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Em tempos, Nel Meirelles pediu-me
um prefácio para o livro que ia publicar "Teoria da Tocaia".
Lamentavelmente, o livro não saiu, e agora não sabemos se sairá, já
que Nel foi vítima da maior das tocaias: a morte.
Para a sua poesia que abunda
na net, aqui fica como introdução e homenagem o
PREFÁCIO
A FACE OCULTA DOS DEDOS
O prefácio pretende ser a mão, a mão que puxa o braço, o braço
do leitor, provocando o encontro, o conflito, a partilha com o autor.
Esse
gesto deve ser rodeado de todas as cautelas. Tal uma donzela desconfiada,
o leitor só pode ser levado à xácara dos poemas caso a estratégia
seja armada com sapiência. Ainda a donzela: não se pode agarrar com
brusquidão, beijar brutalmente na boca, dar queda súbita no chão.
Preferível é passar primeiro a mão nos cabelos, roçagar demais de
leve a cútis do rosto, mesmo um toque quase de insecto nos ombros nus.
Também
a mão, o prefácio, deve atender à objectividade. Não sonegar informação
desfavorável. Não elogiar o inilogiável a olho nu. Não se vitimar de
eventual amizade que liga prefaciador e autor.
A
mão, tal como o autor, embora múltipla é una. Os leitores, os braços
a cativar, são múltiplos e todos diferentes. Embora possam se
arregimentar em grupos mais ou menos aparentados mas sempre muito sui
generis.
Vamos
então delinear as várias formas de convencer e vencer o braço, os braços.
Atribuindo a cada dedo da mão uma das cinco colectâneas que compõem
“Teoria de Tocaia”.
Você
é leitor pouco dado a leitura de poemas? Desconfia, resiste, recua.
Preferia coisas simples, de fácil entendimento, com música e
musicalidade, algo que não bulisse com reflexões e pensées. Além
disso, é jovem ainda, sem tempo e paciência, atributos que só mais
tarde se aproximam de nós. Requer que o autor faça seu ouvido,
retomando palavras ou frases em locais ulteriores: “mulher nua” será,
neste caso, o seu refrão; poderá, também, neste âmbito, saborear a síntese
perfeita de materiais simples e repetidos, o poema “sensa te”. Então,
porque a ordem é arbitrária, apesar de não haver poesia popular aqui,
dir-lhe-ei por onde começar. Mas não olvide nunca a frase que ouvi
pessoalmente de enormíssimo poeta: “Leia, leia sempre, releia, volte
a ler, por difícil que seja a leitura sempre ficará algo e cada vez
entenderá mais”.
No
entanto, deveria começar por “andanças”. Braço no braço com o
autor, regresso à louca juventude de ruas e calçadas, devaneio sinuoso
por sonhos e ilusões, tudo colado no flash luminoso dos cinemas.
Deslizar nas “madrugadas de aterro”, nas varandas onde “as
margaridas namoram o mar”, nas “esquinas ... das artérias”.
Ah
não, você é leitor experiente, mas é mais atreito a determinadas
escolas literárias. Porquê dogmas desses? As escolas literárias são
todas boas quando são boas e, como na antropofagia, comem-se umas às
outras. Coma-as também, isto é, não se subjugue cegamente. É certo,
não é ético que um autor deite mão de todas as escolas e as misture
em seus textos promiscuamente. Aqui, neste livro, só há uma escola: a
de Nel Meirelles. Vê a porta? Entre nela.
Entre
pela porta principal, comece pelo princípio. “poesia”, ars poetica,
auto-análise, olhar vidrado e virado sobre si próprio, umbigo,
umbilical.
Apropriando-se da arte de matar versos ou aceder aos que se
“escapam” e “jazem ... / dispersos”.
Estou vendo que você é mesmo radical, obstinado, consútil. Homem,
sente nesta mesa, o festim também é variado: tem ternura, tem paixão,
tem saudades, tem fogo, tem emoção, tem ironia, tem boutade,
tem vida. Veja aí nesses copos, todos os líquidos de que se compõe o
poema: o sangue, o mel, a ambrosia, as águas. E nos cantos, confundindo-se
na toalha rendada: o luar, o riso, o vento, o oiro. Não tem mais que
estender os dedos. Que estão na ponta do braço.
“de mim” dar-lhe-á um pouco de saciedade a
sua sede. Nada melhor que um ser complexo, ainda que literário,
para acalmar bocas e línguas e gargantas sôfregas. Apesar da turbulência.
Mas esse stress é sua condição e sua exigência.
Abarcando como num manual, definições tais como a de que “envelhecer
é deixar a esperança / debaixo da cama”, “o brilho ... dos olhos /
ofusca o momento seguinte” ou que o pequeno-almoço pode saber a
“café com não”.
E, também, lidar com a lei das compensações: “obituário” prova
que o amor acaba mas a poesia não.
E, por fim, assombrar-se com versos verdes e azuis (“o que deu fim à
série”).
Intelectual, você? Bom, aí eu já não me atrevo a sugerir,
porque conselho eu não dou nunca. Saberá num relance por onde começar,
onde permanecer e o que “desprezar”. Tendo sempre debaixo do braço
a noção de que o erro não deve ser expulso do dicionário.
Seu
jeito não pode deixar de ser nocturno. Então embrenhe-se nesta
“noite” e se deixe envolver por seus lençóis. O intelectual vive
da noite, vive na noite, aí se enterra para renascer na aurora
assassina. Também os juristas, e aqui não há justiça alguma,
recorrem da noite seus melhores e mais vitoriosos pareceres.
Por
si, ancorado nesta noite, fica emparedado e submerso em “luas de
virada”, subúrbios de estrelas, leitos insones, madrugadas desbotadas,
ainda que se aparente reclinado em “colchão de sonhos”.
Apenas
mais um leitor. O feminino, quer seja mulher ou homem. O que inclina
cabelos compridos no branco cheiro de pinho do papel. O que traz coladas
nos lábios a sensibilidade e a flexibilidade. O que casa com o ritmo
das palavras e, de corpo nu, cavalga as frases até ao final da obra.
Como todos os outros, você é bendito aqui. Mas só você simboliza a
osmose perfeita. Apenas diferente de outras osmoses ou metamorfoses.
A
si, minha linda, ou meu cara invertido ou meu bloco de cromossomas
equilibrado, só “amor” coaduna e serve. Amor, o tema mais antigo do
mundo, aqui ressumando aspectos absolutamente novos: o amor
“convexo”, espalhando “... esporos / e rastros / pelo canto do
espelho”, “o cheiro / do jazz(mim)”, “o espaço / curvo / que
resiste / entre / o sim / e o não”.
Onde
poderá encontrar um poema de beira de ruína”ne me quitte pas”, em
que é possível sentir, grosso jorrado audível, o ruído das letras:
ruído de amor. E, ainda, se a boca colares no poema “boca”, dar
testemunho, um mais, de mundos permutados.
Enquadrados
e integrados “todos” os leitores, abordemos, numa carícia, as faces
mais salientes que ressaltam em originalidade do poliedro deste(s)
texto(s). Retomando a mão e seus cinco dedos, usaremos ainda e sempre
este numeral, como se do vale onde repousam deitados os poemas se
erguessem cinco colinas, dedos redondos e abertos, porque é fundamental
frisar esta capacidade fantástica da mão de se abrir e fechar. Ou,
melhor, fechar e abrir.
Começo
por aquilo que designaria de tournée. Um certo cosmopolitismo,
um misturar de saberes e conhecimentos. Desaguando
em geografias. Geografia
física, centralizada no Brasil mas estendendo-se à restante América
do Sul, insidiosa pelos Estados Unidos, buscante de uma determinada
Europa. Geografia afectiva, aderente ao Rio e Pernambuco, erguendo
locais da memória, relevando infâncias, vivências, pessoas que se
misturaram em seu ser. Geografia cultural abarcante, de língua e
linguagem, remontando aos eros gregos e aos dominus
latinos e seduzida pelos sons que hoje tangem sinos: “non sense”,
“ma non troppo”, “ne me quitte pas”.
Entremos
de mergulho na face nocturna. Entretecida de luas, luar, leitos,
estrelas, sombras. Há até quem lhe chame o poeta dos nocturnos: uma
forma subtil de convocar Chopin às letras. De facto, o poema nasce no
meio da noite e soçobra como vampiro na luz ofuscante do dia. Precisa,
nem sempre da noite, mas de local recolhido, não perturbado, ou, se dia
for, de um semicerrar de olhos escutante de nascente. E dessa noite faz
dia, tendo sempre como alvo o fogo diurno do sol.
Poderíamos
falar de influências. Mas seria perda de tempo, sei do repúdio do
autor. De relance, alguma obtenção de abstracto pessoana, o voo da metáfora
de Quintana, algum eflúvio sonoro augustista e alphonsino, a irónica
agulha drummondiana. Mas não faria sentido. Algum faz, lembrar Manoel
de Barros: o homem coisal, os defloramentos, a desvirginização, os
vareios do dizer. Mas tudo isto não passa de mera retaguarda.
Muito
mais adequado seria falar de fluências. É um discurso e um ritmo que
flui, torrencial e inspirado, sem gaguez, sem recurso a voz rouca, sem
se enredar em preciosismo ou blague. Rio inclinado para a foz,
buscando imanente seu declive, recorrendo à usura, ao silogismo e mesmo
à coloquialidade. Veja-se o tratamento popular de um santo por “Tião”,
veja-se o “cri-cri-car”, veja-se o “tec-tec” dos sapatos.
Como
de seio fecundo, o leite escorre encaroçado de palavras.
O
formalismo. Não arbitrário. Não despiciendo. Que, muitas vezes,
inverte os atributos, como acontece em “concerto”; e noutras atribui
função dupla à morfologia: veja-se o caso do verso “dos” em “descompassado”.
Para não fadigar, para não repetir aqui o texto que está a seguir,
enunciaremos apenas dois aspectos:
O
uso, não indiscriminado, do prefixo “des” irradia um choque fonético
e conteudal. Inverte de cabeça para baixo a incidência da escrita. Mas,
sobretudo, cria o reverso, o impacto, o desabar do texto sobre os ombros
de quem lê. Cindido, fracturado, estilhaçado, o texto se transforma.
Em dois. Ou
vários. E atinge de agulha o reino da surpresa.
Segundo
aspecto: além da colocação subtil do caracter “:” (dois pontos)
isolado em início de verso,
repare-se no imaginário que se origina da desmontagem da palavra
“jasmim” em “jazz(mim)”. Mantém a flor e seu cheiro, convoca
uma corrente musical das mais complexas, dispõe na horizontal as estátuas
jacentes do ser, abarcando o próprio autor e suas estâncias eu / “mim”,
aludindo, também, por força das vogais utilizadas a sons que retinem
de forma sinestésica.
Last
but not the least, faceta a meu ver a mais proeminente, aquilo que
denominaria de contorcionismo. O poeta, homem másculo masculino, pela
primeira vez de forma iniludível, coerente e consciente, coloca-se no
feminino do parto. Recolhendo no tecido das expressões os vocábulos
inerentes: “entranha”, “faca”, “uivo”, “borrifo”, “perfura”,
“lambe”, “rasgo”, “útero”.
Exemplificando:
tuas coxas (da poesia por metáfora) “abrem-se / em direcções /
opostas”, carecendo de ser percutido o centro; “por isto, / porque
és / me desvisto da minha pele / e calço a tua pele”;
“solfejo / de frente / o parto da dor / e / existo”.
Invadindo
a esfera que só à mulher respeita, insinuando a ilusão de que apenas
recorre ou incorre na metáfora de que o poema é, também, parto. E
parto, tal como poema, denuncia nascer, dor, sangue, pútridas matérias
mexidas e misturadas à procura de cristalização. No ser, humano ou poético.
Enfim.
Versátil.
E uno. Assim é este autor que, como já foi mencionado, é também múltiplo.
Na sua unidade central. E frontal.
Podemos
subir a escada de luar com ele.
Podemos
descer a ruela e dar uma queca na mulher esquinada.
Podemos
rir com ele da hipocrisia, da miséria, das lantejoulas dos avantajados.
Podemos apertar-lhe a mão, suada de palavras e gestos e decepções,
e, quem sabe?, atingir “a face oculta” dos “dedos”.
Podemos
perfurar sua “família”.
Podemos
deitar-nos lado a lado no chão e expulsar a raiva da boca.
Podemos
amar as mulheres que amou e ainda as que amará.
Podemos
ser ele por um tempo.
E
depois vem a libertação. Já não plena, espero. Como um cachorro
depois da chuva, sacudimos a água dos pelos. E oxalá vos aperte o
calor e tenhais sede de voltar a mergulhar vosso corpo, adrede poético,
nesta mesma lagoa.
Que
também é ou conduz a um rio.
E
mais do que isso, a um poço.
Fundo.
Enfim,
terrenos de suas águas.
Como
se foram de mulher, prenhes.
Literomania.
Teoria
da tocaia, eis o que se ousou. Com muitos materiais (in)conscientes e,
sobretudo, inscientes. Tentando demonstrar como se assumiu em carne a
armadilha: da musa ao poeta, da vida ao homem, da morte à vida, da
noite ao dia, da dor ao amor.
Gesto
moldado
em escrita. Acontecida
no sítio genésico, os dedos, onde o sangue flui livremente e se poderá
escancarar a sua face oculta. Dos dedos e de seu sangue.
Lendo
o livro que está a seguir, cumprir-se-á a prática da tocaia. Nunca
inocente. Sem retorno. Porque assim foi e será sempre sua índole. E
sua pele.
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