de fora de Vila Real, aquando da transferência para esta cidade:


“D. Rita, avistando o préstito das liteiras, ajustou ao olho direito a sua grande luneta de oiro, e disse:

- Ó Meneses, aquilo que é?

- São os nossos amigos e parentes que vêm esperar-nos.

- Em que século estamos nós nesta montanha? – tornou a dama do Paço.

- Em que século? O século tanto é dezoito aqui como em Lisboa.

- Ah!, sim? Cuidei que o tempo parara aqui no século doze…”

De Miguel Torga, vamos enxertar alguns tópicos, presentes no capítulo que à Província de Trás-os-Montes dedica no livro de 1950 “Portugal”: desde logo e, apesar da advertência de que embora as pessoas digam que não os há, Trás-os-Montes é um reino maravilhoso; depois, na afirmação megalómana de que “a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta entender a mão”: finalmente, indo ao ponto de tentar convencer outrem de que o fruto dos frutos… é a castanha, que a perdiz mesmo depois de morta parece uma deusa, que a truta “representa… o mundo da barbatana”, e que os homens matam ou morrem “movidos por altos sentimentos”.


Cremos que o exílio e a fixação são extremos de um mesmo eixo, a que vão dar as mesmas vias de comunicação. Que servem para sair mas também para entrar. E que é a este fenómeno, não esquecendo o primeiro, que se deve passar a dar prioridade e afecto.


O Douro vai-se embora com suas águas velhas. Mas um outro continua a passar por aqui feito de águas sempre novas. E renovadas.



(Texto incluído em Trabalho de Grupo, no âmbito do Balanced Scorecard)

Publicado por barbant em 11:50 AM

julho 10, 2006

Poema Bass



"


 






 Como dedos, eles que dos dedos nascem e só deles vivem, os sons
empurram a porta. Uma e outra vez, tecendo uma chave redonda, insistindo,
insistindo, a porta vai rodando. E abre-se para o terreno anterior das recordações.

Dentro, o corpo não sente, os pés não tocam o chão que nem sequer existe.
Apenas germina e flutua um misto de sentimento: talvez solidão, talvez alegria.

Em breves instantes de duração, o filme percorre todas as horas de uma longa
história. A dois. Que não é história já, nem de dois nem de ninguém,
dispersaram-se disseminadas personagens, cenários. Pairando contra o tecto.

Como sucede sempre que o passado prevalece, não há cores, nem espaço, nem
odor, nem vivência. Apenas um frémito no seio, uma tontura no cérebro, vozes
e imagens que perpassam como aves aflitas.

A que só a música dá corpo. Todavia, nem ela se sustém. Vai-se estrangulando,
apaga-se no lume já frouxo dos dedos. Os dedos. Que já não vão a tempo, a
porta, súbita, fecha-se.

Estamos encerrados no país da memória. Convivendo com a pele dos dias que
nunca mais virão. Ou que só desta forma podem vir: não vindo.

 



Música - Daniella Kai


Texto - Antero Barbosa





Publicado por barbant em 11:54 PM

março 24, 2006


Tokio Piano Bar
(Quando a vivência se instala no sangue)






A
primeira nota actua como uma pancada. Não se sabendo em que zona do
corpo. Ou da mente.

Os trilos seguintes anunciam uma descompressão, recorrem à pausa,
prometem o afastamento do perigo inicial. Mas logo a mesma fatídica
nota ressoante cai contra nós e contamina a melodia e a sua recepção.
Todos os ritmos posteriores, lembrando caminhos ao sol que se bifurcam,
ou vestidos que se soltam e abandonam as pernas, ou vívido tremular de
água cujo seio anseia, dizia, todos os ritmos estão contagiados da angústia
do primeiro som, agora repetido e intensificado.
Bem se espraia e dança e deleita a melodia, estende cabelos ou asas
para cativar ou aprisionar a doçura, mas não é já capaz de aquietar
o coração de quem escuta. Que começa a escutar o seu próprio coração.
Que tenta distrair-se imaginando os dedos ágeis e pensativos de quem
executa, sua cabeça abanando o rosto contorcido pela pressão, o olhar
fundo que percorre a pauta, as pernas que oscilam presas ao ritmo e
anunciam as próximas enunciações. Inútil, a atmosfera não se desfaz.
E os sons, assim delineados, contínuos ou paralelos, isolados ou
dispersos, e nesta arte se supera o poema, instauram um único
sentimento: a nostalgia.
Não se chegando a concluir se do tempo já transcorrido ou daquele que
ainda há-de vir.

Ilegível? Sim. Indecifrável? Talvez não.
Sendo visceral, esta música percute no centro, no interior, o nosso. E
é aí que obtém ressonâncias. E reúne os despojos de todas as
abstracções audíveis, construindo um corpus concreto ou reunindo os
fragmentos. Erguendo um ser que se confronta no espelho e remanesce
erigindo a película de uma qualquer reminiscência. Tornada actual e
concreta.

Decerto, aqueles dias, aquele dia que os cindiu num só, não se repetirá,
não volta. Não seria necessário o tom nostálgico da melodia para o
saber. Essa certeza já preexistia.
Mas poderá reviver ou reencarnar. Porque a verdadeira importância do
que se vive não está no puro acto de viver que é, em regra, banal ou
doloroso.
Está nas vésperas do que se vive e, sobretudo, na comunhão plena de
alma e corpo que acontece tempos depois, quando a vivência se instala
no próprio sangue.


 



Música - Daniella Kai


Texto - Antero Barbosa





Publicado por barbant em 12:21 PM

fevereiro 15, 2006

À espera de Mariza


(LA MASTURBATION)




Era um ritual
quase sagrado aquele, enquanto aguardava Mariza. Fizesse chuva ou sol, ainda que
ela não aparecesse ou que nada mais acontecesse. E isso, talvez fosse tão
importante quanto a visão de Mariza abrindo o portão de ferro. Dava-lhe prazer
a espera, perfumada.


           
Prazer e dor, dessa matéria é feita a espera. Uma liga feita de
abelhas.
           
Porque não se consumava mais aquela mulher dobrada >
em duas. A<>
da carne e a da escrita? Vermelhas ambas.
           
Bastas promessas se haviam já cumprido.
           
A da religião profanada por padres com dentes e língua e mãos no olhar,
impotentes perante uma mulher de pele branca, tão branca como a lua, onde se não
parava de esconder o sangue vermelho, espalhando-se na pele o dia todo.


           
De igual modo, a consumação feminina, deitando sobre o leito seu corpo
de mulher como se fosse de outra, e permitindo e incitando a que o par ficasse
grudado com a boca em outra parte de seu corpo, enquanto cravava os dentes em
seu delta. E nessa foz, ele a comia e ela se deixava comer inteira, e ela foi
tudo o que o homem quis e que ela quis também.


           
E assim dilemática, ela era objecto e autor de óleo sobre tela, posando
com vestido azul de santa e, no rosto, um meio sorriso de puta.
           
Convidando em suas letras carnais ao elogio da dor e à causalidade
aceite do sofrimento. Dando-nos a noção de que rejeitava ambientes mornos de
paz ou normalidade quotidiana.
           
Confessando expressamente: meu Deus, prefiro o fogo, escolho a
dor.


           
E uma cor sobre todas adoptou e adopta: o vermelho. Que colou a sua própria
escrita, de um sangue inequívoco.
           
E esse foi um dos milagres, tornando Miller mulher: erotismo quase
sagrado mas rebentando nas estrias do alfabeto a que deitou mão. E o corpo todo.
Como se escrevesse muitas vezes com o útero.


           
Mas… mas…, assim é a vida, todo o mês sente a dor do terceiro filho.
Sente ela e sentimos nós. Aquele que não pariu. O livro impresso. A haver. Há
muito ele finge que vem, mas é fingimento que dura o tempo exacto da própria
dor.
           
Até que um dia, como o fruto no ramo ou no ovário o óvulo, de tanto
sol vermelho, de tanto branco esperma, caia em nossas mãos ou em nossas mãos
ascenda, podendo finalmente ser:


           
 publicado.


           
Tudo o que aqui fica dito e predito está, em concreto e em promessa, e
as palavras e o jogo de lá se retiraram, em marizalourenço

Publicado por barbant em 11:24 PM | Comentários (2)

janeiro 28, 2006

Ramo e de repente





 

 

 

 

 

 

no rosto arrefecido

do dia como um choro doente

a incompletude cinge-se

aos afectos torturados

pelo tempo e invertidos

mão que não chega

ao ramo e de repente

como a sinusóide da folha

cai contra o chão

In "Ramo e de repente", Editora Ausência, Nov./2005

Publicado por barbant em 08:51 PM | Comentários (0)

janeiro 17, 2006

CONVITE



A Editora Ausência e o autor têm o prazer de   convidar V. Ex.ª para a sessão de lançamento do livro Ramo e de Repente de Antero Barbosa.

A sessão realizar-se-á no próximo dia 20 de Janeiro, Sexta-feira, pelas 21 horas, na Aula Magna da Faculdade de Medicina do Porto.


O livro será apresentado pelo escritor Viale Moutinho.

 



               
           

 

 

Publicado por barbant em 01:38 PM | Comentários (2)

julho 21, 2005

PoliGrafia



TRITHEMIUS - 5 SUBSTANTIVOS APÓS




               

TEXTO DERIVADO

Também sabes muito bem que a minha e tua concertina de amorfismo diferem bastante da dela. Sabes como eu que a nossa fuselagem já se perpetuou e já nos demos a todos os abrandecimentos que sustentam nossas defligações, não carecendo de quaisquer outros. Lembras-te daquela raivença antiga que tinha dois amantes: um para o enlevo da almadra e outro para a saucaria do correão. Poderemos considerar que o amorfismo só se consuma na relapsão física, podemos carrear inúmeras concertinas, mas nós dois já nos damos por satisfeitos, apesar de terem faltado os amatos, as carimbações, a mapiagem no cabide, no rotativismo, no seivo, na coxia (o restringimento, viria ou não, logo se veria). Penso que adivinhaste, de mim adivinhaste quase tudo, mas vou confirmar: eu afasto em regra a segunda eteromancia: não me atrai fisicamente a mulsa de que não gosto e quando a amo já não me atrai desse modo.

TEXTO ORIGINAL

Também sabes muito bem que a minha e tua concepção de amor diferem bastante da dela. Sabes como eu que a nossa fusão já se perpetuou e já nos demos a todos os abraços que sustentam nossas definições, não carecendo de quaisquer outros. Lembras-te daquela rainha antiga que tinha dois amantes: um para o enlevo da alma  e outro para a satisfação do corpo. Poderemos considerar que o amor só se consuma na relação física, podemos carrear inúmeras concepções, mas nós dois já nos damos por satisfeitos, apesar de terem faltado os amassos, as carícias, a mão no cabelo, no rosto, no seio, na coxa (o resto, viria ou não, logo se veria). Penso que adivinhaste, de mim adivinhaste quase tudo, mas vou confirmar: eu afasto em regra a segunda etapa: não me atrai fisicamente a mulher de que não gosto e quando a amo já não me atrai desse modo.

 (Em regra: substituir cada substantivo pelo 5.º do mesmo género que aparece no dicionário)

Publicado por barbant em 10:27 PM | Comentários (3)

abril 29, 2005

Poligrafia

Correntes de livros




         

Acorrentado, de forma irrecusável, pelo desafio da Maria  (http://www.putadevida.weblog.com.pt/) e pela diplomacia de Nel (http://www.falapoetica.blogger.com.br/), com inícios um pouco díspares mas já entroncados, que a seguir se transcrevem:

"É iniciada aqui uma cadeia de literatura pela blogosfera portuguesa, vou chamar-lhe o ex-libris da tugosfera. A iniciativa foi do barrie do the pink bee, que fez o primeiro post a 7 de março, e foi-me passada pelo guy do non tibi spiro para lhe dar "o sabor do sul da europa".

“Meu amigo Manoel Carlos, de Agreste, me indicou para responder a uma entrevista sobre Literatura da Língua Portuguesa”.

Usando de algum subterfúgio, eis as minhas respostas:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Talvez “O Livro de Cesário Verde”.

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Há uma particularidade em mim, que é ficar apaixonado pelo par, torcendo para que ele se possa consumar. Acho sintomático o par Simão/Teresa da perdição de amor.

Qual foi o último livro que compraste?

Suponho que “O Regresso do Soldado”, de Charles Frazier. Uma  frase: “Quando lia livros mais notáveis, os destinos crués das heroínas condenadas serviam apenas para adensar a sua tristeza”.

Qual o último livro que leste?

Sem subterfúgios, “da loucura dos homens”, de Rodrigo de Faria e Silva. Uma frase: “O tímido é antes de tudo um ávido, inepto”.

Que livros estás a ler?

“Sexus” (Henry Miller), “Mãe Apodrecida” (Malaparte) e muitos outros.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Hipótese absurda, só na altura saberia, mas direi:

- “Finisterra”, de Carlos de Oliveira;

- “Os Quatro Quartetos”, de Eliot;

- “No Caminho de Guermantes”, de Proust;

- “O Retrato de Dorian Gray”, de Wilde;

- Um livro ainda por ler, com muitas centenas de páginas.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

À Mariza (http://www.marizalourenco.blogspot.com/), na esperança de que brote uma corrente literária de ternura;

Ao Ilídio (http://www.confissoesdeumviajante.blogspot.com/), um dos grandes escritores contra-corrente;

À Lol (http://www.aseivadosolidadgo.blogs.sapo.pt/), para que tripudie disto tudo.

Publicado por barbant em 10:14 AM | Comentários (9)

setembro 29, 2004

PoliGrafia

TÉCNICAS LITERÁRIAS: DAS
(HOMENAGEM À "FILHA DE MARIA NOWACKI")


A arte da escrita recorre, por vezes, às técnicas de outras artes ou ciências. Muitas vezes o faz com maestria.

Vamos utilizar o texto da “Sétima revelação” integrante do blog “A Filha de Maria Nowacki” para ilustrar algumas dessas técnicas.

A frase "Sorri, furiosa" releva da pintura: é o jogo do contraste, da contraluz, podemos distinguir duas cores. O branco de "sorri" e o negro de "furiosa".

"Sobre a cama" recorre à geografia. Trata-se aqui de deslocamento de massas. O que está sobre a cama são os objectos pessoais: deslocamento para a direita. Mas, quem acaba de ler a primeira frase, pode perceber que quem estava sobre a cama era o pai: deslocamento para a esquerda. E porque não ver no texto deslocamento para ambos os lados.

Vejamos como se processa o recurso à geometria. Basta explanar a frase "Eu era o corpo, a pele branca. Cabelos, olhos e boca". Primeiro o todo, depois a parte, ou as partes.

Agora teremos que transcrever quase todo o primeiro parágrafo. Assim: “Encontrei-o em meu quarto. Sobre a cama, espalhados de qualquer jeito, preservativos misturavam-se às minhas peças íntimas”. Fizemos, de certa forma um traveling e um zoom. Recorrendo, obviamente, a fórmulas cinematográficas.

Finalmente, vamos proceder a uma fractura, a uma repartição. Roubando propriedades da física. Vamos partir um provérbio em meio, como se dividíssemos um pão em duas metades. Eis como: “Eu estava por minha própria conta. E risco”.

De que estivemos falando? Ora, da sétima revelação.
E da arte das artes: a arte da escrita.

Mas o mais importante de tudo é fazer o confronto. Reler esse texto fabuloso que é a “Sétima revelação”.

 

Publicado por barbant em 08:53 PM | Comentários (5)

junho 05, 2004

Poligrafia

                  OS 10 MANDAMENTOS
1

Produzir bacanal técnica expandida
2
Misturar o vinho e o azeite in vitro
3
Dispôr todas as cenas em simultâneo, isto é, casar o ânimo do vídeo com o espaço paralelo da pintura
4
Enumerar as diversas versões dos depoimentos em juízo
5
Juntar o rio e a lagoa
6
Construir o bosque, ignorando o carvalho o pinheiro a abétola e vice-versa
7
Obrigar as palavras a fazer cócegas umas às outras, até ao sangue, tornando-se irreconhecíveis
8
Desenhar um corpo que inclua o jovem o adulto a criança a mulher a rapariga o velho o espermatozóide
9
Namorar a intertextualidade orgástica
10
Instalar o caos ordenado

Publicado por barbant em 03:23 PM | Comentários (6)