fevereiro 13, 2008



ATIREM SOBRE A PIANISTA



                            

            Era uma vez uma menina a quem despontaram grandes orelhas. Com elas captava misturas do mistério de vozes que absorvia dos pássaros, das chuvas ou das pessoas.

            Depois cresceram-lhe os dedos. Era com eles que desenhava as curvas que as vozes lhe inspiravam. Quando, certa vez, viu um piano tocando, baixou as vozes à sua altura e, tamborilando com as mãos nos tampos das mesas, dava-lhes pequenas tareias.

            Por fim engrossaram-lhe os olhos. Que filtravam sensações do ambiente que a rodeava ou da ausência de ambiente. O olhar, enorme, bebia e cerrava as pálpebras. No escuro que se fazia, um lastro penetrava os ouvidos e os dedos esticavam-se adquirindo gestos sinuosos.

 

            De tal forma que um dia foi avistada, usando o triângulo orgânico, ouvidos, olhos, o braço direito muito estendido, a dirigir um concerto de sabiás no pé de laranja-lima do quintal.

 

            A juventude fez refinar as zonas do corpo que haviam crescido excessivamente. Domesticava-as com trabalho e ensaio, descobriu fascinada que tudo aquilo podia ser derramado numa folha de papel, onde, num rectângulo a toda a largura da página, chamado pauta, podiam ser lançados signos esquisitos como formigas que posteriormente originavam sons.

            A pauta era uma alma morta. Sempre idêntica. Mas quando transposta, com génio, para as teclas do piano, ganhava pernas e ardor. Fazendo reviver nos sons cenas sociais ou emocionais que neles haviam sido recolhidas.

 

            A maturidade permitiu-lhe domar todo aquele caos de sons e signos e sensações. Domínio que, no entanto, desabava muita vez, e a ânsia o fazia desembocar em zonas igualmente caóticas. Resultado do desígnio do que é humano, buscando incessantemente o novo e o além e o perigo.

            Entre a magia e o sofrimento, descobriu que poderia também inventar música. Roubando à vida os motivos para os lançar no papel e, por intermédio do piano ou de outro instrumento, os resgatar a uma nova vida. Onde o sentido vital se esbatia, as cenas que buscara cristalizar transformavam-se noutras, muito do que tecia em seu imaginário se perdia ou tornava obscuro.

 

            Com o reinado da destreza, do sentimento, da inspiração, atingia alguns golpes de originalidade, trepava patamares de nível. Mergulhava na fundura da profundidade como num poço. As primeiras peças tornavam-se rascunhos.

 

            Mas um dia decidiu compor uma pequena obra, ágil, alegre, que pudesse invocar o rumor da infância, o ruído das aves, o dealbar da manhã, as setas da chuva, a ardência da juvenilidade, as asperezas da paixão, mas também as orgias infantis dos adultos, suas almoçaradas, seus brinquedos de órgãos e zonas erógenas.

            Ela, menina grande, teceu de sons um vestido leve e airoso, que se erguia em trilos rápidos e dançantes, frémitos doces e riscados, tudo envolto de acentuada ironia, raio de vestido que se levantava e mostrava pernas, depois se fechava e as escondia, tocava com seda o rosto de quem se aproximava e cegava os olhos de quem o fitava intensamente.

            Vestido, todo em raios saltitantes, em que o abstracto contínuo do som podia comparar-se a grãos de sol brincando no jardim, a que todos e tudo retornava.

 

            Porque decidira ela compor esta música, tão díspar das restantes?

            Porque me propus eu, agora, a escrever este texto?

            Sei lá!

Publicado por barbant em 09:58 PM | TrackBack