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Num livro de poemas que, infelizmente, não aglutinou notoriedade, Alberto de Serpa definiu lapidarmente e para sempre o conceito de provincianas terras: “Lisboa é longe”. Mas além das distâncias que Lisboa antepõe à quase totalidade do resto do país, há outras distâncias que são antepostas por quem nela entra: porque transporta vivências visceralmente opostas, quando não antagónicas. Se o povoréu já se instalou no imensíssimo terreiro de Fátima como se estivesse em sua courela, mostra-se absolutamente inepto para romper as barreiras das grandes cidades. À capital vamos agora enviar um desses personagens, que nos vai provar exemplarmente o que Lisboa não é, ou então o que Lisboa é uma vez apenas e de raspão. A primeira vez que coloca os pés em Lisboa é tomado de pânico, susto e constrangimento aturdido. Os rios de pessoas e vozes que desaguam de Santa Apolónia e de todos os quadrantes, o rio quase mar com enormes navios, a chusma de carros ganindo em arranques travões, o roldão de gente contra nós na Rua do Ouro, no Marquês e no Rossio, a ponte que não mais acaba altíssima e altíssimo, de tonturas, o Cristo-Rei a que cedeu a subida, tudo o embrutece, tudo o atormenta, tudo o empurra. Quando pela vez segunda volta fá-lo em serviço, com um colega de trabalho. Que angariou o obséquio de obter pensão privilegiada, empreita a cargo de empregado de café ali à Praça de Camões. Ao chegar à praça já noite, há grupos tagarelas pelos bancos, o epopeico enegrece no centro cavalgado pelos pombos, atravessam o deprimente cenário em direcção ao tal café. Onde se processam anunciações de fim de faina e o tal empregado, visado pelo nome, declara de nada ter conhecimento. Mas atendendo, já no exterior, enquanto aponta a streep que se desloca a espectáculo idêntico a outros que ele já presenciou, promete indagar na hospedaria onde mantém dormida. Avançam pela praça e logo ali na Rua da Horta Seca (bucólico e premonitório nome) penetram em escuro umbral de que caem gotas de água. Subindo o escadario, são apresentados ao casal gerente, papagaios e entradotes que, um pouco enfadados, informam dispor de quartos mas não poder levar menos de três contos. O preço é irrisório, um dos dois amigos, mirando-se complacente, precipitadamente declara que o problema não é dinheiro. O que desenha surpresa no rosto do hóspede que os trouxera. Então é-lhes apresentado um terceiro personagem, mulato e barbaçudo, que inculca estarem num ninho de retornados, a que intitulam de Dr. Guedes. Então sobem o resto do edifício, com rangências e tropeções escuros, atravessam um corredor donde se avista o profundo saguão das traseiras e vistoria o quarto reles que, pelo adiantado da hora, aceitam. Então, surge-lhes o Dr. Guedes, açodado e simpaticão, sobraçando os cobertores e as almofadas, e muito delicado pedindo desculpas pela ausência de conforto. Por fim é dormir, dormir não, permanecer a noite toda naquela horizontal tortura de não saber: se se deve manter de costas ou de borco ou de lado, de forma a que o facalhão que porventura viesse não penetrasse mortal o coração. Mas o facalhão não veio, veio a manhã.
Não há duas sem três e desta, arrumada a missão por hora do
meio-dia, desloca-se com a filha à procura de restaurante. É um
restolho de ruas merceeiras, depois aportam a outras mais largas e
viajadas, passam a rua da Amália conforme lhes alvitrou o taxista,
defrontam a Assembleia da República sem selo de deputados. E um
pormenor se vai acastelando: ao lado das tascas que lhes desagradam, da
população cosmopolita de africas e ásias, derrapa uma visão de prédios
E ainda uma última vez, a quarta. Um trabalhão para localizar o Palácio das Galveias, quase perdendo o evento de divulgação de uma colectânea de versos medíocres pela Minerva. Tinha garantido aos familiares que o que mais havia ali por Alvalade era restaurantes. Pois. Mas eram dez da noite quando encontraram, rotos os pés de paciência, um come-e-bebe enfaixado no bairro, onde comeram mal e pagaram bem. Saíram dali, fulos e directos para a A1. |
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A NUDEZ DO PAPEL |
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a
feroz nudez do papel é
posterior o branco sexo se de olhos o
banhas já arde na
cabeça ou no peito a realidade instala
o outro mundo já de morta a
mesa a luz o corpo é um esquema árido mas
a paisagem transborda se a
opressão não veicula o verso as
folhas rebentam o occipital os
pássaros destroem a casa a
palavra o silêncio estilhaça excepto
as nuas mulheres de
espada anterior rasgando cerce(ta) a
escritura fácil o
braço conduz a manada na
mão se bebe de beber o
signo e de fogo é
a metamorfose sobre
a brancura assim hieroglificada a
dança estila o rumor até
se extinguir numa alegria coitífica mortal |
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Com uma comichão nos olhos, devida pelo roçagar de imagens sobrepostas, o rio acanhado e sombro e depois amplo e loiro, o povo a deslado, o espanhol nas costas e a campagem em frente, recolho-me sentado nesta avenida em fundo como miradouro inusual. Recolho-me não, que o formigar de outras imagens, no interior, faz oscilar e estilhaçar toda a doçura que a vir buscava como sustento e espelho. E então, eu, me transformo e volvo, sorvido e gasto em teatros outros que decorreram já de eventualidade, verdadeira por o ser ou de tão persistentemente fingida. E sou os magotes de pessoas que se espalham nesta encosta atraente de matos, ora rebuscando as lenhas que estalam nos ossos dos gravetos, ora perseguindo irmanadas no cão o coelho saltitante e o bojudo porco-bravo, por fim alapados de roda enquanto a sardinha, espetada, se deixa assar para o florete da broa e do vinho. Desço aos campos, vamos comunais a um de cada vez, amplio-me na força dos homens que arremessam apetrechos, na garridez das mulheres em que pele penugenta espreita do excesso de roupas, no sensual crepitar de uma perna entremostra ou dum fio de cabelo das raparigas, no braço morenaço de músculos que tange os bois, nos jarretes fincados que preparam as eiras. É de canseira o tempo todo, só umas résteas de horas nos permitem que nos alapardemos no meio das tardes de domingo, trocando saudações, vasculhando casos de vida, orientando os interesses particulares no mar chão dos globais, enterrando o dedo em vícios, quedas ou desagravos que ocorreram de mãos que do alto sobraram ou do escuro. Também a “sueca” levanta exclamações no crepitar da tarde, as cartas estão gastas mas não o ímpeto de as atirar no banquelho, e quando a boca já dói seca e resseca surge sempre uma mulher que transporta encapochada a caneca de barro onde um rubro líquido sangrento nos torna outros. A noitinha afoga tudo, vou pelos casais engolir a ceia, programar o dia de trabalho de amanhã, jungir corpos agarrados, de velhos e adultos e ex-noivos, também a criançada em que dormem os três e quatro e cinco irmãos ajustados, disponho-me a ouvir por uns minutos o ruminar do gado nas lojas e o latir zangado dos cães lá fora.
Dormindo todos, emborco-me todo no rapazola que atravessa a ponte em silêncio quase aflito, visto a moça espanhola que, pujante de roupas, atravessa para o lado português, e encontro-me em ambos no mais negro das sombras, por trás dos juncos. Provavelmente, as águas espelham e rumorejam, os bichos da noite rabeiam ruidosos, as hastes todas se curvam de leve na forquilha do vento. Provavelmente. Mas apenas sou mãos que afastam roupas e roupas que se deixam afastar expondo carnes, lábios que se mordem grossos e outros que se entreabrem húmidos, perna que se arqueia contra o chão e pernas que se abrem na horizontal, a dureza do músculo e a flacidez da polpa, a força prepotente de um peito que se atreve e o arfar convulso e inquieto do que se deixa encostar. No rosto da lua, os seios evanescem mais brancos, nada valem para mim sem tuas mãos e são tesouro nas minhas, precisam de dedos para viver e deles os dedos precisam para estalar a ânsia, sulcos de arado os que me feres fundo e os que em ti afundo. Fácil se torna agora a reprodução do acto, porque as peças dos organismos se encaixam, os corpos fundem-se num só, depois desaparecem subjugados por alentos do exterior, isto é, do que se entrevê ou sonha: um calor de febre que devora entranhas e o som surdo que se expele por poros e bocas chocadas ou soltas. Cai a madrugada e o sono sobre a paisagem. Apenas eu velo. Rasgado no corpo todo da mente. Porque do que foi vivido antes, e por mim agora, escorrem todas as silvas da dúvida. E sobretudo, o dilucidar do vácuo: a angústia de ter sido todos sem nenhum ser (e o desejo maior revolve-me na moça espanhola), e mais ainda o desespero de não concluir nunca da vantagem de ter vivido todos ou ao menos um ou de ter sido mero espectador de um e de todos. |
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eis o teu rosto e os seus cavalos longamente agressivos sobre as águas olha a memória neles inscrita os lábios ramos fecundos o fuliginoso exercício que os gestos cães escrevem destruindo-se entre como as esguias células do prazer onde se arriscam dedos e um outro rosto outro rebanho de cavalos ou beijos ou o luminoso desespero se confunde e ensanguenta quase a morte mostra as maleáveis mãos oh impossível oh sangue oh meu precário poder eis o teu rosto e os seus cavalos |
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Quando atinges a última rua, marginal, e sentes o mar próximo pelo cheiro, encontras de permeio dois obstáculos: uma colina de areia, fácil de retaguardar apesar dos pés enterrados, e, surpresa das surpresas, um rio. A que já estão apostos os barcos a motor, onde te apinhas sob a gralhada violenta dos turistas, depondo-te próximo do areal e obrigando-te a molhar desde já os pés. E a mostrar as pernas às mulheres que se propuseram aparecer de saias vestidas. Que agora vestem o ambiente de pequenos gritos passarais. E quando entramos na água, tinhas razão. É macia e morna, não tem arrepiamentos de frio, e avanças, avanças, sempre com pé, quase até outros barcos que roubam marisco num ronco monótono. Ali permaneces como anfíbio, enquanto a areia diminui pelo afluimento de corpos, mas o espaço se debita imenso, em águas e praias que se estendem, esbarrando o olhar apenas no verde redondo de um tufo de pinheiros mansos. E quando regressas, regressa a surpresa, o rio tinha desaparecido. É um enorme leito de rio todo desnudado, apenas areia húmida onde a conquilha, parente da amêijoa, ou as cascas dela, arranham os pés descalços. Não há rochas, nem peixes, nem seixos, nem salgueiros, nem juncos, nem esconderijos e grutas no muro que sustém o rio junto à povoação. Apenas alguns vultos curvos, usando o pé e ténues instrumentos, enchendo bolsas de marisco. Decididas, esclarecidas, as cabeças loiras arremetem em passadas seguras, deixando transparecer risos que não chegamos a decifrar se resultam das cócegas do chão ou de ânimos decorrentes da jovialidade confraternizante dos grupos. E quando regressas do almoço e te dispões a uma corrida atravessante, eis que o rio voltou com suas águas limpas e tens de usar o barco a motor e o dinheiro. De novo o mar adocicado, um outro mar, de gente, que esconde uma parte considerável de areia, ou nadeja, ou se agarra a cordames que protegem das ondas agora mais vorazes. Inventam-se intervalos, passeios pela praia além, fazendo levantar as gaivotas que desfilam como banhistas, ou fugir rudemente assustados bandos de caranguejos que se encafuam nas gretas das rochas em que se abeberavam de sol. Aparecem os vendedores e, além de bebidas gélidas e dos próprios gelados, surge um rapaz moreno com um cabaz cheio de bolas-de-berlim. Compras uma perante o riso do amigo: de facto, não têm creme, apenas farinha e açúcar, mas o sabor, sem que se investiguem motivos, é esplêndido. De tal modo que o rapaz esgota o stock e volta mais tarde com a escudeta outra vez repleta. E no regresso da tardinha, o rio metamórfico (que, afinal, é a Ria Formosa) engendra mais uma surpresa. Não está tão cheio que permita o uso do barco, mas mantém alguns palmos de água. Com as hesitações de algumas mulheres e os sustos gritinhados dos que vão entrando, mergulhas também nas águas que vais rasgando. E rasgam-se também conversas bruscas, porque a situação é deveras inóspita. O olhar não resiste às coxas que, desinteressantes na praia, agora explodem de vermelho desejo sob as saias que se arregaçam, até à cinta, até à cinta, até à calcinha ou ao bikini, os corpos oscilam, as gargalhadas inclinam-nos, há uma saia que cai e logo se levanta mas já escorrendo água. Água, deste rio, que sem surpresa vai escorrer na memória. |
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quando te olho se te olho vejo por vezes as duas mulheres que tu és a delicada a meiga a lindatoda eternamente virgem vivendo de palavras gestos enlaçados e um beijo mal aflorado e a outra cedendo e sendo joelhos da natureza em luxúria ou forçada abrigada obrigada negando a comunhão da flor e a transformação do amador e erguendo a soma de dois seres diversos na violência imposta e submetida pela enxurrada de acrisolados códigos |