junho 19, 2007

Pobríncia

 

SEIS CEREJAS PARA UM VERMELHO SABOR

     

 

 

          No Douro que entra pela Beira a etimologia topográfica adquire um sabor pesado e arcaizante. E é perturbadora a evolução dos termos, obscurecendo as raízes iniciais, a decifração do sentido. Além do peso semântico, robusto e maciço, que as designações assumem, sobretudo quando ousamos pronunciar alto o som dos seus nomes.
          Trevões (S. João da Pesqueira) não foge à regra. Independentemente do significado ou significados que lhe são apostos, que queremos ignorar até ao final do artigo e que aqui não importa, vamos procurar o léxico de que possa ser decantado.
          No presente caso, decididamente dois termos nos obrigam: trevo e treva. Se nos referimos à planta minúscula cujo nome lhe vem de possuir em regra três folhas, diríamos que o nome corresponde ao seu plural. E não vamos investigar se o trevo é ou não planta comum na povoação. Se nos vamos ater ao segundo elemento, “treva”, que significa noite / escuridão / breu, estamos perante uma acentuada insistência progressiva, de força e possessividade tais que exigiu o masculino, o macho mesmo: trevões, grandes / enormes / tremendas doses de escuro / breu / negridão, provavelmente penetradas de rubros relâmpagos e de um soturno familiar semântico: os trovões.

          Do escuro da História são recolhidos os objectos que um dia serviram a vida dos homens. Hoje inúteis e abandonados em cantos / quelhas / escanos, podem ser reavidos com maior ou menor devoção e engenho.
          O Museu de Trevões representa seguramente o maior. De devoção, porque supera largamente o espólio e qualidade que se julgaria encontrar. De engenho, porque ainda que resulte do esforço amador da juventude e da coordenação não especializada do pároco, revela obra de evidente gestão e excelência.
          Mais do que reposição do passado, o Museu deve ser a sua presentificação. E isso aqui acontece, uma e outra vez quase miraculosamente.
          É permitido vislumbrar as fainas campestres, os gestos integrais de dedos que tecem linho, os machos que furam a serra incitados pelo almocreve, o trabalho quente da ceifa, o branco do queijo, o húmido da azeitona, o deambular de bois por caminhos, a silhueta do cavador, os ranchos de que sobe o canto das raparigas.
           Mas é destas, e da mulher que lhe sucede, que se origina a mágica aparição. Os níveos corpetes, a blusa em escuro tom, o delicado peitilho, colocam em nosso olhar essas imagens subtis, quase etéreas, de rostos maduros e soberbos, de seios palpitantes e em flor.

          A igreja, esta, vem do passado como um barco que atravessa o nevoeiro. Atravessa e ancora no presente, a despeito de traços históricos e localizados. Limpa e desempoeirada por contemporâneas teorias vivificantes, o clássico som da música eleva o ambiente e bate nos tectos, o que avistas é um objecto uno e complexo, de um todo que esbate e afasta o rendilhado do altar-mor.
          Mas o que mais seduz é penetrar por detrás deste, de costas dobradas por exigência de pequeno portal, e penetrar num espaço inesperado. Onde os frescos roubados às ruínas do tempo são sedução suprema, não pela qualidade artística, mas pela ingenuidade dos desenhos, facto substancial que nos lembra outros autores, porque são iguais aos que um dia criámos, ou gostaríamos de ter criado, em nossos cadernos escolares.

          Em terras de Aquilino, sobram os padres. De que não vale a pena tecer agora o tipo, os tipos. Estão nos seus livros, é factor conhecido ou a conhecer por quem porventura o ignora.
          Mas surge, não por objecto de análise ou especulação, a evidência de um novo padre, ou de um padre novo, nestas mesmas terras. E a superação, plena, dos padres de Aquilino, um dos quais foi seu progenitor.
          Jovem, aberto, dinâmico, íntimo dos meandros do homem e da mulher com quem está obrigado a conviver, e a cultuar, o padre que tens na frente modela em ti uma impressão indelével.
          Ele faz com que os actos do futuro o encontrem ali na sua rota. São, junto dos homens, os novos padres que dirigem povoações que jaziam paradas. Padres da cultura e da solidariedade.

          A chuva e o nevoeiro fizeram cair trevões sobre a povoação. Ainda assim, foi possível ver e avivar algumas rubras imagens.
          De uma apenas falaremos.
          Rente à estrada, em campo de altas ervas, estão as cerejeiras. Não podemos dizer que se erguem, de tão baixas, ao alcance de mão de criança. Não podemos dizer que se escondem, de tão abertas de pernadas. Não podemos dizer que se recolhem, porque o quintal não tem sebe.
          Verdes, de um verde tenro e húmido, estão à mão da nossa mão. Para que as toquemos.
          Estão à mão do nosso olhar. Para que possamos enfrentar as imagens verdes do folhedo. E do vermelho das cerejas. Vermelho e redondo. Como um bico de seio.
          Estão à mão dos nossos lábios. Para que sem receio de donos e patrões, de acanhamentos ou represálias, possamos avidamente entrar. E possuí-las, doces. Virgens ainda e como sempre. No nosso gosto já não.

          Vermelho vivo, que multiplicado nos transporta de novo à igreja, ao vermelho, ainda redondo, e opulento, que irradia do véu de ombros exposto.
          Que não se cansa de nos lembrar a alta área do corpo feminil, castigada de sol, que em tempos mais exibiu do que ocultou.
          Vermelho, este véu, tecido de mil cambiantes de cereja, roda de fogo, lume de setas, ébrio fulgor, fogueira de imagens nas pálpebras que o ousam enfrentar inquietas.
          Os lábios agora ficam secos de deserto.

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fevereiro 25, 2007

Pobríncia



EM TERRAS DA MORGADINHA



                  

        Tinham-lhe enviado o nome, que, ensarilhado noutros, ressumava povoados antigos, arcaicos, machos, resistentes, mas, no entanto, desverdeados e prostituídos pelos turismos vigentes.
           
Marcou o dia, que se revelou ameaçador de chuvas. Crente de que as águas poderiam pairar sem cair, que a frescura dos dias era o melhor véu para antepor a surtidas a pé e inquirições, que um almoço no íntimo do frio sublima aromas e paladar, iniciou a viagem.

            Com o dia a comportar-se, ainda pode deter-se em alguns bicos de estrada, e perscrutar o rio na barragem: gordo de albufeira de um lado e de fio e pedregoso do outro: duas faces díspares, como se nem de irmão fossem.

             A seguir interna-se nos montes, nos montedos, na montanha. Era o reino bárbaro e original, onde medra apenas o centeio, e de cima espreita soturno o penedo e o pinhal. Os quais, lentamente se vão acinzentando, amorfos de neblina, iniciando os ramos uma titilação altamente pronunciadora de borrasca.
           
E porque a seguir surgem verdejando campos esparsos, que a pouco e pouco se vão agrupando e adensando, vencendo a mata que fica na cauda, febrilmente lhe acode a entrada dos “dois viandantes” em terras da Morgadinha.
           
Face que se acentua vivamente, acordemente, fazendo descair a coincidência de muitos aspectos. Em bardos e latadas soltam-se as ramadas, ergue-se redondo o castanheiro, pequenos pormenores de maçã e pêra negrejam nas hortas.
           
Foi quando o ribeiro assomou premonitório, com sua ingénua ponte, seus salgueiros e ancoradouros. Era fatal deter o carro e embrenhar-se um pouco nos carreiros já enlameados, fazendo ressaltar olhos na corrente já agreste a que encostava o salto brusco da rã, a fuga de barco-a-motor dos ratos, a permanência pegajosa da lesma.
           
Desviando, pela encosta acima já nos ladeia a vizinhança das casas que no alto, junto a um largo frondoso de carvalhas, ostenta o centro da povoação: ao lado, descaído, o velho burgo, para cima, em direcção ao castelo de penedos, o lugar novo, as casas sufragadas pelos emigrantes.

            No entanto, perscrutando sob a chuva suspensa e iminente, não se vislumbram vestígios do tal parque de campismo. E, consultada a placa, os dizeres que constam não são consonantes. De facto, sendo este torrão molde arquétipo de terras morgadinhícas, não desfruta decerto das atracções que pudessem cativar exigências turísticas.      

            Pelo que, há que avançar, começando a descer outra encosta, íngreme, visionando ao longe gordo rio, deduzindo-se que ali é que é. E de facto, já quase na ponte avantajada, surge o parque repleto de tendas, encostadas aos pinheiros vetustos, e os habitantes que por ali rabeiam.

             Segues, exploras este outro povoado, as suas gentes, as ruínas das casas e os casarões particulares e comerciais. E depois de rodear a igreja e o cemitério, alvitrando passeios, arrisca-se a ida até aos longes dos cerros, onde espumam brancas as quedas de água.
           
Inolvidável o passeio rente aos ribeiros, o húmido dos caminhos e dos campos, o monte que se ergue abrupto e ameaçador. Entretanto o céu escurece totalmente, a tarde gastou-se, é quase noite e a chuva começa a desabar. Desprotegidos, abrigam-se sob um carvalho, procurando a incidência mais densa do dossel de folhas. Situação delicada: entre o romântico do espectáculo e as lâminas frias das gotas e dos ventos que afinal os atingem. E, sobretudo, ante a ameaça apoplética de uma trovoada empurrada de raios.

            Afinal aliviou, o que permitiu atingir o carro, após inúmeros escorregões nas ervas engordadas de água e nas terras tornadas lamas. E após um singular jantar, cicatrizar o regresso, enfrentar a estrada, a noite e a tempestade que se instalaram de vez.

            Irmanando-nos, de novo, ao Inverno genuíno, de que sofreram os “dois viandantes”. 

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outubro 29, 2006

Pobríncia



O casaco o queijo o cão.

(Sabugueiro – Seia)

 



                        

Estonteado. Se vais a Barcelos e os milhares de galos de barro rubro avistas e outros róseos artesanários. Se vais a Fátima e os biliões de nossas senhoras registas e o alarido de santos e santas do paraíso. Se vais à Nazaré e às pilhas de amêijoa suas cascas em pires côncavos, as vivas que espicham água em vasilhas. Se vais a Portimão e às esplanadas em que as cervejas bebem turistas. Se vais ao Gerês e ao bando de peregrinos de são bento com a devoção escarrada no beiço.

Também no Sabugueiro. Alguém inventou que o casaco de cabedal era dali originário. O turismo parou. Outro imitou-o e outro e outro. Depois alguém colocou o queijo da serra ao lado do casaco. E o queijo veio dos produtores, como se nascesse aqui, e começou a circular. Depois alguém imaginou que fosse vendável, por genuíno, o cão-pastor. E outro e outro. Casaco, queijo, cão. A casa comercial abria-se deitando mão de recursos vagos ou a dinheiros de emigração. A concorrência torna-se brutal. Ao trio junta-se o bar. E para uns tantos a emigração finda. Para outros evita-se. 

O trio, casaco queijo e cão, suborna tudo, tudo sopesa aqui. Até porque cada um produz um cheiro fortíssimo. Forte como a serra. Eles assumiram a parceria, dominam as olências e as sensações. Nada lhes resiste.

Pouco importa que subas o monte fronteiriço com um desses queijos na mão e um grupo de comparsas e o esfarrapem numa algazarra de gritados e conversas atropeladas.

Nada adianta a lâmina do rio escoando-se em baixo, verberando nas raias invernias, levemente enrugado por agulhas de vento que aqui no alto rasga o rosto e além abana a cabeça das árvores.

É inútil. Mesmo o encaminhar dos grupos e dos isolados ao cemitério, que daqui aereamente se avista pejado de floreiras, quase carnavalesco de tanta cor e desenho engastados no dia de fiéis.

O casaco de pele, o queijo da serra e o cão da estrela. O casaco o queijo o cão. Com seus cheiros, seus latidos, seus sabores. O ouvido. Também o da mente. Provocando uma sensação argamassada que sobrejaz a todas as outras.

O casaco o queijo o cão. O casaco o queijo o cão. Como uma matraca. Zoando. Como uma sucessão de vagas emergindo. Como um novelo acre de ventanias.

Estonteado. Impotente. Os três personagens pisam-te. Agora só cheiro áspero. Agora só letras caligráficas: casaco queijo cão. Como o corpo voraz da oração, atrai e repele. Não há talvez o empurrão, vais ficando.

E quando foges, é em vão. Até Seia , como enxame de besouros maldito, ronda-te o sopé da nuca, dançando frente aos olhos que criaste nas costas, os três, de dentes em riste, de dentes em riso, de pernas desengonçadas, esguichando cheiros de fartum, dermoníacos, ei-los: o casaco o queijo o cão.


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fevereiro 02, 2006

Da aldeia de montanha; algumas penas



Da aldeia de montanha; algumas penas; negras




                          

             O temperamento de certas aves foi sendo sucessivamente atribuído ao género humano, por honra ou troça, sobrevindo como tipo da ave feminina que é a mulher.

            Assim, a pega foi ligada à prostituição, a pomba ao colo e à pureza, e a gralha à verborreia.

            “Ave” bate asas numa infinidade de nomes de freguesias.

            Da pomba sobram vestígios em vários topónimos: Pombal em Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães e Pombal, Pombeiro da Beira em Arganil, Pombares em Bragança, Pombeiro de Ribavizela em Felgueiras, Pombalinho em Santarém e Soure.

Da pega, voluntariamente ou não, restam vestígios em Pegarinhos, Alijó, Pega na Guarda, e Pegões e Santo Isidro de Pegões no Montijo.

Há, entre outros pássaros femininos, Vilar de Perdizes em Montalegre e Penha da Águia em Figueira de Castelo Rodrigo.

Mas é a gralha que simboliza a montanha, baptizando Gralheira em Cinfães e Gralhas em Montalegre e dando inclusive nome a uma serra.

            Gralha, essa ave negra, de porte médio, sempre zangada, emitindo sons rilhados. Devia haver tempestades delas por aqui.

            Aldeias, onde por força de guerras, primeiro, e de emigrações depois, eram povoadas de negras mulheres: beatas, viúvas e velhas.

 

            Quando se entra o interior do aglomerado que se alvejou ao longe, é como um corpo de mulher que se estripa: ruas, ruelas, muito estreitas, uma e outra, cruzam-se sucedem-se, labirinto. E outra ainda, onde pairam pessoas, preferível é retroceder por atrigança.

            São estreitinhas, nariz contra nariz dos vizinhos. No seu seio vive um ser escuro, a sombra. E assim, de pedras encostadinhas, impedem a penetração do ardor do sol e da navalha do frio.

 

            De certa forma, ainda que imperfeita, a aldeia é uma roda concêntrica. No centro a igreja, toda cercada. O cerco é completo, houve ali um ataque ao usufruto ou vizinhança de poderes seculares. À sua proximidade. Como se isso fosse uma vantagem para obter benesses celestiais. Ou como se fosse um terraço a assistir de perto a todas as preparações litúrgicas, o rodar das crianças de catequeses, os eventos. Mesmo tendo de apanhar dia e noite com as troçadas violentas do sino.

            Fora são os montes, os carvalhais, e os campos e os pastos. Aonde se levam as vacas, em jornadas ronceiras que fazem parar os carros na estrada.

            Traduzir no ar bonacheirão do Zé Dias que as tange: morreu o pastoreio, e o boi que lavrava, e o burro que também e tudo transportava. Morreu o minguado lucro da galinha e do ovo. E com a morte agrícola, nós os resistentes, os que não emigram ou regressaram já, agarramo-nos à vaca. Em pequena dose, nada que se compare aos ribatejos e alentejos. Então, viva a vaca. Porque é mais dócil que o boi, quase humana, e dá leite cós diabos!

 

            Edital: em cumprimento do Decreto-Lei n.º tantos, eu, presidente da Junta da Freguesia de tal, determino:

            Todos os possuidores de gado bovino têm o ónus de construir as respectivas cortes no terreno para o efeito cedido pela Junta , no Campo da Mó;

            Fica proibido o acesso à povoação de qualquer animal muar, bovino pou cavalar, sendo a infracção punida com a coima de cem euros;

            Todas as habitações, antigas ou arruinadas, que integrem as ruas da freguesia, que se mostrem abandonadas de seus proprietários por um período superior a cinco anos, passarão para a posse da Junta.

 

            De facto, a sobrevivência humana tende a sujar a vida, carecendo da convivência obrigatória com a latrina.

            Mas a bosta já não é sagrada, nem limpa desde que a evolução industrial a tornou inútil para tapar a fornada do pão.

            E, portanto, sobretudo a quem visita, a bosta cheira e fede. E nada tem de rústico ou idílico o quadro das vacas postadas no terreiro, gastando o tempo (além da mosca que sacodem com o rabo) a expelir, e a quem se pergunta “Que está fazendo?” e ela responde “A cagar.”

            Porque no povoamento aglomerado, uma rua tem de ter todas as casas. E as ruínas apenas servem para coito de brincadeiras infantis ou hospedagem de rapazolas que se dedicam à erva.

 

            Reter, eis o verbo que retine e ressaca do povoado como um fumo grosso.

            Reter a povoação no meio da serra. Na sua crosta e no seu cimo. Reter os que a habitam.

            Reter os de fora, que as estradas trazem até ali, não importa como.

            E isso consegue-se com técnicas e esforços de arejamento e de limpeza. Com dois brutos restaurantes/pizzaria. Com o parque das merendas, aqui favorecido por águas altas de ribeiro que, retido em albufeira, mesmo no alto verão, permite mergulhar a nuca num frio espasmo reconfortante.    

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janeiro 21, 2006

Bosquejo ...



BOSQUEJO DE ELEMENTOS COMUNS ÀS PEQUENAS FREGUESIAS DE VALE



               
Cada freguesia é uma célula com personalidade vincada, portanto, inconfundível. Mas, apesar dessa face única, determinados caracteres existem comuns a inúmeras freguesias que, não deixando embora de as individualizar, tipificam a aldeia em lato senso. Desta forma, desta direi e nestas letras outras serão lidas, ou melhor outras freguesias nestes materiais identificadas serão.

A freguesia assenta num pequeno vale verde; a igreja fica escondida numa das abas desse vale; corta-a um estradão branco, aqui e além calcetado; em redor do vale, em redor das suas vessadas das suas leiras dos seus quintais, ficam os densos montados, na quase totalidade pinhais que são uma mancha escura tapando o horizonte ao verde deslarado dos campos; mas aqui há um ribeiro, ou pequenos regatos, que no estradão originam pontes-miniatura com um ou dois metros de altura apenas; as casas aninham-se junto do vale-mãe, sobem aos grupos pelas colinas formando lugares, ou vão mesmo tresmalhadas aqui e além, como no presépio os cordeiros são dispostos; ainda estão de pé os beirais as cortes os espigueiros, ao lado dos barracões de bloco e cimento; também as medas de palha se erguem a espaços, sendo às vezes cabana; pelos campos há poças de água que são espelhos, e tanques novos de formas impensáveis anos atrás; é fecunda a existência de cães, com sua coleira e cadeado junto do ladrar incessante aos transeuntes que lhes perturbam o repouso ou a soberba.

Vejamos os ingredientes do ambiente: sol ou chuva sobre o vale e sobre as casas de rés-do-chão, a fanfarra dos rafeiros, das aves e das águas, o odor limpo e  fresco nos ares, acre na resina, pestilento nos estrumes; notas o contracenar das pessoas que trabalham ou descansam, das crianças que brincam aos gritos e dos namorados que se olham num êxtase bovino (caso seja domingo); um lavrador, de machado nos ombros, vem trocar dois dedos de conversa contigo; uma mãe pressurosa ordena a duas pequenitas que te ensinem a direcção exacta na teia-de-aranha dos carreiros; uma motorizada passa de relance, ruídos de desprezo; vultos olham-te curiosos do alpendre do portal do janelo; um atalho surge onde te apetece enveredar indefinidamente.

E, para onde vás, lá está a torre da igreja te espreitando branca, nem que seja um átomo de brancura afogado no verde dos ervais, e o sino, de longe em longe, avisa-te que, apesar de moroso e de granito, também aqui o tempo se desgasta.

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janeiro 12, 2006

Pobríncia



O HALO, A AURA, O CÍLIO, O RESPLENDOR
(Aljustrel – Ourém)



               
           A Aljustrel chega-se de dois modos: de carro pela alcatroada estrada sul mas correndo o risco de improvável estacionamento ou pelo caminho velho, já empedrado, perpassando por grupos roucos de devoção que murmurejam rosários junto aos capelos em que se simbolizam as estações calvariais de cristos crucificados.
           
O povoado é uma fila de casas lado a lado na estrada, um rio de gentes que sobe e desce, olha e mira, entra as depredadas e rústicas casas dos pastorinhos, bebe água do poço da lúcia que uma velha enche e provém sempre no mesmo copo, volta a rezar, a desfiar terços, sobe a ver o tosco pedestal do anjo em modernos casotos acrescentado, visita e compra nas inumeráveis lojas de comércio santeiro, alguns, ariscos, vão à tasca beber cervejas.

             Perante isto eu quero-me é no fundo do olival. Pelos caminhos próximos o que reclamava a vista eram os grossos novelos dos pinhais mansos e essa árvore rugosa e vermelha do sobreiro, e sua prima, a que segurou os pés da senhora, a azinheira.
           
Mas aqui o que prevalece é a oliveira, as oliveiras, desgastados olivais. Magras, enfezadas, ressequidas nos campos ressecos, mesmo assim procriam uma atmosfera  propícia. De lento oiro de azeite pairando. E acolhem o sossego, o silêncio e a reflexão.
           
Que se encaminham nestes âmbitos: estranho este calcorrear de pessoas, como rebanhos sucessivos, porque uns sobem e outros descem, isto é, cruzam-se em sentidos opostos. Dando a entender procurar o que já se deitou fora. Visível é no entanto, pelos beiços entreabertos e os túmidos olhos cerrados que obviaram ao que vieram, derivando a maioria fecundada de uma prenhez que os alcandora a altos terrenos místicos delapidantes.
           
Curioso ver estes riachos de pernas e pernas que percorrem estes caminhos, lentos, plácidos, rumorejantes, engrossando de vultos em pequeno perímetro equinocial, em detrimento de todos os outros, muitos outros.

            Porque afinal, qualquer aldeia de qualquer daqueles vultos possui caminhos mais atraentes, vessadas e campinas mais viçosas, quebradas e cenas mais complexas, e ribeiros e capelas e fontes e cruzeiros e lugares.
           
Possuem, decerto, uma profusão e variedade de poços fundos e minas e grutas; e casas  antigas, trabalhadas, portais pedrados onde se insculpem tranças e brasões, onde o barroco desenhou e arregimentou os mais fantásticos elementos vegetais ou biológicos; e cartel vário de arvoredos e matos, de passaredo bravio e batráquios ruidosos, de galináceos e suínos e gado vacum; e carreiros sombrosos sob as urqueiras e as latadas e outros que espelham batidos de oiros do sol na custosa subida dos outeiros.

            E em muitas delas, dessas terras, é viável a organização de um percurso pedestre em que o grupo, de sapata e mochila, após a visão surpresa de penedos assemelhados a vultos humanos e animalescos, e de outros que ostentam uma pia onde se guarda a chuva ou um abdómen que protege desta ou do sol canicular formando abóbadas; de águas soltas em riachos que se perdem e de outras subitamente encaixadas em leitos murados que as encaminham aos campos, ziguezagueando entre os  ervais, nos altos em que parece se vão despenhar, ou por entre os rochedos que se preciso for rasgam; e após rabejar o olho pelos densos grupos de pinho, eucalipto, austrália e carvalho; e após auferir em golfões todos os cheiros acres ou doces e todos os sons canoros e seus tons; após tudo isso, sentar na relva e na sombra, abrir o merendeiro e o apetite, e gulosos, como frades de dezanove, encher e alimentar o corpo todo que todo alimentado se torna leve como uma veste de seda.

            No caminho de Aljustrel, retomo, o rio de pessoas continua a rolar. Envolve-as o halo, a aura, o cilício, o resplendor. Porque a tarde se despede, buscando agora uns litros de concentração, calemo-nos e colemo-nos à noite e à viagem de regresso.

 

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janeiro 04, 2006

Pobríncia



BEBEDEIRA FRIA DE ÁGUA



               
            A primeira vez que se enterra o corpo na água da piscina, só por pudor não se concerta uma reacção viva, orquestrada em gestos desabridos e gritos roucos que, no entanto, incomodaria os presentes, quase todos estrangeiros e que, aliás, haviam entrado familiarmente nas águas.
           
Frias, muito frias, surpreendentemente frias. De que não havera aviso prévio. E após duas braçadas, sentado na borda, passamos à análise da situação: de facto, a água escorre de um tanque a que se sobrepõe uma mina natural, e é esta que fornece a linfa. Depois, mentalizado o corpo pela mente, a água torna-se amante, apenas havendo que recorrer a ausências pontuais, em que se esmurra a carcaça orgânica sobre a relva e sob a sombra dos arbustos estratégicos.
           
De facto, quando a pedra do estio aquece o solo e esquenta a cabeça, onde quer que se esteja, que melhor bálsamo que esta água fresca abeirada da sombra relvosa? Porque a praia se detém enxameada e inclemente, e porque as águas mornas de outras piscinas não atingem o cáustico do contraste.

            E assim se levanta cada um de nós da manhã terminada, de corpo e ânimo leve, quase inexistente, rumo ao almoço na vila. Onde se faz uma aproximação acre à água fria, através dos grelhados, dos molhos específicos, do gás acerbo da bebida.
           
Que acende um redemoinho de torpor que remete ao remanso do quarto. Onde nos espera de lábios macios o repouso, o livro insidioso, o balanceado rodear de uma música.

            Mas os mais novos não permitem a manutenção da concha do sossego, quando se vê a brasa do sol queimar as videiras na janela.
           
E é o regresso à relva onde a sombra já está quase toda ocupada e é forçoso rebuscar sítio mais acima. E é sobretudo a entrada na manta fria da água, fria ainda e que o calor dos dias não obtém aquecer, porque se reforça permanentemente libertando o volume excedente à custa da que escorre da larga boca aberta no cerro fronteiriço.
           
É um frio em mesmo tempo brutal e amorável, como dedos que se insinuam na pele, afectam inclusive a planta dos pés e a penugenta bola da nuca. E assim frias se engarrafam as horas.

            Em volta, próximos, estão outros cambiantes que aproveitam ao engaste do contraste destas águas de gelo.
           
Manifesta-se por saltadas às amêijoas empilhadas da Nazaré, aos lustres candelabrais nos frescos tectos das grutas de Alvados, à pesquisa medieval ao castelo no morro da vila, o passeio rugoso em que a cabeça se centra nos pés pelos montes fronteiros e pelo pó dos leitos secos das ribeiras. E ainda a manifestação de campos e espécies vegetais, as perguntas improfícuas sobre os docinhos de Alcobaça, o churrasco e a passagem lá no moinho lá no morro alto afigurando-se inebriante lua-de-mel com filhos.

            Na noite que se desenvolve a água escorre para a piscina com um som frio. A que se junta um leve erguer de vento. Sentamo-nos no muro que se situa entre a água e a mina que a gera, gasta-se demoradamente um cigarro. O rumor surdo dos insectos levanta patas sobrelevando-se, as negridões das árvores esbatem no espaço fundo de poço. A envolvência abraça-nos e oprime-nos.
           
E aproveitando o recolher do resto de família, empurrados pelo decurso dos dias que também escorreram, e pela falta de condições nos quartos sobrelotados, espiando um pouco, é ali mesmo, rente ao cacarejar da água, procurando freneticamente posições, de joelhos feridos e mãos perfuradas por grãos de areia, que a relação sexual, uma entre as mais, se consuma e deslaça.

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dezembro 22, 2005

Pobríncia



VILAS COVAS
(VARIAÇÕES - ITINERÁRIO)



               
           

O nome que define uma freguesia é carismático, como o das pessoas. Daí que essa definição possa encerrar o cerne do retrato a que dá nome, mas pode levar também à sua total deturpação. Até porque a simples designação, sendo em determinada altura o espelho dos sítios que refere, é susceptível de ser estilhaçado pela marcha das gerações.
          Assim, o que te diz Vila Cova, a priori? Lembra-te os buracos em que se plantam vides, a lura dos coelhos ou mais ainda da raposa, um súbito fugir da terra se vais na noite, o coveiro com sua enxada, e outras coisas assim esburacadas. Mas, sobretudo, decidirás que o nome não é nada airoso e se deve tratar de um povo rude enterrado lá pra trás dos pinhais. 

Mas tu tens uma vantagem: na memória, pedalas na estrada, e há uma placa onde lês: VILA COVA. É uma placa a preto e branco e da mesma cor tudo o que do sítio reténs: estrada, farrapos de campos, algumas telhas e já não sabes se pessoa ou cão algum passa por ti. Os pinhais sobem e são negros, o alcatrão também e cola a roda em jeito de íman. E só isso: a placa, como uma cruz a sagrar o flash-back a preto e branco nas covas da memória.

Há certos montes marcados pela vida dos mortos: é uma presença dura, de pedras amontoadas, de negras veias indubitavelmente carregadas de trabalho. O ambiente completa-se com a nudez do solo alto, os incêndios agora pretos do último verão, e os rebanhos de penedos onde o vento assobia rouco e fundo.
           Neste monte, os olhos ficam-te nos montinhos de pedras redondas e o filme acontece: há ali mãos antigas em suor, e o ruído do ferro é nítido nos teus ouvidos: assim construíam os castros agora destruídos em que consumiam a vida e nos quais se encovavam à espreita do inimigo. E tudo era alto e pesado.

Desce o olhar até à aba do monte, onde o horizonte se abre para os  fundos: haverá meia-dúzia de leiras, meia-dúzia de choupanas, meia-dúzia de casas, meia-dúzia de caminhos esbranquiçados: aqui e além um vulto escuro está debruçado sobre o trabalho, um fio azul de fumo cresce e esfarrapa-se: esse é o quadro monótono que topas das colinas.
           Mas não, em segundos a visão se transfigura e fica diáfana e verde. “Verde” é a palavra que te salta nos lábios, como um coelho aflito. Lá em baixo o verde é o só personagem que te fala no olhar ainda aturdido: o verde deitado, retalhado, gordo dos campos em tons claro-escuros; o verde negro dos pinheiros que trepam as encostas em derredor; o verde tenro e esbracejante das primeiras folhas nas árvores; o verde humano das pessoas e o verde branco dos caminhos, que não vês porque o verde tudo tapa e num redondo e verde vale te transformas. Bebes a jorros essa terra verde, como se fosses vulcão esfaimado, a cova enorme com seus mil dentes e lábios confundidos.

Mas, afinal, aonde a justificação do nome encovado aplicado a este lençol verde? Mas é evidente: plantada bem no fundo, a aldeia é rodeada de altos montes. Daí toda a verdura fecunda e prenhe que é o seu corpo: as colinas abrigam-na das ventanias, fornecem-lhe toda a água (ou sangue) de que precisa, com excessos invernis que enlamaçam os caminhos, e dão ainda tojo e giesta para a cabra e lenha para a lareira; de leste o sol entra novo e ainda fresco, à hora dos melros, e pelo dia fora aquece o vale como galinha à ninhada; é, ainda, previsível que o poente seja precoce, e o escurecer (tempo de confidências, de calmas e miragens) se instale ainda o mais alto monte vizinho é amarelo e aceso. E assim uma vida verde da cova se ergue e voa.

Deixo Vila Cova com uma previsão de fogo: desgraçado de quem aqui vier na altura dos milhos maduros, dos largos e grandes sóis do estio, dos ares zumbindo como variegados enxames em fuga, altura em que tudo isto será uma cova loira, doirada, enrubescida e outras coisas de oiro e lume: arderá.

A quem ler permito-me um conselho: se um dia for a Vila Cova e nada disto encontrar, perdoe: quem escreve, abraça, por vezes, a profissão inversa do coveiro: retira tesouros e luz de covas que os não possuem nem merecem.   

NOTA:
Com o nome de Vila Cova, a que é dedicado este texto, há 4 freguesias: nos concelhos de Barcelos, Fafe, Penafiel e Vila Real.
Mas há outras Vilas Covas, a que o texto também pode assentar: Vila Cova a Coelheira em Seia e Vila Nova de Paiva, Vila Cova de Alva (Arganil), Vila Cova de Carros (Paredes), Vila Cova do Covelo (Penalva do Castelo), Vila Cova de Perrinho (Vale de Cambra).
Há, ainda, Vila Cova da Lixa (Felgueiras).
O topónimo “Vila”, como é sabido, integra a designação de uma infinidade de freguesias.
Mas “Cova” é também bastante comum. Há uma freguesia que se chama exactamente assim em Vieira do Minho. Há freguesias denominadas “Covas” em Lousada, Tábua, Vila Nova de Cerveira e Vila Verde. E há, ainda, Cova da Piedade (Almada), Várzea Cova (Fafe), São Pedro da Cova (Gondomar), Covas do Barroso (Boticas), Covas do Douro (Sabrosa) e Covas do Rio (São Pedro do Sul).
E, registe-se, o vocábulo “Cova” pode ser parte integrante de uma nova designação, pode assumir variantes e inclusivamente o masculino. Veja-se: Carralcova (Arcos de Valdevez), Penacova (Felgueiras e Penacova), Covoada (Ponta Delgada), Covelas (Trofa), Porto Covo (Sines) e Covão do Lobo (Vagos).

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dezembro 04, 2005

Pobríncia



A ETERNIDADE DA PEDRA, NÃO, DA PERNA
(Santa Marta de Portuzelo - Viana do Castelo)




               

         Desde muito jovem começou a ressoar em nossos ouvidos o nome Portuzelo. Vinha da rádio, primeiro a harmonia brejeira de acordeões, cavaquinhos e ferrinhos, depois a voz de grosso, másculo, em seguida a feminina como cálida em bica e por fim o coro… o coro… que tudo envolvia e suplantava.

         Todo esse mosto se esculpia depois na fotografia, que ilustrava os singles e os LP’s, em que fulgurava rubro de tons o Rancho Folclórico. Ao som do qual se gastavam os restos da tarde semanal e se pulava, entre suor e abraços, nos bailaricos da noite que afinal chegava no final de semana.

         Por fim, tudo se cristalizou e riu e engrinaldou, sangria de sons e cores e rodapés, sobre o tablado dos coretos e outros palcos improvisados. De todo aquele resplendor ressaltavam, como cantarinhas, as raparigas bailadeiras. Loiras, espadaúdas, de ancas maleáveis e dorso imarcescível, faziam caracolar cabelos e peitos e os cordões de oiro cujo som já não sobrevinha. Mas, saindo do roldão de saias e rendas, como golfinho do centro de águas, brancas rosadas e roliças, como pedaços redondos de mármore, emergiam as pernas. Delas.

 

         O dia raiou, entre sol, em que o poster ascendeu à realidade. Místico, quase, o primeiro passo de pernas de carne sobre terrenos de Portuzelo.

         Estar próximo da pedra viva, que se transfere do postal para a tua frente, erguer o pescoço para o granito que circunda o sino da igreja, andar à roda do pelourinho onde não estão agora sentadas as raparigas mas pô-las lá, encher os olhos com o verde e a planície que rodeia a povoação.

E, transitando da fotografia para o agora, ressaltando da imagem para o acto palpável, eis que o pelourinho e o terreiro e a igreja e a povoação todos estão à mão. Nas mãos. As formas são as mesmas, já haviam coagulado, mas agora incham, são pedras vivas, pessoas quase, saúdam-te, têm pernas, atmosfera e odor, pulsam em seu sangue. Adquirem o volume certo, exsudam, abraçam-te. Possuem agora o calor dos ares, a suavidade da tarde, o declive lento do horizonte. De planície em que se emborcam.

 

 

          Passadas, lentas, rumo à mercearia, à missa, vão as mulheres, as raparigas. Despidas da majestade das roupas acolchoadas, das gargantilhas em redor do pescoço, reduzidas a uma saia comum, exibindo pernas que se adelgaçam, quadris que encolhem, todo um formato idêntico ao de outros sítios. Despidas mas não ainda despidas.

          Porque provavelmente casaram e entraram em velhice aquelas moças loiras e pujantes do rancho. Mas este permanece, com outras raparigaças, ainda fôlegas ou ruivas, atirando coxas brancas contra os olhares de festas e romarias.

          E quase dirias que são as mesmas. Ou uma reprodução fiel e não ambígua das primeiras. Que tresandam mais ainda a um ardor sexual que oprime e quase obriga a violentar. Nem que seja sentimentos ou instintos. Porque deveras tudo darias para poder poisar, ainda que por instante, lábios naquelas coxas. Férteis, decerto, mas de desejo.

          De tal forma que repetes a conjugação: se volvesses aos vinte anos casarias com uma delas. Juramento inócuo, decerto. Igual aos que se extremaram e desaguaram nos ventos de outros dias em que declaraste intimamente fazer algo análogo, assumir casamento retroactivo e improvável com uma italiana, ou japonesa, ou brasileira.   

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outubro 30, 2005

Pobríncia



O QUE LISBOA NÃO É



               

             

            Num livro de poemas que, infelizmente, não aglutinou notoriedade, Alberto de Serpa definiu lapidarmente e para sempre o conceito de provincianas terras: “Lisboa é longe”.

            Mas além das distâncias que Lisboa antepõe à quase totalidade do resto do país, há outras distâncias que são antepostas por quem nela entra: porque transporta vivências visceralmente opostas, quando não antagónicas. Se o povoréu já se instalou no imensíssimo terreiro de Fátima como se estivesse em sua courela, mostra-se absolutamente inepto para romper as barreiras das grandes cidades.

            À capital vamos agora enviar um desses personagens, que nos vai provar exemplarmente o que Lisboa não é, ou então o que Lisboa é uma vez apenas e de raspão.

            A primeira vez que coloca os pés em Lisboa é tomado de pânico, susto e constrangimento aturdido. Os rios de pessoas e vozes que desaguam de Santa Apolónia e de todos os quadrantes, o rio quase mar com enormes navios, a chusma de carros ganindo em arranques travões, o roldão de gente contra nós na Rua do Ouro, no Marquês e no Rossio, a ponte que não mais acaba altíssima e altíssimo, de tonturas, o Cristo-Rei a que cedeu a subida, tudo o embrutece, tudo o atormenta, tudo o empurra.

            Quando pela vez segunda volta fá-lo em serviço, com um colega de trabalho. Que angariou o obséquio de obter pensão privilegiada, empreita a cargo de empregado de café ali à Praça de Camões. Ao chegar à praça já noite, há grupos tagarelas pelos bancos, o epopeico enegrece no centro cavalgado pelos pombos, atravessam o deprimente cenário em direcção ao tal café. Onde se processam anunciações de fim de faina e o tal empregado, visado pelo nome, declara de nada ter conhecimento. Mas atendendo, já no exterior, enquanto aponta a streep que se desloca a espectáculo idêntico a outros que ele já presenciou, promete indagar na hospedaria onde mantém dormida. Avançam pela praça e logo ali na Rua da Horta Seca (bucólico e premonitório nome) penetram em escuro umbral de que caem gotas de água. Subindo o escadario, são apresentados ao casal gerente, papagaios e entradotes que, um pouco enfadados, informam dispor de quartos mas não poder levar menos de três contos. O preço é irrisório, um dos dois amigos, mirando-se complacente, precipitadamente declara que o problema não é dinheiro. O que desenha surpresa no rosto do hóspede que os trouxera. Então é-lhes apresentado um terceiro personagem, mulato e barbaçudo, que inculca estarem num ninho de retornados, a que intitulam de Dr. Guedes. Então sobem o resto do edifício, com rangências e tropeções escuros, atravessam um corredor donde se avista o profundo saguão das traseiras e vistoria o quarto reles que, pelo adiantado da hora, aceitam. Então, surge-lhes o Dr. Guedes, açodado e simpaticão, sobraçando os cobertores e as almofadas, e muito delicado pedindo desculpas pela ausência de conforto. Por fim é dormir, dormir não, permanecer a noite toda naquela horizontal tortura de não saber: se se deve manter de costas ou de borco ou de lado, de forma a que o facalhão que porventura viesse não penetrasse mortal o coração. Mas o facalhão não veio, veio a manhã.

            Não há duas sem três e desta, arrumada a missão por hora do meio-dia, desloca-se com a filha à procura de restaurante. É um restolho de ruas merceeiras, depois aportam a outras mais largas e viajadas, passam a rua da Amália conforme lhes alvitrou o taxista, defrontam a Assembleia da República sem selo de deputados. E um pormenor se vai acastelando: ao lado das tascas que lhes desagradam, da população cosmopolita de africas e ásias, derrapa uma visão de prédios em ruínas. Escuros e desorbitados, alguns com grandes e nobres traços, provocam uma impressão de náusea. E apesar da hora, desatam a desfilar, fugindo e buscando tacho ali para as bandas do Cartaxo.

            E ainda uma última vez, a quarta. Um trabalhão para localizar o Palácio das Galveias, quase perdendo o evento de divulgação de uma colectânea de versos medíocres pela Minerva. Tinha garantido aos familiares que o que mais havia ali por Alvalade era restaurantes. Pois. Mas eram dez da noite quando encontraram, rotos os pés de paciência, um come-e-bebe enfaixado no bairro, onde comeram mal e pagaram bem. Saíram dali, fulos e directos para a A1.        

Publicado por barbant em 08:33 PM

outubro 19, 2005

Pobríncia



HETERONISMOS PLURAIS
RIO DE ONOR (BRAGANÇA)



               

           Com uma comichão nos olhos, devida pelo roçagar de imagens sobrepostas, o rio acanhado e sombro e depois amplo e loiro, o povo a deslado, o espanhol nas costas e a campagem em frente, recolho-me sentado nesta avenida em fundo como miradouro inusual. 

            Recolho-me não, que o formigar de outras imagens, no interior, faz oscilar e estilhaçar toda a doçura que a vir buscava como sustento e espelho. E então, eu, me transformo e volvo, sorvido e gasto em teatros outros que decorreram já de eventualidade, verdadeira por o ser ou de tão persistentemente fingida.

            E sou os magotes de pessoas que se espalham nesta encosta atraente de matos, ora rebuscando as lenhas que estalam nos ossos dos gravetos, ora perseguindo irmanadas no cão o coelho saltitante e o bojudo porco-bravo, por fim alapados de roda enquanto a sardinha, espetada, se deixa assar para o florete da broa e do vinho.

            Desço aos campos, vamos comunais a um de cada vez, amplio-me na força dos homens que arremessam apetrechos, na garridez das mulheres em que pele penugenta espreita do excesso de roupas, no sensual crepitar de uma perna entremostra ou dum fio de cabelo das raparigas, no braço morenaço de músculos que tange os bois, nos jarretes fincados que preparam as eiras.

            É de canseira o tempo todo, só umas résteas de horas nos permitem que nos alapardemos no meio das tardes de domingo, trocando saudações, vasculhando casos de vida, orientando os interesses particulares no mar chão dos globais, enterrando o dedo em vícios, quedas ou desagravos que ocorreram de mãos que do alto sobraram ou do escuro. Também a “sueca” levanta exclamações no crepitar da tarde, as cartas estão gastas mas não o ímpeto de as atirar no banquelho, e quando a boca já dói seca e resseca surge sempre uma mulher que transporta encapochada a caneca de barro onde um rubro líquido sangrento nos torna outros.     

            A noitinha afoga tudo, vou pelos casais engolir a ceia, programar o dia de trabalho de amanhã, jungir corpos agarrados, de velhos e adultos e  ex-noivos, também a criançada em que dormem os três e quatro e cinco irmãos ajustados, disponho-me a ouvir por uns minutos o ruminar do gado nas lojas e o latir zangado dos cães lá fora.

           

            Dormindo todos, emborco-me todo no rapazola que atravessa a ponte em silêncio quase aflito, visto a moça espanhola que, pujante de roupas, atravessa para o lado português, e encontro-me em ambos no mais negro das sombras, por trás dos juncos.  

            Provavelmente, as águas espelham e rumorejam, os bichos da noite rabeiam ruidosos, as hastes todas se curvam de leve na forquilha do vento. Provavelmente.

            Mas apenas sou mãos que afastam roupas e roupas que se deixam afastar expondo carnes, lábios que se mordem grossos e outros que se entreabrem húmidos, perna que se arqueia contra o chão e pernas que se abrem na horizontal, a dureza do músculo e a flacidez da polpa, a força prepotente de um peito que se atreve e o arfar convulso e inquieto do que se deixa encostar.

            No rosto da lua, os seios evanescem mais brancos, nada valem para mim sem tuas mãos e são tesouro nas minhas, precisam de dedos para viver e deles os dedos precisam para estalar a ânsia, sulcos de arado os que me feres fundo e os que em ti afundo. Fácil se torna agora a reprodução do acto, porque as peças dos organismos se encaixam, os corpos fundem-se num só, depois desaparecem subjugados por alentos do exterior, isto é, do que se entrevê ou sonha: um calor de febre que devora entranhas e o som surdo que se expele por poros e bocas chocadas ou soltas.

 

            Cai a madrugada e o sono sobre a paisagem. Apenas eu velo. Rasgado no corpo todo da mente. Porque do que foi vivido antes, e por mim agora, escorrem todas as silvas da dúvida. E sobretudo, o dilucidar do vácuo: a angústia de ter sido todos sem nenhum ser (e o desejo maior revolve-me na moça espanhola), e mais ainda o desespero de não concluir nunca da vantagem de ter vivido todos ou ao menos um ou de ter sido mero espectador de um e de todos.   

Publicado por barbant em 11:17 PM

outubro 08, 2005

Pobríncia



O RIO FANTÁSTICO



               

              Quando atinges a última rua, marginal, e sentes o mar próximo pelo cheiro, encontras de permeio dois obstáculos: uma colina de areia, fácil de retaguardar apesar dos pés enterrados, e, surpresa das surpresas, um rio. A que já estão apostos os barcos a motor, onde te apinhas sob a gralhada violenta dos turistas, depondo-te próximo do areal e obrigando-te a molhar desde já os pés. E a mostrar as pernas às mulheres que se propuseram aparecer de saias vestidas. Que agora vestem o ambiente de pequenos gritos passarais.

             A areia é dócil, estendes a toalha, ergues o guarda-sol e engorduras a pele toda com óleos que protegem do sol africano. Deitas o rabo-do-olho: atrás as cabanas típicas, de madeirame escuro, corroborrando o nome da povoação; aos lados, no branco alagado da praia, os bustos quase imobilizados; ao sopé, seios que se desnudam, alguns franceses e espanhóis pela fala que se solta um pouco acima deles.

            E quando entramos na água, tinhas razão. É macia e morna, não tem arrepiamentos de frio, e avanças, avanças, sempre com pé, quase até outros barcos que roubam marisco num ronco monótono.

            Ali permaneces como anfíbio, enquanto a areia diminui pelo afluimento de corpos, mas o espaço se debita imenso, em águas e praias que se estendem, esbarrando o olhar apenas no verde redondo de um tufo de pinheiros mansos.

 

            E quando regressas, regressa a surpresa, o rio tinha desaparecido. É um enorme leito de rio todo desnudado, apenas areia húmida onde a conquilha, parente da amêijoa, ou as cascas dela, arranham os pés descalços. Não há rochas, nem peixes, nem seixos, nem salgueiros, nem juncos, nem esconderijos e grutas no muro que sustém o rio junto à povoação. Apenas alguns vultos curvos, usando o pé e ténues instrumentos, enchendo bolsas de marisco.

            Decididas, esclarecidas, as cabeças loiras arremetem em passadas seguras, deixando transparecer risos que não chegamos a decifrar se resultam das cócegas do chão ou de ânimos decorrentes da jovialidade confraternizante dos grupos.

 

            E quando regressas do almoço e te dispões a uma corrida atravessante, eis que o rio voltou com suas águas limpas e tens de usar o barco a motor e o dinheiro.

            De novo o mar adocicado, um outro mar, de gente, que esconde uma parte considerável de areia, ou nadeja, ou se agarra a cordames que protegem das ondas agora mais vorazes.

            Inventam-se intervalos, passeios pela praia além, fazendo levantar as gaivotas que desfilam como banhistas, ou fugir rudemente assustados bandos de caranguejos que se encafuam nas gretas das rochas em que se abeberavam de sol.

            Aparecem os vendedores e, além de bebidas gélidas e dos próprios gelados, surge um rapaz moreno com um cabaz cheio de bolas-de-berlim. Compras uma perante o riso do amigo: de facto, não têm creme, apenas farinha e açúcar, mas o sabor, sem que se investiguem motivos, é esplêndido. De tal modo que o rapaz esgota o stock e volta mais tarde com a escudeta outra vez repleta.

 

            E no regresso da tardinha, o rio metamórfico (que, afinal, é a Ria Formosa) engendra mais uma surpresa. Não está tão cheio que permita o uso do barco, mas mantém alguns palmos de água.

            Com as hesitações de algumas mulheres e os sustos gritinhados dos que vão entrando, mergulhas também nas águas que vais rasgando. E rasgam-se também conversas bruscas, porque a situação é deveras inóspita.

            O olhar não resiste às coxas que, desinteressantes na praia, agora explodem de vermelho desejo sob as saias que se arregaçam, até à cinta, até à cinta, até à calcinha ou ao bikini, os corpos oscilam, as gargalhadas inclinam-nos, há uma saia que cai e logo se levanta mas já escorrendo água.

            Água, deste rio, que sem surpresa vai escorrer na memória.

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setembro 28, 2005

Pobríncia



TRÍPTICO: ANIMAL, VEGETAL E HUMANO

(BEMPOSTA – MOGADOURO)




               

1
A COLOCAÇÃO DA PAISAGEM, CARPA

Despejados ali por mão e mor da carrinha. No reino do escuro variando a cinzento. Adonde o feitiço, já breve. Restos de insectos nocturnos. Uma vara de frio, esguia, sua língua entra as frinchas do corpo. Da lagoa, alargado poço negro, a carpa sem espuma explode na água. Na cabeça.

Revérbero. Trava-se a  luta. A luz ainda apenas fragmentos de asa de borboleta. Baixa a garganta dos  insectos. E das rãs. O escuro está perdido de morte. Também o frio começa a tremer. Cadáver que deixa de o ser, voa. Num estertor. Quase inapercebido.

Só luaceiro de hóstia, amarelão pálido, gotas, ferradura, meia-lua a arder, lume inteiro, roda, o sol. Os pinheiros, verdes, as águas, pratas, os ares, brasas. Partos. Almoço para  os olhos. Aconchego, quente. Mais quente. Olha ali a sombra. Que surdiu sem patas, fora raposa.

Fio invisível, quase, a cana estremece sem motivo, pequenos elementos enrodilhados e do rio todo sai a carpa. Tal as de outros dias actua no palco, acto imprescindível ao orgasmo do que pesca. Mão côncava, brutal, aperta-lhe o dorso, mulher violada sem voz.

Cansado, desistido, aparentemente dócil e conforme, o peixe. Humidez, oval forma, olhos de carneiro. Objecto inútil e consumado, no camaroeiro esconde-se. A paisagem fecha-se. Pálpebra.

 

2

A DO ZIMBRO, COPA  

A água é redonda, o montado arredonda-se, cada salto piscífero provoca rodas, o sol, o sol, o som contra as vertentes dos pássaros.

Mas redondo, copado, o pinheiro, os pinheiros. Obra fechada, hermética, pregada na encosta.

Não é cedro, mas aparentado. Isto é árvore importada dos países nórdicos.

Recorrendo à investigação, evitando recurso aos residentes, detecta-se que este pinheiro nem cedro é: mas zimbro.

 

Para destruir a paisagem, sua harmonia, fazer a desmontagem, é forçosa a aproximação. O terreno resvala, o restevo pica, mas mais hostil é o dito “pinheiro”.

Eriçado, de agulhas, de unhas, de garras, com subtileza provoca o sanguinho que goteja. Sem pinhas mas baga. Resinosa apesar.

 Penetrar nessa casa, invadir o interior, perfurar o ventrículo da sombra. Não, a pontiaguda folha riça não o permite, arranha o rosto, impede o braço. O ser humano é insistente, violenta a violência resistente, entra protegendo o olhar.

 Seco tudo, acastanhado, deplorável, musculoso de aromas ácidos. Segunda vez a imagem se estilhaça.

 

          Afinal sobe um gaio que transparece, igualzinho aos que guarda da memória. Mas a atonia ergue-se de poderosas patas. Colocar-se no seu encalço. Como depositar ninho sem frança? Adaptar pernas, garras, bico, a este arbusto. Ou ser outro. Apreciando o verde movediço do cocuruto. Ou deixar-se esconder no túnel interior. Plasmático. Abdicando de gestos noutros locais plantados. Irmãos.

 

3  
A FOGUEIRA; FAZ-SE

Coloca-se o lume na orla da lagoa, abrigado do cerro sobranceiro que também deu a lenha. Milagre doravante: as chamas rentes da água, a labareda próxima das pernas sem direito a queimaduras, as línguas de fogo que se evaporam depositando a brasa. Quase compacta.

A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado.

A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio.

A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas.

A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. 

A fogueira: faz-se de palavras, troar delas, exaltadas, contrastantes, eufóricas, agudas como silvos e arremessadas como pedras. A teia do caos. Visando a harmónica degustação. 

A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só.

Publicado por barbant em 04:50 PM | Comentários (2)

setembro 18, 2005

Pobríncia



DAS SIGLAS: DECIFRAÇÃO



               

         Cada local, sítio ou terra vive ou transmite uma própria atmosfera. De indiferença ou desencanto, de atracção ou repulsa, muita vez cada um de nós aguça como uma tuberculose o estro que apenas perpassa ou jaz depositado.

Aqui, descendo para a negra igreja que se recorta no arvoredo das montanhas, ali na quebrada, um só sentimento assoma: a melancolia.

Quer venha encostada à cinza esparsa que ressuma da chuva caindo de alto, quer ondeie em vago torpor outonal, quer coalhe como órgão arrancado no parado ar do estio.

Como se, aliada a todos os centros que denota a escolha do local, fosse esta também estratégia dos dois frades que um dia ergueram o depois monumento nacional.

 

Aliado fiel, lacaio da melancolia, resta o silêncio. Espetado no telhado, nos nichos, nas cachorradas, na cruz, horizontal em todo o solo rodeante. Inchado nos ciprestes, ambos, que setas verdes, varam os céus. Silêncio que em tempos idos se procurava para encostar o peito e de que hoje se foge. Até o padre desarvorou, caindo em pedaços a bela casa paroquial, onde penetras familiarmente para espreitar o silêncio dos quartos, das escadas e das lojas.

 

Indiferente a humanas mutações, e não cuidando agora de pombas e pardais que ilustram as grandes cidades, o pássaro permanece. Arrepiando a pele do silêncio com seus pios, canoros ou lancinantes. Nada tendo a ver com a equação do templo. E tendo topado uma breve cova no lado direito da frontaria, sobre o lado da porta principal, aí colocou o ninho como um ornamento vivo.

 

Sobre a porta, todo trabalhado, está o arco de pedra. Belo, mas imperfeito, o que dá um ar de troça ao nacional monumento. As pedras não encaixam, a esquadria falha, a extensão é maior de um dos lados, qualquer aluno de arquitectura se arrepela.

Sentamo-nos no muro fronteiro e ouvimos os frades altercar, vociferar. Entre si e com os artífices que enxameiam e olham destroçados a grande pedra sobreposta. Chovem os impropérios. Mas seria trabalho de muito dia reestruturar tudo de novo, envolvendo à mistura risco de vidas.

 

 Contra o silêncio se batem determinados gestos. As siglas, como uma assinatura, esforçam por perpetuar personagens que se afogaram. Resiste porque o desenho foi esculpido na pedra.

Mas há outros desenhos que se apagaram. Como o daquela tarde outoniça em que o frade mais baixo, tendo penetrado subtilmente aos lameirais, surpreendeu a Zefa da Fonte, forte raparigaça, debruçada para o rego de água e bebendo a longos sorvos.

Aproximou-se sobre sandálias sem voz e sentou-se a seu lado sem que ela se apercebesse. Ela mergulhou de novo a boca nas águas e quando se soerguia, cansada, resfolegando, foi agarrada com firmeza. Apesar de bem constituída, estava enfraquecida do esforço e não pode impedir que ele a submetesse. Extenuada, nem sequer conseguiu gritar, sentindo os braços dele que a amarravam e o rosto, um pouco hirsuto, que lhe beijava bravamente o pescoço, o cabelo e as espáduas. E quando a mão direita lhe levantou os vestidos e as coxas, e quando depois em peso a voltou de barriga para cima, ela já nada podia fazer, tonta. A não ser entregar-se.

Porque o silêncio de pedra, água e ventos, irmanado a outros de rezas e sacrifícios e vigílias, criava um contraste fortíssimo para apetites corporais. Que, por vezes, se consumavam entrelaçados pelo acaso, quase impostos pela natureza, e em que dois seres se omitiam absolutamente de consequências.

 

Cai a noitinha. Um alanzoar de cães alastra pelos lugares. São latidos, gritados e aflitos como se postos perante perigo. Um canzarrão mais grosso abafa os outros: como se os comesse. Mas eles insistem nervosos, prorrompem um concerto desconexo.

E quando a noite se fecha um frémito vibra. Como se um mundo de larva tivesse acordado. Lembra a torre da Barbela*, onde os mortos vivem de noite, passeando-se no Jardim do Buxo. É um frémito que esvoaça apoiando as patas nos rumos de águas e ventos, que produz um rosto de frio e temor.

Na igreja, um dos nichos mostra dois corpos que se abraçam (serão os dois frades?), escurecidos. Mas do seu vulto escuro pareceu luzir um arreganhar de dentes. Pareceu… Breves, subtis, raios faíscam no fundo do escuro, talvez ramos que se chocam eléctricos. Juro, eu vi. E de repente e de surpresa um cisco arranha-te a orelha. Toque raspado como de asa de morcego.

É melhor ir embora. Imagine-se a decifração da última sigla, quando a noite der em madrugada morta.