fevereiro 25, 2007

Pobríncia



EM TERRAS DA MORGADINHA



                  

        Tinham-lhe enviado o nome, que, ensarilhado noutros, ressumava povoados antigos, arcaicos, machos, resistentes, mas, no entanto, desverdeados e prostituídos pelos turismos vigentes.
           
Marcou o dia, que se revelou ameaçador de chuvas. Crente de que as águas poderiam pairar sem cair, que a frescura dos dias era o melhor véu para antepor a surtidas a pé e inquirições, que um almoço no íntimo do frio sublima aromas e paladar, iniciou a viagem.

            Com o dia a comportar-se, ainda pode deter-se em alguns bicos de estrada, e perscrutar o rio na barragem: gordo de albufeira de um lado e de fio e pedregoso do outro: duas faces díspares, como se nem de irmão fossem.

             A seguir interna-se nos montes, nos montedos, na montanha. Era o reino bárbaro e original, onde medra apenas o centeio, e de cima espreita soturno o penedo e o pinhal. Os quais, lentamente se vão acinzentando, amorfos de neblina, iniciando os ramos uma titilação altamente pronunciadora de borrasca.
           
E porque a seguir surgem verdejando campos esparsos, que a pouco e pouco se vão agrupando e adensando, vencendo a mata que fica na cauda, febrilmente lhe acode a entrada dos “dois viandantes” em terras da Morgadinha.
           
Face que se acentua vivamente, acordemente, fazendo descair a coincidência de muitos aspectos. Em bardos e latadas soltam-se as ramadas, ergue-se redondo o castanheiro, pequenos pormenores de maçã e pêra negrejam nas hortas.
           
Foi quando o ribeiro assomou premonitório, com sua ingénua ponte, seus salgueiros e ancoradouros. Era fatal deter o carro e embrenhar-se um pouco nos carreiros já enlameados, fazendo ressaltar olhos na corrente já agreste a que encostava o salto brusco da rã, a fuga de barco-a-motor dos ratos, a permanência pegajosa da lesma.
           
Desviando, pela encosta acima já nos ladeia a vizinhança das casas que no alto, junto a um largo frondoso de carvalhas, ostenta o centro da povoação: ao lado, descaído, o velho burgo, para cima, em direcção ao castelo de penedos, o lugar novo, as casas sufragadas pelos emigrantes.

            No entanto, perscrutando sob a chuva suspensa e iminente, não se vislumbram vestígios do tal parque de campismo. E, consultada a placa, os dizeres que constam não são consonantes. De facto, sendo este torrão molde arquétipo de terras morgadinhícas, não desfruta decerto das atracções que pudessem cativar exigências turísticas.      

            Pelo que, há que avançar, começando a descer outra encosta, íngreme, visionando ao longe gordo rio, deduzindo-se que ali é que é. E de facto, já quase na ponte avantajada, surge o parque repleto de tendas, encostadas aos pinheiros vetustos, e os habitantes que por ali rabeiam.

             Segues, exploras este outro povoado, as suas gentes, as ruínas das casas e os casarões particulares e comerciais. E depois de rodear a igreja e o cemitério, alvitrando passeios, arrisca-se a ida até aos longes dos cerros, onde espumam brancas as quedas de água.
           
Inolvidável o passeio rente aos ribeiros, o húmido dos caminhos e dos campos, o monte que se ergue abrupto e ameaçador. Entretanto o céu escurece totalmente, a tarde gastou-se, é quase noite e a chuva começa a desabar. Desprotegidos, abrigam-se sob um carvalho, procurando a incidência mais densa do dossel de folhas. Situação delicada: entre o romântico do espectáculo e as lâminas frias das gotas e dos ventos que afinal os atingem. E, sobretudo, ante a ameaça apoplética de uma trovoada empurrada de raios.

            Afinal aliviou, o que permitiu atingir o carro, após inúmeros escorregões nas ervas engordadas de água e nas terras tornadas lamas. E após um singular jantar, cicatrizar o regresso, enfrentar a estrada, a noite e a tempestade que se instalaram de vez.

            Irmanando-nos, de novo, ao Inverno genuíno, de que sofreram os “dois viandantes”. 

Publicado por barbant em 03:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 16, 2007

EM MEMÓRIA



               

        Em tempos, Nel Meirelles pediu-me um prefácio para o livro que ia publicar "Teoria da Tocaia". Lamentavelmente, o livro não saiu, e agora não sabemos se sairá, já que Nel foi vítima da maior das tocaias: a morte.
        Para a sua poesia que abunda na net, aqui fica como introdução e homenagem o

                               PREFÁCIO
              A FACE OCULTA DOS DEDOS


             O prefácio pretende ser a mão, a mão que puxa o braço, o braço do leitor, provocando o encontro, o conflito, a partilha com o autor.
           
Esse gesto deve ser rodeado de todas as cautelas. Tal uma donzela desconfiada, o leitor só pode ser levado à xácara dos poemas caso a estratégia seja armada com sapiência. Ainda a donzela: não se pode agarrar com brusquidão, beijar brutalmente na boca, dar queda súbita no chão. Preferível é passar primeiro a mão nos cabelos, roçagar demais de leve a cútis do rosto, mesmo um toque quase de insecto nos ombros nus.
           
Também a mão, o prefácio, deve atender à objectividade. Não sonegar informação desfavorável. Não elogiar o inilogiável a olho nu. Não se vitimar de eventual amizade que liga prefaciador e autor.
           
A mão, tal como o autor, embora múltipla é una. Os leitores, os braços a cativar, são múltiplos e todos diferentes. Embora possam se arregimentar em grupos mais ou menos aparentados mas sempre muito sui generis.

            Vamos então delinear as várias formas de convencer e vencer o braço, os braços. Atribuindo a cada dedo da mão uma das cinco colectâneas que compõem “Teoria de Tocaia”.

            Você é leitor pouco dado a leitura de poemas? Desconfia, resiste, recua. Preferia coisas simples, de fácil entendimento, com música e musicalidade, algo que não bulisse com reflexões e pensées. Além disso, é jovem ainda, sem tempo e paciência, atributos que só mais tarde se aproximam de nós. Requer que o autor faça seu ouvido, retomando palavras ou frases em locais ulteriores: “mulher nua” será, neste caso, o seu refrão; poderá, também, neste âmbito, saborear a síntese perfeita de materiais simples e repetidos, o poema “sensa te”. Então, porque a ordem é arbitrária, apesar de não haver poesia popular aqui, dir-lhe-ei por onde começar. Mas não olvide nunca a frase que ouvi pessoalmente de enormíssimo poeta: “Leia, leia sempre, releia, volte a ler, por difícil que seja a leitura sempre ficará algo e cada vez entenderá mais”.

            No entanto, deveria começar por “andanças”. Braço no braço com o autor, regresso à louca juventude de ruas e calçadas, devaneio sinuoso por sonhos e ilusões, tudo colado no flash luminoso dos cinemas. Deslizar nas “madrugadas de aterro”, nas varandas onde “as margaridas namoram o mar”, nas “esquinas ... das artérias”.

            Ah não, você é leitor experiente, mas é mais atreito a determinadas escolas literárias. Porquê dogmas desses? As escolas literárias são todas boas quando são boas e, como na antropofagia, comem-se umas às outras. Coma-as também, isto é, não se subjugue cegamente. É certo, não é ético que um autor deite mão de todas as escolas e as misture em seus textos promiscuamente. Aqui, neste livro, só há uma escola: a de Nel Meirelles. Vê a porta? Entre nela.

            Entre pela porta principal, comece pelo princípio. “poesia”, ars poetica, auto-análise, olhar vidrado e virado sobre si próprio, umbigo, umbilical.
            Apropriando-se da arte de matar versos ou aceder aos que se “escapam” e “jazem ... / dispersos”.


             Estou vendo que você é mesmo radical, obstinado, consútil. Homem, sente nesta mesa, o festim também é variado: tem ternura, tem paixão, tem saudades, tem fogo, tem emoção, tem ironia, tem boutade, tem vida. Veja aí nesses copos, todos os líquidos de que se compõe o poema: o sangue, o mel, a ambrosia, as águas. E nos cantos, confundindo-se na toalha rendada: o luar, o riso, o vento, o oiro. Não tem mais que estender os dedos. Que estão na ponta do braço.

             “de mim” dar-lhe-á um pouco de saciedade a  sua sede. Nada melhor que um ser complexo, ainda que literário, para acalmar bocas e línguas e gargantas sôfregas. Apesar da turbulência. Mas esse stress é sua condição e sua exigência.
             Abarcando como num manual, definições tais como a de que “envelhecer é deixar a esperança / debaixo da cama”, “o brilho ... dos olhos / ofusca o momento seguinte” ou que o pequeno-almoço pode saber a “café com não”.
             E, também, lidar com a lei das compensações: “obituário” prova que o amor acaba mas a poesia não.
             E, por fim, assombrar-se com versos verdes e azuis (“o que deu fim à série”).
  

 
            Intelectual, você? Bom, aí eu já não me atrevo a sugerir, porque conselho eu não dou nunca. Saberá num relance por onde começar, onde permanecer e o que “desprezar”. Tendo sempre debaixo do braço a noção de que o erro não deve ser expulso do dicionário.

           
Seu jeito não pode deixar de ser nocturno. Então embrenhe-se nesta “noite” e se deixe envolver por seus lençóis. O intelectual vive da noite, vive na noite, aí se enterra para renascer na aurora assassina. Também os juristas, e aqui não há justiça alguma, recorrem da noite seus melhores e mais vitoriosos pareceres.
           
Por si, ancorado nesta noite, fica emparedado e submerso em “luas de virada”, subúrbios de estrelas, leitos insones, madrugadas desbotadas, ainda que se aparente reclinado em “colchão de sonhos”.


           
Apenas mais um leitor. O feminino, quer seja mulher ou homem. O que inclina cabelos compridos no branco cheiro de pinho do papel. O que traz coladas nos lábios a sensibilidade e a flexibilidade. O que casa com o ritmo das palavras e, de corpo nu, cavalga as frases até ao final da obra. Como todos os outros, você é bendito aqui. Mas só você simboliza a osmose perfeita. Apenas diferente de outras osmoses ou metamorfoses.

           
A si, minha linda, ou meu cara invertido ou meu bloco de cromossomas equilibrado, só “amor” coaduna e serve. Amor, o tema mais antigo do mundo, aqui ressumando aspectos absolutamente novos: o amor “convexo”, espalhando “... esporos / e rastros / pelo canto do espelho”, “o cheiro / do jazz(mim)”, “o espaço / curvo / que resiste / entre / o sim / e o não”.
           
Onde poderá encontrar um poema de beira de ruína”ne me quitte pas”, em que é possível sentir, grosso jorrado audível, o ruído das letras: ruído de amor. E, ainda, se a boca colares no poema “boca”, dar testemunho, um mais, de mundos permutados.


           
Enquadrados e integrados “todos” os leitores, abordemos, numa carícia, as faces mais salientes que ressaltam em originalidade do poliedro deste(s) texto(s). Retomando a mão e seus cinco dedos, usaremos ainda e sempre este numeral, como se do vale onde repousam deitados os poemas se erguessem cinco colinas, dedos redondos e abertos, porque é fundamental frisar esta capacidade fantástica da mão de se abrir e fechar. Ou, melhor, fechar e abrir.

           
Começo por aquilo que designaria de tournée. Um certo cosmopolitismo, um misturar de saberes e conhecimentos. Desaguando em geografias. Geografia física, centralizada no Brasil mas estendendo-se à restante América do Sul, insidiosa pelos Estados Unidos, buscante de uma determinada Europa. Geografia afectiva, aderente ao Rio e Pernambuco, erguendo locais da memória, relevando infâncias, vivências, pessoas que se misturaram em seu ser. Geografia cultural abarcante, de língua e linguagem, remontando aos eros gregos e aos dominus latinos e seduzida pelos sons que hoje tangem sinos: “non sense”, “ma non troppo”, “ne me quitte pas”.

           
Entremos de mergulho na face nocturna. Entretecida de luas, luar, leitos, estrelas, sombras. Há até quem lhe chame o poeta dos nocturnos: uma forma subtil de convocar Chopin às letras. De facto, o poema nasce no meio da noite e soçobra como vampiro na luz ofuscante do dia. Precisa, nem sempre da noite, mas de local recolhido, não perturbado, ou, se dia for, de um semicerrar de olhos escutante de nascente. E dessa noite faz dia, tendo sempre como alvo o fogo diurno do sol.

           
Poderíamos falar de influências. Mas seria perda de tempo, sei do repúdio do autor. De relance, alguma obtenção de abstracto pessoana, o voo da metáfora de Quintana, algum eflúvio sonoro augustista e alphonsino, a irónica agulha drummondiana. Mas não faria sentido. Algum faz, lembrar Manoel de Barros: o homem coisal, os defloramentos, a desvirginização, os vareios do dizer. Mas tudo isto não passa de mera retaguarda.
            Muito mais adequado seria falar de fluências. É um discurso e um ritmo que flui, torrencial e inspirado, sem gaguez, sem recurso a voz rouca, sem se enredar em preciosismo ou blague. Rio inclinado para a foz, buscando imanente seu declive, recorrendo à usura, ao silogismo e mesmo à coloquialidade. Veja-se o tratamento popular de um santo por “Tião”, veja-se o “cri-cri-car”, veja-se o “tec-tec” dos sapatos.
           
Como de seio fecundo, o leite escorre encaroçado de palavras.

           
O formalismo. Não arbitrário. Não despiciendo. Que, muitas vezes, inverte os atributos, como acontece em “concerto”; e noutras atribui função dupla à morfologia: veja-se o caso do verso “dos” em “descompassado”. Para não fadigar, para não repetir aqui o texto que está a seguir, enunciaremos apenas dois aspectos:
           
O uso, não indiscriminado, do prefixo “des” irradia um choque fonético e conteudal. Inverte de cabeça para baixo a incidência da escrita. Mas, sobretudo, cria o reverso, o impacto, o desabar do texto sobre os ombros de quem lê. Cindido, fracturado, estilhaçado, o texto se transforma. Em dois. Ou vários. E atinge de agulha o reino da surpresa.
           
Segundo aspecto: além da colocação subtil do caracter “:” (dois pontos) isolado em  início de verso, repare-se no imaginário que se origina da desmontagem da palavra “jasmim” em “jazz(mim)”. Mantém a flor e seu cheiro, convoca uma corrente musical das mais complexas, dispõe na horizontal as estátuas jacentes do ser, abarcando o próprio autor e suas estâncias eu / “mim”, aludindo, também, por força das vogais utilizadas a sons que retinem de forma sinestésica.  

           
Last but not the least
, faceta a meu ver a mais proeminente, aquilo que denominaria de contorcionismo. O poeta, homem másculo masculino, pela primeira vez de forma iniludível, coerente e consciente, coloca-se no feminino do parto. Recolhendo no tecido das expressões os vocábulos inerentes: “entranha”, “faca”, “uivo”, “borrifo”, “perfura”, “lambe”, “rasgo”, “útero”.
           
Exemplificando: tuas coxas (da poesia por metáfora) “abrem-se / em direcções / opostas”, carecendo de ser percutido o centro; “por isto, / porque és / me desvisto da minha pele / e calço a tua pele”; “solfejo / de frente / o parto da dor / e / existo”.
           
Invadindo a esfera que só à mulher respeita, insinuando a ilusão de que apenas recorre ou incorre na metáfora de que o poema é, também, parto. E parto, tal como poema, denuncia nascer, dor, sangue, pútridas matérias mexidas e misturadas à procura de cristalização. No ser, humano ou poético.

           
Enfim.
           
Versátil. E uno. Assim é este autor que, como já foi mencionado, é também múltiplo. Na sua unidade central. E frontal.
           
Podemos subir a escada de luar com ele.
           
Podemos descer a ruela e dar uma queca na mulher esquinada.
           
Podemos rir com ele da hipocrisia, da miséria, das lantejoulas dos avantajados.
            Podemos apertar-lhe a mão, suada de palavras e gestos e decepções, e, quem sabe?, atingir “a face oculta” dos “dedos”.
           
Podemos perfurar sua “família”.
           
Podemos deitar-nos lado a lado no chão e expulsar a raiva da boca.
           
Podemos amar as mulheres que amou e ainda as que amará.
           
Podemos ser ele por um tempo.
           
E depois vem a libertação. Já não plena, espero. Como um cachorro depois da chuva, sacudimos a água dos pelos. E oxalá vos aperte o calor e tenhais sede de voltar a mergulhar vosso corpo, adrede poético, nesta mesma lagoa.
           
Que também é ou conduz a um rio.
           
E mais do que isso, a um poço.
           
Fundo.
           
Enfim, terrenos de suas águas.
           
Como se foram de mulher, prenhes.
            Literomania.

           
Teoria da tocaia, eis o que se ousou. Com muitos materiais (in)conscientes e, sobretudo, inscientes. Tentando demonstrar como se assumiu em carne a armadilha: da musa ao poeta, da vida ao homem, da morte à vida, da noite ao dia, da dor ao amor.
           
Gesto moldado em escrita. Acontecida no sítio genésico, os dedos, onde o sangue flui livremente e se poderá escancarar a sua face oculta. Dos dedos e de seu sangue.
           
Lendo o livro que está a seguir, cumprir-se-á a prática da tocaia. Nunca inocente. Sem retorno. Porque assim foi e será sempre sua índole. E sua pele.

Publicado por barbant em 01:33 PM | Comentários (4)