Música

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O que se ouve não é o ruído redondo e escuro das mulheres quase nuas, mas o riso delas enquanto deslocam a roupa para a lavagem no ribeiro próximo.
O que se ouve não é o jogo de pés que as crianças constroem correndo mas o conflito sonoro que ferem no chão brincando.
O que se ouve não é o vento da flecha nem o desfolhar das cerdas: é o ramo de prazer das caçadas e o bosque do porco-bravo ferido de morte.
O que se ouve não é a concha da tenda nem o seu interior: é o crepitar da fogueira e as palavras da estórea jorrando da boca do chefe ancião.
O que se ouve não é a lua nem a sua brancura: é o farejar dos lobos nos varais pelo luar às vezes denunciado.
O que se ouve não é o fumo nem o vermelho nem o acampamento nem a tribo: é o seu som, caótico, quente, como um rio que cresce para o ar.
Nem, aliás, se pode dizer que tudo o que se disse que se ouve se ouve. O que se ouve são sons que se desprendem dos instrumentos e, através deles, não se ouve o que se ouve: ouve-se apenas a música, música é o que se ouve e o que houve.
Letra- Antero Barbosa
e Ilustração - Daniella Kai