junho 09, 2007

(Pa)rábulas



(IN)VERSÕES


            Esta é uma sala recolhida em que entram os dois jovens, provindos do frio do jardim. Os corpos estão muito próximos e ele agarrando-a um pouco, arrasta-a para o sofá.
           
Estão já bastante entrelaçados e de respiração ofegante. É quando entra, esquivando-se ao tumulto dos convivas do salão, um homem entroncado, de gabardine imponente e rosto firme.
           
Este estaca, de olhos muito alargados, fitando os pedaços de corpo nu à mostra. Os jovens soerguem-se bruscos, inquietos.
           
Os três pensam:
           
- E agora?

            Cansado do tumulto que invadiu o salão e das conversas já alcoolizadas dos convivas, procurou refúgio numa das salas adjacentes. Quando entrou, verificou estupefacto que o sofá apetecido já estava ocupado por um casal jovem que se amava ardorosamente.
           
Dirigiu-se ao rapaz e arrancando-lhe os braços, empurrou-o para a rua, não sem lhe lançar os seguintes gritos:
           
- Estupor! Vai-te já embora daqui antes que eu te desmascare. Fora! E já! Pode ser que as roupas depois te cheguem pelo correio!
           
E sentando-se à beira dela e puxando-a, num tom de ternura embrulhado em chantagem:
           
- Agora temos um segredo. Decerto não queres que o teu namorado saiba? Quem sabe, poderíamos até ter dois segredos?
           
Ela aninhou-se-lhe no peito com um sorriso.

            Um pouco arrepiados pelo frio do jardim, os dois jovens recolheram-se naquela sala e naquele sofá. Agarrando-a com dedos de medo, ele consegui desnudá-la um pouco. O suficiente para não resistir a ter que a abraçar e meter as mãos na pele que entretanto estava à mostra, e mesmo no calor da que se escondia sob as roupas.
           
Eis  senão quando entra um homem másculo, que se dirige a ele empurrando-o e insultando-o. E desatando em seguida com ameaças. Apesar dos trajes menores em que se encontrava, o jovem levantou-se calmo e deu um murro no queixo do homem que logo se estatelou no tapete.
           
Quando se tentou levantar, o sangue escoria-lhe em jorro. Ergueu uma das mãos, como que a pedir tréguas ao rapaz que se preparava para o sovar de novo.
            Os dois jovens vestiram-se e saíram pelo jardim de há bocado.


Publicado por barbant em 04:51 PM

abril 10, 2006

Os Novos Malhadinhas


Os Novos Malhadinhas



          

Passamos pelos dias um pouco cegos, ofuscados talvez pelo brilho e o número de objectos, factos e pessoas que nos rodeiam como de peixes um cadáver afogado. Mas, por vezes, num recanto do cérebro, a paisagem fende-se por um raio sanguíneo e surge-nos uma visão.

Foi o que aconteceu hoje deslizando, sózinho no carro, no alcatrão da auto-estrada pejado de camiões. Já se sabia que o carro é uma projecção descomunal do corpo (e da mente), arrastando-nos a excessos trágicos, quando nos deixamos envolver pela subtil cocaína da velocidade.

Aquilo que não ocorrera ainda, veio agora à tona. É o caso das profissões que desaparecem, das que surgem, das que reaparecem. Com imensa nostalgia, pensamos de vez em quando no almocreve: o homenzinho que na primeira metade do século vinte (e nos anteriores), sempre acompanhado do seu inseparável macho, calcorreava enormes extensões, por vales e montes, comprando, vendendo, traficando, tresfagando, vivendo. O homem, afinal, não morreu. É ele agora que, muito macho, sentado ao volante dos camiões brutamontes, efectua as mesmas transações, em distâncias maiores mas que demoram o mesmo tempo de outrora. E é vê-los, na estrada, na estação-de-serviço, nos restaurantes, musculosos, brigões, cervejeiros, sempre envoltos em algazarra, aí estão, aí vão os malhadinhas de hoje.

Publicado por barbant em 10:14 PM

agosto 15, 2005

(Pa)rábulas



O CASAMENTO



                      

           Casei com a mulher.
        Foi um sábado glorioso, de sol e tudo.

       
Hoje, mais de mil passados, é bem diferente a perspectiva. Ou a retrospectiva.
       
Porque rapidamente verifiquei que me tinha casado, também, com a mãe dela. E as irmãs e os irmãos.
       
Depois, que já estava casado com os vizinhos. E o lugar todo. E a povoação inteira. O padre, o presidente da junta, o centro de saúde.
       
Mais tarde, apercebi-me de que me tinha casado com as neurastenias dela. As doenças, as alegrias súbitas, os carinhos, os despautérios.
       
Tive de me casar, ainda, com os filhos.
       
Depois casar-me com as nuances provocadas pelo roer dos anos.
       
Pus-me a reflectir e já estava irremediavelmente casado com o ciúme, a raiva, o desespero, os amantes, veros ou falsos.
       
Entrementes, casei-me com as idas ao mercado, ao shopping, à família, às amigas.
       
E com as boleias que tive de dar ao cabeleireiro, ao peixe, ao parque, à hortaliça, aos velórios.
       
Tentou, ainda, quotidianamente, que me casasse com as telenovelas dela.
       
Passados todos estes sóis, só posso exclamar:
       
– Grande casamento!

 

Publicado por barbant em 09:37 PM | Comentários (6)

outubro 26, 2004

(Pa)rábulas


BELLE DE JOUR: OUTRA



            Todas as tardes, entre as 15 e as 16, ela se dirige ao micro como se altar fosse mas na posição de sentada. De ajoelhado não se poderia falar, porque a zona corpórea que dá origem a este adjectivo se encontra tapada por calças justas.

            Então começa  e se desenrola um duelo entre os dedos de suas mãos e as teclas do computador. Como se fosse um piano.

            Sem hesitações, sem passos salientes, sem soluços nem interveniências, no écran o espaço branco vai-se negrejando. Como se aranha invisível construísse sua teia, como se a baba que no aracnídeo é redonda aqui fosse horizontal ou de quadrilátero. Também de teia se poderá dizer, que das palavras concatenadas e imbricadas o resultado só é.

            Uma tarde  alguém entreabre a porta e fica interdito. Dias depois iria jurar que ela estava em êxtase. De soçobro. De costas encurvadas, as pernas tentam prender-se ao ladrilho estremecendo, o cabelo escorria comprido, provavelmente sobre o teclado. A espaços um arrepio deslizava nas espáduas, a nuca repintada em tons vermelhos soerguia-se.

            Quando terminava, esticava os braços como se fossem asas de albatroz. Então, lentamente, dirigia-se à janela e queimava um cigarro que quase esmagava entre os dedos. Os dedos, outra vez, que prostituía em textos e agora aproximava da chama que certamente prefigurava como apoio de outras.

            No micro, repousava já enviado um texto denso, críptico, subterrâneo, sucedâneo, labiríntico. Como bisturi ou punhal. Ou coração.

            Ela vinha das terras fecundas e carvalhosas em que a abelha regressa rodopiando ao cortiço e produz doce o dourado fio de mel. Aliava as vantagens, imponderáveis e inefáveis, de quem nasceu na província e desaguou na grande cidade. Tendo acumulado e somado as qualidades de cada uma e das duas. Tendo-se libertado dos defeitos terríveis da primeira e sido incapaz de absorver os da segunda.    

            Ali, e noutro lado já, repousava vivo o texto. Como um duplo, o reverso no espelho, distante já de sua imagem.

 

            Ela não sabia que  o interlocutor utilizava para recontro a hora  nocturna.

           Ela não sabia do jeito de suas costas, da forma linfática de suas palavras, mastigadas em gestação o dia todo e corrigidas, de quando em vez, no dia seguinte.

            Ela não sabias das frases que ele podava ou acrescentava à versão original.

            Ela não sabia da veracidade de suas asserções. Dos arredores que as  camuflavam como uma gordura. Das cores falseadas que reluziam em ideias enigmáticas.

            Nem saberia jamais.

 

            Ela estilizava seu engenho de forma a atingir a conjuntura favorável, em que devindo ele grafado e frouxo lhe daria com os pés.

            Ele urdia a fórmula subtil tendente a que, na mesma conjuntura, ela não se pudesse mais soltar, amarrada de pés e mãos.

Publicado por barbant em 01:29 PM | Comentários (8)

outubro 05, 2004

(Pa)rábulas



RELAÇÃO ...

          O quartel é um mundo de homens. Onde perpassam ideias e imagens de mulher. Mulheres de carne é proibido que apareçam, só em cerimónias públicas. E mesmo aí, prevenidas de recato quase religioso. 
         
Mas aquela, loira e opulenta, era real e dirigia-se aos aposentos do alferes. O meu amigo estranhou e  contou-me assim a  história que se abriu e decorreu.

          - Oh pá, falava-se. Ela era casada, dos lados de Braga imagine-se, e constava que se encontrava ali mesmo com o alferes, ou com o furriel ou com os dois. Nisto, como sabes, sobra sempre a dúvida, retiram-se conclusões de aparências. Resolvi tirar a coisa a limpo.
          - Mas como?
         
- Uma das minhas tarefas prendia com o escritório. Um dia, fingindo esquecer-me  de qualquer objecto, abri  a  porta de repente e entrei. Oh pá, apanhei-os. O furriel em cima  dela, no sofá. Levantei a mão em sinal de desculpa e fui à minha vida.
         
- E então?
         
- No dia seguinte ele  deu-me uma pissada. “- Oh Varela, caramba, tu sabias do  que se passava e fazes-me uma  destas! Não esperava isso de ti, foste longe demais. Raios me partam! Chiça, acontece  cada uma!”
         
- E tu?
         
- Oh pá, calei-me. Mas eu bem que tinha conseguido os meus intentos. Tinha que ser! Fodi-os! 

          Li o olhar do meu amigo. Tantos  anos passados  ainda chispava.
         
Ficava assim anulada a relação sexual que tivera lugar. A única. Não posso escrever a famosa frase: “O furriel fodia  furioso a loira logo louca”.
         
Pior, o nódulo da relação sexual desloca-se não subtilmente. Relação sexual que vira relação mental. E qual delas permanece, já que a do furriel com a loira foi brutalmente suprimida?
          A relação quase homossexual do meu amigo com o furriel? A relação sexual violadora do meu amigo com a loira? A relação promíscua e bacanalícia do meu  amigo com os dois?
         Li de novo no rosto do meu amigo: a relação sexual, plena, antropofágica, tendo-se alimentado de outra, ainda persistia viva.       

  

... ASSEXUALIZÁVEL
Publicado por barbant em 05:07 PM | Comentários (5)

setembro 11, 2004

Co-Respondências




 

                    5 de Maio de 2050:

Remexendo, quase por acaso, nos dejectos que jazem perto de apodrecidos nos interstícios da net, pegando com jeito páginas pessoais há muito muito em voga, o blog, foi detectado que dois grandes escritores, ela brasileira ele português, chocaram sua trajectória em todo um mês de Agosto.

 Tórrido mês.

 A custo, várias camadas podiam se descortinar imbricadas em sua estuante correspondência. Enigmáticos e esguios dizeres feito as sombras da noite. Entesouradas e ridentes cabeleiras espelhadas em searas do dia meio. Articulações plausíveis e subtis às espaldas do humor. Páginas rompentes e brutais de mar de praia em intempérie.

 No seguinte mês, eles próprios tiveram dificuldade extrema em lidar com os desperdícios decorridos da vazante.

 Deparavam com dois formatos opostos, ambos tecidos de lavosos fogachos.

 Ora se aproximavam da combustão já agonizante de dois peitos quase carbonizados.

 Ou então, como nos arredores do parto, ocorriam borrifos explodidos de sangue depositado a esmo.

 Isto ocorreu em Agosto de 2004.

                     Sérgio Simónides da Silva

Publicado por barbant em 10:41 PM | Comentários (7)

agosto 17, 2004

O blog




 

          Se meu pai fosse vivo, tentaria usar de sua autoridade, que sempre defrontei, mandar-me-ia sentar na cadeira (que começava a ficar eléctrica), e dir-me-ia:

          - Rapaz, essa história dos bloks, ou berlogues ou lá o que é, não te auguro grande futuro.
          - Nem eu.
          - Tens que pensar em coisas práticas, o trabalho, a família, o estatuto social. Isso da net é um desperdício de tempo e dinheiro, um luxo que só acolhe a quem é rico.  
          - Sim.
         - E agora, ao que parece, que eu bem noto em ti, andas metido com uma mulher que não conheces de lado nenhum, se calhar brasileira, é ou não verdade?
          - É.
         - Então, meu filho, não sabes nada dela, se é nova ou velha, se é branca ou preta, e insistes nessa perfídia? Não sabes, pois não?
         - Não. Mas, para mim é jovem e bonita (pelo menos de espírito), brilhante a escrever, meiga, e manda-me muitos beijos virtuais.
         - Beijos quê? Ora, meu filho, tem juízo, manda isso às urtigas. Ainda por cima, brasileiras, que são umas cadelas. Tens que acabar com isso de uma vez! É uma ordem, ouviste?
         
          Ainda bem que eu digo "Se o meu pai fosse vivo". Porque, se fosse, matava-o.  

Publicado por barbant em 12:09 AM | Comentários (5)