|
SEIS
CEREJAS PARA UM VERMELHO SABOR

No Douro que entra pela Beira a
etimologia topográfica adquire um sabor pesado e arcaizante. E é
perturbadora a evolução dos termos, obscurecendo as raízes iniciais,
a decifração do sentido. Além do peso semântico, robusto e maciço,
que as designações assumem, sobretudo quando ousamos pronunciar alto o
som dos seus nomes.
Trevões (S. João da Pesqueira) não foge à regra.
Independentemente do significado ou significados que lhe são apostos,
que queremos ignorar até ao final do artigo e que aqui não importa,
vamos procurar o léxico de que possa ser decantado.
No presente caso,
decididamente dois termos nos obrigam: trevo e treva. Se nos referimos
à planta minúscula cujo nome lhe vem de possuir em regra três folhas,
diríamos que o nome corresponde ao seu plural. E não vamos investigar
se o trevo é ou não planta comum na povoação. Se nos vamos ater ao
segundo elemento, “treva”, que significa noite / escuridão / breu,
estamos perante uma acentuada insistência progressiva, de força e
possessividade tais que exigiu o masculino, o macho mesmo: trevões,
grandes / enormes / tremendas doses de escuro / breu / negridão,
provavelmente penetradas de rubros relâmpagos e de um soturno familiar
semântico: os trovões.
Do escuro da História
são recolhidos os objectos que um dia serviram a vida dos homens. Hoje
inúteis e abandonados em cantos / quelhas / escanos, podem ser reavidos
com maior ou menor devoção e engenho.
O Museu de Trevões
representa seguramente o maior. De devoção, porque supera largamente o
espólio e qualidade que se julgaria encontrar. De engenho, porque ainda
que resulte do esforço amador da juventude e da coordenação não
especializada do pároco, revela obra de evidente gestão e excelência.
Mais do que
reposição do passado, o Museu deve ser a sua presentificação. E isso
aqui acontece, uma e outra vez quase miraculosamente.
É permitido
vislumbrar as fainas campestres, os gestos integrais de dedos que tecem
linho, os machos que furam a serra incitados pelo almocreve, o trabalho
quente da ceifa, o branco do queijo, o húmido da azeitona, o deambular
de bois por caminhos, a silhueta do cavador, os ranchos de que sobe o
canto das raparigas.
Mas é
destas, e da mulher que lhe sucede, que se origina a mágica aparição.
Os níveos corpetes, a blusa em escuro tom, o delicado peitilho, colocam
em nosso olhar essas imagens subtis, quase etéreas, de rostos maduros e
soberbos, de seios palpitantes e em flor.
A igreja, esta,
vem do passado como um barco que atravessa o nevoeiro. Atravessa e
ancora no presente, a despeito de traços históricos e localizados.
Limpa e desempoeirada por contemporâneas teorias vivificantes, o clássico
som da música eleva o ambiente e bate nos tectos, o que avistas é um
objecto uno e complexo, de um todo que esbate e afasta o rendilhado do
altar-mor.
Mas o que mais
seduz é penetrar por detrás deste, de costas dobradas por exigência
de pequeno portal, e penetrar num espaço inesperado. Onde os frescos
roubados às ruínas do tempo são sedução suprema, não pela
qualidade artística, mas pela ingenuidade dos desenhos, facto
substancial que nos lembra outros autores, porque são iguais aos que um
dia criámos, ou gostaríamos de ter criado, em nossos cadernos
escolares.
Em terras de
Aquilino, sobram os padres. De que não vale a pena tecer agora o tipo,
os tipos. Estão nos seus livros, é factor conhecido ou a conhecer por
quem porventura o ignora.
Mas surge, não
por objecto de análise ou especulação, a evidência de um novo padre,
ou de um padre novo, nestas mesmas terras. E a superação, plena, dos
padres de Aquilino, um dos quais foi seu progenitor.
Jovem, aberto,
dinâmico, íntimo dos meandros do homem e da mulher com quem está
obrigado a conviver, e a cultuar, o padre que tens na frente modela em
ti uma impressão indelével.
Ele faz com que
os actos do futuro o encontrem ali na sua rota. São, junto dos homens,
os novos padres que dirigem povoações que jaziam paradas. Padres da
cultura e da solidariedade.
A chuva e o
nevoeiro fizeram cair trevões sobre a povoação. Ainda assim, foi possível
ver e avivar algumas rubras imagens.
De uma apenas
falaremos.
Rente à estrada,
em campo de altas ervas, estão as cerejeiras. Não podemos dizer que se
erguem, de tão baixas, ao alcance de mão de criança. Não podemos
dizer que se escondem, de tão abertas de pernadas. Não podemos dizer
que se recolhem, porque o quintal não tem sebe.
Verdes, de um
verde tenro e húmido, estão à mão da nossa mão. Para que as
toquemos.
Estão à mão do
nosso olhar. Para que possamos enfrentar as imagens verdes do folhedo. E
do vermelho das cerejas. Vermelho e redondo. Como um bico de seio.
Estão à mão
dos nossos lábios. Para que sem receio de donos e patrões, de
acanhamentos ou represálias, possamos avidamente entrar. E possuí-las,
doces. Virgens ainda e como sempre. No nosso gosto já não.
Vermelho vivo,
que multiplicado nos transporta de novo à igreja, ao vermelho, ainda
redondo, e opulento, que irradia do véu de ombros exposto.
Que não se cansa
de nos lembrar a alta área do corpo feminil, castigada de sol, que em
tempos mais exibiu do que ocultou.
Vermelho, este véu,
tecido de mil cambiantes de cereja, roda de fogo, lume de setas, ébrio
fulgor, fogueira de imagens nas pálpebras que o ousam enfrentar
inquietas.
Os
lábios agora ficam secos de deserto.
|