Dos poetas inspirados e messiânicos, os que produzem frases com carácter
eternal, o mais provável é que essas verdades venham a cair apodrecidas
como os frutos sazonados por demasiado sol. Ou pelo calor dos dias
vindouros, que são os vindouros autores.
Facto que propicia
que essas extensas laudas caudais sejam abandonadas com excessivo langor,
ainda que se aproveitem as estrofes inicialmente desprezadas e que agora
devêm breves e cintilantes. Não só as autónomas e de poema completo,
mas as que começam a reluzir em breve pérola no interior das extensas
laudas inicialmente privileigiadas.
O que desenha a
curva e o gráfico do autor: crescendo até ao topo da linha, a par dos
mais categorizados, e o declive posterior, povoado de sombras e regressos,
apesar da influência que se apercebe do segundo plano da sua obra na
grande obra sucedânea da sua morte física.
Um poeta assim eu
conheço, cujas “epopeias” rurais quase apequenaram as originais incidências
de António Nobre, face ao despropositado exercício de tema e variações
que expendem.
Mas de que vale a
pena citar algumas das tais odes cintilantes que, desgastadas do granito
como se fosse mica, produzem fundamentais exemplos:
“Bela, formosa e linda, em sua graça,
Tangível e corpórea, o sangue vivo
Inundou de rósea claridade
O seu busto perfeito. Um primitivo
Ar inocente e agreste lhe aquecia
A brancura da testa. E, nos seus olhos
Dum negro sério e místico, sorria
A infância, a idade de oiro.”
***
“Era a sagrada luz, naquele instante
Em que se torna sombra; e, sem deixar
De alumiar os campos, já permite
O riscar das estrelas e o canto
Dos pássaros sedentos de penumbra.”
***
“Da serra começava a levantar-se
Um crepúsculo, um fumo de nevoeiro.
E um oiro em pó, suspenso, ia juntar-se
Às primeiras estrelas: era a noite.”
Foi possível
roubar às sombras do poeta uma inexcedível claridade. A qual desmaia com
excertos figurantes da toada epopeica dos textos anteriormente referidos,
sobretudo nos casos em que a sombra não é de árvore mas mental:
“Ai do tigre raivoso que, em seu peito,
Sente a fera crueza, que o incendeia
E o faz rugir, nas selvas tenebrosas!”
Esta apóstrofe
franciscana, será que resulta apenas do menoscabo? Ela representa o
absurdo preconceito, que o estudo já obrado castigava e que as análises
posteriores duramente condenaram.
Porque se trata de uma leitura de lenda. Tendo nós o conhecimento exacto
de que este poeta jamais convivera com este tigre. Ainda que lhe possa ter
chegado a mensagem torpedeada de alguém que estivera perto do grito do
eco.
Porque não é
aceitável atribuir-se estados de alma a seres a que a mesma se nega, os
animais. E com força de razão, os chamados ferozes, que são possuidores
de grande alma pouco acessível.
De forma que o fogo
que incendeia o tigre é incerto, embora fortíssimo, e não se compagina
com a “fera crueza” que certamente não sente, prosseguindo o seu
instinto da forma natural que aos bichos propicia a sua peculiar natureza.
Desnecessário se
torna contrariar estes versos. Tornados farsa.
Não cremos que
este tipo de embuste tenha sido parado intencionalmente pela prosa de um
outro escritor, cuja escritura a seguir citaremos. Essa negação foi-se
consolidando implacável nos anos que cobriram as letras ordenadas de tal
poesia.
No entanto, se não
podemos afirmar que apor estes versos à prosa que se seguirá não nos
atribui a garantia de acertado artigo de literatura comparada, podemos
certamente concluir que a conexão destes textos se transforma numa espécie
de literatura com parada. Parada, ou paragem, que mais cedo do que
convinha ocorrerá.
Porque a literatura
comparada não vive só das coincidências dos textos, da sua osmose, da
sua gritante convergência, das retomas, dos regressos. Poderá
seguramente viver deste equacionado paralelo de escritas que, ajustadas,
desguam em foz, estacam, não mais fazem palpitar a sua ignominiosa vida.
Curioso que o texto
que faz parar estas noções animalescas é também farsaico. Ou tragicomédico.
Ou entremez. Mas resulta de uma avaliação tanto quanto possível
racional e objectiva do instinto animal. Porque este não se entende com
atitudes humanas. Objectivamente não.
A cena passa-se com
um tigre doméstico, o cão. E é digno, tal como os versos, do único
sentimento plausível, o riso. Tudo o resto é noite.
“Um cão que
estava na rua pregou um susto a outro que seguia por uma trela.
Foi na
rua uma celeuma: em parte por causa do cão mas acima disso e quase sempre
pela barafunda que o leiteiro que é dono do cão armou.
O
leiteiro, que não é cão e que por não sê-lo e mais coisas é leiteiro,
o leiteiro, digo, rapou do cinto e depois de vários “venha cá, venha cá
se faz favor”, do palvrão rapou rapou etc. (rra).
Zurziu o cão?
Não senhor. Porquê? Porque o cão é bamboleantemente astuto. Sem nunca
correr, … seguia pela rua acima rebolando as ancas como uma mulher
perdida; e tudo nele era calma completa, vento fresco.
O leiteiro
teve de se recompor: o cão não. O leiteiro teve de reatar o cinto e
depois ainda lhe custou um bocado de esforço ajeitar para dentro a fralda
da camisa, que é de xadrez verde e deve cheirar a sebo.
Mas o cão?
É claro que não tem camisa nem cinto nem (suponho) sebo que cheire.
Então?
Nada. É certo que eu gostaria de dizer “então?”, porque “então?”
é o mínimo que no grande mundo há para responder a coisa assim: mas
acontece que esse “então?” eu só o poderia dizer ao cão.”
Os escritores, o
poeta e o prosador, são ambos do século XX. O primeiro da primeira
metade vindo do século anterior; o segundo da metade segunda.
O poeta é Teixeira
de Pascoais. O prosador é Nuno Bragança.
Os primeiros
excertos, as pérolas, são de “Marânus”; os versos do tigre são do
livro ”As sombras”. O cão (e o leiteiro) são d’”A noite e o riso”.
(Artigo publicado na Revista Conexão Maringá, de
Outubro/2008)
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