junho 06, 2009

Muito loira e fria - uma estética de Feijó

No auge da mocidade e da inspiração, cerca de 1882, ainda estudante universitário mas já co-editor da “Revista Científica e Literária”, António Feijó esboça na referida revista um programa da sua poética :

“A poesia, no começo deste século, foi eminentemente pessoal, mas muitas vezes com ênfase e com afectação do sentimento, o que preparou a reacção dos virtuosos e impassíveis. A poesia soube com eles segredos de forma, e um rigor de contornos que ignorava ainda. Mas como a gente se cansa mesmo das belas linhas e das belas cores quando não há nada debaixo, a poesia voltou a ser pessoal, mas não da forma por que o já tinha sido. Dos primeiros líricos conservou a emoção; dos poetas artífices a perfeição da língua; mas acima do sentimento e da sensação faz dominar o pensamento; acima do amor das pessoas humanas e das formas da matéria, o amor da verdade ...”

Não é possível averiguar se a teoria exposta correspondia ao espelho em que Feijó gostaria de rever-se. Mas admitimos que sim. O que significaria, para a evolução e diversidade do futuro do poeta, a evidência de um programa não cumprido. Muitas vezes contrariado no poema apesar da reafirmação da teoria, negando o que hoje sabemos que deveria afirmar e que, apesar da recusa, corresponde ao concreto da sua realização poética.
Cremos que o ultra-famoso soneto “Pálida e loira”, que se segue (e seus sucedâneos e afins, e muitos outros textos que não são nem uma coisa nem outra), pode constituir exemplo paradigmático da estética que tentaremos ensaiar:


Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

- Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...

Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...

Levou-a a morte na sua garra adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...

É este um poema que ousou materializar no tempo a fidelidade aos seus próprios dizeres: lido uma vez, com um mínimo de atenção, não mais pode esquecer-se, nunca!
Resiste, com uma força brutal, à glória ou esquecimento do seu autor. Possui, para isso, vários sangues literários: a cena, a descrição, a plástica, a musicalidade, a sonoridade.
Foi escrito, segundo cremos, na Coimbra estudantil da penúltima década de oitocentos.
Numa época em que a tuberculose tornava as loiras pálidas e frias. Coimbra onde António Nobre compôs muita poesia idêntica. Alguma nobre, outra piegas. Uma das quais, composta, não ali mas na litoral Leça residencial, leva o título de “Pobre tísica”, é uma face da patologia emocional do autor e começa assim imaginando-se como acaba:

Quando ela passa à minha porta,
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira-mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar.

A citação é deliberada, não tendo o objectivo de encontrar analogia, mas, pelo contrário, com o essencial intuito de observar as diferenças.
Porque foi outro o António que criou “Pálida e loira”: António Feijó.
Do seu obscurecimento surgiu finalmente (em 2004) a reedição das suas Poesia Completas. Facto que permite conhecer e confirmar a qualidade e extensão do seu talento.
“Pálida e Loira” consta do livro “Líricas e bucólicas”, publicado em 1884. Afinal, há uma outra “Pálida e loira” em “Ilha dos amores”, publicado em 1897:

Que profunda tristeza olhando esse caminho
Por onde Ela passou, entre círios a arder!
Ia branca no esquife, em seu manto de arminho,
Rainha da minha alma, ave do meu carinho,
De asa implume e já morta antes do amanhecer…

Como eu me lembro ainda, olhando essa avenida
Por onde Ela passou, névoa branca de incenso! …
Morta, virgem e noiva, a que era a minha vida!
A acácia tem ainda a sua rama pendida,
O chorão verte ainda o seu pranto suspenso…

Ah, que melancolia o espírito transporta,
Aqui, neste caminho, à dor desse momento!
Era estreito o caixão, muito estreito… que importa!
Se os meus sonhos levava enlaçados na morta,
Mortos uns de volúpia, outros de sofrimento! …

Onde, em vez dos 14 versos do soneto inicial, o poema assenta em 15 versos (um mais) divididos em 3 quintilhas.
E onde a qualidade estética, prolongando a melodia do soneto-irmão, em vez do esquife retrata o caminho por onde ele seguiu. E onde a imagem da mulher se ergue da horizontal e se levanta nos ares, numa roda de fogo. Com efeito, no verso “Ela passou, entre círios a arder”, não prescindimos de uma leitura modernista mediante uma simples alteração ortográfica: “Ela passou, entre círios, a arder”.

Com certeza que António Feijó antecipa alguns aspectos modernistas. Ele que vacilou, molhando-se largamente de ventos e chuvas que varriam a encruzilhada de correntes literárias da sua época, com notoriedade pessoal, apesar de o negar também, para a primeira: Parnasianismo, Simbolismo e Decadentismo.

Tentemos, então, demonstrar que as “pálidas e loiras”, sobretudo a primeira em que sobretudo incidiremos, representam um esforço não só modernista mas até de fórmulas posteriores, negando teorias de críticos afectos e do próprio autor.
Demonstração que releva do próprio contexto do poema: a existência, embora contida, de uma poética “muito loira e fria”, ou seja, a evidência de uma estética da forma e da impassibilidade. Dito de outro e idêntico modo, uma estética predominantemente plástica e objectiva.
A beleza formal, a sonoridade, o ritmo, a melopeia, a lápide, aliados a um grau de “verdade” universal, são a base da longevidade do poema.
Da consistência formal, entre a música e o mármore, não nos parece oferecer-se dúvidas. Essa característica viria a deter alguns excessos, que, dando bossa e ângulos duros ao gesso do poema, ainda hoje produzem agressão literária francamente passível de louvor.
É o que acontece, nomeadamente, no poema “Sidéria”, do livro “Bailatas” (1907), onde o fragor das imagens, captado nas mulheres conhecidas e porventura na mulher com quem casou, de que se recordam aqui alguns exemplares de versos, nos quais a sensualidade cede ao erotismo mais franco e desliza nos lábios do humor mais brejeiro:

Vega! Desprende os teus cabelos brunos
Na lactescência alvíssima do seio!
Seio capaz de avassalar os Hunos,
- Saboroso melão partido ao meio.

Teu colo tem olências de begónia,
Letais resinas, pérsicos incensos,
Alvo como as cambraias da Saxónia
De que se fazem vaporosos lenços.
…...................................................
Teus cinco dedos, eu a arder em zelos,
Vega da Lira, imperial, bi-clara!
Teus dedos alvos, que prazer comê-los,
Como cinco pastéis de Santa Clara!

São como finos, filiformes fusos,
Rubros como cinábricos medronhos,
E finam-se a fiar fios confusos
Na verde maçaroca dos meus sonhos!

Da impassibilidade, falar-se-á, sobretudo, por exclusão.
“Pálida e loira” não contém as marcas agravadas do poema de António Nobre: não há aqui menção aos “lábios brancos” e, muito menos, aos “olhos pisados”. Ao contrário da morta anunciada de Nobre, a já morta de Feijó ainda sustenta a alegria vital: “o seu lábio tristíssimo sorria”.
De igual modo, não há a invasão abusiva e sentimental do autor, que em Nobre é melodramático: “Meu coração dobra a finados, / Meu coração põe-se a chorar”.
Aliás, pensamos ser útil desmistificar o preconceito criado relativamente ao soneto de Feijó, do qual se conclui que, pela conjuntura vivida na época, se trata de morte por tuberculose.
Ora, nada no poema nos habilita a tal conclusão. O facto de a personagem ser loira nada pode induzir relativamente à “causa mortis”. Nem sequer as propriedades de “pálida” e “fria” comuns a todo e qualquer cadáver.
Nobre é categórico na definição, em todo o desenvolvimento, e desde logo no próprio título: “Pobre tísica”.
Factores que, decerto, abonam a consistência do soneto. E a sua ressonância posterior. Capaz de ecoar, em termos idênticos, na prosa de 1989 de Agustina Bessa-Luís, quando, no romance “Eugénia e Silvina”, referindo-se à primeira que habitou a época de Feijó e da tuberculose, assinala o seu “rosto pequeno e fino, duma palidez deslumbrante mesmo quando a doença o marcava”, doença que, note-se, nada tem a ver com congestão pulmonar.

Há, de facto, nesta “pálida e loira” um tom de saúde, de vitalidade, e, sobretudo, a ausência de dor e de melodrama.
No entanto, a essa atmosfera pessoal e subjectiva não ficará o poeta imune, quando vier a escrever versos emocionais dedicados à morte de um amigo, num poema de “Sol de Inverno” (1922), curiosamente intitulado “Hino à Morte”:

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afecto à nossa vida enlaça,
- Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

E essa dor é de extensão tal, com a prematura morte da jovem esposa, a sueca de ascendência também equatoriana, Mercedes Lewin, que foi ferida de morte a inspiração do próprio poeta, incapaz de produzir mais versos nos amargos 18 meses em que lhe sobreviveu.
O que levanta aqui uma questão que era vulcânica na época. Em lugar de abraçar a herança matrimonial de 15 anos doirados de vivência partilhada, o escritor, esquecido dos próprios filhos que nela criara, valoriza exclusivamente o desenlace e a perda, permitindo, de forma quase voluntária, que a punição psicológica apenas pudesse extinguir-se mediante punição física extrema.

“Pálida e loira” não será decerto a poesia reescrita desta época terminal. Que o autor possa apresentar como argumento para outra não escrever que escreva a sua dor.
Porque “Pálida e loira” é um poema de vida muito mais que de morte. As palavras que o compõem, e algumas do sucedâneo, não passam de um jogo lúdico, uma veste que empresta a sua beleza à realidade vital.
Além do “lábio (que) sorria”, há a referência ao “sonho” que só da vida faz parte; há a permanência do loiro nos cabelos e a manutenção da cor, que a torna mítica e perene, da “rainha das baladas” e das “monjas antigas”.
Há um voo que o corpo ensaia, agarrando-se, única opção, às garras da águia possível que é a própria Morte.
Porque a tentação do corpo não é permanecer deitado. Mas erguer-se e escapar, por isso o caixão é estreito, demasiado estreito, e nele o corpo não cabe.
Este corpo assim antecipa Pessoa e uma teoria sua: “a arte suprema tem por fim libertar – erguer a alma acima de tudo quanto é estreito”.

Mas, então, na segunda “pálida” não se faz menção à tristeza e à dor?
Com certeza que sim. Mas trata-se de uma tristeza profunda, propiciante apenas de melancolia. E que lembra o lábio anterior que, ainda que tristíssimo, sorria.
Mas é uma dor que não se sente, que não dói. É uma provocação à criação da dor literária, por reflexo.
Glosada, com jocosidade, como paródia, muito mais tarde, em 1997, por essa sensível poeta, Hilda Hist, no “prosaico” “Estar sendo. Ter sido”, onde Deozinho, o adolescente que viria a ser o bispo D. Teo, declama o poema primário com os “olhos cheios de água”. Donde se pode aferir que a poesia de Feijó recusa, como teoriza Leconte de Lisle, “o uso profissional e imoderado das lágrimas”, mas não evita que com a sua poesia se teatralize o uso das lágrimas de modo profissional.
Onde está, então, a desmontagem jocosa de Hilda Hist? Num simples pormenor, que demonstra a absoluta perfeição formal do soneto, fracturada irremediavelmente à menor alteração: em vez de “deitada no caixão estreito”, o seu caixão, o especial, o único, a jovem está “deitada num caixão estreito”, um qualquer, reles, banal, subalterno, suburbano.

Hilda Hist, provocatória, faz que os seus personagens atribuam o poema a Cruz e Sousa. Esta apropriação demonstra que o poema é muito mais notório que o seu autor.
Outras confusões, de maior lógica, abundam. Constando o soneto como sendo da autoria de Álvaro Feijó, poeta cujo nascimento ocorreu na época da morte de António Feijó. Já “Pálida e loira”, flor de estufa, resplandecia o seu odor há muitos anos.
Um dia destes veremos o poema ser atribuído ao professor e escritor contemporâneo António M. Feijó.
Faceta que vem aderir à teoria do regresso ao autor anónimo e à importância do que se escreve sobreposta à insignificância de quem escreve.

Insistimos, tal como a personagem, esta poesia de Feijó é fria, objectiva.
Virada para o porvir. Na segunda “pálida” assistimos à viagem do esquife. Mas o “caminho” por onde Ela passou, olhando essa “avenida”, estamos olhando o caminho por onde se volta, de regresso à vida.
E na caminhada, vendo-a passar entre círios, a arder, não podemos deixar de ver em fogo renascido um outro corpo que talvez tenha sido louro: o de Inês de Castro.
É um hino à vida, que não à morte, esta poesia. Não somente, ou propriamente, à vida da jovem “pálida e loira”. Mas à vida que prossegue e urge, dos outros e principalmente do jovem autor que cria o poema, tendo nas mesmas veias que manejam a caneta um sangue férvido de mocidade que o empurra para o futuro. Erecto e posto sobre o esplendor dos mortos.
E criando uma outra vida, de divergente linfa, a literária. Porque a forma em que se desenha o poema não se cinge, seguramente, à do caixão. É a forma estética do verso.

Por isso, não poderemos deixar de estranhar que Alberto Oliveira, acertado crítico e amigo do poeta, nos tente convencer que António Feijó não seja “cerebral joalheiro”.
E, mais ainda, estranhamos que ambos repudiem agastados o selo que se tentava colar à sua poesia daquilo que para ela, e para ele, vimos defendendo: a impassibilidade.
Ora, esse é um dos planos do programa poético com que abrimos o artigo: a reacção dos impassíveis conjugada ao fluxo das ideias: “acima do sentimento e da sensação faz(er) dominar o pensamento”.
Ainda que involuntariamente, esse foi e é o facto. Que cumpre o essencial do programa a que se havia proposto, nomeadamente, a produção de uma poética notoriamente acima: “acima do sentimento e da sensação faz dominar o pensamento; acima do amor das pessoas humanas e das formas da matéria, o amor da verdade ...”
Facto que, no entanto, não nos permite afirmar que Feijó sentia com a imaginação, antecipando-se a Pessoa: “Eu simplesmente sinto / com a imaginação. / Não uso o coração”.
Mas permite-nos, seguramente, adoptar para a poética de António Feijó um outro dístico teorizador: “Não uso o coração. / Sinto com a visão”.

(Texto publicado na "Conexão Maringá" de Junho/2009)

Publicado por barbant em 06:47 PM | Comentários (1) | TrackBack