outubro 19, 2004

Grafologia

CLAREANDO IDEIAS
(GLOSA A MÓNICA CARONE)



         
 
          Em termos maximamente idealistas, independente dos milhões de sinónimos a lhe atribuir, o amor deveria ser desprovido de posse e propriedade.

            Sendo embora certo que a  posse é objectivo máximo do par que se enamora ou apaixona. Mas a  propriedade, essa liberta um cheiro acre que pulveriza os  sentimentos.

            Então, mesmo o casal já definitivamente decretado proprietário do outro por civil e igreja, deveria liberar o  cônjuge: permitir, embora  tremendo de receio, que ele vivesse em pleno com os outros. Se a  relação é funda, ele regressa aos teus braços no fim do dia. Ou da noite. Se não, é porque não era.

            Mas esta noção de propriedade é algo de muito forte e determinado. Criada, desenvolvida, aprofundada e ministrada astuta e ferozmente pelo homem, vem sendo acedida pela mulher. 

            Esta noção começa a se notar logo nas primícias de uma relação.

            O par se conhece não se conhecendo de lado algum. Suas palavras são límpidas, despidas de preconceito e de intenção segunda, libertas de dúvidas.

            Então eles começam de conhecer os outros do parceiro, nos casos em que a relação contém alguma pele virtual. Ele anota inconscientemente os homens com que ela  se corresponde. Ela faz o mesmo relativamente às mulheres “dele”. E verifica, com surpresa, que ele se relaciona mais com mulheres.

            Então, como se aqueles nomes fossem ervas, sobrevém uma vontade irresistível de atirar ervicida sobre eles e os destruir de uma  vez.

            Um dia, um deles menciona no mail um daqueles nomes. Inocentemente. Do outro lado, cujos mails já espaçavam, na mesma  hora e minuto  é arremessada uma resposta eivada de franqueza. Como ainda estava com o micro nas mãos, é nestas que a resposta logo explode. Com surpresa e estupefacção.

            O alvo é atingido de forma rápida e certeira. No braço, no peito, ou na cabeça. Ou nas três zonas. No braço de certeza, pois ele (ela) já nada conseguirá escrever ao parceiro(a) nos  próximos dias.

            Vítima desta construção arcaica e feudal, a propriedade, veremos se este amor sobrevive. Ou se morre sem sequer ter  chegado  à adolescência.

Publicado por barbant em 06:13 PM | Comentários (8)

julho 27, 2004

Agustiniana

           

não foste ao encontro que não marcaste como prometeras
voluntariamente
encontro que acontece de toda a forma
ainda que virtual tornando-te
íntegra herdeira e personagem
desta corte do Norte que me exaspera
simbolizada na sogra iminente que recusa o ósculo
à noiva do filho dizendo-lhe nas barbas do casamento
"Os velhos não se beijam" visando
não ferir a muralha do respeito que contorna
a vessada da moral puxando-te implacável
para o túmulo em que te encerrei
na ausência de trinta anos e para a teia
urdida de arames de preconceito
em que afinal verifico
já não poderás liberar-te criando a distinção
entre viver e existir

 

             

Publicado por barbant em 01:24 PM | Comentários (2)

junho 30, 2004

Vieira

 


 


o polvo
            com aquele seu capelo na cabeça
                                                             parece um monge
            com aqueles seus raios estendidos
                                                             parece uma estrela
            com aquele não ter osso nem espinha
                                                             parece a mesma brandura
                                                                        a mesma mansidão

as cores
           que no camaleão são gala
                                                no polvo são malícia
as figuras
           que em proteu são fábula
                                                no polvo são verdade
                                                                  e artifício

se está nos limos
                        faz-se verde
se está na areia
                        faz-se branco
se está no lodo
                        faz-se pardo
se está na pedra
                        faz-se da cor da pedra

se está nos limos  se está na areia  se está no lodo  se está na pedra
faz-se verde  faz-se branco  faz-se pardo  faz-se da cor da pedra



Publicado por barbant em 06:07 PM | Comentários (2)

junho 03, 2004

Cesariana


 

o campo do verão o verão do campo
o campo no verão a claridade
do compasso sobre a  terra debruçado
os cabelos de trigo sobre o trigo
espalhados os ares de eiras
as eiras do sol ceifando as terras
o cume de água a luz lavada
da pedra o verrde sumo das espigas

na testa das varinas ou formigas
de dezanove rompem na branca
estrada nua em que somos os braços
de bocas barcos incidindo os frutos

e assim o rego de água o lento
vinho das carradas sobre a  campina
os carros a gemer no outeiro ou
melhor a natureza trémula de sede
encontra o verde a madureza nua
o loiro beiral de vinho na página

daí a chuva entre os poetas jovens
os arcos de silêncio frente ao verão
projecto de poemas próximos



Publicado por barbant em 01:28 PM | Comentários (1)