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SEIS
CEREJAS PARA UM VERMELHO SABOR
No Douro que entra pela Beira a
etimologia topográfica adquire um sabor pesado e arcaizante. E é
perturbadora a evolução dos termos, obscurecendo as raízes iniciais,
a decifração do sentido. Além do peso semântico, robusto e maciço,
que as designações assumem, sobretudo quando ousamos pronunciar alto o
som dos seus nomes. |
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Tinham-lhe enviado o nome, que, ensarilhado noutros, ressumava
povoados antigos, arcaicos, machos, resistentes, mas, no entanto,
desverdeados e prostituídos pelos turismos vigentes.
No entanto, perscrutando sob a chuva suspensa e iminente, não se vislumbram vestígios do tal parque de campismo. E, consultada a placa, os dizeres que constam não são consonantes. De facto, sendo este torrão molde arquétipo de terras morgadinhícas, não desfruta decerto das atracções que pudessem cativar exigências turísticas. Pelo que, há que avançar, começando a descer outra encosta, íngreme, visionando ao longe gordo rio, deduzindo-se que ali é que é. E de facto, já quase na ponte avantajada, surge o parque repleto de tendas, encostadas aos pinheiros vetustos, e os habitantes que por ali rabeiam.
Afinal aliviou, o que permitiu atingir o carro, após inúmeros escorregões nas ervas engordadas de água e nas terras tornadas lamas. E após um singular jantar, cicatrizar o regresso, enfrentar a estrada, a noite e a tempestade que se instalaram de vez.
Irmanando-nos, de novo, ao Inverno genuíno, de que sofreram os
“dois viandantes”. |
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O casaco o queijo o cão. (Sabugueiro – Seia)
Estonteado.
Se vais a Barcelos e os milhares de galos de barro rubro avistas e
outros róseos artesanários. Se vais a Fátima e os biliões de nossas
senhoras registas e o alarido de santos e santas do paraíso. Se vais à
Nazaré e às pilhas de amêijoa suas cascas em pires côncavos, as
vivas que espicham água Também no Sabugueiro. Alguém inventou que o casaco de cabedal era dali originário. O turismo parou. Outro imitou-o e outro e outro. Depois alguém colocou o queijo da serra ao lado do casaco. E o queijo veio dos produtores, como se nascesse aqui, e começou a circular. Depois alguém imaginou que fosse vendável, por genuíno, o cão-pastor. E outro e outro. Casaco, queijo, cão. A casa comercial abria-se deitando mão de recursos vagos ou a dinheiros de emigração. A concorrência torna-se brutal. Ao trio junta-se o bar. E para uns tantos a emigração finda. Para outros evita-se. O trio, casaco queijo e cão, suborna tudo, tudo sopesa aqui. Até porque cada um produz um cheiro fortíssimo. Forte como a serra. Eles assumiram a parceria, dominam as olências e as sensações. Nada lhes resiste. Pouco importa que subas o monte fronteiriço com um desses queijos na mão e um grupo de comparsas e o esfarrapem numa algazarra de gritados e conversas atropeladas. Nada adianta a lâmina do rio escoando-se em baixo, verberando nas raias invernias, levemente enrugado por agulhas de vento que aqui no alto rasga o rosto e além abana a cabeça das árvores. É inútil. Mesmo o encaminhar dos grupos e dos isolados ao cemitério, que daqui aereamente se avista pejado de floreiras, quase carnavalesco de tanta cor e desenho engastados no dia de fiéis. O casaco de pele, o queijo da serra e o cão da estrela. O casaco o queijo o cão. Com seus cheiros, seus latidos, seus sabores. O ouvido. Também o da mente. Provocando uma sensação argamassada que sobrejaz a todas as outras. O casaco o queijo o cão. O casaco o queijo o cão. Como uma matraca. Zoando. Como uma sucessão de vagas emergindo. Como um novelo acre de ventanias. Estonteado. Impotente. Os três personagens pisam-te. Agora só cheiro áspero. Agora só letras caligráficas: casaco queijo cão. Como o corpo voraz da oração, atrai e repele. Não há talvez o empurrão, vais ficando. E
quando foges, é |
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O temperamento de certas aves foi sendo sucessivamente atribuído ao género humano, por honra ou troça, sobrevindo como tipo da ave feminina que é a mulher. Assim, a pega foi ligada à prostituição, a pomba ao colo e à pureza, e a gralha à verborreia. “Ave” bate asas numa infinidade de nomes de freguesias. Da pomba sobram vestígios em vários topónimos: Pombal em Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães e Pombal, Pombeiro da Beira em Arganil, Pombares em Bragança, Pombeiro de Ribavizela em Felgueiras, Pombalinho em Santarém e Soure. Da pega, voluntariamente ou não, restam vestígios em Pegarinhos, Alijó, Pega na Guarda, e Pegões e Santo Isidro de Pegões no Montijo. Há, entre outros pássaros femininos, Vilar de Perdizes em Montalegre e Penha da Águia em Figueira de Castelo Rodrigo. Mas é a gralha que simboliza a montanha, baptizando Gralheira em Cinfães e Gralhas em Montalegre e dando inclusive nome a uma serra. Gralha, essa ave negra, de porte médio, sempre zangada, emitindo sons rilhados. Devia haver tempestades delas por aqui. Aldeias, onde por força de guerras, primeiro, e de emigrações depois, eram povoadas de negras mulheres: beatas, viúvas e velhas. Quando se entra o interior do aglomerado que se alvejou ao longe, é como um corpo de mulher que se estripa: ruas, ruelas, muito estreitas, uma e outra, cruzam-se sucedem-se, labirinto. E outra ainda, onde pairam pessoas, preferível é retroceder por atrigança. São estreitinhas, nariz contra nariz dos vizinhos. No seu seio vive um ser escuro, a sombra. E assim, de pedras encostadinhas, impedem a penetração do ardor do sol e da navalha do frio. De certa forma, ainda que imperfeita, a aldeia é uma roda concêntrica. No centro a igreja, toda cercada. O cerco é completo, houve ali um ataque ao usufruto ou vizinhança de poderes seculares. À sua proximidade. Como se isso fosse uma vantagem para obter benesses celestiais. Ou como se fosse um terraço a assistir de perto a todas as preparações litúrgicas, o rodar das crianças de catequeses, os eventos. Mesmo tendo de apanhar dia e noite com as troçadas violentas do sino. Fora são os montes, os carvalhais, e os campos e os pastos. Aonde se levam as vacas, em jornadas ronceiras que fazem parar os carros na estrada. Traduzir no ar bonacheirão do Zé Dias que as tange: morreu o pastoreio, e o boi que lavrava, e o burro que também e tudo transportava. Morreu o minguado lucro da galinha e do ovo. E com a morte agrícola, nós os resistentes, os que não emigram ou regressaram já, agarramo-nos à vaca. Em pequena dose, nada que se compare aos ribatejos e alentejos. Então, viva a vaca. Porque é mais dócil que o boi, quase humana, e dá leite cós diabos! Edital: em cumprimento do Decreto-Lei n.º tantos, eu, presidente da Junta da Freguesia de tal, determino: Todos os possuidores de gado bovino têm o ónus de construir as respectivas cortes no terreno para o efeito cedido pela Junta , no Campo da Mó; Fica proibido o acesso à povoação de qualquer animal muar, bovino pou cavalar, sendo a infracção punida com a coima de cem euros; Todas as habitações, antigas ou arruinadas, que integrem as ruas da freguesia, que se mostrem abandonadas de seus proprietários por um período superior a cinco anos, passarão para a posse da Junta. De facto, a sobrevivência humana tende a sujar a vida, carecendo da convivência obrigatória com a latrina. Mas a bosta já não é sagrada, nem limpa desde que a evolução industrial a tornou inútil para tapar a fornada do pão. E, portanto, sobretudo a quem visita, a bosta cheira e fede. E nada tem de rústico ou idílico o quadro das vacas postadas no terreiro, gastando o tempo (além da mosca que sacodem com o rabo) a expelir, e a quem se pergunta “Que está fazendo?” e ela responde “A cagar.” Porque no povoamento aglomerado, uma rua tem de ter todas as casas. E as ruínas apenas servem para coito de brincadeiras infantis ou hospedagem de rapazolas que se dedicam à erva. Reter, eis o verbo que retine e ressaca do povoado como um fumo grosso. Reter a povoação no meio da serra. Na sua crosta e no seu cimo. Reter os que a habitam. Reter os de fora, que as estradas trazem até ali, não importa como. E isso consegue-se com técnicas e esforços de arejamento e de limpeza. Com dois brutos restaurantes/pizzaria. Com o parque das merendas, aqui favorecido por águas altas de ribeiro que, retido em albufeira, mesmo no alto verão, permite mergulhar a nuca num frio espasmo reconfortante. |
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BOSQUEJO
DE ELEMENTOS COMUNS ÀS PEQUENAS FREGUESIAS DE VALE
A freguesia assenta num pequeno vale verde; a igreja fica escondida numa das abas desse vale; corta-a um estradão branco, aqui e além calcetado; em redor do vale, em redor das suas vessadas das suas leiras dos seus quintais, ficam os densos montados, na quase totalidade pinhais que são uma mancha escura tapando o horizonte ao verde deslarado dos campos; mas aqui há um ribeiro, ou pequenos regatos, que no estradão originam pontes-miniatura com um ou dois metros de altura apenas; as casas aninham-se junto do vale-mãe, sobem aos grupos pelas colinas formando lugares, ou vão mesmo tresmalhadas aqui e além, como no presépio os cordeiros são dispostos; ainda estão de pé os beirais as cortes os espigueiros, ao lado dos barracões de bloco e cimento; também as medas de palha se erguem a espaços, sendo às vezes cabana; pelos campos há poças de água que são espelhos, e tanques novos de formas impensáveis anos atrás; é fecunda a existência de cães, com sua coleira e cadeado junto do ladrar incessante aos transeuntes que lhes perturbam o repouso ou a soberba. Vejamos os ingredientes do ambiente: sol ou chuva sobre o vale e sobre as casas de rés-do-chão, a fanfarra dos rafeiros, das aves e das águas, o odor limpo e fresco nos ares, acre na resina, pestilento nos estrumes; notas o contracenar das pessoas que trabalham ou descansam, das crianças que brincam aos gritos e dos namorados que se olham num êxtase bovino (caso seja domingo); um lavrador, de machado nos ombros, vem trocar dois dedos de conversa contigo; uma mãe pressurosa ordena a duas pequenitas que te ensinem a direcção exacta na teia-de-aranha dos carreiros; uma motorizada passa de relance, ruídos de desprezo; vultos olham-te curiosos do alpendre do portal do janelo; um atalho surge onde te apetece enveredar indefinidamente. E, para onde vás, lá está a torre da igreja te espreitando branca, nem que seja um átomo de brancura afogado no verde dos ervais, e o sino, de longe em longe, avisa-te que, apesar de moroso e de granito, também aqui o tempo se desgasta. |
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O
HALO, A AURA, O CÍLIO, O RESPLENDOR
Porque afinal, qualquer aldeia de qualquer daqueles vultos possui
caminhos mais atraentes, vessadas e campinas mais viçosas, quebradas e
cenas mais complexas, e ribeiros e capelas e fontes e cruzeiros e
lugares. E em muitas delas, dessas terras, é viável a organização de um percurso pedestre em que o grupo, de sapata e mochila, após a visão surpresa de penedos assemelhados a vultos humanos e animalescos, e de outros que ostentam uma pia onde se guarda a chuva ou um abdómen que protege desta ou do sol canicular formando abóbadas; de águas soltas em riachos que se perdem e de outras subitamente encaixadas em leitos murados que as encaminham aos campos, ziguezagueando entre os ervais, nos altos em que parece se vão despenhar, ou por entre os rochedos que se preciso for rasgam; e após rabejar o olho pelos densos grupos de pinho, eucalipto, austrália e carvalho; e após auferir em golfões todos os cheiros acres ou doces e todos os sons canoros e seus tons; após tudo isso, sentar na relva e na sombra, abrir o merendeiro e o apetite, e gulosos, como frades de dezanove, encher e alimentar o corpo todo que todo alimentado se torna leve como uma veste de seda. No caminho de Aljustrel, retomo, o rio de pessoas continua a rolar. Envolve-as o halo, a aura, o cilício, o resplendor. Porque a tarde se despede, buscando agora uns litros de concentração, calemo-nos e colemo-nos à noite e à viagem de regresso.
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E assim se levanta cada um de nós da manhã terminada, de corpo
e ânimo leve, quase inexistente, rumo ao almoço na vila. Onde se faz
uma aproximação acre à água fria, através dos grelhados, dos molhos
específicos, do gás acerbo da bebida.
Mas os mais novos não permitem a manutenção da concha do
sossego, quando se vê a brasa do sol queimar as videiras na janela.
Em volta, próximos, estão outros cambiantes que aproveitam ao
engaste do contraste destas águas de gelo.
Na noite que se desenvolve a água escorre para a piscina com um
som frio. A que se junta um leve erguer de vento. Sentamo-nos no muro
que se situa entre a água e a mina que a gera, gasta-se demoradamente
um cigarro. O rumor surdo dos insectos levanta patas sobrelevando-se, as
negridões das árvores esbatem no espaço fundo de poço. A envolvência
abraça-nos e oprime-nos. |
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O
nome que define uma freguesia é carismático, como o das pessoas. Daí que
essa definição possa encerrar o cerne do retrato a que dá nome, mas pode
levar também à sua total deturpação. Até porque a simples designação,
sendo em determinada altura o espelho dos sítios que refere, é susceptível
de ser estilhaçado pela marcha das gerações. Mas tu tens uma vantagem: na memória, pedalas na estrada, e há uma placa onde lês: VILA COVA. É uma placa a preto e branco e da mesma cor tudo o que do sítio reténs: estrada, farrapos de campos, algumas telhas e já não sabes se pessoa ou cão algum passa por ti. Os pinhais sobem e são negros, o alcatrão também e cola a roda em jeito de íman. E só isso: a placa, como uma cruz a sagrar o flash-back a preto e branco nas covas da memória.
Mas, afinal, aonde a justificação do nome encovado aplicado a este lençol verde? Mas é evidente: plantada bem no fundo, a aldeia é rodeada de altos montes. Daí toda a verdura fecunda e prenhe que é o seu corpo: as colinas abrigam-na das ventanias, fornecem-lhe toda a água (ou sangue) de que precisa, com excessos invernis que enlamaçam os caminhos, e dão ainda tojo e giesta para a cabra e lenha para a lareira; de leste o sol entra novo e ainda fresco, à hora dos melros, e pelo dia fora aquece o vale como galinha à ninhada; é, ainda, previsível que o poente seja precoce, e o escurecer (tempo de confidências, de calmas e miragens) se instale ainda o mais alto monte vizinho é amarelo e aceso. E assim uma vida verde da cova se ergue e voa. Deixo Vila Cova com uma previsão de fogo: desgraçado de quem aqui vier na altura dos milhos maduros, dos largos e grandes sóis do estio, dos ares zumbindo como variegados enxames em fuga, altura em que tudo isto será uma cova loira, doirada, enrubescida e outras coisas de oiro e lume: arderá. A quem ler permito-me um conselho: se um dia for a Vila Cova e nada disto encontrar, perdoe: quem escreve, abraça, por vezes, a profissão inversa do coveiro: retira tesouros e luz de covas que os não possuem nem merecem. NOTA: |
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Desde muito jovem começou a ressoar em nossos ouvidos o nome Portuzelo. Vinha da rádio, primeiro a harmonia brejeira de acordeões, cavaquinhos e ferrinhos, depois a voz de grosso, másculo, em seguida a feminina como cálida em bica e por fim o coro… o coro… que tudo envolvia e suplantava. Todo esse mosto se esculpia depois na fotografia, que ilustrava os singles e os LP’s, em que fulgurava rubro de tons o Rancho Folclórico. Ao som do qual se gastavam os restos da tarde semanal e se pulava, entre suor e abraços, nos bailaricos da noite que afinal chegava no final de semana. Por fim, tudo se cristalizou e riu e engrinaldou, sangria de sons e cores e rodapés, sobre o tablado dos coretos e outros palcos improvisados. De todo aquele resplendor ressaltavam, como cantarinhas, as raparigas bailadeiras. Loiras, espadaúdas, de ancas maleáveis e dorso imarcescível, faziam caracolar cabelos e peitos e os cordões de oiro cujo som já não sobrevinha. Mas, saindo do roldão de saias e rendas, como golfinho do centro de águas, brancas rosadas e roliças, como pedaços redondos de mármore, emergiam as pernas. Delas. O dia raiou, entre sol, em que o poster ascendeu à realidade. Místico, quase, o primeiro passo de pernas de carne sobre terrenos de Portuzelo. Estar próximo da pedra viva, que se transfere do postal para a tua frente, erguer o pescoço para o granito que circunda o sino da igreja, andar à roda do pelourinho onde não estão agora sentadas as raparigas mas pô-las lá, encher os olhos com o verde e a planície que rodeia a povoação. E, transitando da fotografia para o agora, ressaltando da imagem para o acto palpável, eis que o pelourinho e o terreiro e a igreja e a povoação todos estão à mão. Nas mãos. As formas são as mesmas, já haviam coagulado, mas agora incham, são pedras vivas, pessoas quase, saúdam-te, têm pernas, atmosfera e odor, pulsam em seu sangue. Adquirem o volume certo, exsudam, abraçam-te. Possuem agora o calor dos ares, a suavidade da tarde, o declive lento do horizonte. De planície em que se emborcam. Passadas, lentas, rumo à mercearia, à missa, vão as mulheres, as raparigas. Despidas da majestade das roupas acolchoadas, das gargantilhas em redor do pescoço, reduzidas a uma saia comum, exibindo pernas que se adelgaçam, quadris que encolhem, todo um formato idêntico ao de outros sítios. Despidas mas não ainda despidas. Porque provavelmente casaram e entraram em velhice aquelas moças loiras e pujantes do rancho. Mas este permanece, com outras raparigaças, ainda fôlegas ou ruivas, atirando coxas brancas contra os olhares de festas e romarias. E quase dirias que são as mesmas. Ou uma reprodução fiel e não ambígua das primeiras. Que tresandam mais ainda a um ardor sexual que oprime e quase obriga a violentar. Nem que seja sentimentos ou instintos. Porque deveras tudo darias para poder poisar, ainda que por instante, lábios naquelas coxas. Férteis, decerto, mas de desejo. De tal forma que repetes a conjugação: se volvesses aos vinte anos casarias com uma delas. Juramento inócuo, decerto. Igual aos que se extremaram e desaguaram nos ventos de outros dias em que declaraste intimamente fazer algo análogo, assumir casamento retroactivo e improvável com uma italiana, ou japonesa, ou brasileira. |
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Num livro de poemas que, infelizmente, não aglutinou notoriedade, Alberto de Serpa definiu lapidarmente e para sempre o conceito de provincianas terras: “Lisboa é longe”. Mas além das distâncias que Lisboa antepõe à quase totalidade do resto do país, há outras distâncias que são antepostas por quem nela entra: porque transporta vivências visceralmente opostas, quando não antagónicas. Se o povoréu já se instalou no imensíssimo terreiro de Fátima como se estivesse em sua courela, mostra-se absolutamente inepto para romper as barreiras das grandes cidades. À capital vamos agora enviar um desses personagens, que nos vai provar exemplarmente o que Lisboa não é, ou então o que Lisboa é uma vez apenas e de raspão. A primeira vez que coloca os pés em Lisboa é tomado de pânico, susto e constrangimento aturdido. Os rios de pessoas e vozes que desaguam de Santa Apolónia e de todos os quadrantes, o rio quase mar com enormes navios, a chusma de carros ganindo em arranques travões, o roldão de gente contra nós na Rua do Ouro, no Marquês e no Rossio, a ponte que não mais acaba altíssima e altíssimo, de tonturas, o Cristo-Rei a que cedeu a subida, tudo o embrutece, tudo o atormenta, tudo o empurra. Quando pela vez segunda volta fá-lo em serviço, com um colega de trabalho. Que angariou o obséquio de obter pensão privilegiada, empreita a cargo de empregado de café ali à Praça de Camões. Ao chegar à praça já noite, há grupos tagarelas pelos bancos, o epopeico enegrece no centro cavalgado pelos pombos, atravessam o deprimente cenário em direcção ao tal café. Onde se processam anunciações de fim de faina e o tal empregado, visado pelo nome, declara de nada ter conhecimento. Mas atendendo, já no exterior, enquanto aponta a streep que se desloca a espectáculo idêntico a outros que ele já presenciou, promete indagar na hospedaria onde mantém dormida. Avançam pela praça e logo ali na Rua da Horta Seca (bucólico e premonitório nome) penetram em escuro umbral de que caem gotas de água. Subindo o escadario, são apresentados ao casal gerente, papagaios e entradotes que, um pouco enfadados, informam dispor de quartos mas não poder levar menos de três contos. O preço é irrisório, um dos dois amigos, mirando-se complacente, precipitadamente declara que o problema não é dinheiro. O que desenha surpresa no rosto do hóspede que os trouxera. Então é-lhes apresentado um terceiro personagem, mulato e barbaçudo, que inculca estarem num ninho de retornados, a que intitulam de Dr. Guedes. Então sobem o resto do edifício, com rangências e tropeções escuros, atravessam um corredor donde se avista o profundo saguão das traseiras e vistoria o quarto reles que, pelo adiantado da hora, aceitam. Então, surge-lhes o Dr. Guedes, açodado e simpaticão, sobraçando os cobertores e as almofadas, e muito delicado pedindo desculpas pela ausência de conforto. Por fim é dormir, dormir não, permanecer a noite toda naquela horizontal tortura de não saber: se se deve manter de costas ou de borco ou de lado, de forma a que o facalhão que porventura viesse não penetrasse mortal o coração. Mas o facalhão não veio, veio a manhã.
Não há duas sem três e desta, arrumada a missão por hora do
meio-dia, desloca-se com a filha à procura de restaurante. É um
restolho de ruas merceeiras, depois aportam a outras mais largas e
viajadas, passam a rua da Amália conforme lhes alvitrou o taxista,
defrontam a Assembleia da República sem selo de deputados. E um
pormenor se vai acastelando: ao lado das tascas que lhes desagradam, da
população cosmopolita de africas e ásias, derrapa uma visão de prédios
E ainda uma última vez, a quarta. Um trabalhão para localizar o Palácio das Galveias, quase perdendo o evento de divulgação de uma colectânea de versos medíocres pela Minerva. Tinha garantido aos familiares que o que mais havia ali por Alvalade era restaurantes. Pois. Mas eram dez da noite quando encontraram, rotos os pés de paciência, um come-e-bebe enfaixado no bairro, onde comeram mal e pagaram bem. Saíram dali, fulos e directos para a A1. |
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Com uma comichão nos olhos, devida pelo roçagar de imagens sobrepostas, o rio acanhado e sombro e depois amplo e loiro, o povo a deslado, o espanhol nas costas e a campagem em frente, recolho-me sentado nesta avenida em fundo como miradouro inusual. Recolho-me não, que o formigar de outras imagens, no interior, faz oscilar e estilhaçar toda a doçura que a vir buscava como sustento e espelho. E então, eu, me transformo e volvo, sorvido e gasto em teatros outros que decorreram já de eventualidade, verdadeira por o ser ou de tão persistentemente fingida. E sou os magotes de pessoas que se espalham nesta encosta atraente de matos, ora rebuscando as lenhas que estalam nos ossos dos gravetos, ora perseguindo irmanadas no cão o coelho saltitante e o bojudo porco-bravo, por fim alapados de roda enquanto a sardinha, espetada, se deixa assar para o florete da broa e do vinho. Desço aos campos, vamos comunais a um de cada vez, amplio-me na força dos homens que arremessam apetrechos, na garridez das mulheres em que pele penugenta espreita do excesso de roupas, no sensual crepitar de uma perna entremostra ou dum fio de cabelo das raparigas, no braço morenaço de músculos que tange os bois, nos jarretes fincados que preparam as eiras. É de canseira o tempo todo, só umas résteas de horas nos permitem que nos alapardemos no meio das tardes de domingo, trocando saudações, vasculhando casos de vida, orientando os interesses particulares no mar chão dos globais, enterrando o dedo em vícios, quedas ou desagravos que ocorreram de mãos que do alto sobraram ou do escuro. Também a “sueca” levanta exclamações no crepitar da tarde, as cartas estão gastas mas não o ímpeto de as atirar no banquelho, e quando a boca já dói seca e resseca surge sempre uma mulher que transporta encapochada a caneca de barro onde um rubro líquido sangrento nos torna outros. A noitinha afoga tudo, vou pelos casais engolir a ceia, programar o dia de trabalho de amanhã, jungir corpos agarrados, de velhos e adultos e ex-noivos, também a criançada em que dormem os três e quatro e cinco irmãos ajustados, disponho-me a ouvir por uns minutos o ruminar do gado nas lojas e o latir zangado dos cães lá fora.
Dormindo todos, emborco-me todo no rapazola que atravessa a ponte em silêncio quase aflito, visto a moça espanhola que, pujante de roupas, atravessa para o lado português, e encontro-me em ambos no mais negro das sombras, por trás dos juncos. Provavelmente, as águas espelham e rumorejam, os bichos da noite rabeiam ruidosos, as hastes todas se curvam de leve na forquilha do vento. Provavelmente. Mas apenas sou mãos que afastam roupas e roupas que se deixam afastar expondo carnes, lábios que se mordem grossos e outros que se entreabrem húmidos, perna que se arqueia contra o chão e pernas que se abrem na horizontal, a dureza do músculo e a flacidez da polpa, a força prepotente de um peito que se atreve e o arfar convulso e inquieto do que se deixa encostar. No rosto da lua, os seios evanescem mais brancos, nada valem para mim sem tuas mãos e são tesouro nas minhas, precisam de dedos para viver e deles os dedos precisam para estalar a ânsia, sulcos de arado os que me feres fundo e os que em ti afundo. Fácil se torna agora a reprodução do acto, porque as peças dos organismos se encaixam, os corpos fundem-se num só, depois desaparecem subjugados por alentos do exterior, isto é, do que se entrevê ou sonha: um calor de febre que devora entranhas e o som surdo que se expele por poros e bocas chocadas ou soltas. Cai a madrugada e o sono sobre a paisagem. Apenas eu velo. Rasgado no corpo todo da mente. Porque do que foi vivido antes, e por mim agora, escorrem todas as silvas da dúvida. E sobretudo, o dilucidar do vácuo: a angústia de ter sido todos sem nenhum ser (e o desejo maior revolve-me na moça espanhola), e mais ainda o desespero de não concluir nunca da vantagem de ter vivido todos ou ao menos um ou de ter sido mero espectador de um e de todos. |
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Quando atinges a última rua, marginal, e sentes o mar próximo pelo cheiro, encontras de permeio dois obstáculos: uma colina de areia, fácil de retaguardar apesar dos pés enterrados, e, surpresa das surpresas, um rio. A que já estão apostos os barcos a motor, onde te apinhas sob a gralhada violenta dos turistas, depondo-te próximo do areal e obrigando-te a molhar desde já os pés. E a mostrar as pernas às mulheres que se propuseram aparecer de saias vestidas. Que agora vestem o ambiente de pequenos gritos passarais. E quando entramos na água, tinhas razão. É macia e morna, não tem arrepiamentos de frio, e avanças, avanças, sempre com pé, quase até outros barcos que roubam marisco num ronco monótono. Ali permaneces como anfíbio, enquanto a areia diminui pelo afluimento de corpos, mas o espaço se debita imenso, em águas e praias que se estendem, esbarrando o olhar apenas no verde redondo de um tufo de pinheiros mansos. E quando regressas, regressa a surpresa, o rio tinha desaparecido. É um enorme leito de rio todo desnudado, apenas areia húmida onde a conquilha, parente da amêijoa, ou as cascas dela, arranham os pés descalços. Não há rochas, nem peixes, nem seixos, nem salgueiros, nem juncos, nem esconderijos e grutas no muro que sustém o rio junto à povoação. Apenas alguns vultos curvos, usando o pé e ténues instrumentos, enchendo bolsas de marisco. Decididas, esclarecidas, as cabeças loiras arremetem em passadas seguras, deixando transparecer risos que não chegamos a decifrar se resultam das cócegas do chão ou de ânimos decorrentes da jovialidade confraternizante dos grupos. E quando regressas do almoço e te dispões a uma corrida atravessante, eis que o rio voltou com suas águas limpas e tens de usar o barco a motor e o dinheiro. De novo o mar adocicado, um outro mar, de gente, que esconde uma parte considerável de areia, ou nadeja, ou se agarra a cordames que protegem das ondas agora mais vorazes. Inventam-se intervalos, passeios pela praia além, fazendo levantar as gaivotas que desfilam como banhistas, ou fugir rudemente assustados bandos de caranguejos que se encafuam nas gretas das rochas em que se abeberavam de sol. Aparecem os vendedores e, além de bebidas gélidas e dos próprios gelados, surge um rapaz moreno com um cabaz cheio de bolas-de-berlim. Compras uma perante o riso do amigo: de facto, não têm creme, apenas farinha e açúcar, mas o sabor, sem que se investiguem motivos, é esplêndido. De tal modo que o rapaz esgota o stock e volta mais tarde com a escudeta outra vez repleta. E no regresso da tardinha, o rio metamórfico (que, afinal, é a Ria Formosa) engendra mais uma surpresa. Não está tão cheio que permita o uso do barco, mas mantém alguns palmos de água. Com as hesitações de algumas mulheres e os sustos gritinhados dos que vão entrando, mergulhas também nas águas que vais rasgando. E rasgam-se também conversas bruscas, porque a situação é deveras inóspita. O olhar não resiste às coxas que, desinteressantes na praia, agora explodem de vermelho desejo sob as saias que se arregaçam, até à cinta, até à cinta, até à calcinha ou ao bikini, os corpos oscilam, as gargalhadas inclinam-nos, há uma saia que cai e logo se levanta mas já escorrendo água. Água, deste rio, que sem surpresa vai escorrer na memória. |
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TRÍPTICO:
ANIMAL, VEGETAL E HUMANO (BEMPOSTA
– MOGADOURO)
1 Despejados
ali por mão e mor da carrinha. No reino do escuro variando a cinzento.
Adonde o feitiço, já breve. Restos de insectos nocturnos. Uma vara de
frio, esguia, sua língua entra as frinchas do corpo. Da lagoa, alargado
poço negro, a carpa sem espuma explode na água. Na cabeça. Revérbero.
Trava-se a luta. A luz ainda apenas fragmentos de asa de borboleta.
Baixa a garganta dos insectos. E das rãs. O escuro está perdido
de morte. Também o frio começa a tremer. Cadáver que deixa de o ser,
voa. Num estertor. Quase inapercebido. Só
luaceiro de hóstia, amarelão pálido, gotas, ferradura, meia-lua a
arder, lume inteiro, roda, o sol. Os pinheiros, verdes, as águas,
pratas, os ares, brasas. Partos. Almoço para os olhos. Aconchego,
quente. Mais quente. Olha ali a sombra. Que surdiu sem patas, fora
raposa. Fio
invisível, quase, a cana estremece sem motivo, pequenos elementos
enrodilhados e do rio todo sai a carpa. Tal as de outros dias actua no
palco, acto imprescindível ao orgasmo do que pesca. Mão côncava,
brutal, aperta-lhe o dorso, mulher violada sem voz. Cansado, desistido, aparentemente dócil e conforme, o
peixe. Humidez, oval forma, olhos de carneiro. Objecto inútil e
consumado, no camaroeiro esconde-se. A paisagem fecha-se. Pálpebra. 2 A DO ZIMBRO, COPA A
água é redonda, o montado arredonda-se, cada salto piscífero provoca
rodas, o sol, o sol, o som contra as vertentes dos pássaros. Mas
redondo, copado, o pinheiro, os pinheiros. Obra fechada, hermética,
pregada na encosta. Não
é cedro, mas aparentado. Isto é árvore importada dos países nórdicos. Recorrendo
à investigação, evitando recurso aos residentes, detecta-se que este
pinheiro nem cedro é: mas zimbro. Para
destruir a paisagem, sua harmonia, fazer a desmontagem, é forçosa a
aproximação. O terreno resvala, o restevo pica, mas mais hostil é o
dito “pinheiro”. Eriçado,
de agulhas, de unhas, de garras, com subtileza provoca o sanguinho que
goteja. Sem pinhas mas baga. Resinosa apesar. Penetrar
nessa casa, invadir o interior, perfurar o ventrículo da sombra. Não,
a pontiaguda folha riça não o permite, arranha o rosto, impede o braço.
O ser humano é insistente, violenta a violência resistente, entra
protegendo o olhar. Seco
tudo, acastanhado, deplorável, musculoso de aromas ácidos. Segunda vez
a imagem se estilhaça.
Afinal sobe um gaio que transparece, igualzinho aos que guarda da memória.
Mas a atonia ergue-se de poderosas patas. Colocar-se no seu encalço.
Como depositar ninho sem frança? Adaptar pernas, garras, bico, a este
arbusto. Ou ser outro. Apreciando o verde movediço do cocuruto. Ou
deixar-se esconder no túnel interior. Plasmático. Abdicando de gestos
noutros locais plantados. Irmãos. 3 Coloca-se o lume na orla da lagoa, abrigado do cerro sobranceiro que também deu a lenha. Milagre doravante: as chamas rentes da água, a labareda próxima das pernas sem direito a queimaduras, as línguas de fogo que se evaporam depositando a brasa. Quase compacta. A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado. A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio. A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas. A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só. |
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Cada
local, sítio ou terra vive ou transmite uma própria atmosfera. De
indiferença ou desencanto, de atracção ou repulsa, muita vez cada um
de nós aguça como uma tuberculose o estro que apenas perpassa ou jaz
depositado. Aqui,
descendo para a negra igreja que se recorta no arvoredo das montanhas,
ali na quebrada, um só sentimento assoma: a melancolia. Quer
venha encostada à cinza esparsa que ressuma da chuva caindo de alto,
quer ondeie em vago torpor outonal, quer coalhe como órgão arrancado
no parado ar do estio. Como
se, aliada a todos os centros que denota a escolha do local, fosse esta
também estratégia dos dois frades que um dia ergueram o depois
monumento nacional. Aliado
fiel, lacaio da melancolia, resta o silêncio. Espetado no telhado, nos
nichos, nas cachorradas, na cruz, horizontal em todo o solo rodeante.
Inchado nos ciprestes, ambos, que setas verdes, varam os céus. Silêncio
que em tempos idos se procurava para encostar o peito e de que hoje se
foge. Até o padre desarvorou, caindo em pedaços a bela casa paroquial,
onde penetras familiarmente para espreitar o silêncio dos quartos, das
escadas e das lojas. Indiferente
a humanas mutações, e não cuidando agora de pombas e pardais que
ilustram as grandes cidades, o pássaro permanece. Arrepiando a pele do
silêncio com seus pios, canoros ou lancinantes. Nada tendo a ver com a
equação do templo. E tendo topado uma breve cova no lado direito da
frontaria, sobre o lado da porta principal, aí colocou o ninho como um
ornamento vivo. Sobre
a porta, todo trabalhado, está o arco de pedra. Belo, mas imperfeito, o
que dá um ar de troça ao nacional monumento. As pedras não encaixam,
a esquadria falha, a extensão é maior de um dos lados, qualquer aluno
de arquitectura se arrepela. Sentamo-nos
no muro fronteiro e ouvimos os frades altercar, vociferar. Entre si e
com os artífices que enxameiam e olham destroçados a grande pedra
sobreposta. Chovem os impropérios. Mas seria trabalho de muito dia
reestruturar tudo de novo, envolvendo à mistura risco de vidas. Contra
o silêncio se batem determinados gestos. As siglas, como uma assinatura,
esforçam por perpetuar personagens que se afogaram. Resiste porque o
desenho foi esculpido na pedra. Mas
há outros desenhos que se apagaram. Como o daquela tarde outoniça em
que o frade mais baixo, tendo penetrado subtilmente aos lameirais,
surpreendeu a Zefa da Fonte, forte raparigaça, debruçada para o rego
de água e bebendo a longos sorvos. Aproximou-se
sobre sandálias sem voz e sentou-se a seu lado sem que ela se
apercebesse. Ela mergulhou de novo a boca nas águas e quando se
soerguia, cansada, resfolegando, foi agarrada com firmeza. Apesar de bem
constituída, estava enfraquecida do esforço e não pode impedir que
ele a submetesse. Extenuada, nem sequer conseguiu gritar, sentindo os
braços dele que a amarravam e o rosto, um pouco hirsuto, que lhe
beijava bravamente o pescoço, o cabelo e as espáduas. E quando a mão
direita lhe levantou os vestidos e as coxas, e quando depois em peso a
voltou de barriga para cima, ela já nada podia fazer, tonta. A não ser
entregar-se. Porque
o silêncio de pedra, água e ventos, irmanado a outros de rezas e
sacrifícios e vigílias, criava um contraste fortíssimo para apetites
corporais. Que, por vezes, se consumavam entrelaçados pelo acaso, quase
impostos pela natureza, e em que dois seres se omitiam absolutamente de
consequências. Cai
a noitinha. Um alanzoar de cães alastra pelos lugares. São latidos,
gritados e aflitos como se postos perante perigo. Um canzarrão mais
grosso abafa os outros: como se os comesse. Mas eles insistem nervosos,
prorrompem um concerto desconexo. E
quando a noite se fecha um frémito vibra. Como se um mundo de larva
tivesse acordado. Lembra a torre da Barbela*,
onde os mortos vivem de noite, passeando-se no Jardim do Buxo. É um frémito
que esvoaça apoiando as patas nos rumos de águas e ventos, que produz
um rosto de frio e temor. Na
igreja, um dos nichos mostra dois corpos que se abraçam (serão os dois
frades?), escurecidos. Mas do seu vulto escuro pareceu luzir um
arreganhar de dentes. Pareceu… Breves, subtis, raios faíscam no fundo
do escuro, talvez ramos que se chocam eléctricos. Juro, eu vi. E de
repente e de surpresa um cisco arranha-te a orelha. Toque raspado como
de asa de morcego. É
melhor ir embora. Imagine-se a decifração da última sigla, quando a
noite der em madrugada morta. |