|
no rosto arrefecido do dia como um choro doente a incompletude cinge-se aos afectos torturados pelo tempo e invertidos mão que não chega ao ramo e de repente como a sinusóide da folha cai contra o chão In "Ramo e de repente", Editora Ausência, Nov./2005 |
|
BOSQUEJO
DE ELEMENTOS COMUNS ÀS PEQUENAS FREGUESIAS DE VALE
A freguesia assenta num pequeno vale verde; a igreja fica escondida numa das abas desse vale; corta-a um estradão branco, aqui e além calcetado; em redor do vale, em redor das suas vessadas das suas leiras dos seus quintais, ficam os densos montados, na quase totalidade pinhais que são uma mancha escura tapando o horizonte ao verde deslarado dos campos; mas aqui há um ribeiro, ou pequenos regatos, que no estradão originam pontes-miniatura com um ou dois metros de altura apenas; as casas aninham-se junto do vale-mãe, sobem aos grupos pelas colinas formando lugares, ou vão mesmo tresmalhadas aqui e além, como no presépio os cordeiros são dispostos; ainda estão de pé os beirais as cortes os espigueiros, ao lado dos barracões de bloco e cimento; também as medas de palha se erguem a espaços, sendo às vezes cabana; pelos campos há poças de água que são espelhos, e tanques novos de formas impensáveis anos atrás; é fecunda a existência de cães, com sua coleira e cadeado junto do ladrar incessante aos transeuntes que lhes perturbam o repouso ou a soberba. Vejamos os ingredientes do ambiente: sol ou chuva sobre o vale e sobre as casas de rés-do-chão, a fanfarra dos rafeiros, das aves e das águas, o odor limpo e fresco nos ares, acre na resina, pestilento nos estrumes; notas o contracenar das pessoas que trabalham ou descansam, das crianças que brincam aos gritos e dos namorados que se olham num êxtase bovino (caso seja domingo); um lavrador, de machado nos ombros, vem trocar dois dedos de conversa contigo; uma mãe pressurosa ordena a duas pequenitas que te ensinem a direcção exacta na teia-de-aranha dos carreiros; uma motorizada passa de relance, ruídos de desprezo; vultos olham-te curiosos do alpendre do portal do janelo; um atalho surge onde te apetece enveredar indefinidamente. E, para onde vás, lá está a torre da igreja te espreitando branca, nem que seja um átomo de brancura afogado no verde dos ervais, e o sino, de longe em longe, avisa-te que, apesar de moroso e de granito, também aqui o tempo se desgasta. |
|
A
Editora Ausência e o autor têm o prazer de
convidar V. Ex.ª para a sessão de lançamento do livro Ramo
e de Repente de Antero Barbosa.
|
|
O
HALO, A AURA, O CÍLIO, O RESPLENDOR
Porque afinal, qualquer aldeia de qualquer daqueles vultos possui
caminhos mais atraentes, vessadas e campinas mais viçosas, quebradas e
cenas mais complexas, e ribeiros e capelas e fontes e cruzeiros e
lugares. E em muitas delas, dessas terras, é viável a organização de um percurso pedestre em que o grupo, de sapata e mochila, após a visão surpresa de penedos assemelhados a vultos humanos e animalescos, e de outros que ostentam uma pia onde se guarda a chuva ou um abdómen que protege desta ou do sol canicular formando abóbadas; de águas soltas em riachos que se perdem e de outras subitamente encaixadas em leitos murados que as encaminham aos campos, ziguezagueando entre os ervais, nos altos em que parece se vão despenhar, ou por entre os rochedos que se preciso for rasgam; e após rabejar o olho pelos densos grupos de pinho, eucalipto, austrália e carvalho; e após auferir em golfões todos os cheiros acres ou doces e todos os sons canoros e seus tons; após tudo isso, sentar na relva e na sombra, abrir o merendeiro e o apetite, e gulosos, como frades de dezanove, encher e alimentar o corpo todo que todo alimentado se torna leve como uma veste de seda. No caminho de Aljustrel, retomo, o rio de pessoas continua a rolar. Envolve-as o halo, a aura, o cilício, o resplendor. Porque a tarde se despede, buscando agora uns litros de concentração, calemo-nos e colemo-nos à noite e à viagem de regresso.
|
|
E assim se levanta cada um de nós da manhã terminada, de corpo
e ânimo leve, quase inexistente, rumo ao almoço na vila. Onde se faz
uma aproximação acre à água fria, através dos grelhados, dos molhos
específicos, do gás acerbo da bebida.
Mas os mais novos não permitem a manutenção da concha do
sossego, quando se vê a brasa do sol queimar as videiras na janela.
Em volta, próximos, estão outros cambiantes que aproveitam ao
engaste do contraste destas águas de gelo.
Na noite que se desenvolve a água escorre para a piscina com um
som frio. A que se junta um leve erguer de vento. Sentamo-nos no muro
que se situa entre a água e a mina que a gera, gasta-se demoradamente
um cigarro. O rumor surdo dos insectos levanta patas sobrelevando-se, as
negridões das árvores esbatem no espaço fundo de poço. A envolvência
abraça-nos e oprime-nos. |