agosto 01, 2009

Paixão. A seguir

Quando se apercebeu encontrava-se no centro das férias com aquela jovem. A que se acoplavam mais três casais, entre os demais, e esse complemento é que produzia a razão de ser do centro. Centro da quinta, da casa, das falas, mas sobretudo das férias que arreganhavam dentes, em lábios, como pano de fundo.
Desconhecendo-se e rapidamente acedendo à intimidade, ou à vulgar e aparente orla dela, haviam combinado aquele jogo para aquele dia, de troca de par a cada duas horas sucessivas.
Estava já no último par, o grupo desfazendo-se e desagregando-se sem promessa de continuidade ou prolongamento adstrito de emoções.
Tratando-se da última, talvez por pressão que advinha da própria palavra, a ânsia fez subir hastes na tábua do peito. E aquela jovem centrou-se, sobre a indiferença que as outras não puderam quebrar ou afugentar, acendendo um fulgor mínimo mas inquieto em tudo que se ia passando ou afogando ou que surdia como promessa a haver mas já incapaz de cumprir-se.
O centro é doloroso, e essa noção como um efeito de cerca prepara terrenos de sofreguidão ou nostalgia de que só a estrutura ainda emerge mas com a certeza de coisas inevitáveis em que havemos de desaguar ou que, implacáveis, nos hão-de envolver como uma casca.

Espalhados pelos sofás, em posições ambíguas de corpos e de conversas sopradas, a primeira alucinação o interveio, ele que só ouvia e olhava sem contracenar.
Era a mistura do dia todo de actos e cenas e, sobretudo, conversas com que cada qual intentou derramar nos demais as luzes de um passado pretensamente iluminado. Difícil seria ajuizar dos efeitos e sequências, no entanto de todo aquele aranzel em excesso esparramado e jogado contra muros, algum foco sobejava, ainda indistinto, que uma ou outra vez viria à tona dos dias vindouros.
De pânico era observar todo o folhedo que caía no chão, a fruta podre ainda não amadurecida, os líquidos viscosos de germes que forçosamente haviam abortado. E a dúvida se entremeava em tudo, sendo cedo para seccionar o que sobraria ou seria reinventado, cuja sobrevivência, caótica, podia seguramente atribuir-se ao menos provável ou lógico.
No entanto, não deixava de ser admirável a hipótese de tudo considerar de relance, como um museu vivo em que pessoas e suas emergências circulam esforçadamente em risos e demãos teatrais. Aliás, era essa a zona actual, e única aproveitável, a que cabia dar uso.
Vincar tónicas, obter conclusões, mediar sucedâneos, era uma forma infeliz de abordar a tontura. Por isso, permitiu que discorressem, e deixou a jovem companheira, toda sua no momento da mão fechada daquele serão, ainda que brevemente cortado, eterno e efémero, deixou que falasse e confidenciasse, dispensando-lhe uma atenção distraída que dividia com o rumor dos outros e, principalmente, com o murmúrio ácido que das vísceras lhe subia intenso.

Com o acentuar dos faróis da noite crescente, uma outra transfiguração o susteve.
Os pares valsavam de vozes, provavelmente agitados por bebidas espirituosas, derrapavam arestas orgânicas, os cabelos, o cotovelo, a língua, o nariz de perfil, as frases tornavam-se entrecortadas, monossilábicas, gritadas, tecidas de risada, o caos descia sobre eles que nada se incomodavam de o interpretar ou obter percepção.
Vontade, anseio, de separar as fissuras do caos, organizar as vagas soltas, apreender o tecido de todas as frases em simultâneo, costurar inícios de vocábulos que se chocavam, criar um sentido global, incinerar a totalidade num discurso apreensivo e humano.
Tarefa impossível, decerto. E inútil. O teor das conversações é de resvalo, de fluir de corrente, de curso precipitado e não passível de parar.
De repente, como assaltados, rebentam os acidentes da corrente no occipital. Visto dali, o que se diz é áspero, adejante, silvo de serpente e balbucio de batráquio, raspar, choque, parto, vibrar seco de gravetos no bosque. Invade-os a tempestade.
A ambição de tudo atender e organizar soçobra. E, além do fundamento surge a confirmação. Porque até o diálogo de cada par é oco e inconsequente, cinza para depôr no chão e pisar, com dobras de desprezo e ausência.
E essa noção, apropriada, o encaminha ao acalento. Da jovem que está em sua frente, única e vibrátil, de que o rosto e os cabelos e saliências erotizantes são excelente fio condutor, a que atribui sua devoção. De palavras, agora.

Atraiçoando o combinado e o convite, quando as luzes pareciam já morrer derramadas na sala da janela, ficaram a sós e fora do cinema dos outros. Essa opção, quase involuntária, a atribui a ela que provavelmente o mesmo pensou ou inventariou.
Mas, de seguida, pisando pé no trampolim, foi ela que providenciou coerência à decisão anterior, ainda que tecida, esta, de indecisas tenções.
Os olhos aproximaram-se num zoom, e os cabelos dela riscando-lhe o rosto riscam-no todo e apelam dedos. Contra o olhar ferido da empregada, subiram ao quarto, onde se desfizeram de roupas e sentimentos, estes e outros inventando uma fogueira que ainda por vezes assoma a um limiar já apropriado de quotidianos.
E na foz desse recontro, quando o seio já não extravasa da mão que nele se mantinha, um novo vislumbre o incendiou, parente ou fractura do anterior.
Mais do que a recolha de passadas dispersas que num único dia haviam sido convocadas e tornadas presentes embora desfiguradas e contidas em molde de olho intrigante, mais do que esses bustos do passado reaquecidos, era o futuro que comparecia e se deixava trespassar.
As cenas vividas, que noutras épocas careciam de anos ou nunca atingiriam o concreto concretizando-se nessa outra máscara de virtual, sucederam-se convulsas e exangues talvez, esbracejantes e rasgadas, com um verde sabor de fruto maduro, e ostentaram representações simultâneas, ou acendendo clarões no decorrer quase simultâneo do dia.
Vivendo dessa mistura quase insondável, de paredes que paralelas se transferiam, de encavalgamentos e saltos quase inesperados, aproveitando os menores pretextos para ocupar a próxima pedra, sem permitir a análise da ocorrência antecedente, nem sequer que esta se consumasse, ou mesmo consolidasse.
Esse bailado do simultâneo bailava em seus olhos que arranhavam o tecto. E o seio emurchecia, só ela sentia a mão que fugia do peito mantendo-se lá.
Mas o que o intrigava, e nisso punha o acento, era a inusual acumulação de futuro. Que fora aparentemente antecipado, dignando-se viver para eles antes da espera, de uma forma já adquirida, sem as vibrações que dão vida ao entrecenar de fases que demoram a construir a arquitectura de uma paixão.
Anulado, o porvir, por antecipado e simultâneo, explodira. Tornando-se vazio, pondo-se em fuga.
À pergunta se estava apaixonada, ela acenou convicta que não. E vestindo-se saiu. Em procura do tal de futuro, inexistente, ou por isso mesmo.

Assim abordada, a paixão exige uma reanálise, apropriando-se de novos pássaros que pairam em ramos renovados, em que a brevidade não coabita já com o voo com que irão fugir mas com o imediato estádio inverso, do acto em que se poisaram patas. Breve no poisar que sempre fora, mas também no cindido desenlace que o condicionou e fez acontecer mais cedo. Muito.
Despedida sem despedida, voltando ao pássaro. Como se este, previdentemente, dispusesse de dois pousos e se dirigisse ao segundo igual ao primeiro. Ou, no caso dela, todo o lugar em que fazia amor fosse apenas um lugar, precário e quente, na cadeia de outros que o tempo, sem esforço extremo dela, haveria de prover. Pelo menos enquanto a água jorrasse em suas grutas.
O dele também. Como se houvesse vivido numa única e incompleta noite toda uma vida. E a paixão e o amor e o casamento e o desencanto e a ruína. Ficando com os lábios adoçados pela carne única da paixão, doiradamente abandonada, sem os abusados sabores do fastio, da raiva ou da sofreguidão ou da náusea.
Mas afinal houvera paixão? Assim curta? Claro que sim. E nem se dava ao esforço de perorar por justificações, ou planos, ou abordagens. Breve, exausta, ela forjara em pequeno espaço, como num átomo, fogo igual ao de outros apaixonamentos. Que entretanto se haviam esgotado e esvaído. Tornando-se, tal como este, a não ter acontecido, meramente virtuais.
Dessa realidade são feitas sempre as paixões. As concretas, as platónicas, as virtuais, as que se seguirão. Como os gestos de que tecemos nossos passos. Nos quais se abrigou e vestiu descendo a escada onde se cruzou com a empregada que subia os peitos já vastamente abertos na camisa da noite vasta.

Publicado por barbant em 11:17 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 08, 2005

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AS FORMIGAS

(FINAL)



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Regressam. A direito, pelos campos. Na mão de Jonas, pedra incrustada
vivamente ruiva, a infância se demora. Leão domado. Mas o menor ruído,
a menor desconcentração, um pássaro uma folha podem despertá-la. E
desertará. Como as joaninhas. Que afinal são insectos mais dóceis.
Porque não nos deixam ser joaninhas.


Foi
o que aconteceu ao chegarem ao Calvário. Já desde o início elas
passavam, sozinhas ou com o filhito. Como pintura de Malhoa: redondas
saias enfunadas, rosto crestado, a cesta com seu tecto branquíssimo, o
passo lento de boi na lavra. Dentro, adivinhava-se a roda amarela do pão-de-ló,
aninhada na toalha. Assim os frangos vão à feira. Assim as tripas
procuram o riacho pelas matanças. Elas passam, cruzam-se, também a velha
de rosto pregueado, olhos subtis de quem leva coisa roubada.


Mas
no Calvário a estrada alonga-se, nasce em comprimento, despoja-se de
curvas. E contra as ramadas já em botão, a cabeça e a cesta acima das
agulhas do centeio, ou toda viva no cimo da encosta, a pintura de Malhoa lá
vai, mais devagar quanto mais longe. E outra, e outra. Também a canalha,
insectos de roupas reluzentes. Quando passam, o rosto vai alumiado,
abrindo-se, a cesta encerra prodígios, as caras tornam-se doces. Tal como
a regueifa, tal como o dia. As aves estão quedas. Por vezes alguma
levanta a  voz, um fio frágil,
branco, uma gota de água no calor que cresce. A cesta é branca, não a
cesta mas a toalha, não a cesta, as cestas que em fila as mulheres
transportam em direcção a casa. Larga fila, esguia, de brancas cestas na
tarde branca, um odor amarelado escorre. As mulheres prosseguem, assim eu,
Jonas e Lucília e Rufina e Joel, estamos encerrados na branca fileira
pela via que sobe sobe suadamente. Levamos a cesta, as mulheres levam a
cesta, como um facho, devagar devagar, como um bebé precioso as vamos
depositar em casa. E as mulheres, de brancas cestas, recortam-se na
estrada. La vão. Lentas. Cansadas. De rosto aberto e alumiado. Entre o
incenso da tarde.


Formigas!

Publicado por barbant em 09:32 AM | Comentários (3)

março 13, 2005

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AS FORMIGAS

    (Continuação)

 

            Poder-se-á dizer que a sagrada-família pode ser destruída pelo quadrilátero. De facto, além de Jonas e Lucília, e  Rufina filha dos dois, ia o afilhado dos primeiros em belicosa porfia com a última. Mas não se trata exactamente de dois casais. Reparando bem, Rufina e Joel vão sempre juntos, ora um ora outro na dianteira. Mas a sua concatenação é  total. A distância a que porventura se separam não lhes permite quebrar o bocadito de elástico  da sintonia em que caminham, ora parando a apontar algo que os seduz, ora em pequenos trotes ou correrias como se de rafeiros brincalhões se tratasse.
         
Lucília leva a cesta. Leva a toalha branca, de linho talvez, cobrindo-a. Leva os sapatos justos e por isso manqueja um pouco. Leva os ouvidos perniciosamente aptos a detectar ao longe o ruído de qualquer motor. Leva a blusa justa e esta resplende como um trapo de céu. Leva os olhos derramados no corpo dos miúdos, da mesma forma que  o faria o jorro de uma lanterna se da noite se tratasse. E grita:
         
- Fininha, está quieta, não sejas malandra! Ju, então, não se atiram pedras ao tanque! Cuidado!, ide sempre pela beirinha!
         
Porém Jonas, embora porventura lado de água, mantém a consistência do quadrilátero. Ele segue atrás. Sempre atrás. Como que hipnotizado. Aproxima-te de Jonas. Não, não vais estilhaçar o quadrilátero. Jonas entenderá. Podes aproximar-te. Agora repara: os olhos estão como que adormecidos, oh não, agora estão demasiado abertos, abrem-se até à brancura. Mas eles não vêem. Possivelmente está pensando. No entanto segue. Será que ouve os gritos de Fina e Joel? Mas a distância com Lucília mantém-se, os mesmos dois passos os isolam. Repara agora: a boca também se entreabre, túmida, cavalo com cio vai no prado plano. As pernas são movidas a compasso, dá ideia de que alguém as atira de cada  vez, não distinguem as pedras ou algum tufo de ervas ao seu alcance. Como resfolga o peito!, repara, ondas e ondas que se quebram convulsas. Será que se entrega? Ou absorve? Será que pensa?
         
Acorda enfim, Lucília cruza-se com outra mulher e falam:
         
- Então Miquinhas, deixou lá alguma coisa para mim?       
         
- Ná, caramba, ainda ficou lá muita coisa!

         
- É que eu não encomendei, sabe?
 
        - Quer não, escusas de te afligir, ainda lá ficou muita rosca.
         
- Ainda bem, senão era uma viagem sem proveito. Melhor assim.
         
- Bem, então vamos lá. Opa Tónio, toca a andar! Lucília, vai com Deus!
          - Até logo, Miquinhas!
         
Vão já nos Campinhos e embora a cadência de passo se mantenha em Jonas se nota uma metamorfose. Vejamos, é como um relâmpago sobre seu corpo, a modos de um soluço que escorre pela espinha, assim os cevados estertoram na matança. Aproximemo-nos. Os olhos de Jonas estacam. As pernas avançam, no entanto os olhos recusam-se a tal. Como duas pedras. Ficam-se nos Campinhos. Agora Jonas  começa lentamente a diminuir. Primeiro desaparece a barba, depois parte do cabelo que toma uma forma curta e arredondada, agora as pernas, os braços ficam reduzidos a cerca de metade, estreitece o dorso e a cintura, estranha maldição, fica do tamanho de sete anos. Lá estão as laranjeiras reluzindo como folha de espada, lá está o Abel, já da quarta classe, está contra o tronco da laranjeira, procura abrigo e grita. É um grito desvairado, de javali, mas nem Jonas nem os outros miúdos atiram um passo em sua defesa. Perto deles lá está Caim, não é esse o seu nome, talvez António ou Manuel, mas para Jonas, cujo  peito ficou doravante penosamente contraído sempre que ali passa, o seu nome só pode ser Caim. Caim arremessa pedradas, elas aí vão arqueadas, a sua parábola zune e algumas batem em cheio em Abel como se tombassem num tanque. Ele chama-se Abel, miserável coincidência. E os seus gritos derramam-se pelo campo, coalham, só eles são corpo. Os olhos de Jonas incham, neste momento como outrora, e de súbito num sacão ele retoma os trinta e sete anos. Fina e Joel também gritam, mas as suas vozes saltitam, bagos de alegria no sol da tarde. Caim lá está, lá continua a criar as amargas parábolas de pedra, Abel arranca uivos estertorosos, ali ficam como cristalizados em vitral, num êxtase maldito. Jonas estremece. Caim, ou Manuel ou António, morreu esbarrado, vinte anos após este outrora, dez anos antes deste agora. Ali está a escola com seus cedros, o terreiro tão largo que era o mundo, e Jonas, muitos Jonas diferenciados que renascem como jactos de água em chafariz. Eles são maiores, menores, de gancheta e roda, de fato, de água em bica de cerveja nos lábios, Jonas não consegue deter esta brutal sucessão de partos. De tal forma que após atravessarem a rua principal, vai com Fina beber ao fontanário, outrora chafurdo, embora a sede fosse caracol ainda recolhido. E seduz Fina através do centeio, corta uma espiga em que reluz um insecto vivo como sangue, mostra-o e chama-a:
          - Fina, olha uma joaninha!
         
- Ai, dá-ma pai, que bonita!
         
- Toma, ela é pequenina. Se disseres “joaninha avoa avoa” ela foge.
         
- Oh, já fugiu ! ...
          - Pois, tu disseste “joaninha avoa avoa” e ela voou.
         
- Intrujão, não disse nada ...

         
- Está bem, há mais, olha outra ...
         
- Oh pai, dá-ma!
         
E, ovnis minúsculos, os insectos se elevam em direcção ao giestal.

(Continua)

 

Publicado por barbant em 03:14 PM | Comentários (3)

março 06, 2005

(Des)contos



AS FORMIGAS

   

 

            Há épocas do ano que ganham corpo. É assim como uma gravidez que se precipita irreprimível. Vem-se anunciando em pequenos pormenores e de sua acumulação cicatrizada nasce uma força quase de ossos bulindo. Elas existem vagamente no calendário nos dogmas nas tradições que a voz do povo não permite vingativamente que faleçam e como um coro talvez como uma pedra nos atiram aos ouvidos. Esse percutir nos transforma até à habituação. Depois a natureza se encarrega de decorar o palco em que brevemente nos movemos e extinguimos.
          Assim acontece com a páscoa. Dois personagens vamos encontrar empenhados na árdua tarefa de manter os ecos repetidos. A língua que se transforma na de víbora mesmo. Quem pudera  observá-la ao microscópio veria as suas múltiplas circunvoluções, a rapidez com que sobe o céu da boca desliza pela face escorre no esmalte rebentado dos dentes; as papilas produzem vasto arsenal de saliva porventura propício a banho tão alto como morte de bebé; e a garganta, tal minhoca incessante, remove monotonamente as aduelas. Todos os órgãos do paladar assaltam a memória: eis o sabor oval da amêndoa, os folhos amarelados do pão-de-ló, o enjoativo estraçalhar dos ovos de chocolate, as cavacas como brancos caranguejos em cujo dorso a boca penetra, os biscoitos que nascem em profusão das caixas; eis a vermelhusca fêvera de cabrito ou a de coelho perna o de pelinho branco e olhos ruivos, o peito gordo do galaroz que atirava setas de som nas madrugadas; eis o moscatel empastado como sangue de boi, o espumante que fornece miríades de pulgas frescas às paredes do estômago, o tintol com artes de recriar bigodes republicanos.
          O segundo e não menor personagem é o olfacto. Como sagaz rafeiro, mal entra na aldeia absorve a epifania. Sente-se na brisa, as árvores estoiram de pétalas, os campos estão gordos de esmeralda e os  pássaros são ribeiros de encosta. De forma que o cheiro fértil é verde. Mas também ele assalta a memória: lá está a amêndoa com seu aroma de camisa engomada, o ácido e vermelhusco odor da perna de cabrito, o pão-de-ló com seu travum a ovos. Conhecem o nariz dos coelhos adunco e irrequieto, seu movimento de moinho, assim de aurículas expulsando o sangue?

(Continua)

Publicado por barbant em 04:39 PM | Comentários (2)