abril 17, 2007

Poligrafia


OS VERSOS PREMIADOS DE ALICE VIEIRA –                                  –UM CHORRILHO DE SURPRESAS



               

             

        Leia-se, com o mínimo de atenção, estes versos premiados da escritora Alice Vieira que o JL, na sua edição 11 a 24 de Abril de 2007 nos proporcionou, poupando-nos à maçada de ler o livro todo “Dois corpos tombando na água” em breve nos escaparates:

        entrego-te as palavras mais brandas

            que entre os meus dedos construí

            para alimentar de ti os recantos da casa

            invadindo o coração da noite

 

            entrego-te as palavras com a redonda luz

            das maçãs sobre a mesa   e o rumor da água

            rasgando o caminho da paixão

            em horas que já não conseguimos   sem ajuda

            recordar

            mas que habitam a mais frágil memória de nós

            próprios

 

            palavras rompendo dos meus olhos

            a invadir-te o sono   e tropeçando

            nas esquinas das frases que decoro

            ao longo dos veios da tua pele

 

            e a verdade é que nunca terei outra história

para além da que nos aconteceu

            e que ficamos à espera de um dia perceber me-

            lhor

            porque nunca ninguém se prepara convenien-

            temente

            para a chegada do amor

            e ele é sempre um convidado estranho

sentado em silêncio na penumbra da sala

            olhando os quadros   o chão   o tecto

 

            como um velho parente da província

            com medo de dizer o que não deve

 

        De facto, pode considerar-se piedosa a obra do JL, alertando-nos para a mediocridade do livro que aí vem.

            De entre o chorrilho de surpresas, anotem-se os seguintes:

            Conforme diz o Jl, a autora não escrevia poemas há 50 anos: constatando-se que tem 64, não os escrevia desde os 14.

            O prémio atribuído, “Maria Amália Vaz de Carvalho”, outorgado pela autarquia de Loures, integrava um júri constituído por dois Fernandos especialistas (o Martinho e o Pinto do Amaral), coadjuvados por um tal José Correia Tavares, da Associação Portuguesa de Escritores.

A publicidade anunciou que a obra acabou por ser a escolhida pela “intensidade lírica e excelência da realização verbal que a acompanhava”.

Fernando Pinto do Amaral, crítico literário e porta-voz do júri, considerou ser “arriscado escrever poesia de amor, devido à monotonia temática, à linguagem geralmente codificada e sujeita a lugares-comuns”. Contudo, o júri reconheceu que “Alice Vieira, com versos intensos e pungentes, conseguiu escapar a todas essas armadilhas e, num tom intimista, demonstrar a capacidade de dádiva e entrega que o amor nos ensina”.

 

Nada mais falso, como se pode verificar pela releitura do poema acima, que é um chorrilho de lugares-comuns. Não é necessária a lupa. Mas observemos alguns:

Banalidades triviais como “a verdade é que”, “nós próprios” e o “nunca ninguém”;

Expressões como esta, “invadindo o coração” retiradas? de baladas de grupos pop, El Bando Lyrics, do texto "Com você perto de mim”

É sempre assim
Com você perto de mim
Essa paixão
Invadindo o coração.

Expressões como esta, “luz redonda”, retiradas? de poetas tais como o Luiz de… Miranda:

Seguirei
até que te convertas
na própria tinta das palavras
e venhas a escrever
desde esta janela de espanto
que é o mundo
luz redonda de infinito.

            Repare-se que esta expressão se limita a inverter a “redonda luz” de Ramos Rosa e do seu livro de poemas “Mediadoras” de 1985.

Suavidade e tumulto.

Aroma da nudez.

Luz redonda, luz delícia

de evidência.

            E que a expressão “tropeçando nas esquinas” já vem da “Canção breve” da obra de Eugénio de Andrade “Os amantes sem dinheiro”:

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

 

            Anote-se que os versos de Alice Vieira nada têm a ver com os poemas de Ramos Rosa e que os de Eugénio de Andrade citado são de 1950 e plagiados.

 

            Com efeito, na era do poema, afastada já a época da poesia, ainda se premeiam versos.

 

            O presente texto foi alinhavado à pressa: sandice seria fazer o contrário: perda de tempo.

 

E que se conclui virando o cinismo contra a própria autora, glosando as suas palavras:

o velho parente da província

            não teve medo de dizer o que não deve

 

 

Publicado por barbant em 09:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 05, 2007

BURLESCAS



MULHER DE SONHO



      

            tu és a mulher dos meus sonhos
          a que ocupa as minhas vinte e quatro horas
          a que eu vejo em todos os rostos de mulher
          a única a mais bela
          a que encaixa em todos os chavões sobre o amor
          inventados e por inventar

          mas és tu também a fonte de sofrimento
          criaste um vazio no meu peito como um cancro
          em todos os teus gestos vejo o açoite do ciúme
          enterrado vivo em cenário de pântano e noite
          de Eliot me vestiste a “intolerável camisa de fogo”

          vê se desces do sonho à realidade
          ou então puta que te pariu
          mulher dos meus sonhos

 

Publicado por barbant em 06:04 PM | Comentários (1) | TrackBack