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O casaco o queijo o cão. (Sabugueiro – Seia)
Estonteado.
Se vais a Barcelos e os milhares de galos de barro rubro avistas e
outros róseos artesanários. Se vais a Fátima e os biliões de nossas
senhoras registas e o alarido de santos e santas do paraíso. Se vais à
Nazaré e às pilhas de amêijoa suas cascas em pires côncavos, as
vivas que espicham água Também no Sabugueiro. Alguém inventou que o casaco de cabedal era dali originário. O turismo parou. Outro imitou-o e outro e outro. Depois alguém colocou o queijo da serra ao lado do casaco. E o queijo veio dos produtores, como se nascesse aqui, e começou a circular. Depois alguém imaginou que fosse vendável, por genuíno, o cão-pastor. E outro e outro. Casaco, queijo, cão. A casa comercial abria-se deitando mão de recursos vagos ou a dinheiros de emigração. A concorrência torna-se brutal. Ao trio junta-se o bar. E para uns tantos a emigração finda. Para outros evita-se. O trio, casaco queijo e cão, suborna tudo, tudo sopesa aqui. Até porque cada um produz um cheiro fortíssimo. Forte como a serra. Eles assumiram a parceria, dominam as olências e as sensações. Nada lhes resiste. Pouco importa que subas o monte fronteiriço com um desses queijos na mão e um grupo de comparsas e o esfarrapem numa algazarra de gritados e conversas atropeladas. Nada adianta a lâmina do rio escoando-se em baixo, verberando nas raias invernias, levemente enrugado por agulhas de vento que aqui no alto rasga o rosto e além abana a cabeça das árvores. É inútil. Mesmo o encaminhar dos grupos e dos isolados ao cemitério, que daqui aereamente se avista pejado de floreiras, quase carnavalesco de tanta cor e desenho engastados no dia de fiéis. O casaco de pele, o queijo da serra e o cão da estrela. O casaco o queijo o cão. Com seus cheiros, seus latidos, seus sabores. O ouvido. Também o da mente. Provocando uma sensação argamassada que sobrejaz a todas as outras. O casaco o queijo o cão. O casaco o queijo o cão. Como uma matraca. Zoando. Como uma sucessão de vagas emergindo. Como um novelo acre de ventanias. Estonteado. Impotente. Os três personagens pisam-te. Agora só cheiro áspero. Agora só letras caligráficas: casaco queijo cão. Como o corpo voraz da oração, atrai e repele. Não há talvez o empurrão, vais ficando. E
quando foges, é |

Vou-te falar como se fosses a Cinco-Irmãs.
A primeira é irmã de sangue, produzida na mesma fábrica e fruto da mesma mãe, siamesa na infância e que nas outras idades faz coincidir o nosso histograma, na desgraça quase sempre e sempre nas alegrias.
A segunda irmã é a melhor, a mais atraente, não mais bela porque tal não permite a tradição, mas mais dotada de sedução física, porque o corpo que nos pertence não
possui valor acrescentado a não ser para outro olhar e mãos.
Da terceira direi que me faz sofrer, é a que toma atitudes com as quais não concordo e não me conformo, é a que traça caminho sem ligar ao caminho que eu faria, e da minha crítica faz riso e desprezo.
A quarta é a que eu construo em meu egoísmo, menina ainda às vezes, que eu
componho com um vestido de luz, que eu faço crescer apenas mediante sons que podiam ser azuis.
A quinta tem asas, tece-se das ausências cuja intensidade só pode ser debelada pela intensidade da presença, e esta permite que cada uma das duas esqueça sua vida particular, no abraço que se fecha a nosso favor e contra tudo que insiste em nos separar.
A primeira me obriga, a segunda me atrai, a terceira é a que mais admiro, a quarta eu amo e a quinta me faz reviver.
De qual delas gosto mais? Quem sabe, Zá? Talvez da rosa-de-ventos de que se faz a intersecção das cinco.
Letra
- Antero Barbosa
Música
e Ilustração - Daniella Kai