agosto 06, 2008

LAUREANO SILVEIRA

Amante / a quem a morte / alcança ainda nu / antes de ser vestido / pela velhice



             

Quase sempre acontece que o poeta se veste com as suas próprias palavras. E com elas se vai embora.

 Ao folhear as 5 páginas de cultura do muito justamente laureado JN, edição do dia de hoje, não se encontra a referência sequer a qualquer escritor.
          Muito menos a autor português.
          Muito menos a Laureano Silveira. Apesar de licenciado em História da Arte e doutorado em Literatura Ibero-Americana pela Vanderbilt University, Nashville [Tennessee, EUA], autor de cinco livros de poesia: Os caprichos [Limiar, 1987], A metafísica do insecto [Kíron, 1988], Os secretos felinos [Limiar, 1991], O lado negro do lado branco [Limiar, 1993] e Os retratos [Pedra Formosa, 1998], apesar de aceso crítico nomeadamente da poesia existencial de Egito Gonçalves, de revelação de Poesia/1984, ex-aequo, da Associação Portuguesa de Escritores, de docente do Ensino Superior, e de muitas coisas mais.
          Afinal o Laureano, que morrera de véspera, aparece em páginas pagas do JN, no necrológio, onde a Escola a que pertencia e a família cumprem o doloroso dever de participar o seu desenlace. 

Como escrevi em breve artigo, apesar do “movimento da morte” do poema “Vigília”, apesar das “mãos invisíveis / da recém-chegada” do poema “Viver”, apesar da aparência, nem “Vigília” nem “Viver” falam, demonstram ou desenvolvem terrenos tomados pela morte. Da vida, pelo contrário. Quer a que resiste ou residua nos retratos, quer a que resiste ao óbvio trabalho da foice na árvore genealógica.
         Face ao lado branco das notícias, sufoco as minhas palavras com as do poeta.
         Que com elas se veste. Reatando, in memoriae, o “crime supremo de viver a vida”.

Aí lhes deixo os poemas citados, “Vigília” e “Viver”, simbólicos em hora de morte, e o último e-mail com que me disse, mal me conhecendo, “até sempre!”

          VIGÍLIA
Contemplar o retrato
é atravessar o rio da vigília,
um rio cujas águas correm para a nascente
sobre um silêncio consciente e lúcido
que aquieta o olhar
como na campânula do sono

a luz da vida se humilha suavemente

e quase extingue.

 

Nesse contemplar

o corpo aguenta a pressão invisível

da passagem do tempo

e o olhar que é contemplado

e nos contempla

atravessa o além e a realidade e o sonhar.

 

Nesta travessia é o nosso viver

que comparece no sonho

e nos sustenta

quando vacilante, quase irreconhecível

e perdido

o corpo é um engenho misterioso

que fabrica a violência

e o deslumbramento

de acordar.

 

Todavia, há no retrato

uma familiaridade perversa,

um movimento convidativo, cheio de falsidade

que a partir do limite de fragilidade

do ser

busca prender-se à vida.

 

Esse movimento

é a morte.

 

(in Os Retratos)

 

 

          VIVER
A morte dos pais viaja

e chega na mesma embarcação

que traz aos filhos

os sinais irreverentes

da velhice

 

e é nessa circunstância

que acontece

a extraordinária metamorfose

do ser:

 

quanto mais a alma, infusa, escorre

para o interior da identidade

e fixa o ser à vida,

mais o corpo o altera e desfigura

e o desenraíza e abandona

atraindo o amor de que ele é presa.

 

É então que as identidades

se confundem

que os filhos se assemelham,

perturbadoramente, aos pais

e que a vida recebe os seus mistérios

das mãos invisíveis

da recém-chegada.

                                                            À memória de meu Pai

 

Inédito do livro em construção

“NOCTURNOS, MATINAIS E VESPERTINOS”

       

          E-mail

 “Amigo Antero Barbosa
Grato pela sua generosa mensagem.
Sobre poesia e poetas, o melhor é lê-los.
Se quiser enviar-me um endereço, terei o maior prazer em enviar-lhe os meus
livros (pelo menos, os que não tiver).
E estou sempre ao dispor para conversar sobre literatura.
Abraço cordial.
Laureano Silveira”

Publicado por barbant em 11:01 PM | Comentários (1) | TrackBack