junho 19, 2007

Pobríncia

 

SEIS CEREJAS PARA UM VERMELHO SABOR

     

 

 

          No Douro que entra pela Beira a etimologia topográfica adquire um sabor pesado e arcaizante. E é perturbadora a evolução dos termos, obscurecendo as raízes iniciais, a decifração do sentido. Além do peso semântico, robusto e maciço, que as designações assumem, sobretudo quando ousamos pronunciar alto o som dos seus nomes.
          Trevões (S. João da Pesqueira) não foge à regra. Independentemente do significado ou significados que lhe são apostos, que queremos ignorar até ao final do artigo e que aqui não importa, vamos procurar o léxico de que possa ser decantado.
          No presente caso, decididamente dois termos nos obrigam: trevo e treva. Se nos referimos à planta minúscula cujo nome lhe vem de possuir em regra três folhas, diríamos que o nome corresponde ao seu plural. E não vamos investigar se o trevo é ou não planta comum na povoação. Se nos vamos ater ao segundo elemento, “treva”, que significa noite / escuridão / breu, estamos perante uma acentuada insistência progressiva, de força e possessividade tais que exigiu o masculino, o macho mesmo: trevões, grandes / enormes / tremendas doses de escuro / breu / negridão, provavelmente penetradas de rubros relâmpagos e de um soturno familiar semântico: os trovões.

          Do escuro da História são recolhidos os objectos que um dia serviram a vida dos homens. Hoje inúteis e abandonados em cantos / quelhas / escanos, podem ser reavidos com maior ou menor devoção e engenho.
          O Museu de Trevões representa seguramente o maior. De devoção, porque supera largamente o espólio e qualidade que se julgaria encontrar. De engenho, porque ainda que resulte do esforço amador da juventude e da coordenação não especializada do pároco, revela obra de evidente gestão e excelência.
          Mais do que reposição do passado, o Museu deve ser a sua presentificação. E isso aqui acontece, uma e outra vez quase miraculosamente.
          É permitido vislumbrar as fainas campestres, os gestos integrais de dedos que tecem linho, os machos que furam a serra incitados pelo almocreve, o trabalho quente da ceifa, o branco do queijo, o húmido da azeitona, o deambular de bois por caminhos, a silhueta do cavador, os ranchos de que sobe o canto das raparigas.
           Mas é destas, e da mulher que lhe sucede, que se origina a mágica aparição. Os níveos corpetes, a blusa em escuro tom, o delicado peitilho, colocam em nosso olhar essas imagens subtis, quase etéreas, de rostos maduros e soberbos, de seios palpitantes e em flor.

          A igreja, esta, vem do passado como um barco que atravessa o nevoeiro. Atravessa e ancora no presente, a despeito de traços históricos e localizados. Limpa e desempoeirada por contemporâneas teorias vivificantes, o clássico som da música eleva o ambiente e bate nos tectos, o que avistas é um objecto uno e complexo, de um todo que esbate e afasta o rendilhado do altar-mor.
          Mas o que mais seduz é penetrar por detrás deste, de costas dobradas por exigência de pequeno portal, e penetrar num espaço inesperado. Onde os frescos roubados às ruínas do tempo são sedução suprema, não pela qualidade artística, mas pela ingenuidade dos desenhos, facto substancial que nos lembra outros autores, porque são iguais aos que um dia criámos, ou gostaríamos de ter criado, em nossos cadernos escolares.

          Em terras de Aquilino, sobram os padres. De que não vale a pena tecer agora o tipo, os tipos. Estão nos seus livros, é factor conhecido ou a conhecer por quem porventura o ignora.
          Mas surge, não por objecto de análise ou especulação, a evidência de um novo padre, ou de um padre novo, nestas mesmas terras. E a superação, plena, dos padres de Aquilino, um dos quais foi seu progenitor.
          Jovem, aberto, dinâmico, íntimo dos meandros do homem e da mulher com quem está obrigado a conviver, e a cultuar, o padre que tens na frente modela em ti uma impressão indelével.
          Ele faz com que os actos do futuro o encontrem ali na sua rota. São, junto dos homens, os novos padres que dirigem povoações que jaziam paradas. Padres da cultura e da solidariedade.

          A chuva e o nevoeiro fizeram cair trevões sobre a povoação. Ainda assim, foi possível ver e avivar algumas rubras imagens.
          De uma apenas falaremos.
          Rente à estrada, em campo de altas ervas, estão as cerejeiras. Não podemos dizer que se erguem, de tão baixas, ao alcance de mão de criança. Não podemos dizer que se escondem, de tão abertas de pernadas. Não podemos dizer que se recolhem, porque o quintal não tem sebe.
          Verdes, de um verde tenro e húmido, estão à mão da nossa mão. Para que as toquemos.
          Estão à mão do nosso olhar. Para que possamos enfrentar as imagens verdes do folhedo. E do vermelho das cerejas. Vermelho e redondo. Como um bico de seio.
          Estão à mão dos nossos lábios. Para que sem receio de donos e patrões, de acanhamentos ou represálias, possamos avidamente entrar. E possuí-las, doces. Virgens ainda e como sempre. No nosso gosto já não.

          Vermelho vivo, que multiplicado nos transporta de novo à igreja, ao vermelho, ainda redondo, e opulento, que irradia do véu de ombros exposto.
          Que não se cansa de nos lembrar a alta área do corpo feminil, castigada de sol, que em tempos mais exibiu do que ocultou.
          Vermelho, este véu, tecido de mil cambiantes de cereja, roda de fogo, lume de setas, ébrio fulgor, fogueira de imagens nas pálpebras que o ousam enfrentar inquietas.
          Os lábios agora ficam secos de deserto.

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fevereiro 25, 2007

Pobríncia



EM TERRAS DA MORGADINHA



                  

        Tinham-lhe enviado o nome, que, ensarilhado noutros, ressumava povoados antigos, arcaicos, machos, resistentes, mas, no entanto, desverdeados e prostituídos pelos turismos vigentes.
           
Marcou o dia, que se revelou ameaçador de chuvas. Crente de que as águas poderiam pairar sem cair, que a frescura dos dias era o melhor véu para antepor a surtidas a pé e inquirições, que um almoço no íntimo do frio sublima aromas e paladar, iniciou a viagem.

            Com o dia a comportar-se, ainda pode deter-se em alguns bicos de estrada, e perscrutar o rio na barragem: gordo de albufeira de um lado e de fio e pedregoso do outro: duas faces díspares, como se nem de irmão fossem.

             A seguir interna-se nos montes, nos montedos, na montanha. Era o reino bárbaro e original, onde medra apenas o centeio, e de cima espreita soturno o penedo e o pinhal. Os quais, lentamente se vão acinzentando, amorfos de neblina, iniciando os ramos uma titilação altamente pronunciadora de borrasca.
           
E porque a seguir surgem verdejando campos esparsos, que a pouco e pouco se vão agrupando e adensando, vencendo a mata que fica na cauda, febrilmente lhe acode a entrada dos “dois viandantes” em terras da Morgadinha.
           
Face que se acentua vivamente, acordemente, fazendo descair a coincidência de muitos aspectos. Em bardos e latadas soltam-se as ramadas, ergue-se redondo o castanheiro, pequenos pormenores de maçã e pêra negrejam nas hortas.
           
Foi quando o ribeiro assomou premonitório, com sua ingénua ponte, seus salgueiros e ancoradouros. Era fatal deter o carro e embrenhar-se um pouco nos carreiros já enlameados, fazendo ressaltar olhos na corrente já agreste a que encostava o salto brusco da rã, a fuga de barco-a-motor dos ratos, a permanência pegajosa da lesma.
           
Desviando, pela encosta acima já nos ladeia a vizinhança das casas que no alto, junto a um largo frondoso de carvalhas, ostenta o centro da povoação: ao lado, descaído, o velho burgo, para cima, em direcção ao castelo de penedos, o lugar novo, as casas sufragadas pelos emigrantes.

            No entanto, perscrutando sob a chuva suspensa e iminente, não se vislumbram vestígios do tal parque de campismo. E, consultada a placa, os dizeres que constam não são consonantes. De facto, sendo este torrão molde arquétipo de terras morgadinhícas, não desfruta decerto das atracções que pudessem cativar exigências turísticas.      

            Pelo que, há que avançar, começando a descer outra encosta, íngreme, visionando ao longe gordo rio, deduzindo-se que ali é que é. E de facto, já quase na ponte avantajada, surge o parque repleto de tendas, encostadas aos pinheiros vetustos, e os habitantes que por ali rabeiam.

             Segues, exploras este outro povoado, as suas gentes, as ruínas das casas e os casarões particulares e comerciais. E depois de rodear a igreja e o cemitério, alvitrando passeios, arrisca-se a ida até aos longes dos cerros, onde espumam brancas as quedas de água.
           
Inolvidável o passeio rente aos ribeiros, o húmido dos caminhos e dos campos, o monte que se ergue abrupto e ameaçador. Entretanto o céu escurece totalmente, a tarde gastou-se, é quase noite e a chuva começa a desabar. Desprotegidos, abrigam-se sob um carvalho, procurando a incidência mais densa do dossel de folhas. Situação delicada: entre o romântico do espectáculo e as lâminas frias das gotas e dos ventos que afinal os atingem. E, sobretudo, ante a ameaça apoplética de uma trovoada empurrada de raios.

            Afinal aliviou, o que permitiu atingir o carro, após inúmeros escorregões nas ervas engordadas de água e nas terras tornadas lamas. E após um singular jantar, cicatrizar o regresso, enfrentar a estrada, a noite e a tempestade que se instalaram de vez.

            Irmanando-nos, de novo, ao Inverno genuíno, de que sofreram os “dois viandantes”. 

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outubro 29, 2006

Pobríncia



O casaco o queijo o cão.

(Sabugueiro – Seia)

 



                        

Estonteado. Se vais a Barcelos e os milhares de galos de barro rubro avistas e outros róseos artesanários. Se vais a Fátima e os biliões de nossas senhoras registas e o alarido de santos e santas do paraíso. Se vais à Nazaré e às pilhas de amêijoa suas cascas em pires côncavos, as vivas que espicham água em vasilhas. Se vais a Portimão e às esplanadas em que as cervejas bebem turistas. Se vais ao Gerês e ao bando de peregrinos de são bento com a devoção escarrada no beiço.

Também no Sabugueiro. Alguém inventou que o casaco de cabedal era dali originário. O turismo parou. Outro imitou-o e outro e outro. Depois alguém colocou o queijo da serra ao lado do casaco. E o queijo veio dos produtores, como se nascesse aqui, e começou a circular. Depois alguém imaginou que fosse vendável, por genuíno, o cão-pastor. E outro e outro. Casaco, queijo, cão. A casa comercial abria-se deitando mão de recursos vagos ou a dinheiros de emigração. A concorrência torna-se brutal. Ao trio junta-se o bar. E para uns tantos a emigração finda. Para outros evita-se. 

O trio, casaco queijo e cão, suborna tudo, tudo sopesa aqui. Até porque cada um produz um cheiro fortíssimo. Forte como a serra. Eles assumiram a parceria, dominam as olências e as sensações. Nada lhes resiste.

Pouco importa que subas o monte fronteiriço com um desses queijos na mão e um grupo de comparsas e o esfarrapem numa algazarra de gritados e conversas atropeladas.

Nada adianta a lâmina do rio escoando-se em baixo, verberando nas raias invernias, levemente enrugado por agulhas de vento que aqui no alto rasga o rosto e além abana a cabeça das árvores.

É inútil. Mesmo o encaminhar dos grupos e dos isolados ao cemitério, que daqui aereamente se avista pejado de floreiras, quase carnavalesco de tanta cor e desenho engastados no dia de fiéis.

O casaco de pele, o queijo da serra e o cão da estrela. O casaco o queijo o cão. Com seus cheiros, seus latidos, seus sabores. O ouvido. Também o da mente. Provocando uma sensação argamassada que sobrejaz a todas as outras.

O casaco o queijo o cão. O casaco o queijo o cão. Como uma matraca. Zoando. Como uma sucessão de vagas emergindo. Como um novelo acre de ventanias.

Estonteado. Impotente. Os três personagens pisam-te. Agora só cheiro áspero. Agora só letras caligráficas: casaco queijo cão. Como o corpo voraz da oração, atrai e repele. Não há talvez o empurrão, vais ficando.

E quando foges, é em vão. Até Seia , como enxame de besouros maldito, ronda-te o sopé da nuca, dançando frente aos olhos que criaste nas costas, os três, de dentes em riste, de dentes em riso, de pernas desengonçadas, esguichando cheiros de fartum, dermoníacos, ei-los: o casaco o queijo o cão.


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fevereiro 02, 2006

Da aldeia de montanha; algumas penas



Da aldeia de montanha; algumas penas; negras




                          

             O temperamento de certas aves foi sendo sucessivamente atribuído ao género humano, por honra ou troça, sobrevindo como tipo da ave feminina que é a mulher.

            Assim, a pega foi ligada à prostituição, a pomba ao colo e à pureza, e a gralha à verborreia.

            “Ave” bate asas numa infinidade de nomes de freguesias.

            Da pomba sobram vestígios em vários topónimos: Pombal em Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães e Pombal, Pombeiro da Beira em Arganil, Pombares em Bragança, Pombeiro de Ribavizela em Felgueiras, Pombalinho em Santarém e Soure.

Da pega, voluntariamente ou não, restam vestígios em Pegarinhos, Alijó, Pega na Guarda, e Pegões e Santo Isidro de Pegões no Montijo.

Há, entre outros pássaros femininos, Vilar de Perdizes em Montalegre e Penha da Águia em Figueira de Castelo Rodrigo.

Mas é a gralha que simboliza a montanha, baptizando Gralheira em Cinfães e Gralhas em Montalegre e dando inclusive nome a uma serra.

            Gralha, essa ave negra, de porte médio, sempre zangada, emitindo sons rilhados. Devia haver tempestades delas por aqui.

            Aldeias, onde por força de guerras, primeiro, e de emigrações depois, eram povoadas de negras mulheres: beatas, viúvas e velhas.

 

            Quando se entra o interior do aglomerado que se alvejou ao longe, é como um corpo de mulher que se estripa: ruas, ruelas, muito estreitas, uma e outra, cruzam-se sucedem-se, labirinto. E outra ainda, onde pairam pessoas, preferível é retroceder por atrigança.

            São estreitinhas, nariz contra nariz dos vizinhos. No seu seio vive um ser escuro, a sombra. E assim, de pedras encostadinhas, impedem a penetração do ardor do sol e da navalha do frio.

 

            De certa forma, ainda que imperfeita, a aldeia é uma roda concêntrica. No centro a igreja, toda cercada. O cerco é completo, houve ali um ataque ao usufruto ou vizinhança de poderes seculares. À sua proximidade. Como se isso fosse uma vantagem para obter benesses celestiais. Ou como se fosse um terraço a assistir de perto a todas as preparações litúrgicas, o rodar das crianças de catequeses, os eventos. Mesmo tendo de apanhar dia e noite com as troçadas violentas do sino.

            Fora são os montes, os carvalhais, e os campos e os pastos. Aonde se levam as vacas, em jornadas ronceiras que fazem parar os carros na estrada.

            Traduzir no ar bonacheirão do Zé Dias que as tange: morreu o pastoreio, e o boi que lavrava, e o burro que também e tudo transportava. Morreu o minguado lucro da galinha e do ovo. E com a morte agrícola, nós os resistentes, os que não emigram ou regressaram já, agarramo-nos à vaca. Em pequena dose, nada que se compare aos ribatejos e alentejos. Então, viva a vaca. Porque é mais dócil que o boi, quase humana, e dá leite cós diabos!

 

            Edital: em cumprimento do Decreto-Lei n.º tantos, eu, presidente da Junta da Freguesia de tal, determino:

            Todos os possuidores de gado bovino têm o ónus de construir as respectivas cortes no terreno para o efeito cedido pela Junta , no Campo da Mó;

            Fica proibido o acesso à povoação de qualquer animal muar, bovino pou cavalar, sendo a infracção punida com a coima de cem euros;

            Todas as habitações, antigas ou arruinadas, que integrem as ruas da freguesia, que se mostrem abandonadas de seus proprietários por um período superior a cinco anos, passarão para a posse da Junta.

 

            De facto, a sobrevivência humana tende a sujar a vida, carecendo da convivência obrigatória com a latrina.

            Mas a bosta já não é sagrada, nem limpa desde que a evolução industrial a tornou inútil para tapar a fornada do pão.

            E, portanto, sobretudo a quem visita, a bosta cheira e fede. E nada tem de rústico ou idílico o quadro das vacas postadas no terreiro, gastando o tempo (além da mosca que sacodem com o rabo) a expelir, e a quem se pergunta “Que está fazendo?” e ela responde “A cagar.”

            Porque no povoamento aglomerado, uma rua tem de ter todas as casas. E as ruínas apenas servem para coito de brincadeiras infantis ou hospedagem de rapazolas que se dedicam à erva.

 

            Reter, eis o verbo que retine e ressaca do povoado como um fumo grosso.

            Reter a povoação no meio da serra. Na sua crosta e no seu cimo. Reter os que a habitam.

            Reter os de fora, que as estradas trazem até ali, não importa como.

            E isso consegue-se com técnicas e esforços de arejamento e de limpeza. Com dois brutos restaurantes/pizzaria. Com o parque das merendas, aqui favorecido por águas altas de ribeiro que, retido em albufeira, mesmo no alto verão, permite mergulhar a nuca num frio espasmo reconfortante.    

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janeiro 21, 2006

Bosquejo ...



BOSQUEJO DE ELEMENTOS COMUNS ÀS PEQUENAS FREGUESIAS DE VALE



               
Cada freguesia é uma célula com personalidade vincada, portanto, inconfundível. Mas, apesar dessa face única, determinados caracteres existem comuns a inúmeras freguesias que, não deixando embora de as individualizar, tipificam a aldeia em lato senso. Desta forma, desta direi e nestas letras outras serão lidas, ou melhor outras freguesias nestes materiais identificadas serão.

A freguesia assenta num pequeno vale verde; a igreja fica escondida numa das abas desse vale; corta-a um estradão branco, aqui e além calcetado; em redor do vale, em redor das suas vessadas das suas leiras dos seus quintais, ficam os densos montados, na quase totalidade pinhais que são uma mancha escura tapando o horizonte ao verde deslarado dos campos; mas aqui há um ribeiro, ou pequenos regatos, que no estradão originam pontes-miniatura com um ou dois metros de altura apenas; as casas aninham-se junto do vale-mãe, sobem aos grupos pelas colinas formando lugares, ou vão mesmo tresmalhadas aqui e além, como no presépio os cordeiros são dispostos; ainda estão de pé os beirais as cortes os espigueiros, ao lado dos barracões de bloco e cimento; também as medas de palha se erguem a espaços, sendo às vezes cabana; pelos campos há poças de água que são espelhos, e tanques novos de formas impensáveis anos atrás; é fecunda a existência de cães, com sua coleira e cadeado junto do ladrar incessante aos transeuntes que lhes perturbam o repouso ou a soberba.

Vejamos os ingredientes do ambiente: sol ou chuva sobre o vale e sobre as casas de rés-do-chão, a fanfarra dos rafeiros, das aves e das águas, o odor limpo e  fresco nos ares, acre na resina, pestilento nos estrumes; notas o contracenar das pessoas que trabalham ou descansam, das crianças que brincam aos gritos e dos namorados que se olham num êxtase bovino (caso seja domingo); um lavrador, de machado nos ombros, vem trocar dois dedos de conversa contigo; uma mãe pressurosa ordena a duas pequenitas que te ensinem a direcção exacta na teia-de-aranha dos carreiros; uma motorizada passa de relance, ruídos de desprezo; vultos olham-te curiosos do alpendre do portal do janelo; um atalho surge onde te apetece enveredar indefinidamente.

E, para onde vás, lá está a torre da igreja te espreitando branca, nem que seja um átomo de brancura afogado no verde dos ervais, e o sino, de longe em longe, avisa-te que, apesar de moroso e de granito, também aqui o tempo se desgasta.

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janeiro 12, 2006

Pobríncia



O HALO, A AURA, O CÍLIO, O RESPLENDOR
(Aljustrel – Ourém)



               
           A Aljustrel chega-se de dois modos: de carro pela alcatroada estrada sul mas correndo o risco de improvável estacionamento ou pelo caminho velho, já empedrado, perpassando por grupos roucos de devoção que murmurejam rosários junto aos capelos em que se simbolizam as estações calvariais de cristos crucificados.
           
O povoado é uma fila de casas lado a lado na estrada, um rio de gentes que sobe e desce, olha e mira, entra as depredadas e rústicas casas dos pastorinhos, bebe água do poço da lúcia que uma velha enche e provém sempre no mesmo copo, volta a rezar, a desfiar terços, sobe a ver o tosco pedestal do anjo em modernos casotos acrescentado, visita e compra nas inumeráveis lojas de comércio santeiro, alguns, ariscos, vão à tasca beber cervejas.

             Perante isto eu quero-me é no fundo do olival. Pelos caminhos próximos o que reclamava a vista eram os grossos novelos dos pinhais mansos e essa árvore rugosa e vermelha do sobreiro, e sua prima, a que segurou os pés da senhora, a azinheira.
           
Mas aqui o que prevalece é a oliveira, as oliveiras, desgastados olivais. Magras, enfezadas, ressequidas nos campos ressecos, mesmo assim procriam uma atmosfera  propícia. De lento oiro de azeite pairando. E acolhem o sossego, o silêncio e a reflexão.
           
Que se encaminham nestes âmbitos: estranho este calcorrear de pessoas, como rebanhos sucessivos, porque uns sobem e outros descem, isto é, cruzam-se em sentidos opostos. Dando a entender procurar o que já se deitou fora. Visível é no entanto, pelos beiços entreabertos e os túmidos olhos cerrados que obviaram ao que vieram, derivando a maioria fecundada de uma prenhez que os alcandora a altos terrenos místicos delapidantes.
           
Curioso ver estes riachos de pernas e pernas que percorrem estes caminhos, lentos, plácidos, rumorejantes, engrossando de vultos em pequeno perímetro equinocial, em detrimento de todos os outros, muitos outros.

            Porque afinal, qualquer aldeia de qualquer daqueles vultos possui caminhos mais atraentes, vessadas e campinas mais viçosas, quebradas e cenas mais complexas, e ribeiros e capelas e fontes e cruzeiros e lugares.
           
Possuem, decerto, uma profusão e variedade de poços fundos e minas e grutas; e casas  antigas, trabalhadas, portais pedrados onde se insculpem tranças e brasões, onde o barroco desenhou e arregimentou os mais fantásticos elementos vegetais ou biológicos; e cartel vário de arvoredos e matos, de passaredo bravio e batráquios ruidosos, de galináceos e suínos e gado vacum; e carreiros sombrosos sob as urqueiras e as latadas e outros que espelham batidos de oiros do sol na custosa subida dos outeiros.

            E em muitas delas, dessas terras, é viável a organização de um percurso pedestre em que o grupo, de sapata e mochila, após a visão surpresa de penedos assemelhados a vultos humanos e animalescos, e de outros que ostentam uma pia onde se guarda a chuva ou um abdómen que protege desta ou do sol canicular formando abóbadas; de águas soltas em riachos que se perdem e de outras subitamente encaixadas em leitos murados que as encaminham aos campos, ziguezagueando entre os  ervais, nos altos em que parece se vão despenhar, ou por entre os rochedos que se preciso for rasgam; e após rabejar o olho pelos densos grupos de pinho, eucalipto, austrália e carvalho; e após auferir em golfões todos os cheiros acres ou doces e todos os sons canoros e seus tons; após tudo isso, sentar na relva e na sombra, abrir o merendeiro e o apetite, e gulosos, como frades de dezanove, encher e alimentar o corpo todo que todo alimentado se torna leve como uma veste de seda.

            No caminho de Aljustrel, retomo, o rio de pessoas continua a rolar. Envolve-as o halo, a aura, o cilício, o resplendor. Porque a tarde se despede, buscando agora uns litros de concentração, calemo-nos e colemo-nos à noite e à viagem de regresso.

 

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janeiro 04, 2006

Pobríncia



BEBEDEIRA FRIA DE ÁGUA



               
            A primeira vez que se enterra o corpo na água da piscina, só por pudor não se concerta uma reacção viva, orquestrada em gestos desabridos e gritos roucos que, no entanto, incomodaria os presentes, quase todos estrangeiros e que, aliás, haviam entrado familiarmente nas águas.
           
Frias, muito frias, surpreendentemente frias. De que não havera aviso prévio. E após duas braçadas, sentado na borda, passamos à análise da situação: de facto, a água escorre de um tanque a que se sobrepõe uma mina natural, e é esta que fornece a linfa. Depois, mentalizado o corpo pela mente, a água torna-se amante, apenas havendo que recorrer a ausências pontuais, em que se esmurra a carcaça orgânica sobre a relva e sob a sombra dos arbustos estratégicos.
           
De facto, quando a pedra do estio aquece o solo e esquenta a cabeça, onde quer que se esteja, que melhor bálsamo que esta água fresca abeirada da sombra relvosa? Porque a praia se detém enxameada e inclemente, e porque as águas mornas de outras piscinas não atingem o cáustico do contraste.

            E assim se levanta cada um de nós da manhã terminada, de corpo e ânimo leve, quase inexistente, rumo ao almoço na vila. Onde se faz uma aproximação acre à água fria, através dos grelhados, dos molhos específicos, do gás acerbo da bebida.
           
Que acende um redemoinho de torpor que remete ao remanso do quarto. Onde nos espera de lábios macios o repouso, o livro insidioso, o balanceado rodear de uma música.

            Mas os mais novos não permitem a manutenção da concha do sossego, quando se vê a brasa do sol queimar as videiras na janela.
           
E é o regresso à relva onde a sombra já está quase toda ocupada e é forçoso rebuscar sítio mais acima. E é sobretudo a entrada na manta fria da água, fria ainda e que o calor dos dias não obtém aquecer, porque se reforça permanentemente libertando o volume excedente à custa da que escorre da larga boca aberta no cerro fronteiriço.
           
É um frio em mesmo tempo brutal e amorável, como dedos que se insinuam na pele, afectam inclusive a planta dos pés e a penugenta bola da nuca. E assim frias se engarrafam as horas.

            Em volta, próximos, estão outros cambiantes que aproveitam ao engaste do contraste destas águas de gelo.
           
Manifesta-se por saltadas às amêijoas empilhadas da Nazaré, aos lustres candelabrais nos frescos tectos das grutas de Alvados, à pesquisa medieval ao castelo no morro da vila, o passeio rugoso em que a cabeça se centra nos pés pelos montes fronteiros e pelo pó dos leitos secos das ribeiras. E ainda a manifestação de campos e espécies vegetais, as perguntas improfícuas sobre os docinhos de Alcobaça, o churrasco e a passagem lá no moinho lá no morro alto afigurando-se inebriante lua-de-mel com filhos.

            Na noite que se desenvolve a água escorre para a piscina com um som frio. A que se junta um leve erguer de vento. Sentamo-nos no muro que se situa entre a água e a mina que a gera, gasta-se demoradamente um cigarro. O rumor surdo dos insectos levanta patas sobrelevando-se, as negridões das árvores esbatem no espaço fundo de poço. A envolvência abraça-nos e oprime-nos.
           
E aproveitando o recolher do resto de família, empurrados pelo decurso dos dias que também escorreram, e pela falta de condições nos quartos sobrelotados, espiando um pouco, é ali mesmo, rente ao cacarejar da água, procurando freneticamente posições, de joelhos feridos e mãos perfuradas por grãos de areia, que a relação sexual, uma entre as mais, se consuma e deslaça.

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dezembro 22, 2005

Pobríncia



VILAS COVAS
(VARIAÇÕES - ITINERÁRIO)



               
           

O nome que define uma freguesia é carismático, como o das pessoas. Daí que essa definição possa encerrar o cerne do retrato a que dá nome, mas pode levar também à sua total deturpação. Até porque a simples designação, sendo em determinada altura o espelho dos sítios que refere, é susceptível de ser estilhaçado pela marcha das gerações.
          Assim, o que te diz Vila Cova, a priori? Lembra-te os buracos em que se plantam vides, a lura dos coelhos ou mais ainda da raposa, um súbito fugir da terra se vais na noite, o coveiro com sua enxada, e outras coisas assim esburacadas. Mas, sobretudo, decidirás que o nome não é nada airoso e se deve tratar de um povo rude enterrado lá pra trás dos pinhais. 

Mas tu tens uma vantagem: na memória, pedalas na estrada, e há uma placa onde lês: VILA COVA. É uma placa a preto e branco e da mesma cor tudo o que do sítio reténs: estrada, farrapos de campos, algumas telhas e já não sabes se pessoa ou cão algum passa por ti. Os pinhais sobem e são negros, o alcatrão também e cola a roda em jeito de íman. E só isso: a placa, como uma cruz a sagrar o flash-back a preto e branco nas covas da memória.

Há certos montes marcados pela vida dos mortos: é uma presença dura, de pedras amontoadas, de negras veias indubitavelmente carregadas de trabalho. O ambiente completa-se com a nudez do solo alto, os incêndios agora pretos do último verão, e os rebanhos de penedos onde o vento assobia rouco e fundo.
           Neste monte, os olhos ficam-te nos montinhos de pedras redondas e o filme acontece: há ali mãos antigas em suor, e o ruído do ferro é nítido nos teus ouvidos: assim construíam os castros agora destruídos em que consumiam a vida e nos quais se encovavam à espreita do inimigo. E tudo era alto e pesado.

Desce o olhar até à aba do monte, onde o horizonte se abre para os  fundos: haverá meia-dúzia de leiras, meia-dúzia de choupanas, meia-dúzia de casas, meia-dúzia de caminhos esbranquiçados: aqui e além um vulto escuro está debruçado sobre o trabalho, um fio azul de fumo cresce e esfarrapa-se: esse é o quadro monótono que topas das colinas.
           Mas não, em segundos a visão se transfigura e fica diáfana e verde. “Verde” é a palavra que te salta nos lábios, como um coelho aflito. Lá em baixo o verde é o só personagem que te fala no olhar ainda aturdido: o verde deitado, retalhado, gordo dos campos em tons claro-escuros; o verde negro dos pinheiros que trepam as encostas em derredor; o verde tenro e esbracejante das primeiras folhas nas árvores; o verde humano das pessoas e o verde branco dos caminhos, que não vês porque o verde tudo tapa e num redondo e verde vale te transformas. Bebes a jorros essa terra verde, como se fosses vulcão esfaimado, a cova enorme com seus mil dentes e lábios confundidos.

Mas, afinal, aonde a justificação do nome encovado aplicado a este lençol verde? Mas é evidente: plantada bem no fundo, a aldeia é rodeada de altos montes. Daí toda a verdura fecunda e prenhe que é o seu corpo: as colinas abrigam-na das ventanias, fornecem-lhe toda a água (ou sangue) de que precisa, com excessos invernis que enlamaçam os caminhos, e dão ainda tojo e giesta para a cabra e lenha para a lareira; de leste o sol entra novo e ainda fresco, à hora dos melros, e pelo dia fora aquece o vale como galinha à ninhada; é, ainda, previsível que o poente seja precoce, e o escurecer (tempo de confidências, de calmas e miragens) se instale ainda o mais alto monte vizinho é amarelo e aceso. E assim uma vida verde da cova se ergue e voa.

Deixo Vila Cova com uma previsão de fogo: desgraçado de quem aqui vier na altura dos milhos maduros, dos largos e grandes sóis do estio, dos ares zumbindo como variegados enxames em fuga, altura em que tudo isto será uma cova loira, doirada, enrubescida e outras coisas de oiro e lume: arderá.

A quem ler permito-me um conselho: se um dia for a Vila Cova e nada disto encontrar, perdoe: quem escreve, abraça, por vezes, a profissão inversa do coveiro: retira tesouros e luz de covas que os não possuem nem merecem.   

NOTA:
Com o nome de Vila Cova, a que é dedicado este texto, há 4 freguesias: nos concelhos de Barcelos, Fafe, Penafiel e Vila Real.
Mas há outras Vilas Covas, a que o texto também pode assentar: Vila Cova a Coelheira em Seia e Vila Nova de Paiva, Vila Cova de Alva (Arganil), Vila Cova de Carros (Paredes), Vila Cova do Covelo (Penalva do Castelo), Vila Cova de Perrinho (Vale de Cambra).
Há, ainda, Vila Cova da Lixa (Felgueiras).
O topónimo “Vila”, como é sabido, integra a designação de uma infinidade de freguesias.
Mas “Cova” é também bastante comum. Há uma freguesia que se chama exactamente assim em Vieira do Minho. Há freguesias denominadas “Covas” em Lousada, Tábua, Vila Nova de Cerveira e Vila Verde. E há, ainda, Cova da Piedade (Almada), Várzea Cova (Fafe), São Pedro da Cova (Gondomar), Covas do Barroso (Boticas), Covas do Douro (Sabrosa) e Covas do Rio (São Pedro do Sul).
E, registe-se, o vocábulo “Cova” pode ser parte integrante de uma nova designação, pode assumir variantes e inclusivamente o masculino. Veja-se: Carralcova (Arcos de Valdevez), Penacova (Felgueiras e Penacova), Covoada (Ponta Delgada), Covelas (Trofa), Porto Covo (Sines) e Covão do Lobo (Vagos).

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dezembro 04, 2005

Pobríncia



A ETERNIDADE DA PEDRA, NÃO, DA PERNA
(Santa Marta de Portuzelo - Viana do Castelo)




               

         Desde muito jovem começou a ressoar em nossos ouvidos o nome Portuzelo. Vinha da rádio, primeiro a harmonia brejeira de acordeões, cavaquinhos e ferrinhos, depois a voz de grosso, másculo, em seguida a feminina como cálida em bica e por fim o coro… o coro… que tudo envolvia e suplantava.

         Todo esse mosto se esculpia depois na fotografia, que ilustrava os singles e os LP’s, em que fulgurava rubro de tons o Rancho Folclórico. Ao som do qual se gastavam os restos da tarde semanal e se pulava, entre suor e abraços, nos bailaricos da noite que afinal chegava no final de semana.

         Por fim, tudo se cristalizou e riu e engrinaldou, sangria de sons e cores e rodapés, sobre o tablado dos coretos e outros palcos improvisados. De todo aquele resplendor ressaltavam, como cantarinhas, as raparigas bailadeiras. Loiras, espadaúdas, de ancas maleáveis e dorso imarcescível, faziam caracolar cabelos e peitos e os cordões de oiro cujo som já não sobrevinha. Mas, saindo do roldão de saias e rendas, como golfinho do centro de águas, brancas rosadas e roliças, como pedaços redondos de mármore, emergiam as pernas. Delas.

 

         O dia raiou, entre sol, em que o poster ascendeu à realidade. Místico, quase, o primeiro passo de pernas de carne sobre terrenos de Portuzelo.

         Estar próximo da pedra viva, que se transfere do postal para a tua frente, erguer o pescoço para o granito que circunda o sino da igreja, andar à roda do pelourinho onde não estão agora sentadas as raparigas mas pô-las lá, encher os olhos com o verde e a planície que rodeia a povoação.

E, transitando da fotografia para o agora, ressaltando da imagem para o acto palpável, eis que o pelourinho e o terreiro e a igreja e a povoação todos estão à mão. Nas mãos. As formas são as mesmas, já haviam coagulado, mas agora incham, são pedras vivas, pessoas quase, saúdam-te, têm pernas, atmosfera e odor, pulsam em seu sangue. Adquirem o volume certo, exsudam, abraçam-te. Possuem agora o calor dos ares, a suavidade da tarde, o declive lento do horizonte. De planície em que se emborcam.

 

 

          Passadas, lentas, rumo à mercearia, à missa, vão as mulheres, as raparigas. Despidas da majestade das roupas acolchoadas, das gargantilhas em redor do pescoço, reduzidas a uma saia comum, exibindo pernas que se adelgaçam, quadris que encolhem, todo um formato idêntico ao de outros sítios. Despidas mas não ainda despidas.

          Porque provavelmente casaram e entraram em velhice aquelas moças loiras e pujantes do rancho. Mas este permanece, com outras raparigaças, ainda fôlegas ou ruivas, atirando coxas brancas contra os olhares de festas e romarias.

          E quase dirias que são as mesmas. Ou uma reprodução fiel e não ambígua das primeiras. Que tresandam mais ainda a um ardor sexual que oprime e quase obriga a violentar. Nem que seja sentimentos ou instintos. Porque deveras tudo darias para poder poisar, ainda que por instante, lábios naquelas coxas. Férteis, decerto, mas de desejo.

          De tal forma que repetes a conjugação: se volvesses aos vinte anos casarias com uma delas. Juramento inócuo, decerto. Igual aos que se extremaram e desaguaram nos ventos de outros dias em que declaraste intimamente fazer algo análogo, assumir casamento retroactivo e improvável com uma italiana, ou japonesa, ou brasileira.   

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outubro 30, 2005

Pobríncia



O QUE LISBOA NÃO É



               

             

            Num livro de poemas que, infelizmente, não aglutinou notoriedade, Alberto de Serpa definiu lapidarmente e para sempre o conceito de provincianas terras: “Lisboa é longe”.

            Mas além das distâncias que Lisboa antepõe à quase totalidade do resto do país, há outras distâncias que são antepostas por quem nela entra: porque transporta vivências visceralmente opostas, quando não antagónicas. Se o povoréu já se instalou no imensíssimo terreiro de Fátima como se estivesse em sua courela, mostra-se absolutamente inepto para romper as barreiras das grandes cidades.

            À capital vamos agora enviar um desses personagens, que nos vai provar exemplarmente o que Lisboa não é, ou então o que Lisboa é uma vez apenas e de raspão.

            A primeira vez que coloca os pés em Lisboa é tomado de pânico, susto e constrangimento aturdido. Os rios de pessoas e vozes que desaguam de Santa Apolónia e de todos os quadrantes, o rio quase mar com enormes navios, a chusma de carros ganindo em arranques travões, o roldão de gente contra nós na Rua do Ouro, no Marquês e no Rossio, a ponte que não mais acaba altíssima e altíssimo, de tonturas, o Cristo-Rei a que cedeu a subida, tudo o embrutece, tudo o atormenta, tudo o empurra.

            Quando pela vez segunda volta fá-lo em serviço, com um colega de trabalho. Que angariou o obséquio de obter pensão privilegiada, empreita a cargo de empregado de café ali à Praça de Camões. Ao chegar à praça já noite, há grupos tagarelas pelos bancos, o epopeico enegrece no centro cavalgado pelos pombos, atravessam o deprimente cenário em direcção ao tal café. Onde se processam anunciações de fim de faina e o tal empregado, visado pelo nome, declara de nada ter conhecimento. Mas atendendo, já no exterior, enquanto aponta a streep que se desloca a espectáculo idêntico a outros que ele já presenciou, promete indagar na hospedaria onde mantém dormida. Avançam pela praça e logo ali na Rua da Horta Seca (bucólico e premonitório nome) penetram em escuro umbral de que caem gotas de água. Subindo o escadario, são apresentados ao casal gerente, papagaios e entradotes que, um pouco enfadados, informam dispor de quartos mas não poder levar menos de três contos. O preço é irrisório, um dos dois amigos, mirando-se complacente, precipitadamente declara que o problema não é dinheiro. O que desenha surpresa no rosto do hóspede que os trouxera. Então é-lhes apresentado um terceiro personagem, mulato e barbaçudo, que inculca estarem num ninho de retornados, a que intitulam de Dr. Guedes. Então sobem o resto do edifício, com rangências e tropeções escuros, atravessam um corredor donde se avista o profundo saguão das traseiras e vistoria o quarto reles que, pelo adiantado da hora, aceitam. Então, surge-lhes o Dr. Guedes, açodado e simpaticão, sobraçando os cobertores e as almofadas, e muito delicado pedindo desculpas pela ausência de conforto. Por fim é dormir, dormir não, permanecer a noite toda naquela horizontal tortura de não saber: se se deve manter de costas ou de borco ou de lado, de forma a que o facalhão que porventura viesse não penetrasse mortal o coração. Mas o facalhão não veio, veio a manhã.

            Não há duas sem três e desta, arrumada a missão por hora do meio-dia, desloca-se com a filha à procura de restaurante. É um restolho de ruas merceeiras, depois aportam a outras mais largas e viajadas, passam a rua da Amália conforme lhes alvitrou o taxista, defrontam a Assembleia da República sem selo de deputados. E um pormenor se vai acastelando: ao lado das tascas que lhes desagradam, da população cosmopolita de africas e ásias, derrapa uma visão de prédios em ruínas. Escuros e desorbitados, alguns com grandes e nobres traços, provocam uma impressão de náusea. E apesar da hora, desatam a desfilar, fugindo e buscando tacho ali para as bandas do Cartaxo.

            E ainda uma última vez, a quarta. Um trabalhão para localizar o Palácio das Galveias, quase perdendo o evento de divulgação de uma colectânea de versos medíocres pela Minerva. Tinha garantido aos familiares que o que mais havia ali por Alvalade era restaurantes. Pois. Mas eram dez da noite quando encontraram, rotos os pés de paciência, um come-e-bebe enfaixado no bairro, onde comeram mal e pagaram bem. Saíram dali, fulos e directos para a A1.        

Publicado por barbant em 08:33 PM

outubro 19, 2005

Pobríncia



HETERONISMOS PLURAIS
RIO DE ONOR (BRAGANÇA)



               

           Com uma comichão nos olhos, devida pelo roçagar de imagens sobrepostas, o rio acanhado e sombro e depois amplo e loiro, o povo a deslado, o espanhol nas costas e a campagem em frente, recolho-me sentado nesta avenida em fundo como miradouro inusual. 

            Recolho-me não, que o formigar de outras imagens, no interior, faz oscilar e estilhaçar toda a doçura que a vir buscava como sustento e espelho. E então, eu, me transformo e volvo, sorvido e gasto em teatros outros que decorreram já de eventualidade, verdadeira por o ser ou de tão persistentemente fingida.

            E sou os magotes de pessoas que se espalham nesta encosta atraente de matos, ora rebuscando as lenhas que estalam nos ossos dos gravetos, ora perseguindo irmanadas no cão o coelho saltitante e o bojudo porco-bravo, por fim alapados de roda enquanto a sardinha, espetada, se deixa assar para o florete da broa e do vinho.

            Desço aos campos, vamos comunais a um de cada vez, amplio-me na força dos homens que arremessam apetrechos, na garridez das mulheres em que pele penugenta espreita do excesso de roupas, no sensual crepitar de uma perna entremostra ou dum fio de cabelo das raparigas, no braço morenaço de músculos que tange os bois, nos jarretes fincados que preparam as eiras.

            É de canseira o tempo todo, só umas résteas de horas nos permitem que nos alapardemos no meio das tardes de domingo, trocando saudações, vasculhando casos de vida, orientando os interesses particulares no mar chão dos globais, enterrando o dedo em vícios, quedas ou desagravos que ocorreram de mãos que do alto sobraram ou do escuro. Também a “sueca” levanta exclamações no crepitar da tarde, as cartas estão gastas mas não o ímpeto de as atirar no banquelho, e quando a boca já dói seca e resseca surge sempre uma mulher que transporta encapochada a caneca de barro onde um rubro líquido sangrento nos torna outros.     

            A noitinha afoga tudo, vou pelos casais engolir a ceia, programar o dia de trabalho de amanhã, jungir corpos agarrados, de velhos e adultos e  ex-noivos, também a criançada em que dormem os três e quatro e cinco irmãos ajustados, disponho-me a ouvir por uns minutos o ruminar do gado nas lojas e o latir zangado dos cães lá fora.

           

            Dormindo todos, emborco-me todo no rapazola que atravessa a ponte em silêncio quase aflito, visto a moça espanhola que, pujante de roupas, atravessa para o lado português, e encontro-me em ambos no mais negro das sombras, por trás dos juncos.  

            Provavelmente, as águas espelham e rumorejam, os bichos da noite rabeiam ruidosos, as hastes todas se curvam de leve na forquilha do vento. Provavelmente.

            Mas apenas sou mãos que afastam roupas e roupas que se deixam afastar expondo carnes, lábios que se mordem grossos e outros que se entreabrem húmidos, perna que se arqueia contra o chão e pernas que se abrem na horizontal, a dureza do músculo e a flacidez da polpa, a força prepotente de um peito que se atreve e o arfar convulso e inquieto do que se deixa encostar.

            No rosto da lua, os seios evanescem mais brancos, nada valem para mim sem tuas mãos e são tesouro nas minhas, precisam de dedos para viver e deles os dedos precisam para estalar a ânsia, sulcos de arado os que me feres fundo e os que em ti afundo. Fácil se torna agora a reprodução do acto, porque as peças dos organismos se encaixam, os corpos fundem-se num só, depois desaparecem subjugados por alentos do exterior, isto é, do que se entrevê ou sonha: um calor de febre que devora entranhas e o som surdo que se expele por poros e bocas chocadas ou soltas.

 

            Cai a madrugada e o sono sobre a paisagem. Apenas eu velo. Rasgado no corpo todo da mente. Porque do que foi vivido antes, e por mim agora, escorrem todas as silvas da dúvida. E sobretudo, o dilucidar do vácuo: a angústia de ter sido todos sem nenhum ser (e o desejo maior revolve-me na moça espanhola), e mais ainda o desespero de não concluir nunca da vantagem de ter vivido todos ou ao menos um ou de ter sido mero espectador de um e de todos.   

Publicado por barbant em 11:17 PM

outubro 08, 2005

Pobríncia



O RIO FANTÁSTICO



               

              Quando atinges a última rua, marginal, e sentes o mar próximo pelo cheiro, encontras de permeio dois obstáculos: uma colina de areia, fácil de retaguardar apesar dos pés enterrados, e, surpresa das surpresas, um rio. A que já estão apostos os barcos a motor, onde te apinhas sob a gralhada violenta dos turistas, depondo-te próximo do areal e obrigando-te a molhar desde já os pés. E a mostrar as pernas às mulheres que se propuseram aparecer de saias vestidas. Que agora vestem o ambiente de pequenos gritos passarais.

             A areia é dócil, estendes a toalha, ergues o guarda-sol e engorduras a pele toda com óleos que protegem do sol africano. Deitas o rabo-do-olho: atrás as cabanas típicas, de madeirame escuro, corroborrando o nome da povoação; aos lados, no branco alagado da praia, os bustos quase imobilizados; ao sopé, seios que se desnudam, alguns franceses e espanhóis pela fala que se solta um pouco acima deles.

            E quando entramos na água, tinhas razão. É macia e morna, não tem arrepiamentos de frio, e avanças, avanças, sempre com pé, quase até outros barcos que roubam marisco num ronco monótono.

            Ali permaneces como anfíbio, enquanto a areia diminui pelo afluimento de corpos, mas o espaço se debita imenso, em águas e praias que se estendem, esbarrando o olhar apenas no verde redondo de um tufo de pinheiros mansos.

 

            E quando regressas, regressa a surpresa, o rio tinha desaparecido. É um enorme leito de rio todo desnudado, apenas areia húmida onde a conquilha, parente da amêijoa, ou as cascas dela, arranham os pés descalços. Não há rochas, nem peixes, nem seixos, nem salgueiros, nem juncos, nem esconderijos e grutas no muro que sustém o rio junto à povoação. Apenas alguns vultos curvos, usando o pé e ténues instrumentos, enchendo bolsas de marisco.

            Decididas, esclarecidas, as cabeças loiras arremetem em passadas seguras, deixando transparecer risos que não chegamos a decifrar se resultam das cócegas do chão ou de ânimos decorrentes da jovialidade confraternizante dos grupos.

 

            E quando regressas do almoço e te dispões a uma corrida atravessante, eis que o rio voltou com suas águas limpas e tens de usar o barco a motor e o dinheiro.

            De novo o mar adocicado, um outro mar, de gente, que esconde uma parte considerável de areia, ou nadeja, ou se agarra a cordames que protegem das ondas agora mais vorazes.

            Inventam-se intervalos, passeios pela praia além, fazendo levantar as gaivotas que desfilam como banhistas, ou fugir rudemente assustados bandos de caranguejos que se encafuam nas gretas das rochas em que se abeberavam de sol.

            Aparecem os vendedores e, além de bebidas gélidas e dos próprios gelados, surge um rapaz moreno com um cabaz cheio de bolas-de-berlim. Compras uma perante o riso do amigo: de facto, não têm creme, apenas farinha e açúcar, mas o sabor, sem que se investiguem motivos, é esplêndido. De tal modo que o rapaz esgota o stock e volta mais tarde com a escudeta outra vez repleta.

 

            E no regresso da tardinha, o rio metamórfico (que, afinal, é a Ria Formosa) engendra mais uma surpresa. Não está tão cheio que permita o uso do barco, mas mantém alguns palmos de água.

            Com as hesitações de algumas mulheres e os sustos gritinhados dos que vão entrando, mergulhas também nas águas que vais rasgando. E rasgam-se também conversas bruscas, porque a situação é deveras inóspita.

            O olhar não resiste às coxas que, desinteressantes na praia, agora explodem de vermelho desejo sob as saias que se arregaçam, até à cinta, até à cinta, até à calcinha ou ao bikini, os corpos oscilam, as gargalhadas inclinam-nos, há uma saia que cai e logo se levanta mas já escorrendo água.

            Água, deste rio, que sem surpresa vai escorrer na memória.

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setembro 28, 2005

Pobríncia



TRÍPTICO: ANIMAL, VEGETAL E HUMANO

(BEMPOSTA – MOGADOURO)




               

1
A COLOCAÇÃO DA PAISAGEM, CARPA

Despejados ali por mão e mor da carrinha. No reino do escuro variando a cinzento. Adonde o feitiço, já breve. Restos de insectos nocturnos. Uma vara de frio, esguia, sua língua entra as frinchas do corpo. Da lagoa, alargado poço negro, a carpa sem espuma explode na água. Na cabeça.

Revérbero. Trava-se a  luta. A luz ainda apenas fragmentos de asa de borboleta. Baixa a garganta dos  insectos. E das rãs. O escuro está perdido de morte. Também o frio começa a tremer. Cadáver que deixa de o ser, voa. Num estertor. Quase inapercebido.

Só luaceiro de hóstia, amarelão pálido, gotas, ferradura, meia-lua a arder, lume inteiro, roda, o sol. Os pinheiros, verdes, as águas, pratas, os ares, brasas. Partos. Almoço para  os olhos. Aconchego, quente. Mais quente. Olha ali a sombra. Que surdiu sem patas, fora raposa.

Fio invisível, quase, a cana estremece sem motivo, pequenos elementos enrodilhados e do rio todo sai a carpa. Tal as de outros dias actua no palco, acto imprescindível ao orgasmo do que pesca. Mão côncava, brutal, aperta-lhe o dorso, mulher violada sem voz.

Cansado, desistido, aparentemente dócil e conforme, o peixe. Humidez, oval forma, olhos de carneiro. Objecto inútil e consumado, no camaroeiro esconde-se. A paisagem fecha-se. Pálpebra.

 

2

A DO ZIMBRO, COPA  

A água é redonda, o montado arredonda-se, cada salto piscífero provoca rodas, o sol, o sol, o som contra as vertentes dos pássaros.

Mas redondo, copado, o pinheiro, os pinheiros. Obra fechada, hermética, pregada na encosta.

Não é cedro, mas aparentado. Isto é árvore importada dos países nórdicos.

Recorrendo à investigação, evitando recurso aos residentes, detecta-se que este pinheiro nem cedro é: mas zimbro.

 

Para destruir a paisagem, sua harmonia, fazer a desmontagem, é forçosa a aproximação. O terreno resvala, o restevo pica, mas mais hostil é o dito “pinheiro”.

Eriçado, de agulhas, de unhas, de garras, com subtileza provoca o sanguinho que goteja. Sem pinhas mas baga. Resinosa apesar.

 Penetrar nessa casa, invadir o interior, perfurar o ventrículo da sombra. Não, a pontiaguda folha riça não o permite, arranha o rosto, impede o braço. O ser humano é insistente, violenta a violência resistente, entra protegendo o olhar.

 Seco tudo, acastanhado, deplorável, musculoso de aromas ácidos. Segunda vez a imagem se estilhaça.

 

          Afinal sobe um gaio que transparece, igualzinho aos que guarda da memória. Mas a atonia ergue-se de poderosas patas. Colocar-se no seu encalço. Como depositar ninho sem frança? Adaptar pernas, garras, bico, a este arbusto. Ou ser outro. Apreciando o verde movediço do cocuruto. Ou deixar-se esconder no túnel interior. Plasmático. Abdicando de gestos noutros locais plantados. Irmãos.

 

3  
A FOGUEIRA; FAZ-SE

Coloca-se o lume na orla da lagoa, abrigado do cerro sobranceiro que também deu a lenha. Milagre doravante: as chamas rentes da água, a labareda próxima das pernas sem direito a queimaduras, as línguas de fogo que se evaporam depositando a brasa. Quase compacta.

A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado.

A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio.

A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas.

A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. 

A fogueira: faz-se de palavras, troar delas, exaltadas, contrastantes, eufóricas, agudas como silvos e arremessadas como pedras. A teia do caos. Visando a harmónica degustação. 

A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só.

Publicado por barbant em 04:50 PM | Comentários (2)

setembro 18, 2005

Pobríncia



DAS SIGLAS: DECIFRAÇÃO



               

         Cada local, sítio ou terra vive ou transmite uma própria atmosfera. De indiferença ou desencanto, de atracção ou repulsa, muita vez cada um de nós aguça como uma tuberculose o estro que apenas perpassa ou jaz depositado.

Aqui, descendo para a negra igreja que se recorta no arvoredo das montanhas, ali na quebrada, um só sentimento assoma: a melancolia.

Quer venha encostada à cinza esparsa que ressuma da chuva caindo de alto, quer ondeie em vago torpor outonal, quer coalhe como órgão arrancado no parado ar do estio.

Como se, aliada a todos os centros que denota a escolha do local, fosse esta também estratégia dos dois frades que um dia ergueram o depois monumento nacional.

 

Aliado fiel, lacaio da melancolia, resta o silêncio. Espetado no telhado, nos nichos, nas cachorradas, na cruz, horizontal em todo o solo rodeante. Inchado nos ciprestes, ambos, que setas verdes, varam os céus. Silêncio que em tempos idos se procurava para encostar o peito e de que hoje se foge. Até o padre desarvorou, caindo em pedaços a bela casa paroquial, onde penetras familiarmente para espreitar o silêncio dos quartos, das escadas e das lojas.

 

Indiferente a humanas mutações, e não cuidando agora de pombas e pardais que ilustram as grandes cidades, o pássaro permanece. Arrepiando a pele do silêncio com seus pios, canoros ou lancinantes. Nada tendo a ver com a equação do templo. E tendo topado uma breve cova no lado direito da frontaria, sobre o lado da porta principal, aí colocou o ninho como um ornamento vivo.

 

Sobre a porta, todo trabalhado, está o arco de pedra. Belo, mas imperfeito, o que dá um ar de troça ao nacional monumento. As pedras não encaixam, a esquadria falha, a extensão é maior de um dos lados, qualquer aluno de arquitectura se arrepela.

Sentamo-nos no muro fronteiro e ouvimos os frades altercar, vociferar. Entre si e com os artífices que enxameiam e olham destroçados a grande pedra sobreposta. Chovem os impropérios. Mas seria trabalho de muito dia reestruturar tudo de novo, envolvendo à mistura risco de vidas.

 

 Contra o silêncio se batem determinados gestos. As siglas, como uma assinatura, esforçam por perpetuar personagens que se afogaram. Resiste porque o desenho foi esculpido na pedra.

Mas há outros desenhos que se apagaram. Como o daquela tarde outoniça em que o frade mais baixo, tendo penetrado subtilmente aos lameirais, surpreendeu a Zefa da Fonte, forte raparigaça, debruçada para o rego de água e bebendo a longos sorvos.

Aproximou-se sobre sandálias sem voz e sentou-se a seu lado sem que ela se apercebesse. Ela mergulhou de novo a boca nas águas e quando se soerguia, cansada, resfolegando, foi agarrada com firmeza. Apesar de bem constituída, estava enfraquecida do esforço e não pode impedir que ele a submetesse. Extenuada, nem sequer conseguiu gritar, sentindo os braços dele que a amarravam e o rosto, um pouco hirsuto, que lhe beijava bravamente o pescoço, o cabelo e as espáduas. E quando a mão direita lhe levantou os vestidos e as coxas, e quando depois em peso a voltou de barriga para cima, ela já nada podia fazer, tonta. A não ser entregar-se.

Porque o silêncio de pedra, água e ventos, irmanado a outros de rezas e sacrifícios e vigílias, criava um contraste fortíssimo para apetites corporais. Que, por vezes, se consumavam entrelaçados pelo acaso, quase impostos pela natureza, e em que dois seres se omitiam absolutamente de consequências.

 

Cai a noitinha. Um alanzoar de cães alastra pelos lugares. São latidos, gritados e aflitos como se postos perante perigo. Um canzarrão mais grosso abafa os outros: como se os comesse. Mas eles insistem nervosos, prorrompem um concerto desconexo.

E quando a noite se fecha um frémito vibra. Como se um mundo de larva tivesse acordado. Lembra a torre da Barbela*, onde os mortos vivem de noite, passeando-se no Jardim do Buxo. É um frémito que esvoaça apoiando as patas nos rumos de águas e ventos, que produz um rosto de frio e temor.

Na igreja, um dos nichos mostra dois corpos que se abraçam (serão os dois frades?), escurecidos. Mas do seu vulto escuro pareceu luzir um arreganhar de dentes. Pareceu… Breves, subtis, raios faíscam no fundo do escuro, talvez ramos que se chocam eléctricos. Juro, eu vi. E de repente e de surpresa um cisco arranha-te a orelha. Toque raspado como de asa de morcego.

É melhor ir embora. Imagine-se a decifração da última sigla, quando a noite der em madrugada morta.

* Romance de Ruben A.  

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setembro 02, 2005

Pobríncia



A RAPARIGA E A VELHA



               

         Mesmo em cima da entrada da ponte, férrea de arco, surge a placa em grandes letras. Ali vem dar a Ribeira de Muge de que se ouve um motor a tirar água para a rega, e no declive, à albufeira de olhares alargados e banhos, segue-se o parque das merendas, amplo e completo, agora apenas povoado por pardais gralhantes nos salgueiros.
        
A estrada atravessa em parcas centenas de metros a povoação, mas é do alto, onde a igreja vai colada ao cemitério, que a podes observar: branca, nova e escarolada, maciça de casa aconchegadas, pode-se desatar o bordado irregular que se escreve nas chaminés.

         É neste cenário que vamos plantar a rapariga. Que se entreviu no restaurante da vila, servindo açodada, e que por força terá de ser daqui natural e residente.
        
Ficou dela e permanece uma imagem de úbere. Rescendendo do tamanho, dos seios fartos e das largas ancas, excedendo um corpo equilibrado, de sorriso pequeno. Que, tudo coordenado, dava aquele jeito avante de levar tudo na frente, no redondo espaço aberto entre os dois braços abertos, como se reminiscência fosse de actos antigos de lavoura e açafates de grão a despejar nas leiras.
        
Apesar do rosto, nítido de boca e cingido de faces. Apesar do semilongo cabelo, loiro, não, quase branco, nórdico, lavado de roldões de sol bravo. Apesar da delicadeza das mãos que se poisavam na mesa em talher e comer. Apesar do sorriso, tímido, que de longe a longe rasgava o vácuo entreaberto dos lábios. A que se gostaria de desvendar o som dos gemidos sorvada por eventual namorado ou devasso.
        
Mas quando ela surdiu açodada e correu a acudir ao excesso de tarefas que numa mesa se incendiava, ficou só metade, porque estando de costas estas desapareceram: das pernas grossas em passadas nervosas, de brancas carnes sobrando das rachas da saia de ganga, as coxas com vontade de a rasgar excessivas, e as ancas, fortíssimas, de bovino espantado na campina, em ressaltos opulentos, úbere, úbérrima.
        
Mal empregues textos de Soeiro, Redol e Saramago. Que se esqueceram de mitificar este tipo. De mulher.

         Também neste cenário espetamos a estaca da velha. Magra, escanzelada, megera, esguia de luto e de esqueleto. Veio engrolar o terço, porque a morte deve ser preparada. E mal nos vê, pois órfã de gente, não perde a oportunidade de aceder à comunhão afectiva e aos encharcos de palavras.
        
Não sabe a origem do nome da povoação, omitindo ou ignorando que aquele espaço foi palco de caçada à raposa por parte de reis e nobres medievais. E apenas diz que ela está lá em cima, e acena para a torre, e que aqui é a Raposa de Cima e acolá a de Baixo. Nada mais. Só quando nos despedíamos, verificámos surpresos que acima dos sinos se encontrava, escultural, preta mas não cruz, a forma miniatural de uma raposa de longa cauda.
        
Mas, sobretudo, ela, a velha, enquanto esfarela conversas, agarra-se ao rapaz que nos acompanhava recém-casado. Sentado contra a fachada, um pouco acanhado, ele deixa-se apalpar os braços e arredores. Não sabendo muito bem como reagir a este ataque imprevisto e pecaminoso de quem viera para orar.

         Afinal, noutra forma, subreptícia, a raposa não estava extinta, ela vivia. Com sua manha. Não se podendo surpreender no bosque. Nem confundir com a visão aérea da freguesia, antes rectangular que alongada.
        
 Mas agindo e espreitando no sangue da velha e da rapariga. Nesta, usando a timidez, o resguardo, o corpo apetecedor, para a honra e o futuro que acalenta como toda mulher por ditame social. Naquela, como último recurso, quase arriscado, buscando ainda um hausto de calor, calor de homem, memória sobreaquecida de outros a que se abraçou quente de corpo: os namorados, envelhecidos, o marido, morto, os filhos, “arrumados”.

Publicado por barbant em 08:45 PM | Comentários (3)

agosto 21, 2005

Pobríncia



CRISTALIZAÇÕES



               

         A povoação como uma concha. De longe branca, aqui com recortes escuros, o espaldar das ruas, as paredes que te encarceram.
         Sobe do povo até ao caminho que dá no cemitério, desce a dois passos nas casas comerciais, alastra aos dois lados da estrada. Se excluirmos as ruelas, fica uma cruz.
        
A igreja olha o largo matemático de Gomes Teixeira. Imitando Almada, mencionaríamos a cabeça de roda oval, o queixo tal um triângulo, o nariz apontado como uma seta. No portão da casa onde nasceu lá está o sardão de bronze, todo verde e com um rectângulo de sangue a fingir de língua. Onde nasceu, não, apenas o embrião em que se ergueu, montanhou de grande após inúmeras absorvências e limuras, com as quais carregado ali volveu.

         Fora da povoação e do coração dela rondam os campos onde se trabalha o ardor do verão e onde vamos convidados, apesar de parasitas, numa pausa em que está presente o coelho guisado e o garrafão que se debruça na caneca sempre cheia e os vinhos se misturam às bocas e à algazarra e assim desencontrada caótica aos golfões a vida se espraia.
         Mais para fora, subindo subindo, ao inverso do rego que escorre encanado. No cimo o Lenteirão, com suas águas escuras de erval. Retirar a roupa e expulsar o calor. Depois, ofegantes, com os narizes cheios de pinho resinento, arrimar o olhar.
        
Longra. Castelo. Nagosa. Manchas brancas esbranquejantes nos longes azulados dos montes. Como um símbolo coalhado de povos. Pressentidos. No sol que descai a brancura arde. Aparição ou promessa, o restolho humano deve ser igual a este.
        
Ainda duas filigranas: o ninho ao alcance da mão, no pé de milho, afirmando que o passaredo é ali respeitado ao nível da andorinha ou a canalha adultou; e o sino que se expande reboado sobrevoando montados, se calhar namorado das igrejas dos povos configurados.

         No café está apenas o dono do café e no rosto do homem do café lê-se a vontade de jogar às cartas e assim se forma a quadrilha determinando-se desde logo o perde-paga da despesa que se vai bebendo e o jogo entorta para o dono do café que perde a boa disposição quase passando de gordo a magro depois acomoda-se mesmo porque os risos guizalham nos parceiros e então ele encurrala-se na fatalidade do pagamento de que aliás  não consta dinheiro porque os produtos são da casa do consumo da casa portanto dele homem do café e é como se não pagasse e enquanto os circunstantes saem de boca rasgada ele insulta a puta da vida culpada sempre disto tudo que nós perdemos porque no ganho está sempre mérito.

         A noite expulsa os corpos da cama ou adia-os. Junta-se tudo no povo, o muro rente da estrada do largo torna-se pequeno para banco. O que obriga a benevolências e gestos e gentilezas, “Sente-se!, sente-se!”, ou a cedências parciais “Chegue-se para aqui!”. Acasos venais que às vezes juntam um casal e carnes que serão entressonhadas no mais baixo da noite.
        
Aparecem os papagaios, os tagarelas, é um mar de vozes chocando-se, latas, guizos, arraial. E se se apercebem de forasteiros, ao contrário de sítios e tempos desconfiados, acamaradam, abrem-se, romaceiam, querem saber, usam o saca-rolhas. Sempre muito mais interessados em dizer do que ouvir.
        
Alguns há que trazem as novidades da horta e, sobretudo, do pomar, em sacos, em cestinhos. A pêra, a ameixa, o figo com sua gota de oiro repousando na folha de couve. É bom o preço, arrasando o oficial que consta no mercado, surge infalível a oferta de uma ou outra peça quando o diálogo sobreaquece,

         Tinha morrido o Zé Bispo e o Manel Vinagre foi a Longra buscar o caixão que trouxe às costas derreado pela noite fora e apesar da fresca esfalfou-se nas encostas arranhou o ciclame das costelas mas aguentou-se intimamente mentalizando-se “Não posso parar, tenho de concluir a jornada” mas já perto da aldeia ali à beira do cemitério veio-lhe uma vontade súbita e inadiável não bem vontade mas necessidade que o obrigou a poisar o caixote em cima do muro e deslocou-se atrás de umas moitas e entretido naqueles gestos obrigatórios remexia no escuro à procura de folhas secas quando ouviu gritos aterrorizados e corridas desvairadas como de cavalo ou boi tresmalhado e tombos e mais gritos que foram fugindo espavoridos esbatendo-se aos poucos a gritaria pelo caminho abaixo abafados pela distância e pelas bordas e foi ver e não viu ninguém e no seguinte dia soube que tinha sido o Roque Funisca que quase rebentara ao encarar o caixão pendurado no muro da noite.  

Publicado por barbant em 05:40 PM | Comentários (3)

agosto 09, 2005

Pobríncia



REFLUXOS

(CREIXOMIL - BARCELOS)




Foto: Clara do Vale

               

       

Entro no casulo do tempo, desço no poço aos teus e meus cinco anos, mão dada logo solta mas sempre irmanada. Usamos o feitiço a meia-dose, isto é, só nós rejuvenescidos, infantes, a aldeia não.

Olhamos a várzea única, resultante de várias várzeas encaixadas, redonda úbere, a orla a toda a volta do pinhal, a linha do horizonte de esquadro, excepto a sul onde o pinheiro penetrou a povoação. Noutros locais foi o inverso, mas tal não se torna nítido, é fácil concluir de óbices conjunturais e municipais, o urbanismo não conseguiu furar e a construção mantém-se quase imune a agressões. Provavelmente, a protecção decorre da corda de montes e do acaso, útil, da ausência de estradas primárias.

Penetramos no seio, pelos caminhos já de macadame, as casas, com pedra, quintaneiras, majestosas, rústicas com seus hortedos atrás. A fertilidade das vessadas engordou a população local. A que hipoteticamente se devem acrescentar receitas brasileiras. As datas o confirmam inscritas no frontal de granito, os séculos dezoito e dezanove expandiram a freguesia.

O coração de uma aldeia é a igreja, por isso passamos por lá. A religião atrai, atraía, foi sempre um poder ou contra. Mas os tempos não perdoam: da roda de casas que a circunda, algumas estão arruinadas e noutras a ruína já aguça os dentes para devastar o abandono. Inapelável.

Os caminhos vão do centro à orla. O milho dos campos vai até ao pinhal. Nesse percurso uma ou outra casa arrasta, que vai também. O sol vai do pinhal matutino ao nocturno. O sino vai da torre ao montado. As águas vão ao tutano e engrossam os terrenos. Os homens vão da casa ao café. As pessoas vão de todo o lado à missa. O dia vai até à fímbria da noite e nela mergulha exausto.

Vamos visitar as alminhas, todas, em especial aquela em que o arcanjo empurra para os fundos o diabrete com a espada.  Passamos os fontanários, os tanques, as minas, a mina da qual tua avó dizia “toma cuidado!”. Vamos até ao final da vessada, subimos entre o áspero tronco resinoso do pinhal e leio no teu rosto que fomos além da fronteira, estamos no longe a que a tua avó pediu para não ires: “Não vás para longe!”.

Sentámo-nos na caruma e tu dizes: a carne que eu tive em que tudo isto penetrou tornou-se interior. Posso agora fazer decorrer vários anos num minuto, misturar como em prensa esmagadas sensações de vivências múltiplas, entrechocar e entrelaçar visões e sons e ideias, cindir tudo, tudo expandir, quando entro aqui sou este corpo, ressuado, retomado.

E eu digo: não podes vencer a cegueira de não ver isto e eu posso. Porque estás próxima demais, estás colada umbilicalmente, fazes parte da sua medula. Não eu, que tenho a visão objectiva, externa. Tudo o que vejo é novo e não me comove, não produz lágrimas interiores. As formas são específicas para mim, e apesar de permanecerem depositadas não as alcanças nunca. Uma asa da paisagem, um jeito do povoado, um delinear do horizonte, determinados destaques ou ressaltos que me acodem escapam-te. Não preciso de arrancar, ao invés de ti, raízes familiares.    

E ambos: falemos de refluxos. O pouco que a cidade conseguiu trazer aqui para dentro, reduto protegido e emparedado, mas que obrigou mentes soltas a fugir desta arquitectura. Porque a resistência social sempre cairia, creio que foi a conjuntura que permitiu a ilha não expugnada. Em que faíscam alguns resíduos de actividade agrária, soldados no verde ebúrneo dos campos. O despovoar destes e das casas, mas a conta-gotas. O ar parado do presente face ao movimento atropelante, de braços e gritos, de outrora. O miscigenar que tacteamos de tempos e paisagens e situações sociológicas.   

Antes de regressarmos ao cimo do poço, aliás podemos já regressar mas mantendo a atmosfera mental: sob a quietez da tarde, penetrando na sombra das urqueiras e nos aromas fartos de milhos e vinhedos, picando os pés descalços no frio dos charcos, deixando-nos possuir pelo dorso sereno da várzea, como nos sentimos? Rigorosamente: sob o colo dos pássaros.  

Publicado por barbant em 05:41 PM | Comentários (4)

julho 14, 2005

Pobríncia



S
e Os Ares Jogam Ordens
(Soajo - Percurso Pedestre)






A mochila comprada de novo, as botas de marca e o fato-de-treino já estão à entrada da porta, junto da marquise. Agora recorre-se à cozinha para, entre chamas de gás, ténues cheiros e fumos quase invisíveis, fabricar os salgadinhos, as omeletes, os rissóis e os panados. Pode-se também arranjar filetes de pescada e umas iscas, para fazer um carinho aos amigos: hoje o pessoal alimenta-se bem. Depois meto tudo na mochila, junto uns sumos e está feito. Aterro na cama, imaginando visionariamente as ocorrências do dia seguinte, desloco-me em direcção à perspectiva ou à prospectiva e rezo para que o sono venha. De manhã, lavo-me bem, nos sítios que irão ficar sujos da poeira ou do suor (o que originará a necessidade de outro banho na volta), e corro para a carreira.

A carreira não chega. Aventam-se hipóteses, estudam-se conjecturas, fazem-se palpites. Aponta-se o dedo, bem direito à organização e erguem-se críticas. Uns apreciam o denodo com que os “cabecilhas” deitam mão de diligências, outros enumeram as falhas e as consequências, outros ainda não fazem nem uma coisa nem outra. Os telemóveis não descansam, voltar para casa ou pegar nos carros particulares? Afinal apanham o motorista, estava nas instalações novas das Ciências, nós estávamos nas velhas, aos Leões. Com uma ou duas desistências, com gritinhos de alívio e satisfação, o tubo de escape arremessa o fumo da arrancada.

No Mezio aguarda ainda não cansado o guia. Alto, escanzelado, magricelas, de dentes à mostra, barba-de-chibo, parece mais um animal montezinho. Mas depois revela-se moldável, vagamente culto, dado ao humor e à crítica política ou de políticos. Vem dos lados de Montalegre, Ginja de seu nome, oferece-se: eu sou o Ginja, o Ginja está à disposição, qualquer coisa falem com o Ginja. É tudo de ginjeira. Lá nos arrasta por entre os caminhos de terra, por entre o arvoredo, é vê-los, vermo-nos, grupo de gente urbana deslizando devagar em terras de província, quebrando o silêncio com seu barulho e assustando os pássaros. Por força do programa, e do guia, ficamos boquiabertos perante as mamoas, três, uma descoberta e duas soterradas, e a ladainha do guia aborda temas e termos aparentemente históricos. De que forma cada um, e seria divertido cotejar as diferenças, terá imaginado ali o homem pré-histórico, semi-nu, com pele de carneiro nas virilhas, aos saltos de rocha em rocha, nestas ou noutras. Deitemos fora o filme.

 

Entramos agora no coração do dia. No coração do mundo, do entusiasmo, da emoção, do passeio. No coração do evento. Já aquece e depois do aperitivo das mamoas dessedentam-se no fontanário. Agora é penetrar no fundo do bosque, no seio das sombras, calcar os carreiros em que a areia estala. Aqui tudo é possível enquanto os pés avançam e o olhar investiga: tocar os cavalos selvagens e mesmo os potros com seu dorso sedoso e observar as libélulas nos restos do ribeiro; mirar a floresta densa e a serra escalvada; descer nos fundos frescos e trepar ao inferno dos penedos; correr em gincana entre as filas de choupos e sentar-se ouvindo as tretas do guia acompanhadas de descanso reparador.

O corpo vibra todo: ouvem-se os ossos que se articulam estalando e produzindo a caminhada; as mãos tocam ou acariciam um tronco, uma folha, uma baga; sente-se o sabor fresco da sombra ou da água dos charcos e o calor quente quando faltam árvores; som dos passos, dos pássaros, de um mínimo vento ouve-se; paira o cheiro a resina, a pólen, também a cio de animais e a dejectos; a epifania do sítio e do dia incendeia a pele toda.


Tem gente de todas as idades e de todos os pesos: apesar da lentidão da marcha alguns participantes estão estafados, sobem a encosta com um esgar de sofrimento. Mas aproxima-se lá em baixo o Complexo de Equitação, será agradável pousar na esplanada ou no bar e devorar o farnel regando-o com bebidas frescas. Depois é só completar com um cafézinho, um cigarro, um documentário, e deixar escoar a sesta.

No meio da tarde o grupo aporta ao centro do Soajo, velha aldeia comunal de que pouco resta da tradição depois que se instalou o turismo rural. E os outros. Entretanto chegaram cá os cómodos todos: o restaurante, a farmácia, o banco, todo o luzido citadino. De sorte que, afugentados do calor, os “turistas” enchem o ar condicionado dos cafés ou escondem os troncos nus nas águas do Poço Negro. O grupo aborda o pelourinho, fareja a igreja, desce acompanhando um rego de água e sobe ao castelo dos espigueiros, eira enorme. E em roda ou em fila, em parelha, juntos ou desgarrados, espraiam o olhar pelos horizontes abertos e ouvem as tiradas do guia. Vai explicando a arquitectura daquelas casas de espigas, subtil e engenhosa, que guardando o produto todo de todos os campos de toda a povoação, impedia em sua construção ardilosa a subida dos ratos  e a depredação do milho.


Após atravessar todas aquelas aldeolas crivadas de curvas e o rio na barragem, chegam ao Lindoso. O dia está no fim mas o calor ainda abafa, vai-se ao café local beber um fino e ouvir os monossílabos dos residentes. Antes de subir ao castelo. Que afinal está fechado, já fechou, e então os vultos ficam na rampa ou cá embaixo sentados no muro. As vozes esmorecem. Perto está o cemitério, que também acentua o tom de final do percurso pedestre. E já nem o bailarico armado no terreiro que topam no regresso pode aquecer a  nostalgia das coisas que se acabam.

Agora é fazer a viagem de volta, tentar esbater o desânimo com anedotas e cânticos, depois a despedida perante os olhos parados dos Leões, chegar a casa onde ainda está a porta, tomar outro banho revitalizador. De imediato, cair na cama de olhar fito no tecto, fazer o rescaldo: colar as cenas que imaginaste iriam acontecer com as que efectivamente aconteceram, estas superam as primeiras, procedes à selecção costurando um percurso novo em que reténs alguns episódios e outros eliminas. Tudo bem mexido, como num coctail, permites que muitas das vivências deslizem para o esquecimento e as relevantes colocas depositadas num certo espaço mental onde sempre se guardam as emoções a que depois de arrefecidas se dá o nome de recordação: na memória. 

Fotos: Dina Moreira          

Publicado por barbant em 09:24 PM | Comentários (1)

janeiro 03, 2005

Pobríncia


DA PELE, O SORTILÉGIO
(ALDEIAS – GOUVEIA)

          

À entrada da povoação, mesmo antes, fundo-me com tuas sombras. Isso me permite percorrer os sítios tendo-te por única companheira, apesar das companhias físicas que levo ou que surgem. Permite construir o “nós” sobre as passadas pelos pés impressas e pelo olhar delineadas. E me abriga e protege. Como uma roupa daqui típica. Melhor, como uma segunda pele. Com a qual me fundi o dia todo.

O retrato que se avista é branco. De “cal” a esmo despejada. Já pouco resta da anterior cor escura de antiga: quase só nas pedras de raras casas desabitadas e nalguns muros que prendem quintais. O corpo da aldeia estende-se no vale, imensa mulher deitada branca. As pernas alongam-se na direcção do sol que nasce, o povo de ruas estreitas que se roçam é a barriga, a cabeça está soerguida no lado ocidental. A política local mexeu nas coisas, criando nomes às ruas, colocando placas para seres de museu tal o moinho e o forno público, espanejando as pontes, alguns bancos estratégicos aguardam os corpos estáticos e tagarelas do fim-de-tarde. As casas cresceram assobradadas, da emigração foram transferidos os cómodos físicos. Alguns sulcos riscando na dura alma pairante que se havia formado: mas a segunda pele, a nova, prevalece.

Etéreo, um outro corpo se molda. Uma coroa de montes protege de norte, onde o findar de dia torna os pinhais negros como punhos; o vale, desabrigado, como um regaço, absorve e exige os olhares que da tardinha os vultos lhe debruçam; nos cerros o sol inclinado faz jogos de sombra; o ribeiro, como uma voz, boca elegida, sobe até ao alto dos caminhos. Esta é a matéria, aparentemente volátil, cerzida de cães e pássaros e pessoas, que bole com os naturais, os mais cultos, os sensíveis, mas todos os restantes. Ainda que assumindo formas vagas, indefinidas, que não saberiam exprimir. Matéria que se lhes cola, que os fisga. Na alma. Dando a esta uma pele de que nunca mais se libertam. Envaginados.

Enfrentas, enfrentamos imagens cristalizadas que ressuscitam. Os campos negros de humidade, vessadas usadas pelos raios de sol como estrada marítima; o serrano quase histórico que reaparece amarrado em fila de corda ao burro e às cabras, duas; a azeitona já negra no ramo que mordes e te excita profundamente de amarga; e, primordialmente, o espelho de águas, escorrentes das quebradas, quase cabelos, com seus brancos risos de garoto. É o retorno, o reencontro, o conflito, o meu, o teu, o nosso, com seres que já fomos. Com uma pele profunda.

Minha mente se debate e permeia em jogos platónicos. Pele virtual, quase carne psicológica. Entrevi-te, com teu companheiro actual, no carro que me seguia a viagem temporário. Pude vislumbrar teu busto debruçado alto na janela de tua casa. E, quase assombro: no almoço do restaurante, eras a miúda tagarela que esfacelava de intrepidez o casal ao meu lado e eras a mulher esguia de loira que na mesa ao fundo repreendia a filha, ainda miúda. Jogos mentais. Pele virtual. Que a mim não mente.

Neste cenário amadurecem pessoas que não podem ficar. Permanecer. Como tu. E na cidade rapidamente substituis a pele exterior. Arrojando roupas ao chão com nojo, avermelhando os lábios, delindo os olhos de azul e negro de pincéis, arranjando outro cabelo. Mais problemático se torna mudar a pele interior. Alguns fiapos, alguns poros, alguns tecidos, soltaram-se de imediato. Outros os arrancaste fazendo sangue. Por força de raízes. Outros ressurgiram quando os julgavas soltos. E outros, teimosos, permaneceram. Tens uma pele nova, sedutora, aliciante. Mas, ainda, mesclada. Dilemática.      

Publicado por barbant em 12:58 PM | Comentários (7)

dezembro 27, 2004

Pobríncia


MEMORIAL DOS ALTOS E BAIXOS
(BUSTELO - PENAFIEL)


1
Nunca uma povoação com nome macho se revelou tão feminina. De facto, a impressão marcante após alguns passos aproxima-se demasiado de uma mulher: começando nos altos de Santa Marta e indo até aos campos do Sousa, não há lugar algum em que a vista possa espraiar-se: os altos e baixos das colinas tudo tapam e não há horizonte limpo: assim a mulher tímida se esconde: é preciso procurá-la pacientemente, entrar-lhe junto da pele que são os caminhos escondidos pelos muros, meter-se debaixo das suas saias que são certos montes redondos, percorrer os seus cabelos que são os negros bosques de pinheiros e cedros, deitar-se na barriga verde dos campos, cair nas bocas que são certos barrancos a que carreiros como veias nos conduzem: rude e crespa mulher, nas suas ondas nos erguemos e caímos e assim se constrói o amor.

2
As tapadas, os seus muros correm ao lado da estrada e dos caminhos e sobem incansavelmente ou descem a pique, limitando os atropelados conjuntos de pinheiros mesclados de magro eucalipto e de guedelhudos carvalhos. Ali hhá ventos e aves e águas e coelhos bravos, a liberdade que pode ser susceptível de sabor ou caça. Estes muros são, por conseguinte, uma barreira, o limiar dos paraísos perdidos. Mas foram construídos com todo o rigor e segurança: altos, duros, com uma renda de pedra no cimo ameaçadoramente inclinada para fora, onde ficam as terras de todos: alguns deixam ver pelas frestas a larga e rubra casa senhorial, centro último da fortaleza; mas todos têm um portal, na maioria dos  casos simples portão de ferro, às vezes é cercado por um arco de pedra lisa com outras pedras trabalhadas decorando os cimos, em forma de vírgulas de quadrados de setas; as pedras que formam estas tapadas estão negras e em musgo, o que demonstra terem sido colocadas em eras de espírito grandemente tapado, onde dois ou três senhores com pedras destas mostravam a sua força, apenas abrindo o portão principal às visitas honrosas que posssuíam outras tapadas noutras povoações; agora, outras forças fundas rebentaram os muros por determinados flancos, todo o mundo pode penetrar no parque e fazer a sua coutada, o seu picnic, negar qualquer tipo de paraíso privado; pode entrar, há rombos fortíssimos, pedras estão derrubadas pelo solo, algumas destas entradas foram abertas mesmo junto ao portal de ferro entorcido, com seu ferrujento aluquete; mas o portal ainda ali está, sério, imponente, com seu ar sobranceiro e as pedras decoradas que lembram dentes num alargado arreganho.

3
Os caminhos, os ribeiros, a branca carne, o sangue esverdeado da maioria das aldeias, terás que os buscar e conhecer esforçadamente: esses largos lençóis de poeira que noutros sítios são alongadas e encurvadas coxas te prometendo desaguar em inomináveis recantos; os carreiros que noutros sítios são delgados braços ou pernas reluzindo ao sol bravo; os lisos estradões onde os carros de bois vão chiando e erguendo um vendaval de pó: onde estão? Entramos num caminho dessa teia poderosa e não sabemos mais onde nos leva: sobe e desce, encurva, volta atrás, o muro e a erva escondem-lhe a silhueta, será que o caminho acaba aqui?, não haverá mais saída?, ah é por aqui, vamos, oh lá está o estradão, pensei que viesse só dar a esta casa! E os ribeiros, esses pássaros ruidosos e loucos de outros sítios, será que as artérias dum corpo assim robusto de folha não têm mais pulso a percorrer? Não divisamos nada, talvez ali ao fundo, aquelas áleas de salgueiros são um hipotético sinal, vamos, ele ali vai, calmo calado, como de erva os bordos vão pejados. Terás de afastar o folhedo, por vezes o sangue adora defrontar-se cara-a-cara.

4
As casas, elas também, comungam das prerrogativas das coisas chãs que sonham ser altas: tresmalhadas, imersas no cardume de folhas, com suas negras paredes exibindo a ancestral resistência aos elementos, lá estão no fundo dos carreiros a pique: e nunca, como aqui, foram tão intragáveis os tingidos casarões que a estrada e via-férrea ocasionaram: só as de gema, as velhas casas escuras, são um rubro canto alto no verde caótico: e seria de ver-se uma chuvada sobre estas casas, só telhados como nas aéreas fotografias: até a chuva se mudaria vermelha ao ressaltar.

5
A festa, por fim, a Senhora da Saúde, e o seu cíclico ritual: de manhã, os carros, os magotes, o lento enxame cobrindo os caminhos de acesso; a missa grossamente entoada no mosteiro de duas torres, sobre o pavimento ainda de largas tábuas que as campas de outrora são; junto ao altar-mor é um delírio barroco cor-de-azeite-velho; a enxurrada de pessoas que não termina e ao recto sol do meio-dia a ocupação das quintas, dos montes, das tapadas, das barracas; abrem-se toalhas, malas, sacos, frangos, garrafas, bocas; o calor é pesado de mais sobre a tua cabeça, sentas-te no quadrado corredor do velho mosteiro e em círculo passa a multidão, intérprete e personagem do espectáculo: os jovens viris, as de cantarinha moças, os velhos, as feias, os imberbes, os pares, as famílias, os aleijadinhos, os exibicionistas, os gordos, toda essa fauna dá a volta no teu olhar; deixas o centro a sangrar em poeira ruído e entras pelos amplos arcos do aqueduto: a quinta em leiras hesitantes,  com inúmeras escadarias ladeadas por um arabesco nos lados das cancelas desaparecidas, um ninho com ovos podes topar entre a hera, e vais passando lento: estão de borco agora, dormem de perna-ao-léu, a canalha joga a bola nas vessadas; regressas, os comerciantes têm olhos gulosos, os jovens estão em fogo e o suor escorre gordo; na igreja o ar é de água fresca, pessoas rojam joelhos no chão ou devoram convictas o terço trémulo entre os dedos; ei-la sai a procissão, as de rectângulo bandeiras, os andores com seu vulgar cetim multicor, mas os montes e os campos permanecem carregados de vultos, a festa é ali junto do vinho tinto e nas bocas que outras procuram para sorver tomadas de fogo; o sol ainda não vai ferido de asa, mas a grande mole concorda e pelos caminhos o roldão de cabeças vai-se embora; sair dali é como livrar a cabeça duma rouca maceta que todo o dia percutiu; estão os outeiros partidos, as ervas esmagadas, o papel de embrulho resvala no tojo, cães estão devorando os ossos descarnados, e na memória dos dias futuros um dia dirás: "há anos ...".   

Publicado por barbant em 09:52 PM | Comentários (5)

outubro 12, 2004

Pobríncia


OS NINHOS: ALGUMAS EMBAIXADAS

Tati

Colocou Deus aos pássaros na terra com suas asas e pela terra os gravetos e o musgo colocou.

Eu te saúdo arco-de-fogo, berço redondo ogiva negro cesto, oh de ternura entrançado enredado enroscado ensedivelado encardado, oh de sons pórtico oh de amor braço aro de lume em meus olhos circunferencial torrente de vida em meus dedos, oh como eles me estalam!

Dos ninhos poderemos nomear a embaixada rasteira, a da cotovia dos chascos da perdiz a mais ardorosa a que desafia a pedra da paciência o de rafeiro nariz no chão e a que se pergunta "perdeste alguma coisa?" a que quase sempre apenas alcança encontrar insectos penas de ave desperdícios cobras a bufar.

Poderemos nomear a embaixada verde,  a que entra no útero das vinhas com seus esteios como colunas de creta a que possui o azul do sulfato nas folhas e nos ovos os de melro, a  do centeio derrubado sob teus joelhos da mesma forma que rapariga de amores dobrada, mais o oiro do melro do seu bico, e os lódãos cravejados de bossas um exército de varizes ensarapolando o tronco e os seus ramos espetados como cabelo de garoto azougado onde quase não refulge do escuro o minúsculo ninho de milheira ou o de rola só dois paus paralelos sobre o paralelipípedo esteio, poisadoiro monótono de muitos ninhos de melro cujas hipóteses de sobrevivência não prevalecem.

A embaixada de pedra provoca ranhuras nas costas da mão nas falangetas no antebraço vive no duro muro onde também mora a sardinisca e a aranha e só por acaso ou horas perdidas de vigia pode  surpreender a meigengra na rota e hesitas a mão não cabe e arruínas a pedra mas já é tarde não há  ovos mas pássaros implumes, e nas covas onde cresce erva espetada como bigode de gato está aninhado o de pisco ninho e os de carriça redondinhas bolas com um furo do perímetro de dois dedos, estão pendentes ou encaixados na terra ou comprimidos no musgo mas seis deles são falsos e só o sétimo possui ovos que quase não existem e mal os tacteias com ânsia de que evaporem ou fiquem reduzidos a um níquel de mel na polpa do polegar, e no entanto como páras espantado perante esse saco redondo pendente igual aos que os  carneiros usam entre pernas e ainda te manténs espantado do milagre de haveres descortinado esse saco urdido por camaleão de tal forma agora verificas que se não distingue da erva envolvente e musgo em que se intercala.

Nos silvados pode encontrar-se a embaixada de espinhos, a que tem braços que agarram a roupa e as amoras já não interessam, a dos melros de bico preto pintassilgos toutinegra, mas há a hipótese do pau por onde se sobe em risco de cair a todo o corpo no ouriço-cacheiro enorme que é o silvado, há a hipótese da tesoura-da-poda que abre um túnel e no  entanto a camisa quer ficar para trás e os cabelos também com pequeníssimos gumes incrustados na pele, duas gotas de sangue no braço, e com os pés as entradas tapas e dissimulas com as hastes cortadas que secam antes do verão entrar.

A embaixada lôbrega prefere as minas com suas armadilhas suas terras soltas que caem na água lamacenta com um xuá rouco de rã assustada e a cara também suja de terra que terra é e dela  provém, é a embaixada dos barrancos de poços com covazinhas cujo destino era permitir a descida dos proprietários para proceder ao desentupimento das nascentes vítima de derrocada, e aqui o tacto é a  personagem principal decifra os milímetros sólidos onde o pé depois segura todo o corpo, e no escuro mede a altura da mina e o grau de viscosidade do lodo e um morcego vem contra ti a modos de granada e um só grão de terra que cai provoca um estertor terrível na água com seu eco côncavo e brumoso, e a  frescura da água tornou-se exagero e provoca arrepios da mesma forma  que os provoca a fuga nojenta dos ratos e das aranhas e a temperatura aproxima de ti o cemitério que por razões ínsitas supões frio e só frio, e estás no poço no fundo dele onde viste o pisco-ferreiro esse pássaro negrito com uma lista de café no pescoço e olhas para cima e o céu é mesmo redondo uma pequena e redonda e azul saia de mulher.

Para ti não serve já a embaixada de alta cavalaria, a dos altíssimos largos pinheiros a  das entroncadas e corcuvadas carvalhas cabeludas quase só tronco chimpanzés de pêlo verde e sargitado que se sobe roçando o peito, e também as austrálias  que vivem juntas na encosta mai-los pombos bravos que teimam em construir o ninho na ponta do ramo e mesmo  asim só o avistas quando vais a passar e ouves o barulho esbaforido da ave  só porque a bota escorregou no folhedo seco e se soubesses subir até lá ao alto todos os degraus de verde arreigado de sol onde os ramos estalam por  vezes provocando pavor na espinha sentirias o céu mais perto cada vez mais perto e do cimo voltejas o olhar contra o chão e sentirias vertigens e mal descesses sentar-te-ias no solo apaziguado de haver terra e uma mão tão longa e tão sólida a amparar-te como se houvesses quase ressuscitado.

Por fim, nomear-se-á a embaixada húmida, a que sobe e desce o ribeiro, a de toda a música a de mil sons de mil ramos e mil espumas, dos mil olhos para enterrar no verde denso dos mil ouvidos que a água condensa como uma  libelinha que sobre ela paira armada em heli, a água com seus grãos de música que se confundem com os trilos do pica-peixe, a água que cai de cachão rouca e surda e avança entre as negras filas de amieiro das quais até o tronco é verde e é verde a própria água.

Eu te saúdo ninho - pássaro de asas com bico construído em cada primavera e nas chuvas derruído, oh mel redondo oh cálice de sons leito que só tacteio de fogo arco em meus olhos derramado berço em minhas mãos.  

Publicado por barbant em 10:14 PM | Comentários (6)

setembro 20, 2004

Desaparição - Bruzende (Viariz - Baião)


         
          Sento-me aqui na serra alta, no sítio chamado Cocurutos, e relembro.
          Também está alta a minha vida. Tenho um marido que amo, um filho que idolatro, casa carro quintais. Sou feliz. Ainda assim, às vezes recorro aos amigos. Um deles, arguto alto desconcertante, afirma: "A felicidade não existe. Não permitas nunca que a tua emoção fique plana como uma planície".
          Fitas o lugar, Bruzende da minha vida! Para baixo, os Juncais. À esquerda a rival Viariz. À direita, não se vê mas eu bem vejo Valadares, afundada nos pinhais. Foi daí que um dia subiu um homem até ao meu altar. Que me namorou. Que me noivou. Que me espetou um filho bem no meio das coxas. Que foi preciso arrancar, salpicado de borrifos de sangue. Que aí anda, destro de pernas, no chão do mundo.
          Desço o olhar pela encosta e a meio topo no lugar. E no corpo da minha infância. Lá vou eu descalça ou de socas, tropeçando nas pedras, garrafa de azeite quebrada que comprei na loja, arrastando o cântaro da bica de água, levantando olhos arregalados para as pessoas mais velhas, o povo está cheio, vou-me iniciando e pagando as primeiras contas da aprendizagem da vida.
          O meu corpo cresce, atinge a puberdade. Ocorrem alterações brutais orgânicas. Irrefragável, vence-te uma vontade absurda de correr contra tudo, as pessoas, os hábitos, os sítios, bater até à testa em sangue. E o corpo continua a crescer, a tornar-se todo, sobretudo no centro.
          Alarga na juventude. Os sentimentos correm como rios para um mar indefinido. O namoro. A defesa e o risco. O baile. Os bailaricos. Nas festas, nas noitadas, nos serões. Danças com os rapazes. Intimamente anseias por aquele, não sabias que hoje sabes que será teu marido. Mas finges desinteresse, é uma estratégia. Ele também. Mas quando chega a vossa vez estremece o teu peito de forma exagerada. Se me surpreendem!
          Guardei-as comigo. A infância, a adolescência, a juventude. Às vezes rebentam dentro de mim, acende o olhar num brilho. Retive-as. Diria aquele meu amigo: "Os estádios da nossa vida escoam-se pelos  dedos entreabertos. Desaparecem sinuosos no enxurro dos anos. Para sempre".
          Fitas o lugar. Parece uma povoação bombardeada. Casas novas, casas ainda iguais, casas em ruínas, casas caídas pelo chão. E as pessoas abandonaram o povo, parcas permanecem para segurar nas mãos as memórias e as tradições. Os chalés, determinados pelos emigrantes na Suiça, erguendo-se em vários andares, retintos. Diz o tal meu amigo: "Eles escarram grossamente a sua vaidade no solo em que nasceram. Mas esta é a povoação. Dantes, a aldeia  era idêntica às estações do ano. Agora evolui, ainda que rumo à decadência, numa trajectória próxima da que é reservada aos seres vivos".
          Gosto de regressar. De calcorrear os caminhos do passado que estão agora também inscritos na minha fronte. De conjugar a festa da Senhora da Saúde desde a véspera até ao crepúsculo da expiração.
          Diz o meu amigo: "Planar, ser feliz! Com tanta desaparição, não é possível".
          "É", digo eu.

 

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agosto 25, 2004

Passeio. A pé









De toda a viagem e do seu fogo de convívio restam na memória os momentos de milagre que ocorrem acesos à maneira de slides. A selecção será diversa se acontece na agenda contemporânea do acontecimento, se é feita um dia, vários dias ou anos após. Esta última é a mais correcta, pois corresponde ao cristal exacto daquilo que dos actos perdura. Mas façamos a de um dia após:

de madrugada, saltar da cama e combater o frio junto do forno em labareda ou nas chamas da lareira: primeiras horas de lume, com utilização simultânea para o arroz loiro e o frango assado;

entrada na manhã enfarruscada, irmã das do falecido Fevereiro, com as troixas pendentes do braço, as pernas aptas e as palavras faiscantes de ânimo pelas bocas exaltadas;

não nasce o sol no céu de chuvadas suspensas, apenas os regatos correm barulhentos para os fundos, e os pássaros anunciam um dia novo, ainda que cinzento;

nomearemos a mina, uma simples mina há anos mudada em farsa religiosa, com vozes e aparições no interior, de que ainda resta uma caixota de madeira com seu buraco de esmolas toda borrada de cera e com um pedaço de tecto enegrecido pelo lume de antigas velas;

deste outro local falaremos do ambiente de silêncio fortíssimo devido à amálgama de troncos e às poças de água que os  campos pedem;

por ali acima vai um bando de jovens desordenados nos gestos e nos palavrões e nas atitudes que, fingindo libertinagem ou pura acrobacia vital de falas ou de corpos, acaba por se confundir com exibicionismo: passam, curiosamente, perto de duas casas, casas não, paredes onde outrora foi erguido o teatro que a vida familiar origina, e que agora são habitadas pelas gordas hastes dos silvedos;

rente do estradão há uma casa alta, bifurcada, no meio de altíssimo arvoredo e pujante pululação de arbustos: é destas casas isoladas que são o personagem principal e centro neválgico de filmes de terror, por onde passa o medo a cavalo no vento e brancos fantasmas se iluminam nas negras noites de trovoada: como não pensar nos negros fantasmas que povoam as nossas brancas noites de insónia?;

a chuva, que finalmente aparece, insistente, fria, entrando por todos os lados, encharcando agora os pés, depois os joelhos, mais tarde os cotovelos, e os braços, as pernas, o cabelo, enquanto escorregamos na lama que decora os caminhos de cabra de entre-campos, em que ficam impressos, por instantes, os encurvados desenhos dos sapatos;

em casa, a roupa que se arroja como uma praga, a lareira, a concluir com lume uma viagem que, desde o início, a lume fora escrita.   



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julho 24, 2004

ARCO DE BAÚLHE (Cabeceiras de Basto)

        6 VOLTAS EM DERREDOR         





1.ª
Como se vai para o Arco? Até ver, é desta forma:
Cama, casa-de-banho, porta, porta da rua, rua, Porto, via de circunvalação, A3/A4, deixas a A4 de lado rompes na A3, que a seguir também deixas de lado, auto de Guimarães, atravessas a cidade, ladeias a Penha, deixas a estrada de Felgueiras, desces para Fafe, Fafe ao lado, por Moreira de Rei, subida da serra, fonte à esquerda bica fria na boca, sobes, curva à direita, curva à esquerda, curva curva curva, contracurva, corcovos sucessivos, um lombo dá lugar a outro, voltas a descer e a subir, Vázea Cova e nova descida e nova subida, mini-alto, grande recta surpresa com seu Café da Recta ao fim, descida inclinada, gelo, cuidado!, deixas Cabeceiras ao lado, desces, Outeiro, Alvite, Santa Senhorinha, pequena subida breve salto de coelho, estás no Arco.
Tanta coisa que tiveste de abandonar, que ficou de lado! É o decreto-lei da vida. Mas estás no Arco.

2.ª
Baúlhe é misto de vila e aldeia. Animal bifronte, como o sagitário ou o gnu. A vila é o centro, a baixa, com seus cafés, confeitarias, seus largos, suas lojas, padarias, drogarias, alfaiate, pronto-a-vestir, mecânico auto, stand de carros, vestidos de noiva, ruas becos calçadas, passeios, pessoas, encontros, diálogos, vivacidade, pequeno bairro de Paris, carros, motas, bicicletas, a pé, homens donas raparigas, crianças, moinas à porta do bar, casal de gravata e vestido, velhotas muitas negras, e com jeito, se te encostares aos grupos, hás-de encontrar o médico geral, o ingenheiro, o adbogado, a enfermeira, a professora, a profissional ... até o abade pode surgir a todo o instante preto de batina.

3.ª
Em volta, designadamente a ocidente, persiste a área rural, embora contruída em azinhagas. Campos, arvoredo, pássaros, erva, poças, regos, lameiro, sapos caracóis lesmas, cheiroso loureiro, belo velho carreiro abandonado, estreito entre muros entre leiras à mercê das badaladas dos sinos do centro. É aí que ocorre a matança dos porcos. Vêm dos lados de Montalegre, numa carroça cheia de grunhidos, retiram-se quatro, prendem-se no quinteiro, estão dois agressivos bancos preparados oito homens seis mulheres e a cozinha e as panelas e a salgadeira e as facas enormes afiadas, agarra-se o primeiro, à unha, aos gritos, sete-cães-a-um-osso, vai! força! ei!, espeta-se com ele contra o banco, agarram-no com todos os braços, a confusão manda uns contra os outros, a faca entra na barbela do pescoço, o animal berra uiva atroa a aldeia, o sangue esguicha e espicha no alguidar, berra, vai resfolegando vai esperneando vai afrouxando, deixa de coicear, deixa de espernear, está morto, atira-se para o chão, venha outro, e outro e outro, trato igual, a seguir são chamuscados, os pelos, o coiro, com maçarico, são lavados com sabão e esfregados com pedra de bloco, estão loiros como leitões da Bairrada, estão lindos, agora abre-se-lhe o ventre, dois de cada vez, um em cada banco, penduram-se na loja, ao alto, contrariamente a outras regiões de focinho para cima, repara olha, duas gotas de sangue escorrem no rabicho.

4.ª
Meio-dia. Calor. Calma. Devagar, lento, tranquilamente, vais à Churrasqueira do Paço, sentas-te na sombra da mesa, vitela assada, frango assado, costeleta assada, tudo assado na brasa à mostra, vem o bife grelhado, tostado gostoso suculento, vem a infusa de vinho tinto coroado de espuma, o arroz a batata o pão a salada, já estás de coração sossegado, encostas as costas contra a cadeira, breve massagem, olhas lá para fora o ar quente, vem a sobremesa e o café, demoras um pouco mais, voltas ao centro da vila, não sem antes passar pela estação, velha suja desactivada com ferros entrelaçados pairando, apenas museu ao ladodo dito, entestas na estrada de Pedraça, mas não vais à verde Pedraça, duzentos metros à frente desces pela esquerda, deslizas escorregas quase cais na praia fluvial do Caneiro, sentas-te na areia contra o muro, metes os calções, fumas um cigarro demoradamente, olhas as vozes os gritos o barulho os vultos as pessoas, os corpos que cachoam na água, paisagem fresca e molhada, mergulhas também, o corpo torna-se de água, assim gastas a tarde.

5.ª
Curioso, tentaste obter a informação a todo o transe e nada. Afinal aonde fica o arco? "Nunca ouvi falar", "Não sei". Procuras interrogas buscas olhas. Ninguém te sabe dizer, não o encontras, nem as ruínas sequer, um arremedo. Arco só se fôr o íris quando chove. Persistente, insistes, lanças iculcas, voltas a inquirir, pedes que o façam por ti alargando o número de hipóteses. Nada, não há arco nenhum nem nunca houve. Então desistes, conformado. Arco, o arco de Baúlhe, só existe mesmo como palavra, redonda, incrustada no topónimo.

6.ª
Regressas de noite. A condução torna-se difícil. Não há terras, não há placas, apenas estrada, negra, lambida pelos faróis. No alto, onde se escondem as corcovas da serra,  nasce um banco de nevoeiro, escorre, caminha, cresce. Não se enxerga um palmo. Vais a dez à hora. No entanto, outros carros apitam para ultrapassar, passam rápidos, suicidas. O nevoeiro é um muro cerrado, cuidado, quase te despistas, os passageiros vão assustados. Mas tu tens que prosseguir, tens que teimar. Todo concentrado, arrancando os olhos, rasgas o nevoeiro, rasgas o nevoeiro, rasgas o nevoeiro, rolos e rolos escuros, porventura a estrada entrou pelo mar dentro, e aturdido cansado tenso rompes, devagar devagar caracol. Estranho! Parece uma praga! Dá a ideia que o Arco se apoderou de ti, te enfeitiçou, e exige o regresso, exige que voltes para trás, que voltes novamente para o Arco.

Publicado por barbant em 04:47 PM | Comentários (7)

UNHAIS DA SERRA (Covilhã)

 

VIDA DE MONTANHA
                 


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          ... ver rebanhos, conversar com os pastores, beber de bruços na água dos regatos, passar o dia nos pinheirais e nos soutos dos castanheiros, trepar a montanha, pisar a urze, meter as mãos no rosmaninho, andar por aqui como no seu quintal, à vontade, esquecido da gravata e das conveniências, esquecido até do mal que a gente tem dentro de si, tantas vezes apegado, nas ruas das cidades, pelas almas empecadadas irradiando maldade como uma vela acesa irradia luz.
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          No fim de quinze dias de vida de montanha, ao ar livre, levantando com os galos e deitando com as galinhas, no meio do dia dormindo a sesta à hora da calma, a inteligência de pousio e a vontade disposta para o bem; no fim de quinze dias, a saúde vem da alma para o corpo e, então, os nervos aquietam-se, os pulmões respiram à farta, o estômago digere pedras, e não há chuvada que nos constipe, nem torreira de sol que nos atordoe!
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          ... este é dos mais formosos sítios que há em Portugal. E não o espera quem, vindo de Lisboa, atravessa a Beira-Baixa - em geral seca e monótona. Da Covilhã para aqui vimos por montes, às curvas, ora subindo, ora descendo e quase sempre em terreno árido. A alguns quilómetros de  Unhais aparecem os primeiros castanheiros e, de onde a  onde, leiras de milho, amaciando o olhar desconsolado por só ver urze, montes rapados, ou pior, montanhas feitas de penedia brava, alcantilada, toda imprecações contra os altos céus que a condenaram ao desamparo da vida das serras, onde a  invernia é inclemente!
          Mais outra curva de estrada e entramos no vale de Unhais, todo verde de lameiros ensopados em água, verde de campos de milho, verde de soutos de castanheiros com as copas estreladas de ouriços amarelos. Em baixo, um ribeiro entre pedregulhos enormes, que as enxurradas vêm rebolando pelas ravinas, desde séculos; nos altos, a serra áspera, e rapada pelos invernos, formando o fundo e o lado deste vale risonho; e encostada a ela, à ilharga, num abrigo maternal, a pequena povoação de casas terrosas - da cor da broa que se come no sítio - coberta de telhas tanadas como o briche de que se reveste o montanhês desta região, pálido e soturno, que passa por  nós  com olhos de serrano, e a  larga cara ensombrada pela barba de oito dias e pela borda do  enorme chapéu de feltro, guardando-o da chuva, do sol, da neve e do vento.
          Ora aqui se tem, numa mancha, do que é Unhais. Além disso, um lindo sol, que parece não ter outra missão senão  aquecer este bocadinho da terra, e, para qualquer lado que a gente se vire, grande variedade de pontos de vista, cada qual mais pitoresco, com recortes de montanhas, com voltas de estradas, com águas caindo em açudes,  com cabradas nos outeiros, com grupos de casas pobríssimas, mas onde ri, invariavelmente, por entre toscos paus de velhas varandas alcandoradas ao poente, em fundos de bilhas e de  jarros desasados, o manjerico verde, o serpão e as blantinas escarlates. Mas há mais: há a sombra dos velhos castanheiros, que de longe chama pela gente; e o regalo de nos deitar-mos no feno bravo, vendo correr a água dos regueiros, assedada na verdura dos trevos e da margaça fina - verdura tão fresca e água tão limpa, que dá vontade de ser criança e de chapinhar nela com os braços arregaçados! E, envolvendo tudo, há o silêncio perfeito dos campos, que a toada distante dos  chocalhos parece dilatar ...
          Não será isto um canto, priveligiado de todos os requisitos de uma estação de  sossego para tomar fôlego quem passa os dias do ano nas canseiras da vida do pensamento? Decerto que é.

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                        (Antero ... de Figueiredo - "Recordações e Viagens", 1905)  

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julho 12, 2004

VILARINHO DA SAMARDÃ (Vila Real)


        CARTA-ABERTA A CAMILO RAPAZ         



Meu caro:
Aqui estou na terra em que tu dizias (e escreveste) que passaste os únicos dias felizes da tua vida. Grande maganão!: os grandes dias, aqueles em que perpassavas com o pecado atravessado nos dentes, o pecado que sempre perseguiste, esses passaste-os no Porto. Olha, nasceram algumas casas novas fora do povo, cafés, chalés, restaurantes, o alcatrão lá em cima. Ao fim-de-semana deambulam turistas, curiosos, indiferentes, gente que vem farejar um pouco do teu sangue ainda inextinto. Verifico que os padres-sobrinhos já partiram soterrados com o seu sarrabulho teológico, apenas deixaram algumas velhas de negro derreadas com terços trémulos nas mãos, com efeito os anos procederam à barrela, até porque os braços (e cabeças) viris foram forçados a partir.

Mas o interior do povo está igual ao que se colava às tuas sandálias frenéticas. A tua casa, avantajada pelo sobrinho-padre, está na mesma, sob as latadas, apenas mais silenciada. Mas as pessoas foram-se embora, meu rapaz, poucas restam daquele forno em que te envolveste. A idade média permanece aqui, mas acabrunhada, lenta, apenas beliscada por algum cão que ladra ou o som deles.

Deambulo à procura do milagre, mas provavelmente irei embora de mãos vazias. Não lobrigo as cachopas coradas, os seus chapéus garridos roçando a penugem da nuca, nem os mocetões planejando os bailes das eiras, nem os lavradores azafamados, nem o canalhio, apenas restam duas ou três mulheres sem assunto para rosnar nas esquinas. Impossível, não enxergo a roliça tia Rita, nem a Carolina irmã, nem o cunhado-médico Francisco, nem o Padre António, muito menos a Maria do Adro e sobretudo a Luísa flor-dentre-fragas. Mas as fragas, essas sim, permanecem além, hirtas e firmes desde  o génesis, iguaizinhas às que enquadraram o molde do teu olhar, lá continuam doirando a Falperra.

Ah, afinal tudo se consuma, de forma admirável, o tempo recua 150 anos neste domingo parado: numa viela, estirada no chão, vermelha em sangue, uma ovelha estrebucha em tremuras preludiando o almoço dos acompanhantes. São dois homens e uma mulher, já entrados, sorriem cumprimentos quando os cumprimento, eis o quadro da bruteza com que tanto lidavas. Um lençol de sangue abre-se no chão empedrado, um rego rubro escorre para os campos.

Sigo a direcção desse indício. Os campos descem íngremes, ladeando de hortas os caminhos na poeira. Estão abandonados, crespos, apenas alguns legumes esverdeados e o áspero silvedo que cresce. Aonde estão os ranchos, as palavras trocadas, o  sussurro, as canções rasgadas nos ares, povoação-feira irrequieta colmeia, prenhe de vida, que te  aconteceu? Podes invadir os quintais, roubar as parcas frutas inteiridas, nada ninguém te dirá: da mesma forma, ou desta forma, a inveja, a soberba, os sentimentos gerados pela fome, esmorecem, morrem também.

No fundo da encosta encontro-me com o teu rio. Ribeiro que lambeu teu dorso jovem que pouco depois encostou a seda jovem da Joaquina de Friúme. Não está frigidíssima a água, como afirmavas n'"O Degredado", mas é porque o verão já vai em força. Sento-me debaixo da ponte rústica, observo-te dentro de águas com um estranho receio, levanto os olhos ao alto povoado, oiço por cima de mim na falda da montanha o combóio que foi desactivado, meto ao bolso alguns pássaros que deliram no arvoredo. Levo-os comigo. E contigo.

Agora, porra, vou almoçar lauto a Vila Pouca, cabrito assado regado com batatinhas loiras vinho e azeitonas recoberto com café aromático e um cigarro azul. Depois, na tarde ensolarada, rompo pelas aldeias incógnitas a que não deste nome, Vila Cova, Parada, Lamas de Olo, talvez vá às veigas do Tâmega de Santo Aleixo à procura da loira Josefa por quem um dia me perdi de amores.

Mas eu volto. E voltarei muitas vezes, na tentativa vã de substituir o teu vulto esguio e embexigado. Irei verifiicar se o fojo do lobo não está muito derrotado, conversarei com os carvoeiros da Samardã que me falarão de ti, zelarei para que as passadas no povo velho não incomodem ferozmente o teu sono ainda não declinado. Voltarei sempre. Já que tu estás cada dia mais longe de o poder fazer, uma vez que, estando vivo embora, é uma vida bastante descarrnada.

Conta comigo, rapaz de uma figa!     

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junho 21, 2004

URRÔ (Penafiel)

INTRÓITO E 5 CINTOS DE NAMORADA


INTRÓITO

Aninhada entre o rio e as colinas, Urrô, nas últimas décadas do século XX (se calhar ainda hoje), produzia uma estranha atracção sobre os jovens masculinos. Sózinhos ou em grupo, eles aportavam atraídos por uma contagiante comunhão comunicativa que deparavam nas esfolhadas, nos bailaricos, nas festas, nas romarias, nos trabalhos da semana ou nos domingos sem história. Vinham de Irivo, de Mouriz, de Bustelo, de Paço de Sousa, de todo o lado. Dizia uma típica lavradeira: "Tenho sete filhas e todas casaram com rapazes de fora!"
Foi o que aconteceu a ti também, rapaz de fora!


CINTOS

1
Ao anoitecer daquele sábado abordaste-a na bica. Entre a timidez face a um desconhecido e a ternura aberta que molda a juventude, cedeu-te a informação de que iria à desfolhada na Quinta do Paço. Pelas onze da noite aproximas-te das espigas, do barulho, das raparigas. Já haviam comparecido os namoros, e das espigas eram mais as que se atiravam pelos ares, contra alguém ou algo, do que as que eram esfolhadas da camisa. Erguendo-se como único e válido motivo, num instante o baile preparou-se e incendiou-se. Dançar! Apertar nos braços a maciez sôfrega de uma cachopa rubra, encostar-se disfarçadamente ao seu calor! Ainda que por breves instantes. Sem o cinismo desaprovador dos pais, nem das mães, nem da moral. Dançaste com elas, quase todas, mas sobretudo dançaste com ela. E, subtil, estranhamente, um ainda leve cinto começou a cercar-te.

2
Depois, na festa de S. Miguel o Anjo, em Maio, aprofundaste a relação. Ela era jovial, forte, bem proporcionada, de grandes olhos, quase te guiava. Foi nessa festa que surgiu a confusão que não mais esqueceste: dançavas com ela, quando o Clemente de Cete tentou roubar o par. Seguraste-a com força e ele atirou-se a ti provocando larga zaragata. Ela recuou entontecida, dando pequenos gritos histéricos, mas o sangue que jorrou foi escasso. Depois saíste com ela na festinha da Senhora da Paz, pelas vindimas e, sobretudo, em Outubro estiveste com ela no S. Simão, bem lá no alto da capela, donde se divizam como de avião dois concelhos completos. Era uma mole de gentes, vinda de todo o mundo, a pé, de mota, de cavalo, de excursão, fazes uma visita descontraída aos comerciantes, às doceiras, aos barracões onde se come frango e vinho doce, aos passos arrastados no interior da capela, às velas acesas queimando promessas. Este local propício ao vento está deformado: alor, gritaria, sons tresmalhados, sobrevoando tudo o estoiro dos foguetes e as frases ridículas dos propagandistas.
Ao entardecer pediste-lhe um beijo. Mata a sede que nunca se apaga, rapaz de fora, se ela aceitar, o santo que é bom apóstolo não se vai importar.

3
Aldeia que se preze deve ter, grande ou pequeno, o seu rio ou ribeiro. Aqui desliza sereno o Sousa, em brando declive paralelo aos grandes lavradores: Quinta do Paço, Quinta da Vinha, Quinta da Fonte, Quinta da Vila. As águas ainda vão limpas, a poluição da indústria só chegará mais tarde, ainda não se nota a sua gravidez nos tempos. Agora chegas tu junto da pequena ponte, onde o vale se estende até à estação, vens conversando animadamente com ela, o irmãozito mais novo (pois claro) vem um pouco atrás. A tarde declina, melros e pequenos pássaros embrulhados atiram canções de dentro do arvoredo. Na água quase estática é possível lobrigar um peixe de passeio. Mandas o irmão à loja comprar rebuçados. E, entretanto, puxando-lhe o braço que resiste um pouco em conformidade com as orientações recebidas, logras encostar-te rosto com rosto. Com o entusiasmo não te apercebes, mas anos mais tarde ela confessar-te-á: um pouco pálida, tal como as hastes dos salgueiros anoitecendo à beira do rio, ela tremia toda!

4
De longe a longe, do mesmo modo que o sino, ouve-se o som doméstico do combóio, o rouco rolar sobre carris, vislumbra-se o fumo enovelado nos ares, o pasmo absorto do gado nos pastos. Os cães esses já se habituaram ao monstro galopante, ficam quietos sem ladrar. Terras de festas e romarias, entras no combóio e vais à Senhora do Vale, à Senhora da Saúde, ao S. Bartolomeu, a tudo que o corpo pede. Ou então vais a pé, pelos brancos caminhos estreitos de poeira. Bandos de raparigas avançam assustando os campos com seus cânticos e risos. Ao entardecer, retomam o combóio e regressam. Porque quem nasceu em Urrô, sente o sítio como um regaço de mãe e, quando se ausenta, só pensa no regresso.

5
Voltas de novo e finalmente à igreja, assente em alto muro sobre a estrada. O cinto está definitivamente apertado, o nó que se formou é cego. No altar todo alumiado, é o Padre Braga que preside à cerimónia do teu, do vosso casamento. Alegre e circunspecto, como água benta, arremesa no vosso rosto palavras afáveis. Quando os sinos ressoam, velhos conhecidos de todas as horas, uma emoção incontida alastra no peito, envolve os noivos de cima a baixo. Ou de baixo a cima. Ele e ela, respectivamente. Já no adro, durante o desfile tradicional das fotografias, abranges com o olhar o verde vale de Urrô e avistas nele gravada a palavra "felicidade". Felizes para sempre, é o que sempre se sentem e sentiram os noivos acabados de casar. Serás feliz. Por um tempo. Tu e ela. Deus te abençoe, rapaz de fora!

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maio 31, 2004

FREIXO (Marco de Canavezes)

INTRODUÇÃO E 5 MATERIAIS

 

 


Introdução

do inumerável espólio que são as aldeias deste país, vários protótipos poderiam ser definidos. assim, nomeia-se a aldeia alta, a redonda, a de encosta, a fluvial etc., de acordo com a sua posição alcandorada nas colinas, os seus largos vales verdes, o seu jeito cansado de subir aos cumes ou os seus rios de estreitas águas.
mas não é possível aprisionar assim facilmente o ser vivo que a aldeia constitui. no emaranhado de caracteres que a limitariam a um modelo de antemão conhecido, há uma face singular que se oferece aos cães do conhecimento de que dispomos.
assim, dizer-se meramente que Freixo, apesar do nome ribeirinho, é uma aldeia alta, deixaria essa face oculta e soterrada. pensarias numa aldeia alta que conheces e esta escapava-te. acrescentar que é uma aldeia velha, escura, medieval, de silêncios, seria parte do percurso que conduziria ao seu coração. mas, o adjectivo que a define teria de saltar de entre-línguas, assim a modos de lebre que salta dos matos. antiga é a face mais próxima. vejamos os materias de que se constrói essa face.

Materiais

1
os muros, os de pedra tosca, virgem, negra, ei-los que são a geografia pétrea, o duro vestido que o sítio se forma: aqui ladeiam o caminho, a magra viela estreitam, originam as tapadas, agora deslizam lestos para os fundos, voltejam em poderosas curvas até outro lugar, dão o fim das leiras, olha este é já esbarrondado, cansado, bocados de carne, não, calhaus jazem fora das artérias, assim um sangue escuro os só braços no sol denso permanece e cristaliza.

2
à pedra voltamos, ao duro e esforçado ofício de adoçar o granito em cânticos que por vezes são leves: a igreja é em talha límpida, pequenina como um berço e humilde como a moça que a mostrar-se não aspira; fora da entrada principal está uma pia, um cálice lavrado com suas rugas onduladas; nas escavações mal começadas as colunelas nascem do campo como provindo de sementeira e pensam nos altos ares que a sua graça abriga; muros de fino talhe crecem em direcção às raízes, uma panela de pedra surge que será pesadíssima mas que nos provoca um banho mental redondo e de infusa; duas minas cravadas na rocha, uma é simples gruta, a outra é uma cruz em que entras e com um fósforo incendeias; entre os carvalhos ovelhas passam e tens a ilusão de ver caminhar enoveladas construções de pedra.

3
casas, nesses lugares penetramos e o tempo produz arcos em que em silêncio te diriges centenas de anos atrás de ti, casas há alagadas com bocados de madeira que camas ou mesas topas pelas frestas, os moradores ausentaram-se, talvez tenham ido a aljubarrota, peles de carneiro secam como bandeiras dos últimos bichos assassinados e em lautos festins consumidos.

4
um casamento vem ao nosso encontro; vultos escuros contra os muros negruscos; agora os noivos, empunhando símbolos gastos: o vestido branco até à poeira, o fato com seu colete e sapato; mas nos acompanhantes uma nota voluptuosa te escalda: todos levam um cravo no peito, destes rubros  retintos como cristas de galos pernaltas; e pensas: vermelho é todo o ritual do sexo e as armas com que os actos do desejo decorrem: a vagina, o pénis, os lábios, certos mamilos, o sangue virgem ou menstruado, os olhos duramente cerrados: assim uma árdua festa taurina na carne nasce: o recuo vai até à vez primeira em que desesperadas as mãos ficaram entrelaçadas.

5
uma velhota podemos arrebatar ao seu tugúrio, ela tem o frio dos anos empedrado nas veias, a aldeia é ela e nela circula, dirvos-á: "não gosto de carne de qualidade nenhuma", "os meus filhos queriam que fosse p'ra casa deles mas quero-me sózinha e com a graça de Deus", pela porta entreaberta reparamos no dispositivo exíguo com que o sofrimento é vivência em certos animais, a velhota fala com seu único dente, e não é uma imagem de crise de cansaço ou indiferença, é a sabedoria já não ardente, já apaziguada e sem vinhos ao longe.

Publicado por barbant em 06:37 PM | Comentários (2)