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O João Bispo, mostrengo disforme dizia e gabava-se: “É minha, há-de
ser minha!”.
A Mioma, homem esbelto, dizia ela nos serões que os aproximavam:
“Mais tarde, meu amor, quando nos casarmos”.
Era Glórinhas, uma jovem beleza loira.
Eis o final do livro, “Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro:
“Decidido a deixar-se viver, matando em si o atormentado, Mioma foi
bater à porta de Glórinhas. Bateu, chamou, ninguém lhe tornou
resposta. Lá ao fundo da quintã pareceu-lhe ouvir um rostolhadoiro de
palhas, difícil de presumir se de gente se de animais. E de coração
inquieto, possuído dum terror vago, meteu pela viela para que olhava a
janelinha de grade da quintã. Em face, nos amassadoiros de pedra, a
Maria Morgada, que recebera o filho da Chilandreira, a Águeda do
Narciso e outras batiam adeitos de linho. Afoito, depois de dar os bons
dias, Mioma empurrou a porta na fresta de varões. Empurrou-a dum alancão,
e seus olhos presenciaram a monstruosidade: o João Bispo, o homúnculo
hediondo, sob seu corpo seminu subjugava o corpo seminu de Glórinhas.
Bocados de formosura divina confundiam-se com luaceiros de disformidade
imunda. Ela debatia-se, o monstro que com uma das mãos lhe tapava a
boca, com a outra tenteava seu lance. Tinha a cara a escorrer sangue,
espuma nos lábios, e
era medonho em seu papel de animal, de emissário implacável da
porca madre natureza. Mioma hesitou em gritar, em chamar aquelas
mulheres a ver a desonra da sua amada e o seu opróbrio. Que chamasse…
subvertido, o corpo desejado cedeu… semicerraram-se-lhe os olhos… a
boca já livre entreabriu-se, toda a defesa parara.
Mioma largou a fugir, a uivar, alucinado, como se levasse pelo corpo e
até dentro do coração a mordê-lo, a persegui-lo, milhões de vespas
em brasa.”
Usando
este texto como pretexto:
O texto trata dum triângulo, dos muitos que o mundo viu e tem para ver.
Que aplicado a nós, apenas poderá ter esta semelhança: nós dois com
a “madre natureza”, a rotina, que nos seduz ou nos devora, também
formamos outro triângulo.
Lido este romance há muito tempo, ainda hoje impressiona o final.
Querendo, impotente, alterá-lo, o que nem sequer seria justo. Porque
tudo se consumou em resultado de duas vontades contra uma. Ou da força
maior sobre uma defesa menor.
Mas muitas dúvidas se levantam: então tudo aconteceu junto de um grupo
de mulheres que não se apercebeu dos ruídos que Mioma ouviu, estando
mais longe? E se Mioma fugiu a uivar, deixando a porta aberta, não terão
as mulheres entrado a tempo de evitar a desonra de Glórinhas? Isto é,
que dois sexos distintos em tudo, pudessem consumar-se num gesto único.
Ainda que animal.
E aqui então sobram as perguntas. Como fazer a análise de um acto, o
sexual, que é idêntico, pelo menos fisicamente, ao dos
animais? Ainda que, por vezes, um dos seres humanos seja mais
animal que humano? E que, noutras circunstâncias, como se sabe,
até entra em cena o animal, cão por via de regra?
Mais: como é a visão de cenas como esta, profundamente masculinas? Ou
até machistas? Próprias de um mundo em que o homem dominava. E os
escritores-homens. E que não mudou muito, não sei os motivos ou
sei-o bem, quando já muitas mulheres escrevem. E publicam. E têm
estatuto.
Mais ainda: cenas destas, vivenciando-as, desagradam, repugnam, são
visceralmente repelidas? Ou pelo contrário? Ou nem uma coisa nem outra?
Ou encaixam de forma natural no puzzle de carruagens da vida, que delas
se alimenta e doutras bem piores? Ou melhores, depende do ângulo
de visão ou do grau de preconceito.
Por fim: falar, abordar, viver actos um pouco marginais, em que o homem,
arma ou vítima, violenta a mulher, que se defende por força de norma
exterior e acaba por ceder por força de apelos interiores, orgânicos,
tudo isto, que conclusões faz advir? Porque, reincidindo numa palavra
deste parágrafo, e em frases que se vão condensando, muitas vezes ou
quase sempre o homem é vencido pela mulher. Ainda que tal não se faça
sentir à luz do dia. E que só conte o que se sentiu no escuro.
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