julho 29, 2006

O Douro passa por aqui

 

O DOURO PASSA POR AQUI ...



               

O Douro passa por aqui e vai-se embora, em busca do litoral.

Curiosa contradição: procura satisfazer a sua sede afastando-se dos locais em que nele se faz mais forte a satisfação da sede dos outros. Mas trata-se, também neste caso, de um mero fenómeno científico da teoria da gravidade: ele desloca-se no sentido da descida. A não ser que se possa falar de atracção cultural: em que o rio se deixa seduzir pela ponte do Eng.º
Teophile Seyrig, ou pelos Clérigos de Nazoni.

Mas a contradição permanece. Sem necessidade de fazer apelo ao ouro genuíno de um azeite que nasce da fonte do olival, à pureza terapêutica das águas, à especialidade da caça e dos enchidos ou à permanência um pouco histórica das pessoas. Nem àquela atávica escolha entre a praia e a montanha, que ainda decide, pelo menos em teoria, pela primeira. Já repararam que aqui existe o maior de todos os mares, que é um oceano megalítico?: o Marão.
Podemos agora fazer o contraponto entre dois exageros: o pessimismo de Camilo e o irrealismo de Torga.


De Camilo, usaremos a transcrição de um diálogo do primeiro capítulo do “Amor de Perdição”, entre D. Rita, dama do Paço, e seu marido, Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, recentemente nomeado juiz de fora de Vila Real, aquando da transferência para esta cidade:


“D. Rita, avistando o préstito das liteiras, ajustou ao olho direito a sua grande luneta de oiro, e disse:

- Ó Meneses, aquilo que é?

- São os nossos amigos e parentes que vêm esperar-nos.

- Em que século estamos nós nesta montanha? – tornou a dama do Paço.

- Em que século? O século tanto é dezoito aqui como em Lisboa.

- Ah!, sim? Cuidei que o tempo parara aqui no século doze…”

De Miguel Torga, vamos enxertar alguns tópicos, presentes no capítulo que à Província de Trás-os-Montes dedica no livro de 1950 “Portugal”: desde logo e, apesar da advertência de que embora as pessoas digam que não os há, Trás-os-Montes é um reino maravilhoso; depois, na afirmação megalómana de que “a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta entender a mão”: finalmente, indo ao ponto de tentar convencer outrem de que o fruto dos frutos… é a castanha, que a perdiz mesmo depois de morta parece uma deusa, que a truta “representa… o mundo da barbatana”, e que os homens matam ou morrem “movidos por altos sentimentos”.


Cremos que o exílio e a fixação são extremos de um mesmo eixo, a que vão dar as mesmas vias de comunicação. Que servem para sair mas também para entrar. E que é a este fenómeno, não esquecendo o primeiro, que se deve passar a dar prioridade e afecto.


O Douro vai-se embora com suas águas velhas. Mas um outro continua a passar por aqui feito de águas sempre novas. E renovadas.



(Texto incluído em Trabalho de Grupo, no âmbito do Balanced Scorecard)

Publicado por barbant em 11:50 AM | TrackBack

julho 20, 2006

Frutos sem flor

FRUTOS SEM FLOR
(Obsessão e metamorfose no livro de Américo Teixeira Moreira, O Corpo Restituído)



               

              Comecemos por tentar justificar o título desta apresentação. Referindo-nos a dois livros de poemas que com ele têm alguma conotação: “As Mãos e os Frutos” de Eugénio de Andrade, publicado em 1948, e as “Flores sem Fruto” de Almeida Garrett, surgidas muito antes no Romantismo.

“Frutos sem flor”, síntese aplicada a “O Corpo Restituído”, pretende tipificar uma obsessão e uma metamorfose, através de uma nova abordagem do tema amoroso, apesar das ligações obrigatórias com as duas obras referidas. E, porque se inverte a ordem das palavras de um desses livros, de “Flores sem Fruto” para “Frutos sem Flor”, podemos mesmo falar de uma certa oposição, não apenas estilística mas até temática.

Vamos então enumerar alguns frutos esquisitos, “extemporâneos” como lhes chama o autor, que não resultam, ao menos na aparência, da fase evolutiva a que se chama flor. Surgem de forma espontânea ou apoiam-se em alicerces de índole diversa daquela que é regra actuar na sua produção. Transgredindo, por isso, as elementares leis naturais.

 Vamos classificá-los mediante uma escala que resulta da sua complexidade, deixando de lado os frutos verdadeiros que aparecem no livro mas que para este efeito não têm interesse, por serem frutos normais: tais como laranja, morango, medronho, ameixa, romã. Estes seriam os frutos de 5.º grau.


            Mesmo não surgindo no livro de forma explícita, não podemos deixar de referir um fruto de 4.º grau: o figo ou bêbera como vocês dizem, que sendo fruto não depende da existência de flor.

 

Subindo a escala, encontramos no livro frutos de 3.º grau, os quais, além de ignorarem a flor, igualmente fazem esquecer a árvore. O que lhes dá um sabor outro, porque se afastam do reino vegetal para se aproximar do reino animal.

Aqui prevalece a memória. Que funciona por reflexo daquilo que outrora impressionou os 5 sentidos.

Desde logo se cristaliza em fruto o próprio “chão”: “aqui sobre este chão”, diz o poema.

Rente ao chão ou dele se erguendo por ascendência, podemos apontar outros frutos: a “alvorada” e seu fulgor enigmático; o “orvalho” com seu líquido amotinado; o “espelho”, de águas ou luzes, que se torna côncavo perante a alegria.

Ascendendo no espaço aéreo topamos outros ainda: a “resina” num rodopio telúrico: os trabalhos subtis da abelha: o “zumbido e seu tremular e o “mel” com seu doce e áspero sabor.

Mais sofisticados, tocados já por mãos, podemos enumerar ainda mais dois, devidamente desdobrados: em volume concreto o “fermento” e, em resultado da sua transformação, o “levedar”, de que o poema ouve o som e a música; nos mesmos termos, o “vinho”, produto acabado que sacode o cansaço de quem o bebe e a sua forma anterior, o “mosto”, poderosa noção que permite tornar audível um “vinhedo a cheirar”.

 

Sem delongas, acompanhando apenas a sucessão cronológica dos termos no livro, eis os frutos de 2.º grau, os que apelam já em absoluto a uma fermentação humana, sendo todos despidos da espessura da matéria, isto é, são meramente intangíveis:

O “fogo”:

         desamparado com a voz / auroral polvilhada de fogo

a

         linguagem do olhar

as “carícias”, aqui sintomaticamente ligadas à espiga

         perdemo-nos ainda em carícias

         como uma espiga colorida

a “carne”, que aqui é itinerante

         Só então soltas os suspiros do cansaço …

         para encobrir a carne itinerante / dos teus seios

o “grito”

         tornado júbilo e proveniente de muitas fontes

como seria de esperar, o “desejo”

         uma beleza de exaltação feita de desejo

         de vencer a morte

a “voz”

         sorvo com serena fantasia o som da tua voz

Repare-se na expressão verbal “sorvo”, como se aplicada a um fruto.

Ainda um fruto singular porque se trata da própria flor nele tornada, a “rosa”, glozada várias vezes no livro, sempre em acepção que a distancia de sua natural natureza:

         Quero que … / brandamente te abras como uma rosa suada.

E, por fim, esse fruto assombrado, a “memória”, que no livro se transforma em incêndio:

         essa palavra sempre fresca

         nos teus olhos quando / incendeias a memória.

 

É este o terreno em que tudo acontece: a memória e seu incêndio. Que nos leva ao tema maior do livro, o fruto de 1.º grau: o erotismo. Que não dispensa vocábulos ligados à infância. Que se serve de elementos e locais em que ela decorreu e a que se regressou já noutras idades.

Com esses elementos se produz a textura, isto é, o poema. Ainda quando as palavras coabitam em conflito. Mas , como se sabe, é ele, o conflito, a filosófica antítese, que proporciona a evolução. Mais do que isso, proporciona a vida. Vejamos alguns exemplos e repare-se como os elementos naturais, animais ou materiais são carne com carne do erotismo:

as oscilações em que trocamos

gemidos nas ceifas dos corpos

        

                   um amor que não semeia nem colhe

                   para ser livre sobre o teu corpo feito réptil

        

                   adúltera sinfonia subtraída às teclas voláteis

                   do teu corpo

         Estamos chegados àquilo a que o autor chama nomeadamente “delta”, o local onde os corpos se cruzam e que é preciso atravessar. Ou seja, em que à obsessão dos frutos se segue a metamorfose, de forma a que o corpo possa ser restituído.

         Não se trata aqui de amor platónico nem de qualquer teoria afim. Bem pelo contrário. E ao contrário também de Humberto Eco, ou de um dos seus personagens, não estamos perante terrenos não tocados pelo “pecado de Babel”, não se trata de corpos apenas tocados pela “carícia dos elementos”, não se trata daquele fenómeno masoquista em que o objectivo é “permanecer sem objectivo”.

         Não. Estamos num outro reino, em que prevalece a “geometria dos corpos”, em que se mata a “sede” no “fruto apetecido”, em que se gasta a “parábola do olhar”, em que desliza um “rio flutuante de orgasmos”, em que se consuma o “ritual voluptuoso” e a “função húmida”, em que os corpos se tornam “inconjuntados pelo tempo”.

         Por este processo, ou por esta contingência, atinge-se a maior de todas as obsessões, a mais complexa das metamorfoses: os corpos que são dois tornam-se num só.

         Está concluída, mas nunca encerrada, a viagem amorosa: que vai de uma a outra mulher; que vai da mãe à amante (amante é aquela que se ama); que vai do “bendito fruto do teu ventre” à rendição do fruto como ventre; que vai do colo ao regaço; que vai dos seios como alimento aos seios como fruição. “Agitam-se os seios”, diz-se na página 49. Os seios agitam-se, não como as searas de antigamente, mas sendo as próprias searas: frutos por gestação e gestação de novos frutos.

         Restituído, queimado por incêndios e ausências, “o corpo envelhece”. Penso que também já envelheceu o vosso interesse desde o início desta cerimónia. Só mais dois tópicos nesta senda da restituição.

         “Dança Salomé”, o último poema, aparentemente surgindo a despropósito, realiza a colisão e os contrários: remete para as tradições, para as leituras bíblicas da missa, para a atracção fatal da lenda. E permite retirar o prazer de haver profano e sagrado, porque este não existiria sem aquele, isto é, nada vive sem o seu contrário. E o poema anula o envelhecimento: perante o “volume redondo da … blusa” tudo será eterno enquanto aí durar.

         Falamos de frutos, da memória, do amor. Ou talvez não. Porque estivemos sempre exclusivamente falando de um livro, de um pomar feito só de palavras. E são elas que prevalecem, elas os frutos que só uma boca cultural pode saborear.

         Isto também está no livro, dito desta forma:

                   Só linguagem, nada mais,

                   o teu corpo, mesmo quando

                   és um sonho de fogo…

 

(Excerto do texto apresentado na Câmara Municipal de Armamar, a 1/7/2006)

Publicado por barbant em 09:08 PM | TrackBack

julho 16, 2006

A Mansão de Fiama



               

              Com o acumular dos séculos e dos volumes, os autores tomam posição, conquistando os vértices das manifestações culturais e pugnando por um posto de referência: individual, de geração, de período, de época ou universal.

            A sua posição devém extremada, torna-se tenaz, eles são os “donos” de um território que, embora delimitado, exerce uma espécie de governo ou castelo, preparado para a reverência ou a recusa.

            De tal forma assim é, que alguns autores são inclusivamente “proprietários” de determinados vocábulos e expressões. Camões e Pessoa são os grandes mercantilistas, detendo o primeiro a larga vantagem de possuir um domínio de quatro séculos, em que a sua barca balança fortemente sacudida por avanços e recuos.

            É quase proibido o uso por outrem dessas noções cristalizadas. Em Camões é um manancial, citem-se para amostra os vocábulos “desconcerto”, “mudança”, “armas”, “verme”, e as expressões “alma minha gentil”, “amor é fogo que arde sem se ver”, “bicho da terra” e “posta em sossego”; e de Pessoa “fingidor”, “orla”, “ceifeira”, “mostrengo”, “menino de sua mãe”, “mar salgado”, “se eu beijasse teu gesto”, “sino da  minha aldeia”.

            Há autores que dão à palavra / símbolo a dimensão global e única de um livro: é o caso de “aparição” em Vergílio Ferreira e no respectivo romance.

            Outros há que usam títulos que tornam complicado o seu uso posterior: é o caso de “avieiros” e “gaibéus” em Alves Redol. Diga-se que, no que a estes casos se refere, não se pode nem se quer recorrer.

            E há, sobretudo, aqueles termos que, sendo propriedade exclusiva deste ou daquele criador, são a sua própria evocação e continência sempre que mencionados: é o caso da “purinha” de Nobre, os “oaristos” de Eugénio de Castro, a “milady” de Cesário, os “olhos verdes” de Garrett, o “verde pinho” de D. Dinis, as “palavras interditas” de Andrade, a “mão de Deus” de Antero.

            Torpedear este esquema é deveras difícil. Todavia, autores há que conseguem tornear com sucesso a dificuldade: as “saudades” de Bernardim transfiguram-se na saudade / exílio de Garrett e na saudade /saudosismo de Pascoais; este obtém larga vitória sobre Camões retirando ao seu maior símbolo “lusíadas” uma letra só e inscrevendo a palavra “lusíada”; Carlos de Oliveira assume uma “descida aos infernos” que se automatiza excepcionalmente das de Torga e Dante.

            Concluindo, para não enfastiar: é Fiama quem tem a  desenvoltura de tornear a questão. De uma forma muito simples e honesta: colocando a expressão em itálico e solicitando não só o arcaboiço cultural mas também a intervenção do leitor tornando-o co-autor.

            Um exemplo paradigmático: no “Poema / cripta” de “Visões Mínimas” a expressão grafada “na mansão da morte”, embora assuma novos contornos textuais, remete iniludivelmente para Soares de Passos e o seu “noivado do sepulcro”.

Publicado por barbant em 09:54 PM | TrackBack

julho 10, 2006

Poema Bass



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 Como dedos, eles que dos dedos nascem e só deles vivem, os sons
empurram a porta. Uma e outra vez, tecendo uma chave redonda, insistindo,
insistindo, a porta vai rodando. E abre-se para o terreno anterior das recordações.

Dentro, o corpo não sente, os pés não tocam o chão que nem sequer existe.
Apenas germina e flutua um misto de sentimento: talvez solidão, talvez alegria.

Em breves instantes de duração, o filme percorre todas as horas de uma longa
história. A dois. Que não é história já, nem de dois nem de ninguém,
dispersaram-se disseminadas personagens, cenários. Pairando contra o tecto.

Como sucede sempre que o passado prevalece, não há cores, nem espaço, nem
odor, nem vivência. Apenas um frémito no seio, uma tontura no cérebro, vozes
e imagens que perpassam como aves aflitas.

A que só a música dá corpo. Todavia, nem ela se sustém. Vai-se estrangulando,
apaga-se no lume já frouxo dos dedos. Os dedos. Que já não vão a tempo, a
porta, súbita, fecha-se.

Estamos encerrados no país da memória. Convivendo com a pele dos dias que
nunca mais virão. Ou que só desta forma podem vir: não vindo.

 



Música - Daniella Kai


Texto - Antero Barbosa





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