maio 20, 2008

Poligrafia

"Soneto já antigo" é o maior poema em português do século XX
Breve entrevista com Miguel Tamen

 



             

Soneto Já Antigo

                              Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
                              dizer aos meus amigos aí de Londres,
                              embora não o sintas, que tu escondes
                              a grande dor da minha morte. Irás de

                              Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
                              que eu nada que tu digas acredito),
                              contar àquele pobre rapazito
                              que me deu tantas horas tão felizes,

                              Embora não o saibas, que morri...
                              mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
                              nada se importará... Depois vai dar

                            
a notícia a essa estranha Cecily
                             que acreditava que eu seria grande...
                             Raios partam a vida e quem lá ande!

***

Miguel Tamen é professor universitário (Stanford University e Universidades de Lisboa e de Chicago), dedicando-se fundamentalmente ao ensino de Teoria da Literatura.

Eis alguns dos seus livros publicados:

“Hermenêutica e mal-estar” (1987);
“Manners of Interpretation” (1993);
“The Matter of the Facts” (2000);
“Friends of Interpretable Objects (2001);
“Artigos Portugueses” (2002).

Eis, também, a breve entrevista que nos concedeu, onde revela o seu extraordinário carácter de frontalidade, subtileza, argúcia e desassombro. 

Antero Barbosa
"Século de Ouro - Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX" é uma obra notável, construída por várias dezenas de ensaios altamente válidos, alguns dos quais de nível elevadíssimo. Ainda assim, atrever-me-ia a considerar o breve ensaio de Miguel Tamen, o seu, em cima do "Soneto já Antigo" de Álvaro de Campos, como o melhor de todos.

Um dos aspectos que me leva a considerar o ensaio referido como o considero, assenta numa asserção que vem já de Eduardo Lourenço e do seu "Canto do Signo" de 1993: "da criação como crítica à crítica como ficção". Concorda que o seu ensaio espelha esta última faceta?

Miguel Tamen
Não. O meu ensaio não tem nada a ver com ficção. É simplesmente a verdade sobre o soneto de Álvaro de Campos.

AB
Ainda Eduardo Lourenço e o livro mencionado. Num dos seus mais famosos capítulos, é acentuada a influência do heterónimo de Pessoa que vimos tratando, de que até o próprio título é sintoma: "Uma Literatura Desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos".
Todavia, verifica-se, com surpresa, que os "filhos de Álvaro de Campos" apontados são todos prosadores, ao contrário do poeta que os influenciou: Bessa-Luís, Almeida Faria, Cardoso Pires, Abelaira, etc. A excepção é Herberto Hélder. Não acha haver aqui uma prosaica contradição?

MT
Não necessariamente. Os autores que Eduardo Lourenço cita são todos adultos (aliás de interesse variável). Os estragos que Álvaro de Campos causou situam-se numa idade anterior. Álvaro de Campos foi um poeta em quem (como aliás Herberto Helder) aspirantes a poetas se tenderam a revir e de quem aqueles que se tornaram poetas muitas vezes explicitamente se arrependem.

AB
Herberto Hélder que não será seguramente o mais comprovado discípulo de Campos. Outros há muito mais nítidos. Ruy Belo, por exemplo. E Nuno Júdice, que o confessa em "A Viagem das Palavras", livro publicado em 2005, sendo o ensaio de 2002.
Mas é possível acrescentar que a poesia portuguesa da segunda metade do século XX, uma das suas principais vertentes, os poetas de "Poesia 61", aborda aspectos desencontrados de Álvaro de Campos ou, mais do que isso, que estão apostados em explorar a outra margem, outras margens, de costas voltadas para ele.
O que nos levaria a uma certa negação da filiação da poesia portuguesa da segunda metade do século XX em Álvaro de Campos. Não lhe parece?

MT
Sim. Com excepções que importaria ressalvar e perceber, a ideia de que poetas sérios não escrevem como Álvaro de Campos é constitutiva da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Infelizmente, como aliás mostra bem a chamada Poesia 61, ter ideias sobre poesia não é suficiente para escrever versos de jeito e muitas vezes é o que impede que tal aconteça.

AB
Voltando ao seu ensaio sobre "Soneto já Antigo". Não deixa de ser uma ousadia seleccionar um soneto, modelo clássico, para abordar o épico dos grandes poemas à Whitman, Álvaro de Campos. Ou não será?

MT
Não. Não sou um admirador de Álvaro de Campos. Dito isto, o "Soneto já antigo" é o maior poema em português do século XX.  Não me interessa o Alvaro de Campos dos poemas longos e das apóstrofes pai, até Herberto Helder, de uma forma particular de indulgência poética que, depois das três miraculosas excepções do fim do século XIX (e de Pessoa) a fez permanecer obstinadamente menor. Interessa-me a sua prosa e alguns poemas curtos.

AB
Mas a ousadia está mesmo no ensaio. Para além de ser "crítica como ficção", há decerto uma superação deste modelo. Renegando moldes tradicionais, tais como o recurso a teorias literárias, a citações, ao abstraccionismo seco e maçador. E com o recurso a tópicos inovadores.
Dos quais mencionarei a dialética de uma elaboração que recorre de forma subtil ao passado e ao futuro. O recurso a talentos que se confundem com características do autor tratado: a ironia e o humor. E, inclusivamente, de um modo teatral, o facto de se integrar no interior da obra e confundir-se, na qualidade de destinatário, com uma das suas personagens, Daisy, presumivelmente feminina.
Que comentário lhe merece o meu?

MT
É muito simpático o que diz, mas não há qualquer ousadia no meu ensaio. Escrevi-o por impaciência para com as coisas que se escrevem sobre poesia, meio crónica social, meio pata-filosofia. A grande dificuldade do soneto de Álvaro de Campos é a apóstrofe "Olha Daisy". Perceber umas apóstrofe é o maior, e talvez o único, problema para quem lê poesia. Como é que se pode justificar o acesso a uma coisa que não foi feita para nós, e à vaidade que imagina que estamos a ser directamente chamados? O meu ensaio é só sobre isso. Mas é um ensaio imperfeito, porque prega a virtude da humildade de um modo adstringente.

 

Publicado por barbant em 11:03 PM | Comentários (1) | TrackBack