dezembro 31, 2005

Poemas do Dia Meio



DA CHUVA



               
               
          Que importa?

                     Está a chover

                     mas não chove.

                     Creio mesmo que o sol está a brincar.

 

                     Primeiro hás-de ser hera

                     e tigre

                     entre tronco e pele.

 

                     Depois derramar paisagens em meus dedos

                     silêncio no olhar

                     o sangue há-de saber a fome, a uva.

                     Só então a chuva.  

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dezembro 22, 2005

Pobríncia



VILAS COVAS
(VARIAÇÕES - ITINERÁRIO)



               
           

O nome que define uma freguesia é carismático, como o das pessoas. Daí que essa definição possa encerrar o cerne do retrato a que dá nome, mas pode levar também à sua total deturpação. Até porque a simples designação, sendo em determinada altura o espelho dos sítios que refere, é susceptível de ser estilhaçado pela marcha das gerações.
          Assim, o que te diz Vila Cova, a priori? Lembra-te os buracos em que se plantam vides, a lura dos coelhos ou mais ainda da raposa, um súbito fugir da terra se vais na noite, o coveiro com sua enxada, e outras coisas assim esburacadas. Mas, sobretudo, decidirás que o nome não é nada airoso e se deve tratar de um povo rude enterrado lá pra trás dos pinhais. 

Mas tu tens uma vantagem: na memória, pedalas na estrada, e há uma placa onde lês: VILA COVA. É uma placa a preto e branco e da mesma cor tudo o que do sítio reténs: estrada, farrapos de campos, algumas telhas e já não sabes se pessoa ou cão algum passa por ti. Os pinhais sobem e são negros, o alcatrão também e cola a roda em jeito de íman. E só isso: a placa, como uma cruz a sagrar o flash-back a preto e branco nas covas da memória.

Há certos montes marcados pela vida dos mortos: é uma presença dura, de pedras amontoadas, de negras veias indubitavelmente carregadas de trabalho. O ambiente completa-se com a nudez do solo alto, os incêndios agora pretos do último verão, e os rebanhos de penedos onde o vento assobia rouco e fundo.
           Neste monte, os olhos ficam-te nos montinhos de pedras redondas e o filme acontece: há ali mãos antigas em suor, e o ruído do ferro é nítido nos teus ouvidos: assim construíam os castros agora destruídos em que consumiam a vida e nos quais se encovavam à espreita do inimigo. E tudo era alto e pesado.

Desce o olhar até à aba do monte, onde o horizonte se abre para os  fundos: haverá meia-dúzia de leiras, meia-dúzia de choupanas, meia-dúzia de casas, meia-dúzia de caminhos esbranquiçados: aqui e além um vulto escuro está debruçado sobre o trabalho, um fio azul de fumo cresce e esfarrapa-se: esse é o quadro monótono que topas das colinas.
           Mas não, em segundos a visão se transfigura e fica diáfana e verde. “Verde” é a palavra que te salta nos lábios, como um coelho aflito. Lá em baixo o verde é o só personagem que te fala no olhar ainda aturdido: o verde deitado, retalhado, gordo dos campos em tons claro-escuros; o verde negro dos pinheiros que trepam as encostas em derredor; o verde tenro e esbracejante das primeiras folhas nas árvores; o verde humano das pessoas e o verde branco dos caminhos, que não vês porque o verde tudo tapa e num redondo e verde vale te transformas. Bebes a jorros essa terra verde, como se fosses vulcão esfaimado, a cova enorme com seus mil dentes e lábios confundidos.

Mas, afinal, aonde a justificação do nome encovado aplicado a este lençol verde? Mas é evidente: plantada bem no fundo, a aldeia é rodeada de altos montes. Daí toda a verdura fecunda e prenhe que é o seu corpo: as colinas abrigam-na das ventanias, fornecem-lhe toda a água (ou sangue) de que precisa, com excessos invernis que enlamaçam os caminhos, e dão ainda tojo e giesta para a cabra e lenha para a lareira; de leste o sol entra novo e ainda fresco, à hora dos melros, e pelo dia fora aquece o vale como galinha à ninhada; é, ainda, previsível que o poente seja precoce, e o escurecer (tempo de confidências, de calmas e miragens) se instale ainda o mais alto monte vizinho é amarelo e aceso. E assim uma vida verde da cova se ergue e voa.

Deixo Vila Cova com uma previsão de fogo: desgraçado de quem aqui vier na altura dos milhos maduros, dos largos e grandes sóis do estio, dos ares zumbindo como variegados enxames em fuga, altura em que tudo isto será uma cova loira, doirada, enrubescida e outras coisas de oiro e lume: arderá.

A quem ler permito-me um conselho: se um dia for a Vila Cova e nada disto encontrar, perdoe: quem escreve, abraça, por vezes, a profissão inversa do coveiro: retira tesouros e luz de covas que os não possuem nem merecem.   

NOTA:
Com o nome de Vila Cova, a que é dedicado este texto, há 4 freguesias: nos concelhos de Barcelos, Fafe, Penafiel e Vila Real.
Mas há outras Vilas Covas, a que o texto também pode assentar: Vila Cova a Coelheira em Seia e Vila Nova de Paiva, Vila Cova de Alva (Arganil), Vila Cova de Carros (Paredes), Vila Cova do Covelo (Penalva do Castelo), Vila Cova de Perrinho (Vale de Cambra).
Há, ainda, Vila Cova da Lixa (Felgueiras).
O topónimo “Vila”, como é sabido, integra a designação de uma infinidade de freguesias.
Mas “Cova” é também bastante comum. Há uma freguesia que se chama exactamente assim em Vieira do Minho. Há freguesias denominadas “Covas” em Lousada, Tábua, Vila Nova de Cerveira e Vila Verde. E há, ainda, Cova da Piedade (Almada), Várzea Cova (Fafe), São Pedro da Cova (Gondomar), Covas do Barroso (Boticas), Covas do Douro (Sabrosa) e Covas do Rio (São Pedro do Sul).
E, registe-se, o vocábulo “Cova” pode ser parte integrante de uma nova designação, pode assumir variantes e inclusivamente o masculino. Veja-se: Carralcova (Arcos de Valdevez), Penacova (Felgueiras e Penacova), Covoada (Ponta Delgada), Covelas (Trofa), Porto Covo (Sines) e Covão do Lobo (Vagos).

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dezembro 04, 2005

Pobríncia



A ETERNIDADE DA PEDRA, NÃO, DA PERNA
(Santa Marta de Portuzelo - Viana do Castelo)




               

         Desde muito jovem começou a ressoar em nossos ouvidos o nome Portuzelo. Vinha da rádio, primeiro a harmonia brejeira de acordeões, cavaquinhos e ferrinhos, depois a voz de grosso, másculo, em seguida a feminina como cálida em bica e por fim o coro… o coro… que tudo envolvia e suplantava.

         Todo esse mosto se esculpia depois na fotografia, que ilustrava os singles e os LP’s, em que fulgurava rubro de tons o Rancho Folclórico. Ao som do qual se gastavam os restos da tarde semanal e se pulava, entre suor e abraços, nos bailaricos da noite que afinal chegava no final de semana.

         Por fim, tudo se cristalizou e riu e engrinaldou, sangria de sons e cores e rodapés, sobre o tablado dos coretos e outros palcos improvisados. De todo aquele resplendor ressaltavam, como cantarinhas, as raparigas bailadeiras. Loiras, espadaúdas, de ancas maleáveis e dorso imarcescível, faziam caracolar cabelos e peitos e os cordões de oiro cujo som já não sobrevinha. Mas, saindo do roldão de saias e rendas, como golfinho do centro de águas, brancas rosadas e roliças, como pedaços redondos de mármore, emergiam as pernas. Delas.

 

         O dia raiou, entre sol, em que o poster ascendeu à realidade. Místico, quase, o primeiro passo de pernas de carne sobre terrenos de Portuzelo.

         Estar próximo da pedra viva, que se transfere do postal para a tua frente, erguer o pescoço para o granito que circunda o sino da igreja, andar à roda do pelourinho onde não estão agora sentadas as raparigas mas pô-las lá, encher os olhos com o verde e a planície que rodeia a povoação.

E, transitando da fotografia para o agora, ressaltando da imagem para o acto palpável, eis que o pelourinho e o terreiro e a igreja e a povoação todos estão à mão. Nas mãos. As formas são as mesmas, já haviam coagulado, mas agora incham, são pedras vivas, pessoas quase, saúdam-te, têm pernas, atmosfera e odor, pulsam em seu sangue. Adquirem o volume certo, exsudam, abraçam-te. Possuem agora o calor dos ares, a suavidade da tarde, o declive lento do horizonte. De planície em que se emborcam.

 

 

          Passadas, lentas, rumo à mercearia, à missa, vão as mulheres, as raparigas. Despidas da majestade das roupas acolchoadas, das gargantilhas em redor do pescoço, reduzidas a uma saia comum, exibindo pernas que se adelgaçam, quadris que encolhem, todo um formato idêntico ao de outros sítios. Despidas mas não ainda despidas.

          Porque provavelmente casaram e entraram em velhice aquelas moças loiras e pujantes do rancho. Mas este permanece, com outras raparigaças, ainda fôlegas ou ruivas, atirando coxas brancas contra os olhares de festas e romarias.

          E quase dirias que são as mesmas. Ou uma reprodução fiel e não ambígua das primeiras. Que tresandam mais ainda a um ardor sexual que oprime e quase obriga a violentar. Nem que seja sentimentos ou instintos. Porque deveras tudo darias para poder poisar, ainda que por instante, lábios naquelas coxas. Férteis, decerto, mas de desejo.

          De tal forma que repetes a conjugação: se volvesses aos vinte anos casarias com uma delas. Juramento inócuo, decerto. Igual aos que se extremaram e desaguaram nos ventos de outros dias em que declaraste intimamente fazer algo análogo, assumir casamento retroactivo e improvável com uma italiana, ou japonesa, ou brasileira.   

Publicado por barbant em 02:57 PM | Comentários (0) | TrackBack