outubro 29, 2006

Pobríncia



O casaco o queijo o cão.

(Sabugueiro – Seia)

 



                        

Estonteado. Se vais a Barcelos e os milhares de galos de barro rubro avistas e outros róseos artesanários. Se vais a Fátima e os biliões de nossas senhoras registas e o alarido de santos e santas do paraíso. Se vais à Nazaré e às pilhas de amêijoa suas cascas em pires côncavos, as vivas que espicham água em vasilhas. Se vais a Portimão e às esplanadas em que as cervejas bebem turistas. Se vais ao Gerês e ao bando de peregrinos de são bento com a devoção escarrada no beiço.

Também no Sabugueiro. Alguém inventou que o casaco de cabedal era dali originário. O turismo parou. Outro imitou-o e outro e outro. Depois alguém colocou o queijo da serra ao lado do casaco. E o queijo veio dos produtores, como se nascesse aqui, e começou a circular. Depois alguém imaginou que fosse vendável, por genuíno, o cão-pastor. E outro e outro. Casaco, queijo, cão. A casa comercial abria-se deitando mão de recursos vagos ou a dinheiros de emigração. A concorrência torna-se brutal. Ao trio junta-se o bar. E para uns tantos a emigração finda. Para outros evita-se. 

O trio, casaco queijo e cão, suborna tudo, tudo sopesa aqui. Até porque cada um produz um cheiro fortíssimo. Forte como a serra. Eles assumiram a parceria, dominam as olências e as sensações. Nada lhes resiste.

Pouco importa que subas o monte fronteiriço com um desses queijos na mão e um grupo de comparsas e o esfarrapem numa algazarra de gritados e conversas atropeladas.

Nada adianta a lâmina do rio escoando-se em baixo, verberando nas raias invernias, levemente enrugado por agulhas de vento que aqui no alto rasga o rosto e além abana a cabeça das árvores.

É inútil. Mesmo o encaminhar dos grupos e dos isolados ao cemitério, que daqui aereamente se avista pejado de floreiras, quase carnavalesco de tanta cor e desenho engastados no dia de fiéis.

O casaco de pele, o queijo da serra e o cão da estrela. O casaco o queijo o cão. Com seus cheiros, seus latidos, seus sabores. O ouvido. Também o da mente. Provocando uma sensação argamassada que sobrejaz a todas as outras.

O casaco o queijo o cão. O casaco o queijo o cão. Como uma matraca. Zoando. Como uma sucessão de vagas emergindo. Como um novelo acre de ventanias.

Estonteado. Impotente. Os três personagens pisam-te. Agora só cheiro áspero. Agora só letras caligráficas: casaco queijo cão. Como o corpo voraz da oração, atrai e repele. Não há talvez o empurrão, vais ficando.

E quando foges, é em vão. Até Seia , como enxame de besouros maldito, ronda-te o sopé da nuca, dançando frente aos olhos que criaste nas costas, os três, de dentes em riste, de dentes em riso, de pernas desengonçadas, esguichando cheiros de fartum, dermoníacos, ei-los: o casaco o queijo o cão.


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outubro 22, 2006

Tribos IX






O
primeiro som é amarelo, com força no bronze.
Tem o fogo do sol a pino, da areia do deserto
lacerando a planta do pé, e, de súbito, da
chama que se acende na folha da espada que cai.

Cai a
cabeça cortada pelo pescoço, tomba no solo com
um rasto de sangue no circuito, e o som torna-se
vermelho vivo. Da mesma cor do grito que rasga a
boca que logo se cala por ausência do jogo da
vida. E dessa cor berrante são os dedos todos,
de mãos e pés, que se estorcem no desespero já
mortal.

Surge
então a cor de um cântico, largo e plangente
coro de mulheres, louvor elegíaco derramado
como um choro que ascende e toma e tolda o
ambiente. A cor aproxima-se do negro.

Em
simultâneo, vislumbra-se o som verde das fardas
e das armas, dos buldozzers e das granadas.
Verde também, verdete, é a cor dos rostos de
quem acaso acede a presenciar a cena.

Branco
por fim é o lençol que se arremessa sobre o
corpo dividido em dois, para sempre parado e
separado da vida. Largo lençol que tapa. Não o
horror do morto mas o nosso.




Letra
- Antero Barbosa

Música
e Ilustração - Daniella Kai

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outubro 01, 2006

A Cinco-Irmãs








Vou-te falar como se fosses a Cinco-Irmãs.
 
A primeira é irmã de sangue, produzida na mesma fábrica e fruto da mesma mãe, siamesa na infância e que nas outras idades faz coincidir o nosso histograma, na desgraça quase sempre e sempre nas alegrias.
 
A segunda irmã é a melhor, a mais atraente, não mais bela porque tal não permite a tradição, mas mais dotada de sedução física, porque o corpo que nos pertence não
possui valor acrescentado a não ser para outro olhar e mãos.
 
Da terceira direi que me faz sofrer, é a que toma atitudes com as quais não concordo e não me conformo, é a que traça caminho sem ligar ao caminho que eu faria, e da minha crítica faz riso e desprezo.
 
A quarta é a que eu construo em meu egoísmo, menina ainda às vezes, que eu
componho com um vestido de luz, que eu faço crescer apenas mediante sons que podiam ser azuis.
 
A quinta tem asas, tece-se das ausências cuja intensidade só pode ser debelada pela intensidade da presença, e esta permite que cada uma das duas esqueça sua vida particular, no abraço que se fecha a nosso favor e contra tudo que insiste em nos separar.
 
A primeira me obriga, a segunda me atrai, a terceira é a que mais admiro, a quarta eu amo e a quinta me faz reviver.
 

De qual delas gosto mais? Quem sabe, Zá? Talvez da rosa-de-ventos de que se faz a intersecção das cinco.       




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Letra
- Antero Barbosa

Música
e Ilustração - Daniella Kai

Publicado por barbant em 05:47 PM | Comentários (3) | TrackBack