O título, sumamente concreto e
substantivo, impele ostensivamente para zonas sensoriais e pictóricas. No
entanto, “Campo de Trigo com Corvos” não é mera reprodução do quadro
de Van Gogh onde o trigo, amarelo, eivado das chamas loucas do pintor, escorraça
de seu seio o bando negro dos corvos. Aqui, no livro, muito para além dos
afugentados, corvos há que permanecem pairantes ou, mais ainda, baixando ao rés
do solo jogam-se contra as pessoas provocando a clivagem (ou a carnagem). E
esta fórmula aproxima os textos de uma realidade mais humana, ainda que
desumana em função de traumatismos de que se tece a evolução vital e biológica.
Mas, na arte de contar estórias,
e é um pouco do que se trata aqui, o texto recorre globalmente a técnicas
específicas da pintura. Designadamente, dos seguintes modos:
Os
factos sucedem-se em tom linear, contíguos ou adjacentes, em direcção a um
desfecho, previsível ou não, podendo-nos apropriar neste caso da imagem do
rio que decorre e atravessa a paisagem rumo à foz.
A
disposição da narrativa procede à colocação ou disposição de cenas
paralelas, quadros que se encostam na vertical, ou na horizontal, às vezes na
diagonal. Lembrando um pouco os vitrais medievais que ainda hoje se encontram
nas catedrais.
Postado na posição do personagem, o narrador reavém e sintetiza em
frases-cristais largas faixas de vida transcorrida. São parágrafos breves,
como riscos impressionistas e apressados, que intentam ou ensaiam remover um
vulto de episódios para um mínimo centro, na vã tentativa de os aprisionar.
De tudo dizer, sem ceder ao uso da gordura das palavras, muitas palavras,
palavras a mais, o “contar palha” da gíria.
Por outro lado, mais do que
abordagens textuais que imitam ou pretendem irritar técnicas fílmicas ou de
vídeo, nota-se um apropriar de materiais atinentes ao teatro.
Desde
logo, na encenação criteriosa e fiel de palcos que suportam os personagens,
a reconstrução de sítios, locais, ambientes ou atmosferas. Em que tem papel
fenomenal o fluxo da enumeração. Neste exemplo, utilizaremos o conto nodal,
que dá título ao livro, “Campo de Trigo com Corvos” para promover a
tipificação:
“Contratou peões de fora, tipos mal encarados de outras plagas,
outras praças, gaúchos, catarinas, ˝barrigas-verdes˝”.
Observemos como se delineiam outras estilísticas da arte de talma:
O imprevisto é um dos recursos que
pode fazer balançar o espectador na cadeira. Ele é aqui arremessado, quer
surgindo de-vereda, o designado “causo”, bem assim o pandareco, quer
atribuindo um rumo à história totalmente inverso, ou ao menos diverso, da lógica
que as teias já desarmadas anunciavam.
O equívoco
é, como se sabe, o banquete de muitas peças de teatro. De algumas em
exclusivo. Ele provoca o espectador, obriga-o à concentração e à reflexão
(e ao riso ou sorriso), mantém vivo o desenrolar do evento e o esforço dos
actores. Aqui também ele actua, burilando surpresa nos personagens, dando
lastros de ironia às vidas encenadas, apanhando na contra-mão o leitor. Quiçá,
o próprio autor terá aberto olhos aquando da elaboração dos textos.
Alguns títulos, algumas frases, preparam para ocorrências posteriores do
conto. É uma espécie de levantar do véu, destapar de roupas femininas, jogo
de sedução e permeio. Que muitas vezes pode desaguar num dos recursos
anteriores, anulando ou aparelhando os efeitos: o imprevisto.
Mas,
o mais robusto de todos os recursos é o golpe-de-teatro. Repare-se que a própria
palavra de que vimos falando integra a nova palavra, esta, aliada a golpe.
Quando tudo se encaminhava no rumo certo, quando a rotina ou a monotonia se
estavam solidificando, eis que de sopetão tudo se desmorona, tudo se
transtorna, ficamos submersos nas estrias que estoiraram sobre nossas cabeças,
fica tudo de pernas ao ar, a mesa, a casa, o livro, o corpo, a mente.
Apesar de usado e abusado,
gasto e regasto, o conto produz-se hoje em doses avulsas. A despeito de sua
condenação, final da história e seus componentes-trave: narração, tempo e
espaço, decretados pelo noveau-roman.
Não
basta hoje dispor magnanimamente da arte de contar. Não basta, como a Silas
Corrêa Leite, ser um domador de estórias. É condição, ainda e
nomeadamente, inventar histórias, seu entrechocar, prover à invenção de
uma “história nova”. Isso aconteceu, muitas vezes, neste livro. Mas
vejamos algumas das várias fórmulas de história com que nos deparamos:
Existe a história que é canto, beco e síntese em “Boémio”;
Existe a história que se traduz inteira e integral em “O Enterro”;
Existe a que se senta na paragem, recusa avançar de momento e aguarda o
porvir em “Quando a Tragédia Bate em sua Porta”;
Existe a história que se metamorfoseia em lenda, veste-se mágica, irreal, em
“O Inventor”;
Existe a história contida, espelho de deserto dos tártaros, com tempestade
iminente mas que não desaba em “Campo de Trigo com Corvos”.
Mas todo livro é ou
pretende ser uma obra literária. E é só isso que importa. Obtê-lo,
consegui-lo, é todo o mérito e valor acrescentado possível. Também aqui se
obteve largamente esse desiderato. Observemos alguns dos meios. Ou fins.
Deitando mão de uma linguagem que, afora o popular, o linguajar, a gíria,
agarra os elementos específicos de dialectos, sintaxe indígena, eivando a
escrita de vocábulos originados do tupi. Exercitando uma experiência
genialmente rasgada noutros países de língua de expressão portuguesa por
Mia Couto e Luandino.
Dando
o braço à metáfora, à imagem em novos moldes, revitalizando os textos. E
desse modo obtendo o viço, a chispa, o engaste de muitas frases. Alongando a
metáfora, expandindo-a, cingindo-a a personagens inteiros ou à globalidade
do conto. Metáfora que se transforma em alegoria. Exemplo seguro de tudo que
fica dito são os Corvos de “Campo de Trigo” e o Muro em “Anistia”.
Lançando
as palavras umas contra as outras, quando contíguas, provocando choque,
conflito, traumatismo, mas também colo, enlace, anel.
E
neste particular merece realce a intensa e não pretensa construção de novos
vocábulos. Fruto de tentativas ou abordagens díspares.
Usando a colagem, a composição, errónea em aparência mas sempre imprevista,
como no caso de “esposa-vítima”, “vento-coisa”, “nuvem-lesma” ou
“lebre-dor”.
Recorrendo à síncope, como se verifica em “marra” e “garra”.
Provocando a junção, de que poderemos enunciar “enfebre”, “nágua” e
“cinzazul”.
Adstringindo a preposição, prefixada, em “de-vereda”, “de-assim” e
“de-primeiro”.
Neste
campo, de trigo literário, em que muitas letras são corvos, entendo que o
mais subtil e profundo recurso resulta do germinar de vocábulos novos, que
estimulam os acordes da sintaxe, da fonologia e da morfologia. Realizando
cambiâncias, muito pouco vistas e nada pouco inesperadas. Ousando obter o
substantivo a partir do verbo, do adjectivo, ou mesmo do próprio substantivo.
Obtendo ligas que só ao alquimista são permitidas. Vejamos.
Do inúmero
número de vocábulos em que se verifica um processo de alteração da
categoria sintáctica, ou manutenção sintáctica por força de novo vocábulo,
quer por acção da base quer do derivado, topamos estas nominalizações
deverbais: “acontecência”, “havência”, “pertencimento”, “andação”
ou “conhecença”.
Como
apodo de nominalização denominal, poder-se-ia citar “mentirança” e “medaço”.
Para
não jazer nas plagas do vazio, eis também uma adjectivalização denominal:
“encranqueira”.
Recuando:
perante o impasse da estória, notória se torna a premência da exploração
de técnicas e moldes e dados inovadores. Porque não basta à ficção
reproduzir a realidade ou ser espelho do real. Isso já se fez ou é horta de
outras artes. Da perícia autoral depende a superação do real. Mais: a sua
subversão.
E é o que acontece substantivamente em “Campo de Trigo”.
Podemos apontar o irreal em “O Inventor”; o surreal em “Anistia”; a
subversão do real (pelas palavras) em “Justiça”. Estas e outras estórias
é que provocam o avanço. Deixando as restantes coladas, como pinto recém-nado
a casca-de-ovo, a correntes literárias já desgastadas, ainda que recentes.
E já que entrámos na corrente,
deveremos referir a mais ousada ousadia presente neste livro. Algo que
apelidaríamos de transrealismo. Obter do texto a superação do real, a sua
mistificação, submeter e soterrar normas, o erigir de um outro real. Isso
acontece aqui e ali, mas de forma exemplar no conto mais de todos escatológico:
“O Osso” (também em “Congonha”). De que retiramos três análises
resumíticas: a mulher que se dá ao pai e depois ao filho, sendo carne para o
primeiro e osso para o segundo; o homem que, helo Kafka, devém canino, o
filho-cão; a habituação a baixas desumanidades que impede um ser humano de
reverter após uma vivência animalesca.
Falámos de artes plásticas.
De artes cénicas. De linguística. E, sobretudo, de arte literária. E
corrente. Literária, claro, mas não só. Tudo muito apreciado. Mas então, e
a vida? Porque é o sangue dela que muitos pretendem, ou preferem, ver
escorrer das letras dos livros. Diria:
Existe, como metáfora da terra, e dela, a vida, um extenso campo de trigo. E
pequenos pontos negros no meio do trigo, os corvos. Este é o palco, é aqui
que tudo decorre. Com o sol por testemunha ou sob o céu nocturno. Os pequenos
pontos negros por vezes exaltam-se. Rebelam-se. Ficam loucos. Pode dar na
destruição de todo o enorme campo. De trigo. E é assim que a vida se eleva
(mesmo quando derrubada). Porque ela é em simultâneo
Luz e escuro;
Branco e negro;
Gozo e dor;
Água e fogo;
Campo de trigo e corvos.