fevereiro 27, 2006

A lama continua lá


 

por força de confluências

lógicas o baixio

atolava e era designado

lapuceiro

que remetia pés conspurcados

à missa dominical facto

repelido

por força

de sinergias hidráulicas aplicadas

no desvio

das águas no entanto

por força do registo

resistente de silva

na memória a lama

continua

 

In "Ramo e de repente", Editora Ausência, Nov./2005

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novembro 17, 2005

Manhã nunca suave



FOSSILIZAÇÕES V



               
             

da tarde o oiro floresce

 

a vespa percorre o vinho

 

nos melros se constrói a semente

carros sobem

junto aos carros se erguendo

 

breve é a água

e os carreiros onde os pés cintilam

 

as andorinhas conhecem a chuva

 

gota a gota se dispersa o quadro

e seu óleo

 

loira é a vida o mosto

 

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outubro 23, 2005

Manhã nunca suave



A NUDEZ DO PAPEL


 

a feroz nudez do papel

é posterior o branco sexo se de olhos

o banhas já arde

 

na cabeça ou no peito a realidade

instala o outro mundo já de

morta

 

a mesa a luz o corpo é um esquema

árido

 

mas a paisagem transborda se

a opressão não veicula o verso

 

as folhas rebentam o occipital

os pássaros destroem a casa

a palavra o silêncio estilhaça

 

excepto as nuas mulheres

de espada anterior rasgando cerce(ta)

a escritura fácil

 

o braço conduz a manada

 

na mão se bebe de beber

o signo e de fogo

é a metamorfose

 

sobre a brancura assim hieroglificada

a dança estila o rumor

 

até se extinguir

 

numa alegria coitífica mortal

Publicado por barbant em 02:54 PM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 14, 2005

Manhã nunca suave



O TEU ROSTO



               
             

          eis o teu rosto e os seus cavalos

          longamente agressivos sobre

          as águas olha a memória

          neles inscrita os lábios  ramos fecundos

          o fuliginoso exercício

          que os gestos cães escrevem destruindo-se

          entre como  as esguias células

          do prazer onde se arriscam dedos e

          um outro rosto outro rebanho

          de cavalos ou beijos ou o luminoso

          desespero se confunde e ensanguenta

          quase a morte mostra as maleáveis

          mãos oh impossível oh sangue oh

          meu precário poder  eis

          o teu rosto e  os seus cavalos

 

Publicado por barbant em 10:08 PM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 04, 2005

Manhã nunca suave



quando te olho




                   

 

 quando te olho se te olho

vejo por vezes as duas mulheres

que tu és

a delicada a meiga a lindatoda

eternamente virgem

vivendo de palavras gestos enlaçados

e um beijo mal aflorado

e a outra

cedendo e sendo

joelhos da natureza

em luxúria ou forçada

abrigada obrigada

negando a comunhão da flor e a transformação

do amador e erguendo

a soma de dois seres diversos

na violência

imposta e submetida

pela enxurrada

de acrisolados códigos

Publicado por barbant em 11:23 PM | Comentários (4) | TrackBack

janeiro 15, 2005

Manhã Nunca Suave


           FOSSILIZAÇÕES

          

                                   III

o clarinete seu som punhal no interior
                   nostálgico daquela música


que fazer das pernas que foram minhas
                               mas que nunca tive?

imagina oh relação se te dissesem o que de ti
                                                           me digo!

o "a perder" por não confirmado na dúvida
                           pra sempre embrulhado

o fluir dos dias rompe o invólucro
                                    do "e agora"?

Publicado por barbant em 06:57 PM | Comentários (9)

dezembro 31, 2004

Manhã Nunca Suave


           FOSSILIZAÇÕES

          

                                   II

é igual o som das marés ou das mãos bruscas
                             de cabelos sobre os ouvidos

porque mos retiras teus seios ficam
                           de pernas para o ar

vaivém de espuma nos lábios ignorantes do momento
                                                           sobreposto da tua

retira-me da frente o caderno para que não escreva
                           como quando sem o ter não escrevi

Publicado por barbant em 03:17 PM | Comentários (4)

dezembro 16, 2004

Manhã Nunca Suave


           FOSSILIZAÇÕES

          
                              I

de nós dois resto apenas eu

à luz do dia não posso me esconder
                                        na escuridão

despedida doirada dói na mesma

qual a diferença hoje entre o que possuí
                                     e o que pensei ter?

o amor joga-se no corpo todo
                 na cabeça a ruptura

amar é o contrário de querer fugir

Publicado por barbant em 01:23 PM | Comentários (12)

setembro 09, 2004

A verosimilhança da morte



 

 

 

há mortes ou mortos

cuja notícia

apesar de não fracturar o centro

da angústia

não se acomoda dentro de nós

e carece de pormenores

pequenos pormenores

que instalem uma evolução prévia de doença

um prenúncio algo que possa ser

a véspera que não houve

de forma a que por fim

com uns restos de dorida resistência

as pálpebras se cerrem

as pernas se estendam

e os braços se cruzem

 

Publicado por barbant em 08:03 PM | Comentários (8)

agosto 29, 2004

Porque

 

 


 

 

recuso abrir o sarcófago

dos múltiplos encontros

que provocaste

no gume dos sentidos

invadindo todas as frestas

como chuva em casa esburacada

 

Publicado por barbant em 05:15 PM | Comentários (7)

agosto 22, 2004

O corpo: doação


Munch

 

a criança de outrora apercebe-se
da evolução genética o seio a púbis
e o corpo de mulher é de outra
baseado funcionando
como um duplo n
o espelho
permite a separação das águas até
que os rapazes se aproximam demasiado
e torna-se extremamente difícil
o gesto de abrir a blusa
um só botão mas muito mais
se no centro das pernas eles ensaiam
conseguir
fragmentada ela retrai-se a si
vê que os gestos e posições julgadas se invertem
e que é brutal forçoso
disponibilizar o seu próprio corpo
senão resistir com base em vozes múrmuras
e em qualquer dos casos
as mãos colocar em redor da cabeça
convulsas de choro por dentro da noite

 

Publicado por barbant em 12:26 PM | Comentários (1)

agosto 13, 2004

Vocação de lume




 

Há palavras que sem te aperceberes

poisam nos lábios.

Não sabes a direcção mas decerto

vêm de sul.

Deves soltá-las.

Se o não fizeres encaminhar-se-ão

para o interior queimando com seu lume

primeiro a garganta.

Agora tens que optar.

Entre um incêndio. E outro.


Publicado por barbant em 11:53 AM | Comentários (5)

maio 28, 2004

Rosto Arrefecido

 

 






   
no rosto arrefecido
     do dia como um choro doente
     a incompletude cinge-se
     aos afectos torturados
     pelo tempo e invertidos
     mão que não chega
     ao ramo e de repente
     como a sinusóide da folha
     cai contra o chão


         (BarbosaAntero)

 

Publicado por barbant em 08:31 PM | Comentários (0)