março 24, 2006


Tokio Piano Bar
(Quando a vivência se instala no sangue)






A
primeira nota actua como uma pancada. Não se sabendo em que zona do
corpo. Ou da mente.

Os trilos seguintes anunciam uma descompressão, recorrem à pausa,
prometem o afastamento do perigo inicial. Mas logo a mesma fatídica
nota ressoante cai contra nós e contamina a melodia e a sua recepção.
Todos os ritmos posteriores, lembrando caminhos ao sol que se bifurcam,
ou vestidos que se soltam e abandonam as pernas, ou vívido tremular de
água cujo seio anseia, dizia, todos os ritmos estão contagiados da angústia
do primeiro som, agora repetido e intensificado.
Bem se espraia e dança e deleita a melodia, estende cabelos ou asas
para cativar ou aprisionar a doçura, mas não é já capaz de aquietar
o coração de quem escuta. Que começa a escutar o seu próprio coração.
Que tenta distrair-se imaginando os dedos ágeis e pensativos de quem
executa, sua cabeça abanando o rosto contorcido pela pressão, o olhar
fundo que percorre a pauta, as pernas que oscilam presas ao ritmo e
anunciam as próximas enunciações. Inútil, a atmosfera não se desfaz.
E os sons, assim delineados, contínuos ou paralelos, isolados ou
dispersos, e nesta arte se supera o poema, instauram um único
sentimento: a nostalgia.
Não se chegando a concluir se do tempo já transcorrido ou daquele que
ainda há-de vir.

Ilegível? Sim. Indecifrável? Talvez não.
Sendo visceral, esta música percute no centro, no interior, o nosso. E
é aí que obtém ressonâncias. E reúne os despojos de todas as
abstracções audíveis, construindo um corpus concreto ou reunindo os
fragmentos. Erguendo um ser que se confronta no espelho e remanesce
erigindo a película de uma qualquer reminiscência. Tornada actual e
concreta.

Decerto, aqueles dias, aquele dia que os cindiu num só, não se repetirá,
não volta. Não seria necessário o tom nostálgico da melodia para o
saber. Essa certeza já preexistia.
Mas poderá reviver ou reencarnar. Porque a verdadeira importância do
que se vive não está no puro acto de viver que é, em regra, banal ou
doloroso.
Está nas vésperas do que se vive e, sobretudo, na comunhão plena de
alma e corpo que acontece tempos depois, quando a vivência se instala
no próprio sangue.


 



Música - Daniella Kai


Texto - Antero Barbosa





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março 17, 2006

O Voo Dentro da Asa




 

Quando acordou sentiu que uma fronteira havia sido superada. Aquela relação física, a última delas, deixara por herança o domínio lúcido e intelegível das sensações.

Poderia agora reverter, mudar de ventre para costas, exercitar seu poder. Todo o jogo de forças e emoções, sua ausência forçada, sua negação pura, localizava-se agora noutro espaço: o mental. Nada mais se decidia na tesoura das pernas, no carreiro dos seios, no pão entreaberto da vulva.

Ainda que nesse sentido derramasse todas as aparências. Iludindo os comparsas. Que se renderiam aos volúveis gestos corporais, ao rouco compasso dos gemidos, à lagoa depositada no olhar, o grande logro.

Mas só na visão deles ainda permanecia a virgem. Porque ela estava definitivamente desvirginada. E desvirginizada. Para se ser virgem após as posses, não é correcto colar em cirurgia plástica o hímen: obrigatório seria anestesiar memórias, todas, dos actos sexuais.

 

 

Excerto do ensaio publicado na página de Manoel de Barros - jpoesia

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