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Poder-se-á dizer que a sagrada-família
pode ser destruída pelo quadrilátero. De facto, além de Jonas e
Lucília,
e Rufina filha dos dois, ia o
afilhado dos primeiros em belicosa porfia com a última. Mas não se trata
exactamente de dois casais. Reparando bem, Rufina e Joel vão sempre
juntos, ora um ora outro na dianteira. Mas a sua concatenação é total. A distância a que porventura se separam não lhes
permite quebrar o bocadito de elástico
da sintonia em que caminham, ora parando a apontar algo que os
seduz, ora em pequenos trotes ou correrias como se de rafeiros brincalhões
se tratasse.
Lucília
leva a cesta. Leva a toalha branca, de linho talvez, cobrindo-a. Leva os
sapatos justos e por isso manqueja um pouco. Leva os ouvidos
perniciosamente aptos a detectar ao longe o ruído de qualquer motor. Leva
a blusa justa e esta resplende como um trapo de céu. Leva os olhos
derramados no corpo dos miúdos, da mesma forma que
o faria o jorro de uma lanterna se da noite se tratasse. E grita:
-
Fininha, está quieta, não sejas malandra! Ju, então, não se atiram
pedras ao tanque! Cuidado!, ide sempre pela beirinha!
Porém
Jonas, embora porventura lado de água, mantém a consistência do quadrilátero.
Ele segue atrás. Sempre atrás. Como que hipnotizado. Aproxima-te de
Jonas. Não, não vais estilhaçar o quadrilátero. Jonas entenderá.
Podes aproximar-te. Agora repara: os olhos estão como que adormecidos, oh
não, agora estão demasiado abertos, abrem-se até à brancura. Mas eles
não vêem. Possivelmente está pensando. No entanto segue. Será que ouve
os gritos de Fina e Joel? Mas a distância com Lucília mantém-se, os
mesmos dois passos os isolam. Repara agora: a boca também se entreabre, túmida,
cavalo com cio vai no prado plano. As pernas são movidas a compasso, dá
ideia de que alguém as atira de cada
vez, não distinguem as pedras ou algum tufo de ervas ao seu
alcance. Como resfolga o peito!, repara, ondas e ondas que se quebram
convulsas. Será que se entrega? Ou absorve? Será que pensa?
Acorda
enfim, Lucília cruza-se com outra mulher e falam:
-
Então Miquinhas, deixou lá alguma coisa para mim?
- Ná,
caramba, ainda ficou lá muita coisa!
-
É que eu não encomendei, sabe?
- Quer não, escusas de te afligir, ainda lá ficou muita rosca.
-
Ainda bem, senão era uma viagem sem proveito. Melhor assim.
-
Bem, então vamos lá. Opa Tónio, toca a andar! Lucília, vai com Deus!
- Até logo, Miquinhas!
Vão
já nos Campinhos e embora a cadência de passo se mantenha em Jonas se
nota uma metamorfose. Vejamos, é como um relâmpago sobre seu corpo, a
modos de um soluço que escorre pela espinha, assim os cevados estertoram
na matança. Aproximemo-nos. Os olhos de Jonas estacam. As pernas avançam,
no entanto os olhos recusam-se a tal. Como duas pedras. Ficam-se nos
Campinhos. Agora Jonas começa
lentamente a diminuir. Primeiro desaparece a barba, depois parte do cabelo
que toma uma forma curta e arredondada, agora as pernas, os braços ficam
reduzidos a cerca de metade, estreitece o dorso e a cintura, estranha
maldição, fica do tamanho de sete anos. Lá estão as laranjeiras
reluzindo como folha de espada, lá está o Abel, já da quarta classe,
está contra o tronco da laranjeira, procura abrigo e grita. É um grito
desvairado, de javali, mas nem Jonas nem os outros miúdos atiram um passo
em sua defesa. Perto deles lá está Caim, não é esse o seu nome, talvez
António ou Manuel, mas para Jonas, cujo
peito ficou doravante penosamente contraído sempre que ali passa,
o seu nome só pode ser Caim. Caim arremessa pedradas, elas aí vão
arqueadas, a sua parábola zune e algumas batem em cheio em Abel como se
tombassem num tanque. Ele chama-se Abel, miserável coincidência. E os
seus gritos derramam-se pelo campo, coalham, só eles são corpo. Os olhos
de Jonas incham, neste momento como outrora, e de súbito num sacão ele
retoma os trinta e sete anos. Fina e Joel também gritam, mas as suas
vozes saltitam, bagos de alegria no sol da tarde. Caim lá está, lá
continua a criar as amargas parábolas de pedra, Abel arranca uivos
estertorosos, ali ficam como cristalizados em vitral, num êxtase maldito.
Jonas estremece. Caim, ou Manuel ou António, morreu esbarrado, vinte anos
após este outrora, dez anos antes deste agora. Ali está a escola com
seus cedros, o terreiro tão largo que era o mundo, e Jonas, muitos Jonas
diferenciados que renascem como jactos de água em chafariz. Eles são
maiores, menores, de gancheta e roda, de fato, de água em bica de cerveja
nos lábios, Jonas não consegue deter esta brutal sucessão de partos. De
tal forma que após atravessarem a rua principal, vai com Fina beber ao
fontanário, outrora chafurdo, embora a sede fosse caracol ainda recolhido.
E seduz Fina através do centeio, corta uma espiga em que reluz um insecto
vivo como sangue, mostra-o e chama-a:
- Fina, olha uma joaninha!
-
Ai, dá-ma pai, que bonita!
-
Toma, ela é pequenina. Se disseres “joaninha avoa avoa” ela foge.
-
Oh, já fugiu ! ...
- Pois, tu disseste “joaninha avoa avoa” e ela voou.
- Intrujão,
não disse nada ...
-
Está bem, há mais, olha outra ...
-
Oh pai, dá-ma!
E,
ovnis minúsculos, os insectos se elevam em direcção ao giestal.
(Continua)
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