setembro 01, 2009

Grande areia


No ar, parado, longo e espaçoso, o avião permite a entrada pelo portão aberto.
Lá dentro, depois de observarmos como os filhos, já pais, saúdam pais já idos, vamos ao bordo. A povoação jaz no fundo dos campos, as casas vistas de cima aplanam telhados, os campos usam separadores que elaboram tapetes, as árvores são baixas e fazem coincidir o cimo com a raiz.
Agora visitam o irmão. Mais velho que se tornou o mais novo. Pois desde que ali subiu descendo à campa, nunca mais fez anos.
O avião é o cemitério.

Após os silêncios constrangidos impostos por pais deitados, junto ao irmão tornam-se exuberantes. O respeito e a cordialidade. O irmão permanece horizontal e mudo, mas levantam-lhe a silhueta.
- É o António, o nosso irmão mais velho. Está aqui já lá vão dez anos.
- Onze! Foi um dia estúpido demais.
E erguem a saia desse dia, dispõem sobre a areia alguns pormenores, palavras há e gestos que fazem ginástica no topo da cruz, mas a maioria cai no mármore do jazigo e reluz. Como um fogo-fátuo.

A missa da igreja, próxima e alta, como um calvário imposto nas eras em que o terreno se vencia a pé, despeja no cemitério um roldão de gente e uma onda de odor. As flores vão na frente, espetadas nas mãos, deixam-se tombar sobre a casca dos túmulos.
Um frémito de sons desconexos, palavras feridas em ruído, paira acre criando uma auréola levantada a meia altura. Cuspida de lábios, quase unânime, a vida, sobre os mortos, ferve.
Entre eles, vem uma das filhas do irmão mais novo.
Abeira-se, cumprimenta, desenrola as perguntas. Porque a ausência apoderou-se dos familiares. Que só regressam esporádicos.
Não seria belo, o irmão. Pois a rapariga mostra os ossos à flor da roupa, o cabelo de rato, as carmesins maçãs do rosto, pêlos pelo buço e no braço em barda. Salva-se a perna, porque a calça de mulher já cá chegou.

Fora do avião mas ainda nas nuvens, as do horizonte externo e das memórias recoligidas, a parte da aldeia em que viveram, a olhar emprestado de águia, abre-se verde. E encosta-se à lenda. As silvas que se avistam são macias, as águas que jorram são fios, na enseada é que era fácil cair suave de quinhentos metros sem ferimento plausível.
A povoação fecha-se, também, porque os dedos apartam para o lugar fora do lugar. O lugar onde a morte apareceu ao irmão. Branco lugar. Bem próximo do lugar onde nasceram e gastaram os anos.
É um pouco acima e para Norte, fora das casas e dos campos, onde o monte é atravessado por uma estrada onde o alcatrão ainda não chegou. Para que a prova escorregadia de areia permaneça e ilumine os tempos que irão sobreviver.
Ali, a estrada, branca, desce em direcção ao ninho de casas do lugar. Também ele, o irmão ainda mais velho, queremos que desça uma vez mais. Mas ele não está lá, entrou no avião como sabemos, já lá vão onze anos.
Eles avistam-no, mas, por mais que se esforcem, apenas entrevejo a estrada. Branca de sol a pino. Ali onde se mostra como um seio que se alteia, porque na descida acaba abafada pelo carvalhedo.
A mancha branca perdura. A areia retinge. De António, só um ruído de socos nos entra na mente, onde se começa a desenhar, sem qualquer nitidez, um rosto esguio, talhado, igual ao da filha de há pouco mas enegrecido na barba de ontem.

Muito menos se vêem as duas vacas cor de broa, que o irmão mais velho puxava. A areia fere o ar teimoso, a estrada desenhada é irmã da tumba: boa para a morte.
Belas e disfarçadas, as animálias assomam na feira da vila, envoltas na fartura de bosta a que não dão preço os marchantes com o negócio preso nos dentes.
Enfim chegam ao jogo dos números, quase alcoólico, para o irmão mais velho. Eles não querem adiantar o primeiro dos números, dar o flanco, mas ele também não. Então eles atiram um número ridículo, que o irmão mais velho não confronta. O seu riso pálido afugenta os negociantes.
Outros surgem, vários. Ele arrisca enfim o número mágico, do tamanho de um bolso de notas, que lhe permita garantir o pão da família por uns meses, umas chancas ao primogénito, umas febras à mulher que anda precisada, uma chita à cachopa. Aquela mesma que há bocado entrou no avião. E que, sobretudo, lhe mate a fome do orgulho, dar conta do êxito na taberna, poder desfolhá-lo na missa das sete.
- Esteve por um fio – afiançam os irmãos, certamente porque algum marchante os informou. Porque da boca dele, entretanto o irmão mais novo, a história, que era o fracasso da venda das vacas, não chegou a ser contada.
- Havia só a diferença de uma nota. De vinte. Mas ele não aceitou. O meu pai disse enfim mal da grande qualidade que nele sempre vira: a teimosia.

Os animais regressavam, firmemente seguros com uma corda.
- Então veio uma camioneta e assustadas com o barulho as vacas desataram a fugir e arrastaram-no na corrida. Então ele caiu, de costas, bateu com a nuca no chão e ficou ferido. Quando o socorreram estava sem sentidos mas ainda vivia. Levaram-no ao hospital mas já não escapou. Feita a autópsia, verificou-se que um grão-de-areia tinha penetrado o cérebro e disso morrera. Um pequeno grão-de-areia, nada mais.

Nada mais. E, com dedos em riste, reduz onze anos a uma página do livro de leitura da primeira classe, onde se dá corpo à letra “s”.
Melhor, agarra a gramática de que mais tarde haveria poder, para se quedar absorto na condicional “se”:
“Se tivesse vendido as vacas”; “se não tivesse surgido a camioneta”; “se tivesse a corda folgada”; “se não estivesse ali aquele grão-de-areia”; “se o grão-de-areia não acertasse no cérebro”; se… se… se…

Nada consta de reacções do homem. Se berrava, se insultou os bichos extraviados, se se preocupou com a cabeça raspada, se mencionou a família.
Nem desta quando a notícia a colheu. Dos gritos da mulher, do choro agarrado ao rosto desta filha mais velha, a do avião, do espanto de olhos dos restantes garotos. Também não foi mencionado o abanar de cauda do cachorro que, entretanto, se terá recolhido por falta de dono.
Muito menos das barrosãs. Que certamente marcharam logo logo por umas notas a menos, atendendo a que, com uma mulher e crianças em dependência, o negócio entrou em falência, e as vacas desaparecidas acudiam às despesas do funeral e ocultavam a imagem do irmão mais velho arrastado em brados.
Vontade sobe de ir averiguar a quietude das gotas de água que humedecem as jarras há pouco dispostas sobre a sepultura.

Iremos ao lugar, ver a raiz da casa e o outrora amortecido dos que daqui largaram, teremos de fazer o caminho em dobro contornando pontes e quebradas, assim se condiciona o automóvel, a direito só rente ao chão com os pés dantes ou de héli que percorre a altura com a segurança do olhar.
O casario, minúsculo antes, vai engrandecer. Os prédios baixos subirão no ar, como foguetes, as casas térreas alastram ventres, as ruínas abrem intestinos.
A cebola entrará na mesa vermelha de vinho, o riso vai estalar, notícias de actualização, não física porque observável, serão trocadas, “Estás velhota!”, “Estás conservado”, este morreu, aquele emigrou, ao outro nasceu um filho, “Isto parece coalhar, mas deixa passar o verão … arranca tudo pró estrangeiro!”

O preâmbulo vai no fim.
As famílias embalam no peito o tipo de morte que lhes calhou, se acontece ter feição anormal. Prévia e fracturante de energias, ladra dos anos que conviria para aceder à outra, a normal.
Os mortos prematuros tornam-se queridos. Aliás, os mortos. Bem consabido será o drama da mãe em seus últimos ais, a mulher de cabelos arrancados, as ternuras de irmãos, e irmãs, um punhado dos quais o homenagearam, franzidos, no avião.

São paralelas decerto, mas vivem na horizontal as camadas de conhecimento que acastelamos e derrubamos dos quartzos de vida que nos ferem ou que nos cegam.
Vamos sobrepor mais uma camada.

Pela última vez, num ritual repetido, ele encena a cena. Solta o cinto como que separando-se de si próprio, reergue-se e vai até ao bordo do avião.
Olha, só de longe e de verão, a estrada branca, incidindo no sítio onde tudo acabou.
Lá se vê, lá o vê, a ele. Vai másculo apesar de abatido pelo negócio frustrado. De repente, a camioneta, as vacas a galope, a nuca no chão.
Não sentiu os sapatos roendo, as calças rasgando-se, foi tudo um zénite. Com uma força brutal na anca, as barrosãs voam. E só lhes consegue opor um grito:
- Putas!

Publicado por barbant em 06:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 21, 2005

Contextos



Os Móveis




                   

 

 Adorava a sala, com seu televisor e notícias, vídeo e filme, dvd e banda sonora, vidro da porta com rua. Mas, sobretudo, seduzia-o o sofá, onde muitas vezes adormecia. Com os cristais, os bibelots, as garrafas de marca travava largas conversas.

 Sofrendo de branca insónia, retirou-se da cama e mergulhou na sala de antemanhã. O estore estava entreaberto, provocando uma meia-luz cinzenta. Surpreso, não se sentou no sofá, onde as costas lhe pediam para encostar.

 Os móveis eram sombras. Esguias umas, esparramadas outras, cortantes, ameaçadoras. Informes, procuravam molde na mente dele. Que logo lhos deu: braços, pernas, espadas, serras, dedos, dentes. Tinha a certeza que se se aproximasse seria atacado.

          Ainda ligou a TV de unhas assustadas, mas também aquela luz irisada e com corpos de permeio o agrediu. Recorrer ao leitor, nem pensar, qualquer música seria draculiana.

          Olhou uma vez mais aquele palco sinistro, aquelas bocas negras de queixo aguçado todas voltadas contra si. E, agudo e finíssimo, um fluido começou a circular na espinha. 
          Fugiu arrepiado, refugiando-se, com alívio, na cama e na mulher.

          Ora! Como se não fossem elas móveis extremamente devoradores, especialmente a segunda. Só inferiores ao tempo, que transporta na boca miríades de bocas de piranha.  

In “Contextos (contos) – Prémio Trindade Coelho 2005 – 2.º prémio.

Publicado por barbant em 07:21 PM | Comentários (5)

setembro 16, 2005

Contextos



TRÍADA



               

        

            Esta é a casa de Fernanda. De pedra, assobradada, largas janelas estirando brilhos pela quinta. Aninhada no folhedo, deve-se subir à varanda para espraiar olhos nos sítios nascentes e socorrer-se do quarto dela para afundar as vistas nos tons escuros do dia que cai.

            Se fosse possível desenhar os rastos dos pés de Fernanda, a sua esteira geométrica desenhada no dia-a-dia em que gasta vida, obter-se-ia um traçado curioso. Como todos. Aparentado, ou molde, do de outras, muitas, pessoas. Tratar-se-ia de um mapa limitado, confinado, um pouco a imagem das linhas de sua mão.

            Poderíamos observar riscos finos, ténues, e outros densos, carregados. Todos, com poucas excepções, bordejando a casa, a quinta, num raio nunca superior a duas milhas. Alguns, raros, atingiriam as três milhas, as cinco, e um havia que se aproximava das dez. Não seria complicado ler a frieza daquele itinerário, o halo de hábitos e emoções ou ausência delas que o envolvia, a lenta teia e meada desenredando-se com morbidez de pedra. Sem carecer de apelar a análises subtis ou complexas.

            Os riscos mais grossos levam à horta onde colhe a couve galega, vão dar à bica de que escoa cântaros de água, à mercearia a que vai mercar o arroz e o açúcar, à casa da madrinha a quem atribui palavras, bastas, entremeadas de beijos. Quentes, calmas, as palavras, menos ainda que as que de permuta recebe. Um outro rego negro, avantajado, liga a casa de Fernanda à igreja de que ouve as missas e é catequista.

 

            Bem diferente é o mapa de Francisco, traçado aqui, a partir desta casa de lavrador, duas léguas abaixo. Com ele gastaríamos todos os conhecimentos da geometria. Imensamente riscado, todo em gatafunhos, dirige-se nas várias direcções da rosa-dos-ventos, alonga, alarga, percorre todo o concelho, grande parte dos contíguos, e atira com setas e arpões para outros distritos, para sul, mesmo ao estrangeiro. De vez em quando engrossa em determinada povoação, onde namora, depois desloca-se e acentua-se numa outra para onde transferiu o namoro. Mapa mais de cem vezes superior ao de Fernanda, orlado de, ainda que imperfeitos, círculos, sinusóides, óvulos, elipses, espirais. Exigindo escala de elevada dimensão. Curioso é o tom que se deveria ou teria de atribuir a grande parte do tracejado: nocturno. Que destoa da esteira debuxada a compasso e esquadro por Fernanda, toda batida da luz do dia. Dos dias.

 

            Este outro sítio, como todos os sítios, propicia o acontecer de tudo e de nada. É apenas uma poça onde a água se ancora, encravada entre leivas, que avista o largo das vessadas e subjaz a hortas submersas em vinhedo. Quando a noite se aproxima, o sítio escurece: o muro sobranceiro, a hera que escorre em cabelos, a erva horizontal, ofundo verde da poça, por fim a própria água. Torna-se tudo tão nostálgico, parado, acabrunhado, convidando a vago suicídio. Foi assim Francisco abordado pelo sítio na tarde daquele dia em que sentou para descansar. Na frescura intensa da erva que progressivamente lhe começou de alfinetar o peito.

 

            Fernanda está em dificuldades para manter vivo o traçado de alguns de seus sulcos. O da bica, por exemplo, onde procura não água para a sede mas a sede das palavras das raparigas e, cora de o dizer, dos rapazes. A mãe tenta atalhar-lhe os passos: porque não tem necessidade de ir à água tendo-a em casa e na quinta, porque não deve misturar-se com aquela mocidade brava e um pouco rude, porque não tem que gastar seu tempo e sentimentos no exterior mas dedicar ambos à família. A teoria do não, a que Fernanda se mostra esquiva. Pior é quando as palavras, roucas e determinadas, assomam do pai que a intima com olhos poderosos. Que a derrotam. Em lágrimas mal retidas que no quarto ao fundo esconde. De bruços na cama e ignorando o poente que prepara a escuridão da noite.

 

            Sem que ninguém se apercebesse, um novo vestígio começou a ser traçado, fundo, pelos pés de Fernanda. Sobrepondo-se em parte a terrenos por outros riscos já delineados, com outros forjava tangências, abria diagonais, esbarrava na perpendicular. 

            Desaguava no tal sítio, onde a água da poça permanecia quieta em seu espelho. Neste, poder-se-ia observar, ao fim-de-tarde, o vulto de Fernanda que outro vulto cingia, provavelmente em abraços já demasiado fechados, apenas se poderia observar o jogo que produziam suas cabeças, de rostos tocando-se e lambendo-se ou um lambendo o outro, uma mão que mergulhava nos cabelos longos e depois no pescoço, depois descia um pouco e desaparecia, mas via-se ainda o rosto dela constrangido, rasgado, de lábios abrindo-se e olhos semicerrados.

            Lentamente, também a silhueta que das duas cabeças reflectia no espelho da água desaparecia. Agora, apenas se poderia arguir uma adivinhação. Mais ou menos segura. Pena que o espelho da água não se pudesse levantar e soerguer-se e mostrar convexo o que estava acontecendo. Provavelmente estariam os dois deitados sobre a erva, a blusa solta e desapertada tendo produzido dois seios redondos, rijos, a saia repuxada acima por mãos febris, ainda mais quando as pernas, grossas e brancas de leite, faiscavam contra os olhos dele, obrigando a que as pernas dele percorressem aquela vereda de fogo, juntando-se às dela e juntando o centro crespo dos dois corpos.

            Do dela e de Francisco.

 

            Ele a obrigara a vir ali, obrigado também por visão que o deixara alucinado. Apesar das experiências já debitadas em seu passado, com mulheres de bordel da vila ou moças namoradoiras. Fora também ao entardecer, cruzou-se com ela perto da igreja. Cumprimentou-a, trocaram breves palavras, o dia rezingado de frio ameaçava de chuva. E quando ela se despedia, o vento surgiu furioso e uivante, levantou-lhe as saias sem que tivesse tempo ou jeito de o evitar. Bem acima dos joelhos, grossas, brancas, leite entornado. Que explodiu de chofre e de cachão no olhar de Francisco. Que com aquelas coxas ficou na íris bailando, enquanto ela se afastava sem dizer palavra. E sem pernas, que não sentia. Que com Francisco tinham ficado, brancas, brancas, e ia jurar quentes e rosadas apesar do escuro em que haviam desfraldado.

            Os mapas dos dois tocavam-se, entrelaçaram-se, confundem-se, ascendem ao “nós”, quase se fundem num único.

 

            Nas tardinhas combinadas, obtendo ou evitando pretextos, Fernanda desloca-se de sua casa ao sítio. Obscurecendo e intensificando cada vez mais aquele sulco, que parece já torneado por roda de carro de bois. Na face do dia que cai, o espelho da água reflecte duas cabeças em gestos próximo de loucos e revoltados. Depois, os dois vultos como um só afundam-se e desaparecem da tona de água. Pena não os poder observar mais. Pena que a água não possua ouvidos. E, de novo, só poderemos deitar mão de dons divinatórios. Para perceber os rangidos leves de roupas que se afastam, os gemidos finos dela, o rouco prazer dele quase agreste, o arfar cada vez mais lento misturando-se e confundindo-se, o som cavo e redondo de dois corpos que descaem em sentidos opostos. E que se juntam outra vez: - Gostaste?, pergunta ele e ela responde pouco convicta: - Sim. Depois acrescenta: - Tenho que ir!, e quando surge novamente no espelho da água é sempre ela a primeira a emergir, descomposta de cabelos, a blusa já se fechou e o xaile vai-se  encaixando nos braços e no busto tudo tapando.

            O mapa de Francisco, suas linhas, toma a feição do de Fernanda. Circunscreve-se, limita-se, bordeja apenas a povoação, sobe em pirâmide no sítio. Definitivamente os traçados dos dois, melhor dizendo já os tratados, escrevem uma imagem mais do que aparentada: comum.

 

            Apesar de todo o cuidado posto, a coisa descobriu-se. Ela recusava algumas visitas ao sítio para não causar suspeita no jeito desconfiado da mãe. Ela vestia roupas negras ou escuras para se confundir com o lusco-fusco. Ela dava passadas medrosas de tal modo que nem os estorninhos a pressentiam concentrados em seus ruídos álacres. Ela transportava orelhas perscrutadoras de todos os sons, e de peito estremecendo muita vez se achou surpreendida quando afinal se tratava de animal tresmalhado ou mão de vento jogando ramo contra ramo.

            Mas o mundo é maior que nosso mundo. As saídas proveram ao crescimento da intrigança. E nos caminhos da aldeia, mesmo ao anoitecer, naquele tempo circulava muita gente. Homens quase exclusivamente, que regressavam do trabalho ou de tapar o tufo de alguma poça. Como aquela. Mas a dúvida subsistia. Não já na mente e na barriga de Fernanda que tentava por todos os meios evitar que as pessoas se apercebessem do florescimento atroz de sinuosas curvas. Exteriores. Porque no interior um mundo, tremendo para ela, bulia aos pontapés.

 

            Muitos anos passaram. Muitos filhos também. Francisco senta-se no quarto de Fernanda para onde se mudara e olha na direcção do poente. Pouco lhe importa neste momento o casamento imposto pelos pais de ambos e que já não apetecia. Pouco lhe importa que aquelas coxas se tenham tornado roliças e alvo de varizes. Pouco lhe importa que Fernanda se tenha tornado mulher e usasse de uma entrega difícil, recatada, quase forçada. Desafiando sempre os brios dele, azougado e bravante.

            De cotovelos fincados no parapeito, olha o sítio. Chamado “A Poça”, o povo provoca o baptismo de todos os locais de forma mais ou menos obscura. O olhar é fito e enfronhado. As coxas, brancas de leite, mostravam-se no adro, como brasa para ele, que as arrastava para a beira do espelho de água, daquela, tentando apagar o fogo que o queimava.

            Que o queimara. Porque tudo lhe parecia agora cena de filme. Que outro vivera, não ele. E que ainda o acometia e assolava. Como se tivesse sido um dos comparsas daquele par fílmico. E não fora. Porquê o tempo tudo mata?

            De novo, uma vez mais o vento levanta aquelas pernas de sonho, elas se chocam com as suas nas ervas perto do espelho de água, e tudo acontece em seu sangue.

            Mas é tão subtil como se não acontecesse. Ou fosse apenas reflexo do que tendo acontecido se volatilizou. Drasticamente.

            Não, nada disso acontecera. Fora apenas uma alucinação. De que ainda sempre não se livra. 

 

            De certo modo, são irrelevantes as artérias que ainda constroem o mapa de sua vida. Escorrem insones no povoado, de índole fugidia, quase virtual. Dir-se-ia que as chuvas teimosas teriam apagado e delido os traços vitais, tornando-os deléveis. E que as linhas agora gravadas haviam transferido o mapa para sua mente, local único possível de traçado ambíguo e vulcânico. Onde encontra topografia para soerguer ainda as pernas de sua existência. A que vale.

                    

 

In “Contextos (contos) – Prémio Trindade Coelho 2005 – 2.º prémio.

Publicado por barbant em 09:52 PM | Comentários (1)

setembro 07, 2005

Contextos


 

PRÉMIO NACIONAL TRINDADE  COELHO - 2005
Capa do livro editado (1.000 exemplares)
(O 2.º prémio está em meu nome)

Publicado por barbant em 06:44 PM | Comentários (10)