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O DOURO PASSA POR AQUI ...
O Douro passa por aqui e vai-se embora, em busca do litoral.
- Ó Meneses, aquilo que é? - São os nossos amigos e parentes que vêm esperar-nos. - Em que século estamos nós nesta montanha? – tornou a
dama do Paço. - Em que século? O século tanto é dezoito aqui como em Lisboa. - Ah!, sim? Cuidei que o
tempo parara aqui no século doze…”
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FRUTOS
SEM FLOR
Comecemos por tentar
justificar o título desta apresentação. Referindo-nos a dois livros
de poemas que com ele têm alguma conotação: “As Mãos e os Frutos”
de Eugénio de Andrade, publicado em 1948, e as “Flores sem Fruto”
de Almeida Garrett, surgidas muito antes no Romantismo. “Frutos sem flor”, síntese aplicada a “O Corpo Restituído”, pretende tipificar uma obsessão e uma metamorfose, através de uma nova abordagem do tema amoroso, apesar das ligações obrigatórias com as duas obras referidas. E, porque se inverte a ordem das palavras de um desses livros, de “Flores sem Fruto” para “Frutos sem Flor”, podemos mesmo falar de uma certa oposição, não apenas estilística mas até temática. Vamos
então enumerar alguns frutos esquisitos, “extemporâneos” como lhes
chama o autor, que não resultam, ao menos na aparência, da fase
evolutiva a que se chama flor. Surgem de forma espontânea ou apoiam-se
em alicerces de índole diversa daquela que é regra actuar na sua produção.
Transgredindo, por isso, as elementares leis naturais.
Subindo
a escala, encontramos no livro frutos de
3.º grau, os quais, além de ignorarem a flor, igualmente fazem
esquecer a árvore. O que lhes dá um sabor outro, porque se afastam do
reino vegetal para se aproximar do reino animal. Aqui
prevalece a memória. Que funciona por reflexo daquilo que outrora
impressionou os 5 sentidos. Desde
logo se cristaliza em fruto o próprio “chão”: “aqui sobre este
chão”, diz o poema. Rente
ao chão ou dele se erguendo por ascendência, podemos apontar outros
frutos: a “alvorada” e seu fulgor enigmático; o “orvalho” com
seu líquido amotinado; o “espelho”, de águas ou luzes, que se
torna côncavo perante a alegria. Ascendendo
no espaço aéreo topamos outros ainda: a “resina” num rodopio telúrico:
os trabalhos subtis da abelha: o “zumbido e seu tremular e o “mel”
com seu doce e áspero sabor. Mais
sofisticados, tocados já por mãos, podemos enumerar ainda mais dois,
devidamente desdobrados: em volume concreto o “fermento” e, em
resultado da sua transformação, o “levedar”, de que o poema ouve o
som e a música; nos mesmos termos, o “vinho”, produto acabado que
sacode o cansaço de quem o bebe e a sua forma anterior, o “mosto”,
poderosa noção que permite tornar audível um “vinhedo a cheirar”. Sem
delongas, acompanhando apenas a sucessão cronológica dos termos no
livro, eis os frutos de 2.º grau,
os que apelam já em absoluto a uma fermentação humana, sendo todos
despidos da espessura da matéria, isto é, são meramente intangíveis: O
“fogo”: desamparado
com a voz / auroral polvilhada de fogo a linguagem
do olhar as
“carícias”, aqui sintomaticamente ligadas à espiga perdemo-nos
ainda em carícias
como uma espiga colorida a
“carne”, que aqui é itinerante Só
então soltas os suspiros do cansaço …
para encobrir a carne itinerante / dos teus seios o
“grito” tornado
júbilo e proveniente de muitas fontes como
seria de esperar, o “desejo” uma
beleza de exaltação feita de desejo
de vencer a morte a
“voz” sorvo
com serena fantasia o som da tua voz Repare-se
na expressão verbal “sorvo”, como se aplicada a um fruto. Ainda
um fruto singular porque se trata da própria flor nele tornada, a “rosa”,
glozada várias vezes no livro, sempre em acepção que a distancia de
sua natural natureza: Quero
que … / brandamente te abras como uma rosa suada. E,
por fim, esse fruto assombrado, a “memória”, que no livro se
transforma em incêndio: essa
palavra sempre fresca
nos teus olhos quando / incendeias a memória. É
este o terreno em que tudo acontece: a memória e seu incêndio. Que nos
leva ao tema maior do livro, o fruto de
1.º grau: o erotismo. Que não dispensa vocábulos ligados à infância.
Que se serve de elementos e locais em que ela decorreu e a que se
regressou já noutras idades. Com
esses elementos se produz a textura, isto é, o poema. Ainda quando as
palavras coabitam as
oscilações em que trocamos gemidos
nas ceifas dos corpos
…
um amor que não semeia nem colhe
para ser livre sobre o teu corpo feito réptil
…
adúltera sinfonia subtraída às teclas voláteis
do teu corpo
Estamos chegados àquilo a que o autor chama nomeadamente
“delta”, o local onde os corpos se cruzam e que é preciso
atravessar. Ou seja, em que à obsessão dos frutos se segue a
metamorfose, de forma a que o corpo possa ser restituído.
Não se trata aqui de amor platónico nem de qualquer teoria afim.
Bem pelo contrário. E ao contrário também de Humberto Eco, ou de um
dos seus personagens, não estamos perante terrenos não tocados pelo
“pecado de Babel”, não se trata de corpos apenas tocados pela
“carícia dos elementos”, não se trata daquele fenómeno masoquista
em que o objectivo é “permanecer sem objectivo”.
Não. Estamos num outro reino, em que prevalece a “geometria
dos corpos”, em que se mata a “sede” no “fruto apetecido”, em
que se gasta a “parábola do olhar”, em que desliza um “rio
flutuante de orgasmos”, em que se consuma o “ritual voluptuoso” e
a “função húmida”, em que os corpos se tornam “inconjuntados
pelo tempo”.
Por este processo, ou por esta contingência, atinge-se a maior
de todas as obsessões, a mais complexa das metamorfoses: os corpos que
são dois tornam-se num só.
Está concluída, mas nunca encerrada, a viagem amorosa: que vai
de uma a outra mulher; que vai da mãe à amante (amante é aquela que
se ama); que vai do “bendito fruto do teu ventre” à rendição do
fruto como ventre; que vai do colo ao regaço; que vai dos seios como
alimento aos seios como fruição. “Agitam-se os seios”, diz-se na página
49. Os seios agitam-se, não como as searas de antigamente, mas sendo as
próprias searas: frutos por gestação e gestação de novos frutos.
Restituído, queimado por incêndios e ausências, “o corpo
envelhece”. Penso que também já envelheceu o vosso interesse desde o
início desta cerimónia. Só mais dois tópicos nesta senda da restituição.
“Dança Salomé”, o último poema, aparentemente surgindo a
despropósito, realiza a colisão e os contrários: remete para as tradições,
para as leituras bíblicas da missa, para a atracção fatal da lenda. E
permite retirar o prazer de haver profano e sagrado, porque este não
existiria sem aquele, isto é, nada vive sem o seu contrário. E o poema
anula o envelhecimento: perante o “volume redondo da … blusa” tudo
será eterno enquanto aí durar.
Falamos de frutos, da memória, do amor. Ou talvez não. Porque
estivemos sempre exclusivamente falando de um livro, de um pomar feito só
de palavras. E são elas que prevalecem, elas os frutos que só uma boca
cultural pode saborear.
Isto também está no livro, dito desta forma:
Só linguagem, nada mais,
o teu corpo, mesmo quando és um sonho de fogo…
(Excerto
do texto apresentado na Câmara Municipal de Armamar, a 1/7/2006) |
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Com o acumular dos séculos e dos volumes, os autores tomam posição, conquistando os vértices das manifestações culturais e pugnando por um posto de referência: individual, de geração, de período, de época ou universal. A sua posição devém extremada, torna-se tenaz, eles são os “donos” de um território que, embora delimitado, exerce uma espécie de governo ou castelo, preparado para a reverência ou a recusa. De tal forma assim é, que alguns autores são inclusivamente “proprietários” de determinados vocábulos e expressões. Camões e Pessoa são os grandes mercantilistas, detendo o primeiro a larga vantagem de possuir um domínio de quatro séculos, em que a sua barca balança fortemente sacudida por avanços e recuos. É quase proibido o uso por outrem dessas noções cristalizadas. Em Camões é um manancial, citem-se para amostra os vocábulos “desconcerto”, “mudança”, “armas”, “verme”, e as expressões “alma minha gentil”, “amor é fogo que arde sem se ver”, “bicho da terra” e “posta em sossego”; e de Pessoa “fingidor”, “orla”, “ceifeira”, “mostrengo”, “menino de sua mãe”, “mar salgado”, “se eu beijasse teu gesto”, “sino da minha aldeia”.
Há autores que dão à palavra / símbolo a dimensão global e
única de um livro: é o caso de “aparição”
Outros há que usam títulos que tornam complicado o seu uso
posterior: é o caso de “avieiros” e “gaibéus” E há, sobretudo, aqueles termos que, sendo propriedade exclusiva deste ou daquele criador, são a sua própria evocação e continência sempre que mencionados: é o caso da “purinha” de Nobre, os “oaristos” de Eugénio de Castro, a “milady” de Cesário, os “olhos verdes” de Garrett, o “verde pinho” de D. Dinis, as “palavras interditas” de Andrade, a “mão de Deus” de Antero. Torpedear este esquema é deveras difícil. Todavia, autores há que conseguem tornear com sucesso a dificuldade: as “saudades” de Bernardim transfiguram-se na saudade / exílio de Garrett e na saudade /saudosismo de Pascoais; este obtém larga vitória sobre Camões retirando ao seu maior símbolo “lusíadas” uma letra só e inscrevendo a palavra “lusíada”; Carlos de Oliveira assume uma “descida aos infernos” que se automatiza excepcionalmente das de Torga e Dante. Concluindo, para não enfastiar: é Fiama quem tem a desenvoltura de tornear a questão. De uma forma muito simples e honesta: colocando a expressão em itálico e solicitando não só o arcaboiço cultural mas também a intervenção do leitor tornando-o co-autor.
Um exemplo paradigmático:
no “Poema / cripta” de “Visões Mínimas” a expressão grafada
“na mansão da morte”, embora assuma novos contornos textuais,
remete iniludivelmente para Soares de Passos e o seu “noivado do
sepulcro”. |