abril 10, 2006

Os Novos Malhadinhas


Os Novos Malhadinhas



          

Passamos pelos dias um pouco cegos, ofuscados talvez pelo brilho e o número de objectos, factos e pessoas que nos rodeiam como de peixes um cadáver afogado. Mas, por vezes, num recanto do cérebro, a paisagem fende-se por um raio sanguíneo e surge-nos uma visão.

Foi o que aconteceu hoje deslizando, sózinho no carro, no alcatrão da auto-estrada pejado de camiões. Já se sabia que o carro é uma projecção descomunal do corpo (e da mente), arrastando-nos a excessos trágicos, quando nos deixamos envolver pela subtil cocaína da velocidade.

Aquilo que não ocorrera ainda, veio agora à tona. É o caso das profissões que desaparecem, das que surgem, das que reaparecem. Com imensa nostalgia, pensamos de vez em quando no almocreve: o homenzinho que na primeira metade do século vinte (e nos anteriores), sempre acompanhado do seu inseparável macho, calcorreava enormes extensões, por vales e montes, comprando, vendendo, traficando, tresfagando, vivendo. O homem, afinal, não morreu. É ele agora que, muito macho, sentado ao volante dos camiões brutamontes, efectua as mesmas transações, em distâncias maiores mas que demoram o mesmo tempo de outrora. E é vê-los, na estrada, na estação-de-serviço, nos restaurantes, musculosos, brigões, cervejeiros, sempre envoltos em algazarra, aí estão, aí vão os malhadinhas de hoje.

Publicado por barbant em 10:14 PM | TrackBack