junho 19, 2007

Pobríncia

 

SEIS CEREJAS PARA UM VERMELHO SABOR

     

 

 

          No Douro que entra pela Beira a etimologia topográfica adquire um sabor pesado e arcaizante. E é perturbadora a evolução dos termos, obscurecendo as raízes iniciais, a decifração do sentido. Além do peso semântico, robusto e maciço, que as designações assumem, sobretudo quando ousamos pronunciar alto o som dos seus nomes.
          Trevões (S. João da Pesqueira) não foge à regra. Independentemente do significado ou significados que lhe são apostos, que queremos ignorar até ao final do artigo e que aqui não importa, vamos procurar o léxico de que possa ser decantado.
          No presente caso, decididamente dois termos nos obrigam: trevo e treva. Se nos referimos à planta minúscula cujo nome lhe vem de possuir em regra três folhas, diríamos que o nome corresponde ao seu plural. E não vamos investigar se o trevo é ou não planta comum na povoação. Se nos vamos ater ao segundo elemento, “treva”, que significa noite / escuridão / breu, estamos perante uma acentuada insistência progressiva, de força e possessividade tais que exigiu o masculino, o macho mesmo: trevões, grandes / enormes / tremendas doses de escuro / breu / negridão, provavelmente penetradas de rubros relâmpagos e de um soturno familiar semântico: os trovões.

          Do escuro da História são recolhidos os objectos que um dia serviram a vida dos homens. Hoje inúteis e abandonados em cantos / quelhas / escanos, podem ser reavidos com maior ou menor devoção e engenho.
          O Museu de Trevões representa seguramente o maior. De devoção, porque supera largamente o espólio e qualidade que se julgaria encontrar. De engenho, porque ainda que resulte do esforço amador da juventude e da coordenação não especializada do pároco, revela obra de evidente gestão e excelência.
          Mais do que reposição do passado, o Museu deve ser a sua presentificação. E isso aqui acontece, uma e outra vez quase miraculosamente.
          É permitido vislumbrar as fainas campestres, os gestos integrais de dedos que tecem linho, os machos que furam a serra incitados pelo almocreve, o trabalho quente da ceifa, o branco do queijo, o húmido da azeitona, o deambular de bois por caminhos, a silhueta do cavador, os ranchos de que sobe o canto das raparigas.
           Mas é destas, e da mulher que lhe sucede, que se origina a mágica aparição. Os níveos corpetes, a blusa em escuro tom, o delicado peitilho, colocam em nosso olhar essas imagens subtis, quase etéreas, de rostos maduros e soberbos, de seios palpitantes e em flor.

          A igreja, esta, vem do passado como um barco que atravessa o nevoeiro. Atravessa e ancora no presente, a despeito de traços históricos e localizados. Limpa e desempoeirada por contemporâneas teorias vivificantes, o clássico som da música eleva o ambiente e bate nos tectos, o que avistas é um objecto uno e complexo, de um todo que esbate e afasta o rendilhado do altar-mor.
          Mas o que mais seduz é penetrar por detrás deste, de costas dobradas por exigência de pequeno portal, e penetrar num espaço inesperado. Onde os frescos roubados às ruínas do tempo são sedução suprema, não pela qualidade artística, mas pela ingenuidade dos desenhos, facto substancial que nos lembra outros autores, porque são iguais aos que um dia criámos, ou gostaríamos de ter criado, em nossos cadernos escolares.

          Em terras de Aquilino, sobram os padres. De que não vale a pena tecer agora o tipo, os tipos. Estão nos seus livros, é factor conhecido ou a conhecer por quem porventura o ignora.
          Mas surge, não por objecto de análise ou especulação, a evidência de um novo padre, ou de um padre novo, nestas mesmas terras. E a superação, plena, dos padres de Aquilino, um dos quais foi seu progenitor.
          Jovem, aberto, dinâmico, íntimo dos meandros do homem e da mulher com quem está obrigado a conviver, e a cultuar, o padre que tens na frente modela em ti uma impressão indelével.
          Ele faz com que os actos do futuro o encontrem ali na sua rota. São, junto dos homens, os novos padres que dirigem povoações que jaziam paradas. Padres da cultura e da solidariedade.

          A chuva e o nevoeiro fizeram cair trevões sobre a povoação. Ainda assim, foi possível ver e avivar algumas rubras imagens.
          De uma apenas falaremos.
          Rente à estrada, em campo de altas ervas, estão as cerejeiras. Não podemos dizer que se erguem, de tão baixas, ao alcance de mão de criança. Não podemos dizer que se escondem, de tão abertas de pernadas. Não podemos dizer que se recolhem, porque o quintal não tem sebe.
          Verdes, de um verde tenro e húmido, estão à mão da nossa mão. Para que as toquemos.
          Estão à mão do nosso olhar. Para que possamos enfrentar as imagens verdes do folhedo. E do vermelho das cerejas. Vermelho e redondo. Como um bico de seio.
          Estão à mão dos nossos lábios. Para que sem receio de donos e patrões, de acanhamentos ou represálias, possamos avidamente entrar. E possuí-las, doces. Virgens ainda e como sempre. No nosso gosto já não.

          Vermelho vivo, que multiplicado nos transporta de novo à igreja, ao vermelho, ainda redondo, e opulento, que irradia do véu de ombros exposto.
          Que não se cansa de nos lembrar a alta área do corpo feminil, castigada de sol, que em tempos mais exibiu do que ocultou.
          Vermelho, este véu, tecido de mil cambiantes de cereja, roda de fogo, lume de setas, ébrio fulgor, fogueira de imagens nas pálpebras que o ousam enfrentar inquietas.
          Os lábios agora ficam secos de deserto.

Publicado por barbant em 06:58 PM | TrackBack

junho 09, 2007

(Pa)rábulas



(IN)VERSÕES


            Esta é uma sala recolhida em que entram os dois jovens, provindos do frio do jardim. Os corpos estão muito próximos e ele agarrando-a um pouco, arrasta-a para o sofá.
           
Estão já bastante entrelaçados e de respiração ofegante. É quando entra, esquivando-se ao tumulto dos convivas do salão, um homem entroncado, de gabardine imponente e rosto firme.
           
Este estaca, de olhos muito alargados, fitando os pedaços de corpo nu à mostra. Os jovens soerguem-se bruscos, inquietos.
           
Os três pensam:
           
- E agora?

            Cansado do tumulto que invadiu o salão e das conversas já alcoolizadas dos convivas, procurou refúgio numa das salas adjacentes. Quando entrou, verificou estupefacto que o sofá apetecido já estava ocupado por um casal jovem que se amava ardorosamente.
           
Dirigiu-se ao rapaz e arrancando-lhe os braços, empurrou-o para a rua, não sem lhe lançar os seguintes gritos:
           
- Estupor! Vai-te já embora daqui antes que eu te desmascare. Fora! E já! Pode ser que as roupas depois te cheguem pelo correio!
           
E sentando-se à beira dela e puxando-a, num tom de ternura embrulhado em chantagem:
           
- Agora temos um segredo. Decerto não queres que o teu namorado saiba? Quem sabe, poderíamos até ter dois segredos?
           
Ela aninhou-se-lhe no peito com um sorriso.

            Um pouco arrepiados pelo frio do jardim, os dois jovens recolheram-se naquela sala e naquele sofá. Agarrando-a com dedos de medo, ele consegui desnudá-la um pouco. O suficiente para não resistir a ter que a abraçar e meter as mãos na pele que entretanto estava à mostra, e mesmo no calor da que se escondia sob as roupas.
           
Eis  senão quando entra um homem másculo, que se dirige a ele empurrando-o e insultando-o. E desatando em seguida com ameaças. Apesar dos trajes menores em que se encontrava, o jovem levantou-se calmo e deu um murro no queixo do homem que logo se estatelou no tapete.
           
Quando se tentou levantar, o sangue escoria-lhe em jorro. Ergueu uma das mãos, como que a pedir tréguas ao rapaz que se preparava para o sovar de novo.
            Os dois jovens vestiram-se e saíram pelo jardim de há bocado.


Publicado por barbant em 04:51 PM