novembro 08, 2008

Em saios

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          Dos poetas inspirados e messiânicos, os que produzem frases com carácter eternal, o mais provável é que essas verdades venham a cair apodrecidas como os frutos sazonados por demasiado sol. Ou pelo calor dos dias vindouros, que são os vindouros autores.
          Facto que propicia que essas extensas laudas caudais sejam abandonadas com excessivo langor, ainda que se aproveitem as estrofes inicialmente desprezadas e que agora devêm breves e cintilantes. Não só as autónomas e de poema completo, mas as que começam a reluzir em breve pérola no interior das extensas laudas inicialmente privileigiadas.
          O que desenha a curva e o gráfico do autor: crescendo até ao topo da linha, a par dos mais categorizados, e o declive posterior, povoado de sombras e regressos, apesar da influência que se apercebe do segundo plano da sua obra na grande obra sucedânea da sua morte física.

          Um poeta assim eu conheço, cujas “epopeias” rurais quase apequenaram as originais incidências de António Nobre, face ao despropositado exercício de tema e variações que expendem.
          Mas de que vale a pena citar algumas das tais odes cintilantes que, desgastadas do granito como se fosse mica, produzem fundamentais exemplos:

                    “Bela, formosa e linda, em sua graça,
                     Tangível e corpórea, o sangue vivo
                     Inundou de rósea claridade
                     O seu busto perfeito. Um primitivo
                     Ar inocente e agreste lhe aquecia
                     A brancura da testa. E, nos seus olhos
                     Dum negro sério e místico, sorria
                     A infância, a idade de oiro.” 

                              ***
                   “Era a sagrada luz, naquele instante
                     Em que se torna sombra; e, sem deixar
                     De alumiar os campos, já permite
                     O riscar das estrelas e o canto
                     Dos pássaros sedentos de penumbra.” 
                             
                              ***

                   “Da serra começava a levantar-se
                     Um crepúsculo, um fumo de nevoeiro.
                     E um oiro em pó, suspenso, ia juntar-se
                    Às primeiras estrelas: era a noite.” 

          Foi possível roubar às sombras do poeta uma inexcedível claridade. A qual desmaia com excertos figurantes da toada epopeica dos textos anteriormente referidos, sobretudo nos casos em que a sombra não é de árvore mas mental:

                  “Ai do tigre raivoso que, em seu peito,
                    Sente a fera crueza, que o incendeia
                    E o faz rugir, nas selvas tenebrosas!”

          Esta apóstrofe franciscana, será que resulta apenas do menoscabo? Ela representa o absurdo preconceito, que o estudo já obrado castigava e que as análises posteriores duramente condenaram.
Porque se trata de uma leitura de lenda. Tendo nós o conhecimento exacto de que este poeta jamais convivera com este tigre. Ainda que lhe possa ter chegado a mensagem torpedeada de alguém que estivera perto do grito do eco.
          Porque não é aceitável atribuir-se estados de alma a seres a que a mesma se nega, os animais. E com força de razão, os chamados ferozes, que são possuidores de grande alma pouco acessível.
          De forma que o fogo que incendeia o tigre é incerto, embora fortíssimo, e não se compagina com a “fera crueza” que certamente não sente, prosseguindo o seu instinto da forma natural que aos bichos propicia a sua peculiar natureza.
          Desnecessário se torna contrariar estes versos. Tornados farsa.

          Não cremos que este tipo de embuste tenha sido parado intencionalmente pela prosa de um outro escritor, cuja escritura a seguir citaremos. Essa negação foi-se consolidando implacável nos anos que cobriram as letras ordenadas de tal poesia.
          No entanto, se não podemos afirmar que apor estes versos à prosa que se seguirá não nos atribui a garantia de acertado artigo de literatura comparada, podemos certamente concluir que a conexão destes textos se transforma numa espécie de literatura com parada. Parada, ou paragem, que mais cedo do que convinha ocorrerá.
          Porque a literatura comparada não vive só das coincidências dos textos, da sua osmose, da sua gritante convergência, das retomas, dos regressos. Poderá seguramente viver deste equacionado paralelo de escritas que, ajustadas, desguam em foz, estacam, não mais fazem palpitar a sua ignominiosa vida.

          Curioso que o texto que faz parar estas noções animalescas é também farsaico. Ou tragicomédico. Ou entremez. Mas resulta de uma avaliação tanto quanto possível racional e objectiva do instinto animal. Porque este não se entende com atitudes humanas. Objectivamente não.

          A cena passa-se com um tigre doméstico, o cão. E é digno, tal como os versos, do único sentimento plausível, o riso. Tudo o resto é noite.

          “Um cão que estava na rua pregou um susto a outro que seguia por uma trela. 
            Foi na rua uma celeuma: em parte por causa do cão mas acima disso e quase sempre pela barafunda que o leiteiro que é dono do cão armou. 
            O leiteiro, que não é cão e que por não sê-lo e mais coisas é leiteiro, o leiteiro, digo, rapou do cinto e depois de vários “venha cá, venha cá se faz favor”, do palvrão rapou rapou etc. (rra).
           Zurziu o cão? Não senhor. Porquê? Porque o cão é bamboleantemente astuto. Sem nunca correr, … seguia pela rua acima rebolando as ancas como uma mulher perdida; e tudo nele era calma completa, vento fresco.
           O leiteiro teve de se recompor: o cão não. O leiteiro teve de reatar o cinto e depois ainda lhe custou um bocado de esforço ajeitar para dentro a fralda da camisa, que é de xadrez verde e deve cheirar a sebo.
            Mas o cão? É claro que não tem camisa nem cinto nem (suponho) sebo que cheire.
            Então? Nada. É certo que eu gostaria de dizer “então?”, porque “então?” é o mínimo que no grande mundo há para responder a coisa assim: mas acontece que esse “então?” eu só o poderia dizer ao cão.”

          Os escritores, o poeta e o prosador, são ambos do século XX. O primeiro da primeira metade vindo do século anterior; o segundo da metade segunda.
          O poeta é Teixeira de Pascoais. O prosador é Nuno Bragança.
          Os primeiros excertos, as pérolas, são de “Marânus”; os versos do tigre são do livro ”As sombras”. O cão (e o leiteiro) são d’”A noite e o riso”.


(Artigo publicado na Revista Conexão Maringá, de Outubro/2008)

Publicado por barbant em 10:17 PM | Comentários (5) | TrackBack