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Cansado do tumulto que invadiu
o salão e das conversas já alcoolizadas dos convivas, procurou refúgio
numa das salas adjacentes. Quando entrou, verificou estupefacto que o sofá
apetecido já estava ocupado por um casal jovem que se amava ardorosamente.
Um pouco arrepiados pelo frio
do jardim, os dois jovens recolheram-se naquela sala e naquele sofá.
Agarrando-a com dedos de medo, ele consegui desnudá-la um pouco. O
suficiente para não resistir a ter que a abraçar e meter as mãos na
pele que entretanto estava à mostra, e mesmo no calor da que se escondia
sob as roupas.
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Passamos pelos dias um pouco cegos, ofuscados talvez pelo brilho e o número de objectos, factos e pessoas que nos rodeiam como de peixes um cadáver afogado. Mas, por vezes, num recanto do cérebro, a paisagem fende-se por um raio sanguíneo e surge-nos uma visão. Foi o que aconteceu hoje deslizando, sózinho no carro, no alcatrão da auto-estrada pejado de camiões. Já se sabia que o carro é uma projecção descomunal do corpo (e da mente), arrastando-nos a excessos trágicos, quando nos deixamos envolver pela subtil cocaína da velocidade. Aquilo que não ocorrera ainda, veio agora à tona. É o caso das profissões que desaparecem, das que surgem, das que reaparecem. Com imensa nostalgia, pensamos de vez em quando no almocreve: o homenzinho que na primeira metade do século vinte (e nos anteriores), sempre acompanhado do seu inseparável macho, calcorreava enormes extensões, por vales e montes, comprando, vendendo, traficando, tresfagando, vivendo. O homem, afinal, não morreu. É ele agora que, muito macho, sentado ao volante dos camiões brutamontes, efectua as mesmas transações, em distâncias maiores mas que demoram o mesmo tempo de outrora. E é vê-los, na estrada, na estação-de-serviço, nos restaurantes, musculosos, brigões, cervejeiros, sempre envoltos em algazarra, aí estão, aí vão os malhadinhas de hoje. |
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Casei
com a mulher.
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Todas as tardes, entre as 15 e as 16, ela se dirige ao micro como se altar fosse mas na posição de sentada. De ajoelhado não se poderia falar, porque a zona corpórea que dá origem a este adjectivo se encontra tapada por calças justas. Então começa e se desenrola um duelo entre os dedos de suas mãos e as teclas do computador. Como se fosse um piano. Sem hesitações, sem passos salientes, sem soluços nem interveniências, no écran o espaço branco vai-se negrejando. Como se aranha invisível construísse sua teia, como se a baba que no aracnídeo é redonda aqui fosse horizontal ou de quadrilátero. Também de teia se poderá dizer, que das palavras concatenadas e imbricadas o resultado só é. Uma tarde alguém entreabre a porta e fica interdito. Dias depois iria jurar que ela estava em êxtase. De soçobro. De costas encurvadas, as pernas tentam prender-se ao ladrilho estremecendo, o cabelo escorria comprido, provavelmente sobre o teclado. A espaços um arrepio deslizava nas espáduas, a nuca repintada em tons vermelhos soerguia-se. Quando terminava, esticava os braços como se fossem asas de albatroz. Então, lentamente, dirigia-se à janela e queimava um cigarro que quase esmagava entre os dedos. Os dedos, outra vez, que prostituía em textos e agora aproximava da chama que certamente prefigurava como apoio de outras. No micro, repousava já enviado um texto denso, críptico, subterrâneo, sucedâneo, labiríntico. Como bisturi ou punhal. Ou coração. Ela vinha das terras fecundas e carvalhosas em que a abelha regressa rodopiando ao cortiço e produz doce o dourado fio de mel. Aliava as vantagens, imponderáveis e inefáveis, de quem nasceu na província e desaguou na grande cidade. Tendo acumulado e somado as qualidades de cada uma e das duas. Tendo-se libertado dos defeitos terríveis da primeira e sido incapaz de absorver os da segunda. Ali, e noutro lado já, repousava vivo o texto. Como um duplo, o reverso no espelho, distante já de sua imagem. Ela não sabia que o interlocutor utilizava para recontro a hora nocturna. Ela não sabia do jeito de suas costas, da forma linfática de suas palavras, mastigadas em gestação o dia todo e corrigidas, de quando em vez, no dia seguinte. Ela não sabias das frases que ele podava ou acrescentava à versão original. Ela não sabia da veracidade de suas asserções. Dos arredores que as camuflavam como uma gordura. Das cores falseadas que reluziam em ideias enigmáticas. Nem saberia jamais. Ela estilizava seu engenho de forma a atingir a conjuntura favorável, em que devindo ele grafado e frouxo lhe daria com os pés. Ele urdia a fórmula subtil tendente a que, na mesma conjuntura, ela não se pudesse mais soltar, amarrada de pés e mãos. |
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RELAÇÃO
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O quartel é um mundo de homens. Onde perpassam ideias e imagens de mulher.
Mulheres de carne é proibido que apareçam, só em cerimónias públicas.
E mesmo aí, prevenidas de recato quase religioso.
Li o olhar do meu amigo. Tantos
anos passados ainda
chispava. |
| ... ASSEXUALIZÁVEL |
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5 de Maio de 2050: Tórrido mês. A custo, várias camadas podiam se descortinar imbricadas em sua estuante correspondência. Enigmáticos e esguios dizeres feito as sombras da noite. Entesouradas e ridentes cabeleiras espelhadas em searas do dia meio. Articulações plausíveis e subtis às espaldas do humor. Páginas rompentes e brutais de mar de praia em intempérie. No seguinte mês, eles próprios tiveram dificuldade extrema em lidar com os desperdícios decorridos da vazante. Deparavam com dois formatos opostos, ambos tecidos de lavosos fogachos. Ora se aproximavam da combustão já agonizante de dois peitos quase carbonizados. Ou então, como nos arredores do parto, ocorriam borrifos explodidos de sangue depositado a esmo. Isto ocorreu em Agosto de 2004. Sérgio Simónides da Silva |
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Se meu pai fosse vivo, tentaria usar de sua autoridade, que sempre
defrontei, mandar-me-ia sentar na cadeira (que começava a ficar
eléctrica), e dir-me-ia: |