OS
VERSOS PREMIADOS DE ALICE VIEIRA – –UM
CHORRILHO DE SURPRESAS
Leia-se,
com o mínimo de atenção, estes versos premiados da escritora Alice
Vieira que o JL, na sua edição
11 a
24 de Abril de 2007 nos proporcionou, poupando-nos à maçada de ler o
livro todo “Dois corpos tombando na água” em breve nos escaparates:
entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite
entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa
e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos
sem ajuda
recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós
próprios
palavras rompendo dos meus olhos
a invadir-te o sono e
tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele
e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber me-
lhor
porque nunca ninguém se prepara convenien-
temente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o
chão o tecto
como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve
De facto, pode considerar-se
piedosa a obra do JL, alertando-nos para a mediocridade do livro que aí
vem.
De entre o chorrilho de surpresas, anotem-se os seguintes:
Conforme diz o Jl, a autora não escrevia poemas há 50 anos:
constatando-se que tem 64, não os escrevia desde os 14.
O prémio atribuído, “Maria Amália Vaz de Carvalho”,
outorgado pela autarquia de Loures, integrava um júri constituído por
dois Fernandos especialistas (o Martinho e o Pinto do Amaral),
coadjuvados por um tal José Correia Tavares, da Associação Portuguesa
de Escritores.
A publicidade anunciou que a obra acabou por
ser a escolhida pela “intensidade lírica e excelência da realização
verbal que a acompanhava”.
Fernando Pinto do Amaral, crítico literário e
porta-voz do júri, considerou ser “arriscado escrever poesia de amor,
devido à monotonia temática, à linguagem geralmente codificada e
sujeita a lugares-comuns”. Contudo, o júri reconheceu que “Alice
Vieira, com versos intensos e pungentes, conseguiu escapar a todas essas
armadilhas e, num tom intimista, demonstrar a capacidade de dádiva e
entrega que o amor nos ensina”.
Nada mais falso, como se pode verificar pela
releitura do poema acima, que é um chorrilho de lugares-comuns. Não é
necessária a lupa. Mas observemos alguns:
Banalidades triviais como “a verdade é que”, “nós próprios” e o
“nunca ninguém”;
Expressões como esta, “invadindo o coração” retiradas? de baladas
de grupos pop, El
Bando Lyrics, do texto
"Com
você perto de mim”
É
sempre assim
Com você perto de mim
Essa paixão
Invadindo o coração.
Expressões
como esta, “luz redonda”, retiradas? de poetas tais como o Luiz
de… Miranda:
Seguirei
até que te convertas
na própria tinta das palavras
e venhas a escrever
desde esta janela de espanto
que é o mundo
luz redonda de infinito.
Repare-se que esta expressão se limita a inverter a “redonda
luz” de Ramos Rosa e do seu livro de poemas “Mediadoras” de 1985.
Suavidade
e tumulto.
Aroma
da nudez.
Luz
redonda, luz delícia
de
evidência.
E que a expressão “tropeçando nas esquinas” já vem da
“Canção breve” da obra de Eugénio de Andrade “Os amantes sem
dinheiro”:
Tudo me
prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.
Anote-se
que os versos de Alice Vieira nada têm a ver com os poemas de Ramos
Rosa e que os de Eugénio de Andrade citado são de 1950 e plagiados.
Com
efeito, na era do poema, afastada já a época da poesia, ainda se
premeiam versos.
O
presente texto foi alinhavado à pressa: sandice seria fazer o contrário:
perda de tempo.
E que
se conclui virando o cinismo contra a própria autora, glosando as suas
palavras:
o velho parente da província
não teve medo de dizer o que não deve
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