junho 06, 2009

Muito loira e fria - uma estética de Feijó

No auge da mocidade e da inspiração, cerca de 1882, ainda estudante universitário mas já co-editor da “Revista Científica e Literária”, António Feijó esboça na referida revista um programa da sua poética :

“A poesia, no começo deste século, foi eminentemente pessoal, mas muitas vezes com ênfase e com afectação do sentimento, o que preparou a reacção dos virtuosos e impassíveis. A poesia soube com eles segredos de forma, e um rigor de contornos que ignorava ainda. Mas como a gente se cansa mesmo das belas linhas e das belas cores quando não há nada debaixo, a poesia voltou a ser pessoal, mas não da forma por que o já tinha sido. Dos primeiros líricos conservou a emoção; dos poetas artífices a perfeição da língua; mas acima do sentimento e da sensação faz dominar o pensamento; acima do amor das pessoas humanas e das formas da matéria, o amor da verdade ...”

Não é possível averiguar se a teoria exposta correspondia ao espelho em que Feijó gostaria de rever-se. Mas admitimos que sim. O que significaria, para a evolução e diversidade do futuro do poeta, a evidência de um programa não cumprido. Muitas vezes contrariado no poema apesar da reafirmação da teoria, negando o que hoje sabemos que deveria afirmar e que, apesar da recusa, corresponde ao concreto da sua realização poética.
Cremos que o ultra-famoso soneto “Pálida e loira”, que se segue (e seus sucedâneos e afins, e muitos outros textos que não são nem uma coisa nem outra), pode constituir exemplo paradigmático da estética que tentaremos ensaiar:


Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

- Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...

Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...

Levou-a a morte na sua garra adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...

É este um poema que ousou materializar no tempo a fidelidade aos seus próprios dizeres: lido uma vez, com um mínimo de atenção, não mais pode esquecer-se, nunca!
Resiste, com uma força brutal, à glória ou esquecimento do seu autor. Possui, para isso, vários sangues literários: a cena, a descrição, a plástica, a musicalidade, a sonoridade.
Foi escrito, segundo cremos, na Coimbra estudantil da penúltima década de oitocentos.
Numa época em que a tuberculose tornava as loiras pálidas e frias. Coimbra onde António Nobre compôs muita poesia idêntica. Alguma nobre, outra piegas. Uma das quais, composta, não ali mas na litoral Leça residencial, leva o título de “Pobre tísica”, é uma face da patologia emocional do autor e começa assim imaginando-se como acaba:

Quando ela passa à minha porta,
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira-mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar.

A citação é deliberada, não tendo o objectivo de encontrar analogia, mas, pelo contrário, com o essencial intuito de observar as diferenças.
Porque foi outro o António que criou “Pálida e loira”: António Feijó.
Do seu obscurecimento surgiu finalmente (em 2004) a reedição das suas Poesia Completas. Facto que permite conhecer e confirmar a qualidade e extensão do seu talento.
“Pálida e Loira” consta do livro “Líricas e bucólicas”, publicado em 1884. Afinal, há uma outra “Pálida e loira” em “Ilha dos amores”, publicado em 1897:

Que profunda tristeza olhando esse caminho
Por onde Ela passou, entre círios a arder!
Ia branca no esquife, em seu manto de arminho,
Rainha da minha alma, ave do meu carinho,
De asa implume e já morta antes do amanhecer…

Como eu me lembro ainda, olhando essa avenida
Por onde Ela passou, névoa branca de incenso! …
Morta, virgem e noiva, a que era a minha vida!
A acácia tem ainda a sua rama pendida,
O chorão verte ainda o seu pranto suspenso…

Ah, que melancolia o espírito transporta,
Aqui, neste caminho, à dor desse momento!
Era estreito o caixão, muito estreito… que importa!
Se os meus sonhos levava enlaçados na morta,
Mortos uns de volúpia, outros de sofrimento! …

Onde, em vez dos 14 versos do soneto inicial, o poema assenta em 15 versos (um mais) divididos em 3 quintilhas.
E onde a qualidade estética, prolongando a melodia do soneto-irmão, em vez do esquife retrata o caminho por onde ele seguiu. E onde a imagem da mulher se ergue da horizontal e se levanta nos ares, numa roda de fogo. Com efeito, no verso “Ela passou, entre círios a arder”, não prescindimos de uma leitura modernista mediante uma simples alteração ortográfica: “Ela passou, entre círios, a arder”.

Com certeza que António Feijó antecipa alguns aspectos modernistas. Ele que vacilou, molhando-se largamente de ventos e chuvas que varriam a encruzilhada de correntes literárias da sua época, com notoriedade pessoal, apesar de o negar também, para a primeira: Parnasianismo, Simbolismo e Decadentismo.

Tentemos, então, demonstrar que as “pálidas e loiras”, sobretudo a primeira em que sobretudo incidiremos, representam um esforço não só modernista mas até de fórmulas posteriores, negando teorias de críticos afectos e do próprio autor.
Demonstração que releva do próprio contexto do poema: a existência, embora contida, de uma poética “muito loira e fria”, ou seja, a evidência de uma estética da forma e da impassibilidade. Dito de outro e idêntico modo, uma estética predominantemente plástica e objectiva.
A beleza formal, a sonoridade, o ritmo, a melopeia, a lápide, aliados a um grau de “verdade” universal, são a base da longevidade do poema.
Da consistência formal, entre a música e o mármore, não nos parece oferecer-se dúvidas. Essa característica viria a deter alguns excessos, que, dando bossa e ângulos duros ao gesso do poema, ainda hoje produzem agressão literária francamente passível de louvor.
É o que acontece, nomeadamente, no poema “Sidéria”, do livro “Bailatas” (1907), onde o fragor das imagens, captado nas mulheres conhecidas e porventura na mulher com quem casou, de que se recordam aqui alguns exemplares de versos, nos quais a sensualidade cede ao erotismo mais franco e desliza nos lábios do humor mais brejeiro:

Vega! Desprende os teus cabelos brunos
Na lactescência alvíssima do seio!
Seio capaz de avassalar os Hunos,
- Saboroso melão partido ao meio.

Teu colo tem olências de begónia,
Letais resinas, pérsicos incensos,
Alvo como as cambraias da Saxónia
De que se fazem vaporosos lenços.
…...................................................
Teus cinco dedos, eu a arder em zelos,
Vega da Lira, imperial, bi-clara!
Teus dedos alvos, que prazer comê-los,
Como cinco pastéis de Santa Clara!

São como finos, filiformes fusos,
Rubros como cinábricos medronhos,
E finam-se a fiar fios confusos
Na verde maçaroca dos meus sonhos!

Da impassibilidade, falar-se-á, sobretudo, por exclusão.
“Pálida e loira” não contém as marcas agravadas do poema de António Nobre: não há aqui menção aos “lábios brancos” e, muito menos, aos “olhos pisados”. Ao contrário da morta anunciada de Nobre, a já morta de Feijó ainda sustenta a alegria vital: “o seu lábio tristíssimo sorria”.
De igual modo, não há a invasão abusiva e sentimental do autor, que em Nobre é melodramático: “Meu coração dobra a finados, / Meu coração põe-se a chorar”.
Aliás, pensamos ser útil desmistificar o preconceito criado relativamente ao soneto de Feijó, do qual se conclui que, pela conjuntura vivida na época, se trata de morte por tuberculose.
Ora, nada no poema nos habilita a tal conclusão. O facto de a personagem ser loira nada pode induzir relativamente à “causa mortis”. Nem sequer as propriedades de “pálida” e “fria” comuns a todo e qualquer cadáver.
Nobre é categórico na definição, em todo o desenvolvimento, e desde logo no próprio título: “Pobre tísica”.
Factores que, decerto, abonam a consistência do soneto. E a sua ressonância posterior. Capaz de ecoar, em termos idênticos, na prosa de 1989 de Agustina Bessa-Luís, quando, no romance “Eugénia e Silvina”, referindo-se à primeira que habitou a época de Feijó e da tuberculose, assinala o seu “rosto pequeno e fino, duma palidez deslumbrante mesmo quando a doença o marcava”, doença que, note-se, nada tem a ver com congestão pulmonar.

Há, de facto, nesta “pálida e loira” um tom de saúde, de vitalidade, e, sobretudo, a ausência de dor e de melodrama.
No entanto, a essa atmosfera pessoal e subjectiva não ficará o poeta imune, quando vier a escrever versos emocionais dedicados à morte de um amigo, num poema de “Sol de Inverno” (1922), curiosamente intitulado “Hino à Morte”:

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afecto à nossa vida enlaça,
- Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

E essa dor é de extensão tal, com a prematura morte da jovem esposa, a sueca de ascendência também equatoriana, Mercedes Lewin, que foi ferida de morte a inspiração do próprio poeta, incapaz de produzir mais versos nos amargos 18 meses em que lhe sobreviveu.
O que levanta aqui uma questão que era vulcânica na época. Em lugar de abraçar a herança matrimonial de 15 anos doirados de vivência partilhada, o escritor, esquecido dos próprios filhos que nela criara, valoriza exclusivamente o desenlace e a perda, permitindo, de forma quase voluntária, que a punição psicológica apenas pudesse extinguir-se mediante punição física extrema.

“Pálida e loira” não será decerto a poesia reescrita desta época terminal. Que o autor possa apresentar como argumento para outra não escrever que escreva a sua dor.
Porque “Pálida e loira” é um poema de vida muito mais que de morte. As palavras que o compõem, e algumas do sucedâneo, não passam de um jogo lúdico, uma veste que empresta a sua beleza à realidade vital.
Além do “lábio (que) sorria”, há a referência ao “sonho” que só da vida faz parte; há a permanência do loiro nos cabelos e a manutenção da cor, que a torna mítica e perene, da “rainha das baladas” e das “monjas antigas”.
Há um voo que o corpo ensaia, agarrando-se, única opção, às garras da águia possível que é a própria Morte.
Porque a tentação do corpo não é permanecer deitado. Mas erguer-se e escapar, por isso o caixão é estreito, demasiado estreito, e nele o corpo não cabe.
Este corpo assim antecipa Pessoa e uma teoria sua: “a arte suprema tem por fim libertar – erguer a alma acima de tudo quanto é estreito”.

Mas, então, na segunda “pálida” não se faz menção à tristeza e à dor?
Com certeza que sim. Mas trata-se de uma tristeza profunda, propiciante apenas de melancolia. E que lembra o lábio anterior que, ainda que tristíssimo, sorria.
Mas é uma dor que não se sente, que não dói. É uma provocação à criação da dor literária, por reflexo.
Glosada, com jocosidade, como paródia, muito mais tarde, em 1997, por essa sensível poeta, Hilda Hist, no “prosaico” “Estar sendo. Ter sido”, onde Deozinho, o adolescente que viria a ser o bispo D. Teo, declama o poema primário com os “olhos cheios de água”. Donde se pode aferir que a poesia de Feijó recusa, como teoriza Leconte de Lisle, “o uso profissional e imoderado das lágrimas”, mas não evita que com a sua poesia se teatralize o uso das lágrimas de modo profissional.
Onde está, então, a desmontagem jocosa de Hilda Hist? Num simples pormenor, que demonstra a absoluta perfeição formal do soneto, fracturada irremediavelmente à menor alteração: em vez de “deitada no caixão estreito”, o seu caixão, o especial, o único, a jovem está “deitada num caixão estreito”, um qualquer, reles, banal, subalterno, suburbano.

Hilda Hist, provocatória, faz que os seus personagens atribuam o poema a Cruz e Sousa. Esta apropriação demonstra que o poema é muito mais notório que o seu autor.
Outras confusões, de maior lógica, abundam. Constando o soneto como sendo da autoria de Álvaro Feijó, poeta cujo nascimento ocorreu na época da morte de António Feijó. Já “Pálida e loira”, flor de estufa, resplandecia o seu odor há muitos anos.
Um dia destes veremos o poema ser atribuído ao professor e escritor contemporâneo António M. Feijó.
Faceta que vem aderir à teoria do regresso ao autor anónimo e à importância do que se escreve sobreposta à insignificância de quem escreve.

Insistimos, tal como a personagem, esta poesia de Feijó é fria, objectiva.
Virada para o porvir. Na segunda “pálida” assistimos à viagem do esquife. Mas o “caminho” por onde Ela passou, olhando essa “avenida”, estamos olhando o caminho por onde se volta, de regresso à vida.
E na caminhada, vendo-a passar entre círios, a arder, não podemos deixar de ver em fogo renascido um outro corpo que talvez tenha sido louro: o de Inês de Castro.
É um hino à vida, que não à morte, esta poesia. Não somente, ou propriamente, à vida da jovem “pálida e loira”. Mas à vida que prossegue e urge, dos outros e principalmente do jovem autor que cria o poema, tendo nas mesmas veias que manejam a caneta um sangue férvido de mocidade que o empurra para o futuro. Erecto e posto sobre o esplendor dos mortos.
E criando uma outra vida, de divergente linfa, a literária. Porque a forma em que se desenha o poema não se cinge, seguramente, à do caixão. É a forma estética do verso.

Por isso, não poderemos deixar de estranhar que Alberto Oliveira, acertado crítico e amigo do poeta, nos tente convencer que António Feijó não seja “cerebral joalheiro”.
E, mais ainda, estranhamos que ambos repudiem agastados o selo que se tentava colar à sua poesia daquilo que para ela, e para ele, vimos defendendo: a impassibilidade.
Ora, esse é um dos planos do programa poético com que abrimos o artigo: a reacção dos impassíveis conjugada ao fluxo das ideias: “acima do sentimento e da sensação faz(er) dominar o pensamento”.
Ainda que involuntariamente, esse foi e é o facto. Que cumpre o essencial do programa a que se havia proposto, nomeadamente, a produção de uma poética notoriamente acima: “acima do sentimento e da sensação faz dominar o pensamento; acima do amor das pessoas humanas e das formas da matéria, o amor da verdade ...”
Facto que, no entanto, não nos permite afirmar que Feijó sentia com a imaginação, antecipando-se a Pessoa: “Eu simplesmente sinto / com a imaginação. / Não uso o coração”.
Mas permite-nos, seguramente, adoptar para a poética de António Feijó um outro dístico teorizador: “Não uso o coração. / Sinto com a visão”.

(Texto publicado na "Conexão Maringá" de Junho/2009)

Publicado por barbant em 06:47 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 19, 2009

Pequeno Reino Dourado (Literatura Tchekov)

A segunda metade do século XIX representa o período cimeiro da literatura russa. É uma época grande. A época dos grandes frescos históricos de Tolstoi, encimados por “Guerra e Paz”, a época dos grandes frescos dos romances de ideias de Dostoievski, de que é espelho “Crime e Castigo”.
Mas também a época da grandeza dos pequenos casos. Que viria a prevalecer. A grandeza das pequenas coisas de que se compõe e constrói a vivência individual. Que é obra de Anton Pavlovich Tchekov.
De que é paradigma essa invulgar obra-prima, o conto a que se costuma chamar, entre outras idênticas designações, de “Um caso sem importância”.
Vejamos três índoles literárias que poderemos perscrutar no texto em referência.

Literatura 1
O conto é composto daquilo de que, em regra, se compõem os contos. De narração, de descrição, de acção, embora lenta, de decurso, de espaços, de diálogo, de avanços e recuos, flah-back e prolepse, de análise, de olhar, de ironia. Sobretudo, de nostalgia. E de retratos.
É, aliás, o retrato que segura o puzzle do texto. Sendo que o retrato não é aqui meramente físico nem se limita a acrescentar a este o psíquico.
É, sobretudo, um retrato social. Que define as personagens, quase todas. Que faz faísca sobre o seu passado e lhes rasga os sentimentos, ainda que camuflados, do presente.
Os retratos, como num salão, o narrador homodiegético incide o seu raio de sol sobre eles, e falam.
Um deles, aparentemente o menor, o do dependente Grontóvski, deixa-se submergir pelos adjectivos. Por um dos adjectivos que o autor lhe apõe. No final, o homem já não se chama Grontóvski: é o “esgrouviado”.
Outros dois, aparentemente os mais relevantes, o principezeco Sergei Ivánitch e a desengraçada e rica Ndejda Lvovna, singram como barcos em lago, paralelos, desvendando o seu interior a cada onda mínima, tão próximos e tão distantes como são sempre duas linhas paralelas.
Da cor dos seus retratos, ainda viva mas sem futuro, o que se entorna sobre o leitor é a improvável possibilidade de um passado impossível.

Literatura 2
A função primordial da literatura é literária.
O texto representa o voo entre a palavra e o significante, um voo que depois pode bater asas contra asas entre vários significantes, confundindo-os, contrastando-os.
É o que acontece, por exemplo, quando se escreve que o olhar seguiu “um bando de grous que nadavam no céu lazúli”, ou quando se comunica que determinado personagem, o citado Grontóvski, “de trás dos abetos novos, … se ergueu, como se nascesse da terra”.
Esse voo, na escrita, pode ser ainda mais transcendente. Como sucede na saída do conto. De que o narrador se afasta como se abandonasse o “pequeno reino de tédio dourado e de tristeza” que é, não o solar de Madejda Lvovna, nem o ambiente possível que ele, narrador, ajudou a erguer, nem sequer o “pesado sonho fantástico” de que urgia acordar. Esse reino é o próprio conto.
Por vezes, a altura do texto provoca vertigens.
Levantam-se, sem pernas, uns personagens que deveriam estar inanimados: “Os móveis olhavam com severidade, à maneira dos velhos, e, como que por respeito ao seu sossego, não se ouvia o mínimo som.”
Um certo fulgor, mais connosco do que com o próprio autor, encosta a sua faca numa espécie de vida que só da escrita vive: “em cima, no vestíbulo, atingiu-me aquele ar que apenas se sente nos arquivos, nos aposentos senhoriais e nas casas antigas de comerciantes: um cheiro repassado a qualquer coisa que viveu outrora e já morreu, deixando nas salas a sua alma.”

Literatura 3
Os grandes frescos históricos de Toldtoi não são hoje reconhecíveis.
Os grandes frescos mentais de Dostoievski debatem-se hoje nos serviços psiquiátricos dos grandes hospitais.
Tchekov dá luz a coisas sem importância, que palpitando obscuras na sua época, vivem hoje à luz das ruas.
É uma enumeração impressionante, perfeitamente conectada à pele da realidade actual:
Ricos proprietários arruinados, pessoas que se ocupam essencialmente com o facto de não ter qualquer ocupação, o roubo subtil perpetrado por “administradores, feitores e mesmo lacaios”, a desgraça da “solidão absoluta”, a pobreza envergonhada, tipos “comme il faut”, empregados desocupados, os pequenos poderes temporários que resultam de delegação de competências, o “homem dependente” muito antes do código do trabalho, o “dever sagrado” do aviso e do alerta, a situação dramática das personagens irremediavelmente ricas, aquela qualquer coisa de especial que não existe nas pessoas pouco abastadas, o conhecimento da vida pessoal dos outros pela “via dos boatos”, a compra ordenada de títulos honoríficos, o desempenho do papel do apaixonado, a promiscuidade entre a verdade e a mentira, o desemprego de quem não tem instrução, nunca trabalhou e já está em idade avançada para o trabalho, o cobarde, o que não tem “um pataco de coragem”, o “psicopata”, o que “não faz quase nada para além de andar todo o dia de um canto ao outro do seu quarto em roupa interior” mas que “está convencido de que trabalha, de que cumpre honestamente o seu dever de cobrar uma fortuna pelo cargo de juiz de instrução”, os batoteiros que “são na sua maioria morenos”, as salas, três, que se tem de atravessar do vestíbulo à sala de estar, a mania engraçada que consiste no “direito de autorizar ou proibir”, o criminoso “prazer de matar as aves” que origina coutos privados. Um rol infindável.

No prefácio de Vladimir Nabokov ao Volume I dos “Contos” de Tchekov diz-se que “de todas as leis da natureza, a mais maravilhosa de todas é talvez a da sobrevivência dos mais fracos.”
De que se poderia concluir do conto “Um caso sem importância” que, além do narrador, só há um personagem forte: “um tal Kandúrin, um mestre em Direito vindo de fora” que, afinal, casou com a riqueza de Lvovna e “vivia por qualquer razão no Cairo e escrevia de lá a um seu amigo, o decano da nobreza do distrito, apontamentos de viagem.”
Todas os outros, humilhados e ofendidos, fracos entre os mais fracos, apresentam no conto, e em muitos outros contos de Tchekov, a razão da sua força.
Mas a força maior, a maioridade, é-lhes dada por Tchekov. Pela “literatura Tchekov”.
Alguns personagens subsistem hoje como ontem. Iguais. Perenes.
A outros, a História afundou-os. Não existem hoje, o príncipe ainda que principezeco, nem o juiz de instrução, ou de paz, nem o oficial de diligências que as oficializa no gabinete de finanças. Muito menos as cartas de baralho que são hoje condes e duques e damas.
Mas essas figuras não provocam o pântano que envolve as sagas napoleónicas de que falava Tolstoi. Porque a escrita de Tchekov não sobrevive pela percentagem de figuras suas que resistiram ao futuro.
A estas, mantêm-nas a sociedade actual. Às outras, o leite que as sustenta é a literatura. Sempre viva. Porque o que Tchekov deixou em legado não são figuras ou personagens mais ou menos perduráveis que tornariam Balzac insuperável.
O que ficou de Tchekov foi, exclusivamente, literatura. Um pequeno reino dourado. Onde circula um sangue humano de letras. A que se poderia apor o registo de “literatura Tchekov”.

(Artigo publicado na Revista "Conexão Maringá", de Abril/2009)


Publicado por barbant em 04:01 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 08, 2008

Em saios

Photobucket

          Dos poetas inspirados e messiânicos, os que produzem frases com carácter eternal, o mais provável é que essas verdades venham a cair apodrecidas como os frutos sazonados por demasiado sol. Ou pelo calor dos dias vindouros, que são os vindouros autores.
          Facto que propicia que essas extensas laudas caudais sejam abandonadas com excessivo langor, ainda que se aproveitem as estrofes inicialmente desprezadas e que agora devêm breves e cintilantes. Não só as autónomas e de poema completo, mas as que começam a reluzir em breve pérola no interior das extensas laudas inicialmente privileigiadas.
          O que desenha a curva e o gráfico do autor: crescendo até ao topo da linha, a par dos mais categorizados, e o declive posterior, povoado de sombras e regressos, apesar da influência que se apercebe do segundo plano da sua obra na grande obra sucedânea da sua morte física.

          Um poeta assim eu conheço, cujas “epopeias” rurais quase apequenaram as originais incidências de António Nobre, face ao despropositado exercício de tema e variações que expendem.
          Mas de que vale a pena citar algumas das tais odes cintilantes que, desgastadas do granito como se fosse mica, produzem fundamentais exemplos:

                    “Bela, formosa e linda, em sua graça,
                     Tangível e corpórea, o sangue vivo
                     Inundou de rósea claridade
                     O seu busto perfeito. Um primitivo
                     Ar inocente e agreste lhe aquecia
                     A brancura da testa. E, nos seus olhos
                     Dum negro sério e místico, sorria
                     A infância, a idade de oiro.” 

                              ***
                   “Era a sagrada luz, naquele instante
                     Em que se torna sombra; e, sem deixar
                     De alumiar os campos, já permite
                     O riscar das estrelas e o canto
                     Dos pássaros sedentos de penumbra.” 
                             
                              ***

                   “Da serra começava a levantar-se
                     Um crepúsculo, um fumo de nevoeiro.
                     E um oiro em pó, suspenso, ia juntar-se
                    Às primeiras estrelas: era a noite.” 

          Foi possível roubar às sombras do poeta uma inexcedível claridade. A qual desmaia com excertos figurantes da toada epopeica dos textos anteriormente referidos, sobretudo nos casos em que a sombra não é de árvore mas mental:

                  “Ai do tigre raivoso que, em seu peito,
                    Sente a fera crueza, que o incendeia
                    E o faz rugir, nas selvas tenebrosas!”

          Esta apóstrofe franciscana, será que resulta apenas do menoscabo? Ela representa o absurdo preconceito, que o estudo já obrado castigava e que as análises posteriores duramente condenaram.
Porque se trata de uma leitura de lenda. Tendo nós o conhecimento exacto de que este poeta jamais convivera com este tigre. Ainda que lhe possa ter chegado a mensagem torpedeada de alguém que estivera perto do grito do eco.
          Porque não é aceitável atribuir-se estados de alma a seres a que a mesma se nega, os animais. E com força de razão, os chamados ferozes, que são possuidores de grande alma pouco acessível.
          De forma que o fogo que incendeia o tigre é incerto, embora fortíssimo, e não se compagina com a “fera crueza” que certamente não sente, prosseguindo o seu instinto da forma natural que aos bichos propicia a sua peculiar natureza.
          Desnecessário se torna contrariar estes versos. Tornados farsa.

          Não cremos que este tipo de embuste tenha sido parado intencionalmente pela prosa de um outro escritor, cuja escritura a seguir citaremos. Essa negação foi-se consolidando implacável nos anos que cobriram as letras ordenadas de tal poesia.
          No entanto, se não podemos afirmar que apor estes versos à prosa que se seguirá não nos atribui a garantia de acertado artigo de literatura comparada, podemos certamente concluir que a conexão destes textos se transforma numa espécie de literatura com parada. Parada, ou paragem, que mais cedo do que convinha ocorrerá.
          Porque a literatura comparada não vive só das coincidências dos textos, da sua osmose, da sua gritante convergência, das retomas, dos regressos. Poderá seguramente viver deste equacionado paralelo de escritas que, ajustadas, desguam em foz, estacam, não mais fazem palpitar a sua ignominiosa vida.

          Curioso que o texto que faz parar estas noções animalescas é também farsaico. Ou tragicomédico. Ou entremez. Mas resulta de uma avaliação tanto quanto possível racional e objectiva do instinto animal. Porque este não se entende com atitudes humanas. Objectivamente não.

          A cena passa-se com um tigre doméstico, o cão. E é digno, tal como os versos, do único sentimento plausível, o riso. Tudo o resto é noite.

          “Um cão que estava na rua pregou um susto a outro que seguia por uma trela. 
            Foi na rua uma celeuma: em parte por causa do cão mas acima disso e quase sempre pela barafunda que o leiteiro que é dono do cão armou. 
            O leiteiro, que não é cão e que por não sê-lo e mais coisas é leiteiro, o leiteiro, digo, rapou do cinto e depois de vários “venha cá, venha cá se faz favor”, do palvrão rapou rapou etc. (rra).
           Zurziu o cão? Não senhor. Porquê? Porque o cão é bamboleantemente astuto. Sem nunca correr, … seguia pela rua acima rebolando as ancas como uma mulher perdida; e tudo nele era calma completa, vento fresco.
           O leiteiro teve de se recompor: o cão não. O leiteiro teve de reatar o cinto e depois ainda lhe custou um bocado de esforço ajeitar para dentro a fralda da camisa, que é de xadrez verde e deve cheirar a sebo.
            Mas o cão? É claro que não tem camisa nem cinto nem (suponho) sebo que cheire.
            Então? Nada. É certo que eu gostaria de dizer “então?”, porque “então?” é o mínimo que no grande mundo há para responder a coisa assim: mas acontece que esse “então?” eu só o poderia dizer ao cão.”

          Os escritores, o poeta e o prosador, são ambos do século XX. O primeiro da primeira metade vindo do século anterior; o segundo da metade segunda.
          O poeta é Teixeira de Pascoais. O prosador é Nuno Bragança.
          Os primeiros excertos, as pérolas, são de “Marânus”; os versos do tigre são do livro ”As sombras”. O cão (e o leiteiro) são d’”A noite e o riso”.


(Artigo publicado na Revista Conexão Maringá, de Outubro/2008)

Publicado por barbant em 10:17 PM | Comentários (5) | TrackBack

maio 20, 2008

Em saios

"

 



             

Soneto Já Antigo

                              Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
                              dizer aos meus amigos aí de Londres,
                              embora não o sintas, que tu escondes
                              a grande dor da minha morte. Irás de

                              Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
                              que eu nada que tu digas acredito),
                              contar àquele pobre rapazito
                              que me deu tantas horas tão felizes,

                              Embora não o saibas, que morri...
                              mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
                              nada se importará... Depois vai dar

                            
a notícia a essa estranha Cecily
                             que acreditava que eu seria grande...
                             Raios partam a vida e quem lá ande!

***

Miguel Tamen é professor universitário (Stanford University e Universidades de Lisboa e de Chicago), dedicando-se fundamentalmente ao ensino de Teoria da Literatura.

Eis alguns dos seus livros publicados:

“Hermenêutica e mal-estar” (1987);
“Manners of Interpretation” (1993);
“The Matter of the Facts” (2000);
“Friends of Interpretable Objects (2001);
“Artigos Portugueses” (2002).

Eis, também, a breve entrevista que nos concedeu, onde revela o seu extraordinário carácter de frontalidade, subtileza, argúcia e desassombro. 

Antero Barbosa
"Século de Ouro - Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX" é uma obra notável, construída por várias dezenas de ensaios altamente válidos, alguns dos quais de nível elevadíssimo. Ainda assim, atrever-me-ia a considerar o breve ensaio de Miguel Tamen, o seu, em cima do "Soneto já Antigo" de Álvaro de Campos, como o melhor de todos.

Um dos aspectos que me leva a considerar o ensaio referido como o considero, assenta numa asserção que vem já de Eduardo Lourenço e do seu "Canto do Signo" de 1993: "da criação como crítica à crítica como ficção". Concorda que o seu ensaio espelha esta última faceta?

Miguel Tamen
Não. O meu ensaio não tem nada a ver com ficção. É simplesmente a verdade sobre o soneto de Álvaro de Campos.

AB
Ainda Eduardo Lourenço e o livro mencionado. Num dos seus mais famosos capítulos, é acentuada a influência do heterónimo de Pessoa que vimos tratando, de que até o próprio título é sintoma: "Uma Literatura Desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos".
Todavia, verifica-se, com surpresa, que os "filhos de Álvaro de Campos" apontados são todos prosadores, ao contrário do poeta que os influenciou: Bessa-Luís, Almeida Faria, Cardoso Pires, Abelaira, etc. A excepção é Herberto Hélder. Não acha haver aqui uma prosaica contradição?

MT
Não necessariamente. Os autores que Eduardo Lourenço cita são todos adultos (aliás de interesse variável). Os estragos que Álvaro de Campos causou situam-se numa idade anterior. Álvaro de Campos foi um poeta em quem (como aliás Herberto Helder) aspirantes a poetas se tenderam a revir e de quem aqueles que se tornaram poetas muitas vezes explicitamente se arrependem.

AB
Herberto Hélder que não será seguramente o mais comprovado discípulo de Campos. Outros há muito mais nítidos. Ruy Belo, por exemplo. E Nuno Júdice, que o confessa em "A Viagem das Palavras", livro publicado em 2005, sendo o ensaio de 2002.
Mas é possível acrescentar que a poesia portuguesa da segunda metade do século XX, uma das suas principais vertentes, os poetas de "Poesia 61", aborda aspectos desencontrados de Álvaro de Campos ou, mais do que isso, que estão apostados em explorar a outra margem, outras margens, de costas voltadas para ele.
O que nos levaria a uma certa negação da filiação da poesia portuguesa da segunda metade do século XX em Álvaro de Campos. Não lhe parece?

MT
Sim. Com excepções que importaria ressalvar e perceber, a ideia de que poetas sérios não escrevem como Álvaro de Campos é constitutiva da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Infelizmente, como aliás mostra bem a chamada Poesia 61, ter ideias sobre poesia não é suficiente para escrever versos de jeito e muitas vezes é o que impede que tal aconteça.

AB
Voltando ao seu ensaio sobre "Soneto já Antigo". Não deixa de ser uma ousadia seleccionar um soneto, modelo clássico, para abordar o épico dos grandes poemas à Whitman, Álvaro de Campos. Ou não será?

MT
Não. Não sou um admirador de Álvaro de Campos. Dito isto, o "Soneto já antigo" é o maior poema em português do século XX.  Não me interessa o Alvaro de Campos dos poemas longos e das apóstrofes pai, até Herberto Helder, de uma forma particular de indulgência poética que, depois das três miraculosas excepções do fim do século XIX (e de Pessoa) a fez permanecer obstinadamente menor. Interessa-me a sua prosa e alguns poemas curtos.

AB
Mas a ousadia está mesmo no ensaio. Para além de ser "crítica como ficção", há decerto uma superação deste modelo. Renegando moldes tradicionais, tais como o recurso a teorias literárias, a citações, ao abstraccionismo seco e maçador. E com o recurso a tópicos inovadores.
Dos quais mencionarei a dialética de uma elaboração que recorre de forma subtil ao passado e ao futuro. O recurso a talentos que se confundem com características do autor tratado: a ironia e o humor. E, inclusivamente, de um modo teatral, o facto de se integrar no interior da obra e confundir-se, na qualidade de destinatário, com uma das suas personagens, Daisy, presumivelmente feminina.
Que comentário lhe merece o meu?

MT
É muito simpático o que diz, mas não há qualquer ousadia no meu ensaio. Escrevi-o por impaciência para com as coisas que se escrevem sobre poesia, meio crónica social, meio pata-filosofia. A grande dificuldade do soneto de Álvaro de Campos é a apóstrofe "Olha Daisy". Perceber umas apóstrofe é o maior, e talvez o único, problema para quem lê poesia. Como é que se pode justificar o acesso a uma coisa que não foi feita para nós, e à vaidade que imagina que estamos a ser directamente chamados? O meu ensaio é só sobre isso. Mas é um ensaio imperfeito, porque prega a virtude da humildade de um modo adstringente.

 

Publicado por barbant em 11:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 23, 2008

Em saios





                    

O título, sumamente concreto e substantivo, impele ostensivamente para zonas sensoriais e pictóricas. No entanto, “Campo de Trigo com Corvos” não é mera reprodução do quadro de Van Gogh onde o trigo, amarelo, eivado das chamas loucas do pintor, escorraça de seu seio o bando negro dos corvos. Aqui, no livro, muito para além dos afugentados, corvos há que permanecem pairantes ou, mais ainda, baixando ao rés do solo jogam-se contra as pessoas provocando a clivagem (ou a carnagem). E esta fórmula aproxima os textos de uma realidade mais humana, ainda que desumana em função de traumatismos de que se tece a evolução vital e biológica.

 Mas, na arte de contar estórias, e é um pouco do que se trata aqui, o texto recorre globalmente a técnicas específicas da pintura. Designadamente, dos seguintes modos:
             Os factos sucedem-se em tom linear, contíguos ou adjacentes, em direcção a um desfecho, previsível ou não, podendo-nos apropriar neste caso da imagem do rio que decorre e atravessa a paisagem rumo à foz.
             A disposição da narrativa procede à colocação ou disposição de cenas paralelas, quadros que se encostam na vertical, ou na horizontal, às vezes na diagonal. Lembrando um pouco os vitrais medievais que ainda hoje se encontram nas catedrais.
             Postado na posição do personagem, o narrador reavém e sintetiza em frases-cristais largas faixas de vida transcorrida. São parágrafos breves, como riscos impressionistas e apressados, que intentam ou ensaiam remover um vulto de episódios para um mínimo centro, na vã tentativa de os aprisionar. De tudo dizer, sem ceder ao uso da gordura das palavras, muitas palavras, palavras a mais, o “contar palha” da gíria.

 Por outro lado, mais do que abordagens textuais que imitam ou pretendem irritar técnicas fílmicas ou de vídeo, nota-se um apropriar de materiais atinentes ao teatro.
             Desde logo, na encenação criteriosa e fiel de palcos que suportam os personagens, a reconstrução de sítios, locais, ambientes ou atmosferas. Em que tem papel fenomenal o fluxo da enumeração. Neste exemplo, utilizaremos o conto nodal, que dá título ao livro, “Campo de Trigo com Corvos” para promover a tipificação:

             “Contratou peões de fora, tipos mal encarados de outras plagas, outras praças, gaúchos, catarinas, ˝barrigas-verdes˝”.
             Observemos como se delineiam outras estilísticas da arte de talma:

             O imprevisto é um dos recursos que pode fazer balançar o espectador na cadeira. Ele é aqui arremessado, quer surgindo de-vereda, o designado “causo”, bem assim o pandareco, quer atribuindo um rumo à história totalmente inverso, ou ao menos diverso, da lógica que as teias já desarmadas anunciavam.
             O equívoco é, como se sabe, o banquete de muitas peças de teatro. De algumas em exclusivo. Ele provoca o espectador, obriga-o à concentração e à reflexão (e ao riso ou sorriso), mantém vivo o desenrolar do evento e o esforço dos actores. Aqui também ele actua, burilando surpresa nos personagens, dando lastros de ironia às vidas encenadas, apanhando na contra-mão o leitor. Quiçá, o próprio autor terá aberto olhos aquando da elaboração dos textos.
             Alguns títulos, algumas frases, preparam para ocorrências posteriores do conto. É uma espécie de levantar do véu, destapar de roupas femininas, jogo de sedução e permeio. Que muitas vezes pode desaguar num dos recursos anteriores, anulando ou aparelhando os efeitos: o imprevisto.
             Mas, o mais robusto de todos os recursos é o golpe-de-teatro. Repare-se que a própria palavra de que vimos falando integra a nova palavra, esta, aliada a golpe. Quando tudo se encaminhava no rumo certo, quando a rotina ou a monotonia se estavam solidificando, eis que de sopetão tudo se desmorona, tudo se transtorna, ficamos submersos nas estrias que estoiraram sobre nossas cabeças, fica tudo de pernas ao ar, a mesa, a casa, o livro, o corpo, a mente.

 Apesar de usado e abusado, gasto e regasto, o conto produz-se hoje em doses avulsas. A despeito de sua condenação, final da história e seus componentes-trave: narração, tempo e espaço, decretados pelo noveau-roman.
             Não basta hoje dispor magnanimamente da arte de contar. Não basta, como a Silas Corrêa Leite, ser um domador de estórias. É condição, ainda e nomeadamente, inventar histórias, seu entrechocar, prover à invenção de uma “história nova”. Isso aconteceu, muitas vezes, neste livro. Mas vejamos algumas das várias fórmulas de história com que nos deparamos:
             Existe a história que é canto, beco e síntese em “Boémio”;
             Existe a história que se traduz inteira e integral em “O Enterro”;
             Existe a que se senta na paragem, recusa avançar de momento e aguarda o porvir em “Quando a Tragédia Bate em sua Porta”;
             Existe a história que se metamorfoseia em lenda, veste-se mágica, irreal, em “O Inventor”;
             Existe a história contida, espelho de deserto dos tártaros, com tempestade iminente mas que não desaba em “Campo de Trigo com Corvos”.

 Mas todo livro é ou pretende ser uma obra literária. E é só isso que importa. Obtê-lo, consegui-lo, é todo o mérito e valor acrescentado possível. Também aqui se obteve largamente esse desiderato. Observemos alguns dos meios. Ou fins.
             Deitando mão de uma linguagem que, afora o popular, o linguajar, a gíria, agarra os elementos específicos de dialectos, sintaxe indígena, eivando a escrita de vocábulos originados do tupi. Exercitando uma experiência genialmente rasgada noutros países de língua de expressão portuguesa por Mia Couto e Luandino.
             Dando o braço à metáfora, à imagem em novos moldes, revitalizando os textos. E desse modo obtendo o viço, a chispa, o engaste de muitas frases. Alongando a metáfora, expandindo-a, cingindo-a a personagens inteiros ou à globalidade do conto. Metáfora que se transforma em alegoria. Exemplo seguro de tudo que fica dito são os Corvos de “Campo de Trigo” e o Muro em “Anistia”.
             Lançando as palavras umas contra as outras, quando contíguas, provocando choque, conflito, traumatismo, mas também colo, enlace, anel.
             E neste particular merece realce a intensa e não pretensa construção de novos vocábulos. Fruto de tentativas ou abordagens díspares.
             Usando a colagem, a composição, errónea em aparência mas sempre imprevista, como no caso de “esposa-vítima”, “vento-coisa”, “nuvem-lesma” ou “lebre-dor”.
             Recorrendo à síncope, como se verifica em “marra” e “garra”.
             Provocando a junção, de que poderemos enunciar “enfebre”, “nágua” e “cinzazul”.
             Adstringindo a preposição, prefixada, em “de-vereda”, “de-assim” e “de-primeiro”.
             Neste campo, de trigo literário, em que muitas letras são corvos, entendo que o mais subtil e profundo recurso resulta do germinar de vocábulos novos, que estimulam os acordes da sintaxe, da fonologia e da morfologia. Realizando cambiâncias, muito pouco vistas e nada pouco inesperadas. Ousando obter o substantivo a partir do verbo, do adjectivo, ou mesmo do próprio substantivo. Obtendo ligas que só ao alquimista são permitidas. Vejamos.
             Do inúmero número de vocábulos em que se verifica um processo de alteração da categoria sintáctica, ou manutenção sintáctica por força de novo vocábulo, quer por acção da base quer do derivado, topamos estas nominalizações deverbais: “acontecência”, “havência”, “pertencimento”, “andação” ou “conhecença”.
             Como apodo de nominalização denominal, poder-se-ia citar “mentirança” e “medaço”.
             Para não jazer nas plagas do vazio, eis também uma adjectivalização denominal: “encranqueira”.

 Recuando: perante o impasse da estória, notória se torna a premência da exploração de técnicas e moldes e dados inovadores. Porque não basta à ficção reproduzir a realidade ou ser espelho do real. Isso já se fez ou é horta de outras artes. Da perícia autoral depende a superação do real. Mais: a sua subversão.
             E é o que acontece substantivamente em “Campo de Trigo”. Podemos apontar o irreal em “O Inventor”; o surreal em “Anistia”; a subversão do real (pelas palavras) em “Justiça”. Estas e outras estórias é que provocam o avanço. Deixando as restantes coladas, como pinto recém-nado a casca-de-ovo, a correntes literárias já desgastadas, ainda que recentes.
             E já que entrámos na corrente, deveremos referir a mais ousada ousadia presente neste livro. Algo que apelidaríamos de transrealismo. Obter do texto a superação do real, a sua mistificação, submeter e soterrar normas, o erigir de um outro real. Isso acontece aqui e ali, mas de forma exemplar no conto mais de todos escatológico: “O Osso” (também em “Congonha”). De que retiramos três análises resumíticas: a mulher que se dá ao pai e depois ao filho, sendo carne para o primeiro e osso para o segundo; o homem que, helo Kafka, devém canino, o filho-cão; a habituação a baixas desumanidades que impede um ser humano de reverter após uma vivência animalesca.

 Falámos de artes plásticas. De artes cénicas. De linguística. E, sobretudo, de arte literária. E corrente. Literária, claro, mas não só. Tudo muito apreciado. Mas então, e a vida? Porque é o sangue dela que muitos pretendem, ou preferem, ver escorrer das letras dos livros. Diria:
             Existe, como metáfora da terra, e dela, a vida, um extenso campo de trigo. E pequenos pontos negros no meio do trigo, os corvos. Este é o palco, é aqui que tudo decorre. Com o sol por testemunha ou sob o céu nocturno. Os pequenos pontos negros por vezes exaltam-se. Rebelam-se. Ficam loucos. Pode dar na destruição de todo o enorme campo. De trigo. E é assim que a vida se eleva (mesmo quando derrubada). Porque ela é em simultâneo

Luz e escuro;

Branco e negro;

Gozo e dor;

Água e fogo;

Campo de trigo e corvos. 

Publicado por barbant em 09:22 PM | Comentários (1391) | TrackBack

julho 20, 2006

Frutos sem flor

FRUTOS SEM FLOR
(Obsessão e metamorfose no livro de Américo Teixeira Moreira, O Corpo Restituído)



               

              Comecemos por tentar justificar o título desta apresentação. Referindo-nos a dois livros de poemas que com ele têm alguma conotação: “As Mãos e os Frutos” de Eugénio de Andrade, publicado em 1948, e as “Flores sem Fruto” de Almeida Garrett, surgidas muito antes no Romantismo.

“Frutos sem flor”, síntese aplicada a “O Corpo Restituído”, pretende tipificar uma obsessão e uma metamorfose, através de uma nova abordagem do tema amoroso, apesar das ligações obrigatórias com as duas obras referidas. E, porque se inverte a ordem das palavras de um desses livros, de “Flores sem Fruto” para “Frutos sem Flor”, podemos mesmo falar de uma certa oposição, não apenas estilística mas até temática.

Vamos então enumerar alguns frutos esquisitos, “extemporâneos” como lhes chama o autor, que não resultam, ao menos na aparência, da fase evolutiva a que se chama flor. Surgem de forma espontânea ou apoiam-se em alicerces de índole diversa daquela que é regra actuar na sua produção. Transgredindo, por isso, as elementares leis naturais.

 Vamos classificá-los mediante uma escala que resulta da sua complexidade, deixando de lado os frutos verdadeiros que aparecem no livro mas que para este efeito não têm interesse, por serem frutos normais: tais como laranja, morango, medronho, ameixa, romã. Estes seriam os frutos de 5.º grau.


            Mesmo não surgindo no livro de forma explícita, não podemos deixar de referir um fruto de 4.º grau: o figo ou bêbera como vocês dizem, que sendo fruto não depende da existência de flor.

 

Subindo a escala, encontramos no livro frutos de 3.º grau, os quais, além de ignorarem a flor, igualmente fazem esquecer a árvore. O que lhes dá um sabor outro, porque se afastam do reino vegetal para se aproximar do reino animal.

Aqui prevalece a memória. Que funciona por reflexo daquilo que outrora impressionou os 5 sentidos.

Desde logo se cristaliza em fruto o próprio “chão”: “aqui sobre este chão”, diz o poema.

Rente ao chão ou dele se erguendo por ascendência, podemos apontar outros frutos: a “alvorada” e seu fulgor enigmático; o “orvalho” com seu líquido amotinado; o “espelho”, de águas ou luzes, que se torna côncavo perante a alegria.

Ascendendo no espaço aéreo topamos outros ainda: a “resina” num rodopio telúrico: os trabalhos subtis da abelha: o “zumbido e seu tremular e o “mel” com seu doce e áspero sabor.

Mais sofisticados, tocados já por mãos, podemos enumerar ainda mais dois, devidamente desdobrados: em volume concreto o “fermento” e, em resultado da sua transformação, o “levedar”, de que o poema ouve o som e a música; nos mesmos termos, o “vinho”, produto acabado que sacode o cansaço de quem o bebe e a sua forma anterior, o “mosto”, poderosa noção que permite tornar audível um “vinhedo a cheirar”.

 

Sem delongas, acompanhando apenas a sucessão cronológica dos termos no livro, eis os frutos de 2.º grau, os que apelam já em absoluto a uma fermentação humana, sendo todos despidos da espessura da matéria, isto é, são meramente intangíveis:

O “fogo”:

         desamparado com a voz / auroral polvilhada de fogo

a

         linguagem do olhar

as “carícias”, aqui sintomaticamente ligadas à espiga

         perdemo-nos ainda em carícias

         como uma espiga colorida

a “carne”, que aqui é itinerante

         Só então soltas os suspiros do cansaço …

         para encobrir a carne itinerante / dos teus seios

o “grito”

         tornado júbilo e proveniente de muitas fontes

como seria de esperar, o “desejo”

         uma beleza de exaltação feita de desejo

         de vencer a morte

a “voz”

         sorvo com serena fantasia o som da tua voz

Repare-se na expressão verbal “sorvo”, como se aplicada a um fruto.

Ainda um fruto singular porque se trata da própria flor nele tornada, a “rosa”, glozada várias vezes no livro, sempre em acepção que a distancia de sua natural natureza:

         Quero que … / brandamente te abras como uma rosa suada.

E, por fim, esse fruto assombrado, a “memória”, que no livro se transforma em incêndio:

         essa palavra sempre fresca

         nos teus olhos quando / incendeias a memória.

 

É este o terreno em que tudo acontece: a memória e seu incêndio. Que nos leva ao tema maior do livro, o fruto de 1.º grau: o erotismo. Que não dispensa vocábulos ligados à infância. Que se serve de elementos e locais em que ela decorreu e a que se regressou já noutras idades.

Com esses elementos se produz a textura, isto é, o poema. Ainda quando as palavras coabitam em conflito. Mas , como se sabe, é ele, o conflito, a filosófica antítese, que proporciona a evolução. Mais do que isso, proporciona a vida. Vejamos alguns exemplos e repare-se como os elementos naturais, animais ou materiais são carne com carne do erotismo:

as oscilações em que trocamos

gemidos nas ceifas dos corpos

        

                   um amor que não semeia nem colhe

                   para ser livre sobre o teu corpo feito réptil

        

                   adúltera sinfonia subtraída às teclas voláteis

                   do teu corpo

         Estamos chegados àquilo a que o autor chama nomeadamente “delta”, o local onde os corpos se cruzam e que é preciso atravessar. Ou seja, em que à obsessão dos frutos se segue a metamorfose, de forma a que o corpo possa ser restituído.

         Não se trata aqui de amor platónico nem de qualquer teoria afim. Bem pelo contrário. E ao contrário também de Humberto Eco, ou de um dos seus personagens, não estamos perante terrenos não tocados pelo “pecado de Babel”, não se trata de corpos apenas tocados pela “carícia dos elementos”, não se trata daquele fenómeno masoquista em que o objectivo é “permanecer sem objectivo”.

         Não. Estamos num outro reino, em que prevalece a “geometria dos corpos”, em que se mata a “sede” no “fruto apetecido”, em que se gasta a “parábola do olhar”, em que desliza um “rio flutuante de orgasmos”, em que se consuma o “ritual voluptuoso” e a “função húmida”, em que os corpos se tornam “inconjuntados pelo tempo”.

         Por este processo, ou por esta contingência, atinge-se a maior de todas as obsessões, a mais complexa das metamorfoses: os corpos que são dois tornam-se num só.

         Está concluída, mas nunca encerrada, a viagem amorosa: que vai de uma a outra mulher; que vai da mãe à amante (amante é aquela que se ama); que vai do “bendito fruto do teu ventre” à rendição do fruto como ventre; que vai do colo ao regaço; que vai dos seios como alimento aos seios como fruição. “Agitam-se os seios”, diz-se na página 49. Os seios agitam-se, não como as searas de antigamente, mas sendo as próprias searas: frutos por gestação e gestação de novos frutos.

         Restituído, queimado por incêndios e ausências, “o corpo envelhece”. Penso que também já envelheceu o vosso interesse desde o início desta cerimónia. Só mais dois tópicos nesta senda da restituição.

         “Dança Salomé”, o último poema, aparentemente surgindo a despropósito, realiza a colisão e os contrários: remete para as tradições, para as leituras bíblicas da missa, para a atracção fatal da lenda. E permite retirar o prazer de haver profano e sagrado, porque este não existiria sem aquele, isto é, nada vive sem o seu contrário. E o poema anula o envelhecimento: perante o “volume redondo da … blusa” tudo será eterno enquanto aí durar.

         Falamos de frutos, da memória, do amor. Ou talvez não. Porque estivemos sempre exclusivamente falando de um livro, de um pomar feito só de palavras. E são elas que prevalecem, elas os frutos que só uma boca cultural pode saborear.

         Isto também está no livro, dito desta forma:

                   Só linguagem, nada mais,

                   o teu corpo, mesmo quando

                   és um sonho de fogo…

 

(Excerto do texto apresentado na Câmara Municipal de Armamar, a 1/7/2006)

Publicado por barbant em 09:08 PM

julho 16, 2006

A Mansão de Fiama



               

              Com o acumular dos séculos e dos volumes, os autores tomam posição, conquistando os vértices das manifestações culturais e pugnando por um posto de referência: individual, de geração, de período, de época ou universal.

            A sua posição devém extremada, torna-se tenaz, eles são os “donos” de um território que, embora delimitado, exerce uma espécie de governo ou castelo, preparado para a reverência ou a recusa.

            De tal forma assim é, que alguns autores são inclusivamente “proprietários” de determinados vocábulos e expressões. Camões e Pessoa são os grandes mercantilistas, detendo o primeiro a larga vantagem de possuir um domínio de quatro séculos, em que a sua barca balança fortemente sacudida por avanços e recuos.

            É quase proibido o uso por outrem dessas noções cristalizadas. Em Camões é um manancial, citem-se para amostra os vocábulos “desconcerto”, “mudança”, “armas”, “verme”, e as expressões “alma minha gentil”, “amor é fogo que arde sem se ver”, “bicho da terra” e “posta em sossego”; e de Pessoa “fingidor”, “orla”, “ceifeira”, “mostrengo”, “menino de sua mãe”, “mar salgado”, “se eu beijasse teu gesto”, “sino da  minha aldeia”.

            Há autores que dão à palavra / símbolo a dimensão global e única de um livro: é o caso de “aparição” em Vergílio Ferreira e no respectivo romance.

            Outros há que usam títulos que tornam complicado o seu uso posterior: é o caso de “avieiros” e “gaibéus” em Alves Redol. Diga-se que, no que a estes casos se refere, não se pode nem se quer recorrer.

            E há, sobretudo, aqueles termos que, sendo propriedade exclusiva deste ou daquele criador, são a sua própria evocação e continência sempre que mencionados: é o caso da “purinha” de Nobre, os “oaristos” de Eugénio de Castro, a “milady” de Cesário, os “olhos verdes” de Garrett, o “verde pinho” de D. Dinis, as “palavras interditas” de Andrade, a “mão de Deus” de Antero.

            Torpedear este esquema é deveras difícil. Todavia, autores há que conseguem tornear com sucesso a dificuldade: as “saudades” de Bernardim transfiguram-se na saudade / exílio de Garrett e na saudade /saudosismo de Pascoais; este obtém larga vitória sobre Camões retirando ao seu maior símbolo “lusíadas” uma letra só e inscrevendo a palavra “lusíada”; Carlos de Oliveira assume uma “descida aos infernos” que se automatiza excepcionalmente das de Torga e Dante.

            Concluindo, para não enfastiar: é Fiama quem tem a  desenvoltura de tornear a questão. De uma forma muito simples e honesta: colocando a expressão em itálico e solicitando não só o arcaboiço cultural mas também a intervenção do leitor tornando-o co-autor.

            Um exemplo paradigmático: no “Poema / cripta” de “Visões Mínimas” a expressão grafada “na mansão da morte”, embora assuma novos contornos textuais, remete iniludivelmente para Soares de Passos e o seu “noivado do sepulcro”.

Publicado por barbant em 09:54 PM

março 17, 2006

O Voo Dentro da Asa




 

Quando acordou sentiu que uma fronteira havia sido superada. Aquela relação física, a última delas, deixara por herança o domínio lúcido e intelegível das sensações.

Poderia agora reverter, mudar de ventre para costas, exercitar seu poder. Todo o jogo de forças e emoções, sua ausência forçada, sua negação pura, localizava-se agora noutro espaço: o mental. Nada mais se decidia na tesoura das pernas, no carreiro dos seios, no pão entreaberto da vulva.

Ainda que nesse sentido derramasse todas as aparências. Iludindo os comparsas. Que se renderiam aos volúveis gestos corporais, ao rouco compasso dos gemidos, à lagoa depositada no olhar, o grande logro.

Mas só na visão deles ainda permanecia a virgem. Porque ela estava definitivamente desvirginada. E desvirginizada. Para se ser virgem após as posses, não é correcto colar em cirurgia plástica o hímen: obrigatório seria anestesiar memórias, todas, dos actos sexuais.

 

 

Excerto do ensaio publicado na página de Manoel de Barros - jpoesia

Publicado por barbant em 08:30 PM