A segunda metade do século XIX representa o período cimeiro da literatura russa. É uma época grande. A época dos grandes frescos históricos de Tolstoi, encimados por “Guerra e Paz”, a época dos grandes frescos dos romances de ideias de Dostoievski, de que é espelho “Crime e Castigo”.
Mas também a época da grandeza dos pequenos casos. Que viria a prevalecer. A grandeza das pequenas coisas de que se compõe e constrói a vivência individual. Que é obra de Anton Pavlovich Tchekov.
De que é paradigma essa invulgar obra-prima, o conto a que se costuma chamar, entre outras idênticas designações, de “Um caso sem importância”.
Vejamos três índoles literárias que poderemos perscrutar no texto em referência.
Literatura 1
O conto é composto daquilo de que, em regra, se compõem os contos. De narração, de descrição, de acção, embora lenta, de decurso, de espaços, de diálogo, de avanços e recuos, flah-back e prolepse, de análise, de olhar, de ironia. Sobretudo, de nostalgia. E de retratos.
É, aliás, o retrato que segura o puzzle do texto. Sendo que o retrato não é aqui meramente físico nem se limita a acrescentar a este o psíquico.
É, sobretudo, um retrato social. Que define as personagens, quase todas. Que faz faísca sobre o seu passado e lhes rasga os sentimentos, ainda que camuflados, do presente.
Os retratos, como num salão, o narrador homodiegético incide o seu raio de sol sobre eles, e falam.
Um deles, aparentemente o menor, o do dependente Grontóvski, deixa-se submergir pelos adjectivos. Por um dos adjectivos que o autor lhe apõe. No final, o homem já não se chama Grontóvski: é o “esgrouviado”.
Outros dois, aparentemente os mais relevantes, o principezeco Sergei Ivánitch e a desengraçada e rica Ndejda Lvovna, singram como barcos em lago, paralelos, desvendando o seu interior a cada onda mínima, tão próximos e tão distantes como são sempre duas linhas paralelas.
Da cor dos seus retratos, ainda viva mas sem futuro, o que se entorna sobre o leitor é a improvável possibilidade de um passado impossível.
Literatura 2
A função primordial da literatura é literária.
O texto representa o voo entre a palavra e o significante, um voo que depois pode bater asas contra asas entre vários significantes, confundindo-os, contrastando-os.
É o que acontece, por exemplo, quando se escreve que o olhar seguiu “um bando de grous que nadavam no céu lazúli”, ou quando se comunica que determinado personagem, o citado Grontóvski, “de trás dos abetos novos, … se ergueu, como se nascesse da terra”.
Esse voo, na escrita, pode ser ainda mais transcendente. Como sucede na saída do conto. De que o narrador se afasta como se abandonasse o “pequeno reino de tédio dourado e de tristeza” que é, não o solar de Madejda Lvovna, nem o ambiente possível que ele, narrador, ajudou a erguer, nem sequer o “pesado sonho fantástico” de que urgia acordar. Esse reino é o próprio conto.
Por vezes, a altura do texto provoca vertigens.
Levantam-se, sem pernas, uns personagens que deveriam estar inanimados: “Os móveis olhavam com severidade, à maneira dos velhos, e, como que por respeito ao seu sossego, não se ouvia o mínimo som.”
Um certo fulgor, mais connosco do que com o próprio autor, encosta a sua faca numa espécie de vida que só da escrita vive: “em cima, no vestíbulo, atingiu-me aquele ar que apenas se sente nos arquivos, nos aposentos senhoriais e nas casas antigas de comerciantes: um cheiro repassado a qualquer coisa que viveu outrora e já morreu, deixando nas salas a sua alma.”
Literatura 3
Os grandes frescos históricos de Toldtoi não são hoje reconhecíveis.
Os grandes frescos mentais de Dostoievski debatem-se hoje nos serviços psiquiátricos dos grandes hospitais.
Tchekov dá luz a coisas sem importância, que palpitando obscuras na sua época, vivem hoje à luz das ruas.
É uma enumeração impressionante, perfeitamente conectada à pele da realidade actual:
Ricos proprietários arruinados, pessoas que se ocupam essencialmente com o facto de não ter qualquer ocupação, o roubo subtil perpetrado por “administradores, feitores e mesmo lacaios”, a desgraça da “solidão absoluta”, a pobreza envergonhada, tipos “comme il faut”, empregados desocupados, os pequenos poderes temporários que resultam de delegação de competências, o “homem dependente” muito antes do código do trabalho, o “dever sagrado” do aviso e do alerta, a situação dramática das personagens irremediavelmente ricas, aquela qualquer coisa de especial que não existe nas pessoas pouco abastadas, o conhecimento da vida pessoal dos outros pela “via dos boatos”, a compra ordenada de títulos honoríficos, o desempenho do papel do apaixonado, a promiscuidade entre a verdade e a mentira, o desemprego de quem não tem instrução, nunca trabalhou e já está em idade avançada para o trabalho, o cobarde, o que não tem “um pataco de coragem”, o “psicopata”, o que “não faz quase nada para além de andar todo o dia de um canto ao outro do seu quarto em roupa interior” mas que “está convencido de que trabalha, de que cumpre honestamente o seu dever de cobrar uma fortuna pelo cargo de juiz de instrução”, os batoteiros que “são na sua maioria morenos”, as salas, três, que se tem de atravessar do vestíbulo à sala de estar, a mania engraçada que consiste no “direito de autorizar ou proibir”, o criminoso “prazer de matar as aves” que origina coutos privados. Um rol infindável.
No prefácio de Vladimir Nabokov ao Volume I dos “Contos” de Tchekov diz-se que “de todas as leis da natureza, a mais maravilhosa de todas é talvez a da sobrevivência dos mais fracos.”
De que se poderia concluir do conto “Um caso sem importância” que, além do narrador, só há um personagem forte: “um tal Kandúrin, um mestre em Direito vindo de fora” que, afinal, casou com a riqueza de Lvovna e “vivia por qualquer razão no Cairo e escrevia de lá a um seu amigo, o decano da nobreza do distrito, apontamentos de viagem.”
Todas os outros, humilhados e ofendidos, fracos entre os mais fracos, apresentam no conto, e em muitos outros contos de Tchekov, a razão da sua força.
Mas a força maior, a maioridade, é-lhes dada por Tchekov. Pela “literatura Tchekov”.
Alguns personagens subsistem hoje como ontem. Iguais. Perenes.
A outros, a História afundou-os. Não existem hoje, o príncipe ainda que principezeco, nem o juiz de instrução, ou de paz, nem o oficial de diligências que as oficializa no gabinete de finanças. Muito menos as cartas de baralho que são hoje condes e duques e damas.
Mas essas figuras não provocam o pântano que envolve as sagas napoleónicas de que falava Tolstoi. Porque a escrita de Tchekov não sobrevive pela percentagem de figuras suas que resistiram ao futuro.
A estas, mantêm-nas a sociedade actual. Às outras, o leite que as sustenta é a literatura. Sempre viva. Porque o que Tchekov deixou em legado não são figuras ou personagens mais ou menos perduráveis que tornariam Balzac insuperável.
O que ficou de Tchekov foi, exclusivamente, literatura. Um pequeno reino dourado. Onde circula um sangue humano de letras. A que se poderia apor o registo de “literatura Tchekov”.
(Artigo publicado na Revista "Conexão Maringá", de Abril/2009)