fevereiro 27, 2006

A lama continua lá


 

por força de confluências

lógicas o baixio

atolava e era designado

lapuceiro

que remetia pés conspurcados

à missa dominical facto

repelido

por força

de sinergias hidráulicas aplicadas

no desvio

das águas no entanto

por força do registo

resistente de silva

na memória a lama

continua

 

In "Ramo e de repente", Editora Ausência, Nov./2005

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fevereiro 15, 2006

À espera de Mariza


(LA MASTURBATION)




Era um ritual
quase sagrado aquele, enquanto aguardava Mariza. Fizesse chuva ou sol, ainda que
ela não aparecesse ou que nada mais acontecesse. E isso, talvez fosse tão
importante quanto a visão de Mariza abrindo o portão de ferro. Dava-lhe prazer
a espera, perfumada.


           
Prazer e dor, dessa matéria é feita a espera. Uma liga feita de
abelhas.
           
Porque não se consumava mais aquela mulher dobrada >
em duas. A<>
da carne e a da escrita? Vermelhas ambas.
           
Bastas promessas se haviam já cumprido.
           
A da religião profanada por padres com dentes e língua e mãos no olhar,
impotentes perante uma mulher de pele branca, tão branca como a lua, onde se não
parava de esconder o sangue vermelho, espalhando-se na pele o dia todo.


           
De igual modo, a consumação feminina, deitando sobre o leito seu corpo
de mulher como se fosse de outra, e permitindo e incitando a que o par ficasse
grudado com a boca em outra parte de seu corpo, enquanto cravava os dentes em
seu delta. E nessa foz, ele a comia e ela se deixava comer inteira, e ela foi
tudo o que o homem quis e que ela quis também.


           
E assim dilemática, ela era objecto e autor de óleo sobre tela, posando
com vestido azul de santa e, no rosto, um meio sorriso de puta.
           
Convidando em suas letras carnais ao elogio da dor e à causalidade
aceite do sofrimento. Dando-nos a noção de que rejeitava ambientes mornos de
paz ou normalidade quotidiana.
           
Confessando expressamente: meu Deus, prefiro o fogo, escolho a
dor.


           
E uma cor sobre todas adoptou e adopta: o vermelho. Que colou a sua própria
escrita, de um sangue inequívoco.
           
E esse foi um dos milagres, tornando Miller mulher: erotismo quase
sagrado mas rebentando nas estrias do alfabeto a que deitou mão. E o corpo todo.
Como se escrevesse muitas vezes com o útero.


           
Mas… mas…, assim é a vida, todo o mês sente a dor do terceiro filho.
Sente ela e sentimos nós. Aquele que não pariu. O livro impresso. A haver. Há
muito ele finge que vem, mas é fingimento que dura o tempo exacto da própria
dor.
           
Até que um dia, como o fruto no ramo ou no ovário o óvulo, de tanto
sol vermelho, de tanto branco esperma, caia em nossas mãos ou em nossas mãos
ascenda, podendo finalmente ser:


           
 publicado.


           
Tudo o que aqui fica dito e predito está, em concreto e em promessa, e
as palavras e o jogo de lá se retiraram, em marizalourenço

Publicado por barbant em 11:24 PM | Comentários (2) | TrackBack

fevereiro 02, 2006

Da aldeia de montanha; algumas penas



Da aldeia de montanha; algumas penas; negras




                          

             O temperamento de certas aves foi sendo sucessivamente atribuído ao género humano, por honra ou troça, sobrevindo como tipo da ave feminina que é a mulher.

            Assim, a pega foi ligada à prostituição, a pomba ao colo e à pureza, e a gralha à verborreia.

            “Ave” bate asas numa infinidade de nomes de freguesias.

            Da pomba sobram vestígios em vários topónimos: Pombal em Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães e Pombal, Pombeiro da Beira em Arganil, Pombares em Bragança, Pombeiro de Ribavizela em Felgueiras, Pombalinho em Santarém e Soure.

Da pega, voluntariamente ou não, restam vestígios em Pegarinhos, Alijó, Pega na Guarda, e Pegões e Santo Isidro de Pegões no Montijo.

Há, entre outros pássaros femininos, Vilar de Perdizes em Montalegre e Penha da Águia em Figueira de Castelo Rodrigo.

Mas é a gralha que simboliza a montanha, baptizando Gralheira em Cinfães e Gralhas em Montalegre e dando inclusive nome a uma serra.

            Gralha, essa ave negra, de porte médio, sempre zangada, emitindo sons rilhados. Devia haver tempestades delas por aqui.

            Aldeias, onde por força de guerras, primeiro, e de emigrações depois, eram povoadas de negras mulheres: beatas, viúvas e velhas.

 

            Quando se entra o interior do aglomerado que se alvejou ao longe, é como um corpo de mulher que se estripa: ruas, ruelas, muito estreitas, uma e outra, cruzam-se sucedem-se, labirinto. E outra ainda, onde pairam pessoas, preferível é retroceder por atrigança.

            São estreitinhas, nariz contra nariz dos vizinhos. No seu seio vive um ser escuro, a sombra. E assim, de pedras encostadinhas, impedem a penetração do ardor do sol e da navalha do frio.

 

            De certa forma, ainda que imperfeita, a aldeia é uma roda concêntrica. No centro a igreja, toda cercada. O cerco é completo, houve ali um ataque ao usufruto ou vizinhança de poderes seculares. À sua proximidade. Como se isso fosse uma vantagem para obter benesses celestiais. Ou como se fosse um terraço a assistir de perto a todas as preparações litúrgicas, o rodar das crianças de catequeses, os eventos. Mesmo tendo de apanhar dia e noite com as troçadas violentas do sino.

            Fora são os montes, os carvalhais, e os campos e os pastos. Aonde se levam as vacas, em jornadas ronceiras que fazem parar os carros na estrada.

            Traduzir no ar bonacheirão do Zé Dias que as tange: morreu o pastoreio, e o boi que lavrava, e o burro que também e tudo transportava. Morreu o minguado lucro da galinha e do ovo. E com a morte agrícola, nós os resistentes, os que não emigram ou regressaram já, agarramo-nos à vaca. Em pequena dose, nada que se compare aos ribatejos e alentejos. Então, viva a vaca. Porque é mais dócil que o boi, quase humana, e dá leite cós diabos!

 

            Edital: em cumprimento do Decreto-Lei n.º tantos, eu, presidente da Junta da Freguesia de tal, determino:

            Todos os possuidores de gado bovino têm o ónus de construir as respectivas cortes no terreno para o efeito cedido pela Junta , no Campo da Mó;

            Fica proibido o acesso à povoação de qualquer animal muar, bovino pou cavalar, sendo a infracção punida com a coima de cem euros;

            Todas as habitações, antigas ou arruinadas, que integrem as ruas da freguesia, que se mostrem abandonadas de seus proprietários por um período superior a cinco anos, passarão para a posse da Junta.

 

            De facto, a sobrevivência humana tende a sujar a vida, carecendo da convivência obrigatória com a latrina.

            Mas a bosta já não é sagrada, nem limpa desde que a evolução industrial a tornou inútil para tapar a fornada do pão.

            E, portanto, sobretudo a quem visita, a bosta cheira e fede. E nada tem de rústico ou idílico o quadro das vacas postadas no terreiro, gastando o tempo (além da mosca que sacodem com o rabo) a expelir, e a quem se pergunta “Que está fazendo?” e ela responde “A cagar.”

            Porque no povoamento aglomerado, uma rua tem de ter todas as casas. E as ruínas apenas servem para coito de brincadeiras infantis ou hospedagem de rapazolas que se dedicam à erva.

 

            Reter, eis o verbo que retine e ressaca do povoado como um fumo grosso.

            Reter a povoação no meio da serra. Na sua crosta e no seu cimo. Reter os que a habitam.

            Reter os de fora, que as estradas trazem até ali, não importa como.

            E isso consegue-se com técnicas e esforços de arejamento e de limpeza. Com dois brutos restaurantes/pizzaria. Com o parque das merendas, aqui favorecido por águas altas de ribeiro que, retido em albufeira, mesmo no alto verão, permite mergulhar a nuca num frio espasmo reconfortante.    

Publicado por barbant em 07:30 PM | Comentários (0) | TrackBack