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"Soneto já antigo"
é o maior poema em português do século XX
Breve entrevista com Miguel Tamen
Soneto Já Antigo
Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de
Londres,
embora não o sintas, que tu
escondes
a grande dor da minha morte. Irás
de
Londres p'ra
Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas
acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão
felizes,
Embora não o saibas,
que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto
julguei amar,
nada se importará... Depois vai
dar
a notícia a
essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria
grande...
Raios partam a vida e quem lá
ande!
***
Miguel
Tamen é professor universitário (Stanford University e Universidades
de Lisboa e de Chicago), dedicando-se fundamentalmente ao ensino de
Teoria da Literatura.
Eis alguns dos seus livros publicados:
“Hermenêutica e mal-estar” (1987);
“Manners of Interpretation” (1993);
“The Matter of the Facts” (2000);
“Friends of Interpretable Objects (2001);
“Artigos Portugueses” (2002).
Eis,
também, a breve entrevista que nos concedeu, onde revela o seu
extraordinário carácter de frontalidade, subtileza, argúcia e
desassombro.
Antero Barbosa
"Século de Ouro - Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século
XX" é uma obra notável, construída por várias dezenas de
ensaios altamente válidos, alguns dos quais de nível elevadíssimo.
Ainda assim, atrever-me-ia a considerar o breve ensaio de Miguel Tamen,
o seu, em cima do "Soneto já Antigo" de Álvaro de Campos,
como o melhor de todos.
Um dos
aspectos que me leva a considerar o ensaio referido como o considero,
assenta numa asserção que vem já de Eduardo Lourenço e do seu
"Canto do Signo" de 1993: "da criação como crítica à
crítica como ficção". Concorda que o seu ensaio espelha esta última
faceta?
Miguel
Tamen
Não. O meu ensaio não tem nada a ver com ficção. É simplesmente a
verdade sobre o soneto de Álvaro de Campos.
AB
Ainda Eduardo Lourenço e o livro mencionado. Num dos seus mais famosos
capítulos, é acentuada a influência do heterónimo de Pessoa que
vimos tratando, de que até o próprio título é sintoma: "Uma
Literatura Desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos".
Todavia, verifica-se, com surpresa, que os "filhos de Álvaro de
Campos" apontados são todos prosadores, ao contrário do poeta que
os influenciou: Bessa-Luís, Almeida Faria, Cardoso Pires, Abelaira,
etc. A excepção é Herberto Hélder. Não acha haver aqui uma prosaica
contradição?
MT
Não necessariamente. Os autores que Eduardo Lourenço cita são todos
adultos (aliás de interesse variável). Os estragos que Álvaro de
Campos causou situam-se numa idade anterior. Álvaro de Campos foi um
poeta em quem (como aliás Herberto Helder) aspirantes a poetas se
tenderam a revir e de quem aqueles que se tornaram poetas muitas vezes
explicitamente se arrependem.
AB
Herberto Hélder que não será seguramente o mais comprovado discípulo
de Campos. Outros há muito mais nítidos. Ruy Belo, por exemplo. E Nuno
Júdice, que o confessa em "A Viagem das Palavras", livro
publicado em 2005, sendo o ensaio de 2002.
Mas é possível acrescentar que a poesia portuguesa da segunda metade
do século XX, uma das suas principais vertentes, os poetas de "Poesia
61", aborda aspectos desencontrados de Álvaro de Campos ou, mais
do que isso, que estão apostados em explorar a outra margem, outras
margens, de costas voltadas para ele.
O que nos levaria a uma certa negação da filiação da poesia
portuguesa da segunda metade do século XX em Álvaro de Campos. Não
lhe parece?
MT
Sim. Com excepções que importaria ressalvar e perceber, a ideia de que
poetas sérios não escrevem como Álvaro de Campos é constitutiva da
poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Infelizmente, como
aliás mostra bem a chamada Poesia 61, ter ideias sobre poesia não é
suficiente para escrever versos de jeito e muitas vezes é o que impede
que tal aconteça.
AB
Voltando ao seu ensaio sobre "Soneto já Antigo". Não deixa
de ser uma ousadia seleccionar um soneto, modelo clássico, para abordar
o épico dos grandes poemas à Whitman, Álvaro de Campos. Ou não será?
MT
Não. Não sou um admirador de Álvaro de Campos. Dito isto, o "Soneto
já antigo" é o maior poema em português do século XX. Não
me interessa o Alvaro de Campos dos poemas longos e das apóstrofes pai,
até Herberto Helder, de uma forma particular de indulgência poética
que, depois das três miraculosas excepções do fim do século XIX (e
de Pessoa) a fez permanecer obstinadamente menor. Interessa-me a sua
prosa e alguns poemas curtos.
AB
Mas a ousadia está mesmo no ensaio. Para além de ser "crítica
como ficção", há decerto uma superação deste modelo. Renegando
moldes tradicionais, tais como o recurso a teorias literárias, a citações,
ao abstraccionismo seco e maçador. E com o recurso a tópicos
inovadores.
Dos quais mencionarei a dialética de uma elaboração que recorre de
forma subtil ao passado e ao futuro. O recurso a talentos que se
confundem com características do autor tratado: a ironia e o humor. E,
inclusivamente, de um modo teatral, o facto de se integrar no interior
da obra e confundir-se, na qualidade de destinatário, com uma das suas
personagens, Daisy, presumivelmente feminina.
Que comentário lhe merece o meu?
MT
É muito simpático o que diz, mas não há qualquer ousadia no meu
ensaio. Escrevi-o por impaciência para com as coisas que se escrevem
sobre poesia, meio crónica social, meio pata-filosofia. A grande
dificuldade do soneto de Álvaro de Campos é a apóstrofe "Olha
Daisy". Perceber umas apóstrofe é o maior, e talvez o único,
problema para quem lê poesia. Como é que se pode justificar o acesso a
uma coisa que não foi feita para nós, e à vaidade que imagina que
estamos a ser directamente chamados? O meu ensaio é só sobre isso. Mas
é um ensaio imperfeito, porque prega a virtude da humildade de um modo
adstringente.
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