janeiro 28, 2006

Ramo e de repente





 

 

 

 

 

 

no rosto arrefecido

do dia como um choro doente

a incompletude cinge-se

aos afectos torturados

pelo tempo e invertidos

mão que não chega

ao ramo e de repente

como a sinusóide da folha

cai contra o chão

In "Ramo e de repente", Editora Ausência, Nov./2005

Publicado por barbant em 08:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 21, 2006

Bosquejo ...



BOSQUEJO DE ELEMENTOS COMUNS ÀS PEQUENAS FREGUESIAS DE VALE



               
Cada freguesia é uma célula com personalidade vincada, portanto, inconfundível. Mas, apesar dessa face única, determinados caracteres existem comuns a inúmeras freguesias que, não deixando embora de as individualizar, tipificam a aldeia em lato senso. Desta forma, desta direi e nestas letras outras serão lidas, ou melhor outras freguesias nestes materiais identificadas serão.

A freguesia assenta num pequeno vale verde; a igreja fica escondida numa das abas desse vale; corta-a um estradão branco, aqui e além calcetado; em redor do vale, em redor das suas vessadas das suas leiras dos seus quintais, ficam os densos montados, na quase totalidade pinhais que são uma mancha escura tapando o horizonte ao verde deslarado dos campos; mas aqui há um ribeiro, ou pequenos regatos, que no estradão originam pontes-miniatura com um ou dois metros de altura apenas; as casas aninham-se junto do vale-mãe, sobem aos grupos pelas colinas formando lugares, ou vão mesmo tresmalhadas aqui e além, como no presépio os cordeiros são dispostos; ainda estão de pé os beirais as cortes os espigueiros, ao lado dos barracões de bloco e cimento; também as medas de palha se erguem a espaços, sendo às vezes cabana; pelos campos há poças de água que são espelhos, e tanques novos de formas impensáveis anos atrás; é fecunda a existência de cães, com sua coleira e cadeado junto do ladrar incessante aos transeuntes que lhes perturbam o repouso ou a soberba.

Vejamos os ingredientes do ambiente: sol ou chuva sobre o vale e sobre as casas de rés-do-chão, a fanfarra dos rafeiros, das aves e das águas, o odor limpo e  fresco nos ares, acre na resina, pestilento nos estrumes; notas o contracenar das pessoas que trabalham ou descansam, das crianças que brincam aos gritos e dos namorados que se olham num êxtase bovino (caso seja domingo); um lavrador, de machado nos ombros, vem trocar dois dedos de conversa contigo; uma mãe pressurosa ordena a duas pequenitas que te ensinem a direcção exacta na teia-de-aranha dos carreiros; uma motorizada passa de relance, ruídos de desprezo; vultos olham-te curiosos do alpendre do portal do janelo; um atalho surge onde te apetece enveredar indefinidamente.

E, para onde vás, lá está a torre da igreja te espreitando branca, nem que seja um átomo de brancura afogado no verde dos ervais, e o sino, de longe em longe, avisa-te que, apesar de moroso e de granito, também aqui o tempo se desgasta.

Publicado por barbant em 03:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 17, 2006

CONVITE



A Editora Ausência e o autor têm o prazer de   convidar V. Ex.ª para a sessão de lançamento do livro Ramo e de Repente de Antero Barbosa.

A sessão realizar-se-á no próximo dia 20 de Janeiro, Sexta-feira, pelas 21 horas, na Aula Magna da Faculdade de Medicina do Porto.


O livro será apresentado pelo escritor Viale Moutinho.

 



               
           

 

 

Publicado por barbant em 01:38 PM | Comentários (2) | TrackBack

janeiro 12, 2006

Pobríncia



O HALO, A AURA, O CÍLIO, O RESPLENDOR
(Aljustrel – Ourém)



               
           A Aljustrel chega-se de dois modos: de carro pela alcatroada estrada sul mas correndo o risco de improvável estacionamento ou pelo caminho velho, já empedrado, perpassando por grupos roucos de devoção que murmurejam rosários junto aos capelos em que se simbolizam as estações calvariais de cristos crucificados.
           
O povoado é uma fila de casas lado a lado na estrada, um rio de gentes que sobe e desce, olha e mira, entra as depredadas e rústicas casas dos pastorinhos, bebe água do poço da lúcia que uma velha enche e provém sempre no mesmo copo, volta a rezar, a desfiar terços, sobe a ver o tosco pedestal do anjo em modernos casotos acrescentado, visita e compra nas inumeráveis lojas de comércio santeiro, alguns, ariscos, vão à tasca beber cervejas.

             Perante isto eu quero-me é no fundo do olival. Pelos caminhos próximos o que reclamava a vista eram os grossos novelos dos pinhais mansos e essa árvore rugosa e vermelha do sobreiro, e sua prima, a que segurou os pés da senhora, a azinheira.
           
Mas aqui o que prevalece é a oliveira, as oliveiras, desgastados olivais. Magras, enfezadas, ressequidas nos campos ressecos, mesmo assim procriam uma atmosfera  propícia. De lento oiro de azeite pairando. E acolhem o sossego, o silêncio e a reflexão.
           
Que se encaminham nestes âmbitos: estranho este calcorrear de pessoas, como rebanhos sucessivos, porque uns sobem e outros descem, isto é, cruzam-se em sentidos opostos. Dando a entender procurar o que já se deitou fora. Visível é no entanto, pelos beiços entreabertos e os túmidos olhos cerrados que obviaram ao que vieram, derivando a maioria fecundada de uma prenhez que os alcandora a altos terrenos místicos delapidantes.
           
Curioso ver estes riachos de pernas e pernas que percorrem estes caminhos, lentos, plácidos, rumorejantes, engrossando de vultos em pequeno perímetro equinocial, em detrimento de todos os outros, muitos outros.

            Porque afinal, qualquer aldeia de qualquer daqueles vultos possui caminhos mais atraentes, vessadas e campinas mais viçosas, quebradas e cenas mais complexas, e ribeiros e capelas e fontes e cruzeiros e lugares.
           
Possuem, decerto, uma profusão e variedade de poços fundos e minas e grutas; e casas  antigas, trabalhadas, portais pedrados onde se insculpem tranças e brasões, onde o barroco desenhou e arregimentou os mais fantásticos elementos vegetais ou biológicos; e cartel vário de arvoredos e matos, de passaredo bravio e batráquios ruidosos, de galináceos e suínos e gado vacum; e carreiros sombrosos sob as urqueiras e as latadas e outros que espelham batidos de oiros do sol na custosa subida dos outeiros.

            E em muitas delas, dessas terras, é viável a organização de um percurso pedestre em que o grupo, de sapata e mochila, após a visão surpresa de penedos assemelhados a vultos humanos e animalescos, e de outros que ostentam uma pia onde se guarda a chuva ou um abdómen que protege desta ou do sol canicular formando abóbadas; de águas soltas em riachos que se perdem e de outras subitamente encaixadas em leitos murados que as encaminham aos campos, ziguezagueando entre os  ervais, nos altos em que parece se vão despenhar, ou por entre os rochedos que se preciso for rasgam; e após rabejar o olho pelos densos grupos de pinho, eucalipto, austrália e carvalho; e após auferir em golfões todos os cheiros acres ou doces e todos os sons canoros e seus tons; após tudo isso, sentar na relva e na sombra, abrir o merendeiro e o apetite, e gulosos, como frades de dezanove, encher e alimentar o corpo todo que todo alimentado se torna leve como uma veste de seda.

            No caminho de Aljustrel, retomo, o rio de pessoas continua a rolar. Envolve-as o halo, a aura, o cilício, o resplendor. Porque a tarde se despede, buscando agora uns litros de concentração, calemo-nos e colemo-nos à noite e à viagem de regresso.

 

Publicado por barbant em 06:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 04, 2006

Pobríncia



BEBEDEIRA FRIA DE ÁGUA



               
            A primeira vez que se enterra o corpo na água da piscina, só por pudor não se concerta uma reacção viva, orquestrada em gestos desabridos e gritos roucos que, no entanto, incomodaria os presentes, quase todos estrangeiros e que, aliás, haviam entrado familiarmente nas águas.
           
Frias, muito frias, surpreendentemente frias. De que não havera aviso prévio. E após duas braçadas, sentado na borda, passamos à análise da situação: de facto, a água escorre de um tanque a que se sobrepõe uma mina natural, e é esta que fornece a linfa. Depois, mentalizado o corpo pela mente, a água torna-se amante, apenas havendo que recorrer a ausências pontuais, em que se esmurra a carcaça orgânica sobre a relva e sob a sombra dos arbustos estratégicos.
           
De facto, quando a pedra do estio aquece o solo e esquenta a cabeça, onde quer que se esteja, que melhor bálsamo que esta água fresca abeirada da sombra relvosa? Porque a praia se detém enxameada e inclemente, e porque as águas mornas de outras piscinas não atingem o cáustico do contraste.

            E assim se levanta cada um de nós da manhã terminada, de corpo e ânimo leve, quase inexistente, rumo ao almoço na vila. Onde se faz uma aproximação acre à água fria, através dos grelhados, dos molhos específicos, do gás acerbo da bebida.
           
Que acende um redemoinho de torpor que remete ao remanso do quarto. Onde nos espera de lábios macios o repouso, o livro insidioso, o balanceado rodear de uma música.

            Mas os mais novos não permitem a manutenção da concha do sossego, quando se vê a brasa do sol queimar as videiras na janela.
           
E é o regresso à relva onde a sombra já está quase toda ocupada e é forçoso rebuscar sítio mais acima. E é sobretudo a entrada na manta fria da água, fria ainda e que o calor dos dias não obtém aquecer, porque se reforça permanentemente libertando o volume excedente à custa da que escorre da larga boca aberta no cerro fronteiriço.
           
É um frio em mesmo tempo brutal e amorável, como dedos que se insinuam na pele, afectam inclusive a planta dos pés e a penugenta bola da nuca. E assim frias se engarrafam as horas.

            Em volta, próximos, estão outros cambiantes que aproveitam ao engaste do contraste destas águas de gelo.
           
Manifesta-se por saltadas às amêijoas empilhadas da Nazaré, aos lustres candelabrais nos frescos tectos das grutas de Alvados, à pesquisa medieval ao castelo no morro da vila, o passeio rugoso em que a cabeça se centra nos pés pelos montes fronteiros e pelo pó dos leitos secos das ribeiras. E ainda a manifestação de campos e espécies vegetais, as perguntas improfícuas sobre os docinhos de Alcobaça, o churrasco e a passagem lá no moinho lá no morro alto afigurando-se inebriante lua-de-mel com filhos.

            Na noite que se desenvolve a água escorre para a piscina com um som frio. A que se junta um leve erguer de vento. Sentamo-nos no muro que se situa entre a água e a mina que a gera, gasta-se demoradamente um cigarro. O rumor surdo dos insectos levanta patas sobrelevando-se, as negridões das árvores esbatem no espaço fundo de poço. A envolvência abraça-nos e oprime-nos.
           
E aproveitando o recolher do resto de família, empurrados pelo decurso dos dias que também escorreram, e pela falta de condições nos quartos sobrelotados, espiando um pouco, é ali mesmo, rente ao cacarejar da água, procurando freneticamente posições, de joelhos feridos e mãos perfuradas por grãos de areia, que a relação sexual, uma entre as mais, se consuma e deslaça.

Publicado por barbant em 09:20 PM | Comentários (2) | TrackBack