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Era uma vez uma menina a quem despontaram grandes orelhas. Com elas
captava misturas do mistério de vozes que absorvia dos pássaros, das
chuvas ou das pessoas.
Depois cresceram-lhe os dedos. Era com eles que desenhava as curvas que
as vozes lhe inspiravam. Quando, certa vez, viu um piano tocando, baixou
as vozes à sua altura e, tamborilando com as mãos nos tampos das
mesas, dava-lhes pequenas tareias.
Por fim engrossaram-lhe os olhos. Que filtravam sensações do ambiente
que a rodeava ou da ausência de ambiente. O olhar, enorme, bebia e
cerrava as pálpebras. No escuro que se fazia, um lastro penetrava os
ouvidos e os dedos esticavam-se adquirindo gestos sinuosos.
De tal forma que um dia foi avistada, usando o triângulo orgânico,
ouvidos, olhos, o braço direito muito estendido, a dirigir um concerto
de sabiás no pé de laranja-lima do quintal.
A juventude fez refinar as zonas do corpo que haviam crescido
excessivamente. Domesticava-as com trabalho e ensaio, descobriu
fascinada que tudo aquilo podia ser derramado numa folha de papel, onde,
num rectângulo a toda a largura da página, chamado pauta, podiam ser
lançados signos esquisitos como formigas que posteriormente originavam
sons.
A pauta era uma alma morta. Sempre idêntica. Mas quando transposta, com
génio, para as teclas do piano, ganhava pernas e ardor. Fazendo reviver
nos sons cenas sociais ou emocionais que neles haviam sido recolhidas.
A maturidade permitiu-lhe domar todo aquele caos de sons e signos
e sensações. Domínio que, no entanto, desabava muita vez, e a ânsia
o fazia desembocar em zonas igualmente caóticas. Resultado do desígnio
do que é humano, buscando incessantemente o novo e o além e o perigo.
Entre a magia e o sofrimento, descobriu que poderia também
inventar música. Roubando à vida os motivos para os lançar no papel
e, por intermédio do piano ou de outro instrumento, os resgatar a uma
nova vida. Onde o sentido vital se esbatia, as cenas que buscara
cristalizar transformavam-se noutras, muito do que tecia em seu imaginário
se perdia ou tornava obscuro.
Com o reinado da destreza, do sentimento, da inspiração,
atingia alguns golpes de originalidade, trepava patamares de nível.
Mergulhava na fundura da profundidade como num poço. As primeiras peças
tornavam-se rascunhos.
Mas um dia decidiu compor uma pequena obra, ágil, alegre, que
pudesse invocar o rumor da infância, o ruído das aves, o dealbar da
manhã, as setas da chuva, a ardência da juvenilidade, as asperezas da
paixão, mas também as orgias infantis dos adultos, suas almoçaradas,
seus brinquedos de órgãos e zonas erógenas.
Ela, menina grande, teceu de sons um vestido leve e airoso, que
se erguia em trilos rápidos e dançantes, frémitos doces e riscados,
tudo envolto de acentuada ironia, raio de vestido que se levantava e
mostrava pernas, depois se fechava e as escondia, tocava com seda o
rosto de quem se aproximava e cegava os olhos de quem o fitava
intensamente.
Vestido, todo em raios saltitantes, em que o abstracto contínuo
do som podia comparar-se a grãos de sol brincando no jardim, a que
todos e tudo retornava.
Porque decidira ela compor esta música, tão díspar das
restantes?
Porque me propus eu, agora, a escrever este texto?
Sei lá! |