setembro 28, 2005

Pobríncia



TRÍPTICO: ANIMAL, VEGETAL E HUMANO

(BEMPOSTA – MOGADOURO)




               

1
A COLOCAÇÃO DA PAISAGEM, CARPA

Despejados ali por mão e mor da carrinha. No reino do escuro variando a cinzento. Adonde o feitiço, já breve. Restos de insectos nocturnos. Uma vara de frio, esguia, sua língua entra as frinchas do corpo. Da lagoa, alargado poço negro, a carpa sem espuma explode na água. Na cabeça.

Revérbero. Trava-se a  luta. A luz ainda apenas fragmentos de asa de borboleta. Baixa a garganta dos  insectos. E das rãs. O escuro está perdido de morte. Também o frio começa a tremer. Cadáver que deixa de o ser, voa. Num estertor. Quase inapercebido.

Só luaceiro de hóstia, amarelão pálido, gotas, ferradura, meia-lua a arder, lume inteiro, roda, o sol. Os pinheiros, verdes, as águas, pratas, os ares, brasas. Partos. Almoço para  os olhos. Aconchego, quente. Mais quente. Olha ali a sombra. Que surdiu sem patas, fora raposa.

Fio invisível, quase, a cana estremece sem motivo, pequenos elementos enrodilhados e do rio todo sai a carpa. Tal as de outros dias actua no palco, acto imprescindível ao orgasmo do que pesca. Mão côncava, brutal, aperta-lhe o dorso, mulher violada sem voz.

Cansado, desistido, aparentemente dócil e conforme, o peixe. Humidez, oval forma, olhos de carneiro. Objecto inútil e consumado, no camaroeiro esconde-se. A paisagem fecha-se. Pálpebra.

 

2

A DO ZIMBRO, COPA  

A água é redonda, o montado arredonda-se, cada salto piscífero provoca rodas, o sol, o sol, o som contra as vertentes dos pássaros.

Mas redondo, copado, o pinheiro, os pinheiros. Obra fechada, hermética, pregada na encosta.

Não é cedro, mas aparentado. Isto é árvore importada dos países nórdicos.

Recorrendo à investigação, evitando recurso aos residentes, detecta-se que este pinheiro nem cedro é: mas zimbro.

 

Para destruir a paisagem, sua harmonia, fazer a desmontagem, é forçosa a aproximação. O terreno resvala, o restevo pica, mas mais hostil é o dito “pinheiro”.

Eriçado, de agulhas, de unhas, de garras, com subtileza provoca o sanguinho que goteja. Sem pinhas mas baga. Resinosa apesar.

 Penetrar nessa casa, invadir o interior, perfurar o ventrículo da sombra. Não, a pontiaguda folha riça não o permite, arranha o rosto, impede o braço. O ser humano é insistente, violenta a violência resistente, entra protegendo o olhar.

 Seco tudo, acastanhado, deplorável, musculoso de aromas ácidos. Segunda vez a imagem se estilhaça.

 

          Afinal sobe um gaio que transparece, igualzinho aos que guarda da memória. Mas a atonia ergue-se de poderosas patas. Colocar-se no seu encalço. Como depositar ninho sem frança? Adaptar pernas, garras, bico, a este arbusto. Ou ser outro. Apreciando o verde movediço do cocuruto. Ou deixar-se esconder no túnel interior. Plasmático. Abdicando de gestos noutros locais plantados. Irmãos.

 

3  
A FOGUEIRA; FAZ-SE

Coloca-se o lume na orla da lagoa, abrigado do cerro sobranceiro que também deu a lenha. Milagre doravante: as chamas rentes da água, a labareda próxima das pernas sem direito a queimaduras, as línguas de fogo que se evaporam depositando a brasa. Quase compacta.

A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado.

A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio.

A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas.

A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. 

A fogueira: faz-se de palavras, troar delas, exaltadas, contrastantes, eufóricas, agudas como silvos e arremessadas como pedras. A teia do caos. Visando a harmónica degustação. 

A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só.

Publicado por barbant em 04:50 PM | Comentários (2) | TrackBack

setembro 21, 2005

Contextos



Os Móveis




                   

 

 Adorava a sala, com seu televisor e notícias, vídeo e filme, dvd e banda sonora, vidro da porta com rua. Mas, sobretudo, seduzia-o o sofá, onde muitas vezes adormecia. Com os cristais, os bibelots, as garrafas de marca travava largas conversas.

 Sofrendo de branca insónia, retirou-se da cama e mergulhou na sala de antemanhã. O estore estava entreaberto, provocando uma meia-luz cinzenta. Surpreso, não se sentou no sofá, onde as costas lhe pediam para encostar.

 Os móveis eram sombras. Esguias umas, esparramadas outras, cortantes, ameaçadoras. Informes, procuravam molde na mente dele. Que logo lhos deu: braços, pernas, espadas, serras, dedos, dentes. Tinha a certeza que se se aproximasse seria atacado.

          Ainda ligou a TV de unhas assustadas, mas também aquela luz irisada e com corpos de permeio o agrediu. Recorrer ao leitor, nem pensar, qualquer música seria draculiana.

          Olhou uma vez mais aquele palco sinistro, aquelas bocas negras de queixo aguçado todas voltadas contra si. E, agudo e finíssimo, um fluido começou a circular na espinha. 
          Fugiu arrepiado, refugiando-se, com alívio, na cama e na mulher.

          Ora! Como se não fossem elas móveis extremamente devoradores, especialmente a segunda. Só inferiores ao tempo, que transporta na boca miríades de bocas de piranha.  

In “Contextos (contos) – Prémio Trindade Coelho 2005 – 2.º prémio.

Publicado por barbant em 07:21 PM | Comentários (5) | TrackBack

setembro 18, 2005

Pobríncia



DAS SIGLAS: DECIFRAÇÃO



               

         Cada local, sítio ou terra vive ou transmite uma própria atmosfera. De indiferença ou desencanto, de atracção ou repulsa, muita vez cada um de nós aguça como uma tuberculose o estro que apenas perpassa ou jaz depositado.

Aqui, descendo para a negra igreja que se recorta no arvoredo das montanhas, ali na quebrada, um só sentimento assoma: a melancolia.

Quer venha encostada à cinza esparsa que ressuma da chuva caindo de alto, quer ondeie em vago torpor outonal, quer coalhe como órgão arrancado no parado ar do estio.

Como se, aliada a todos os centros que denota a escolha do local, fosse esta também estratégia dos dois frades que um dia ergueram o depois monumento nacional.

 

Aliado fiel, lacaio da melancolia, resta o silêncio. Espetado no telhado, nos nichos, nas cachorradas, na cruz, horizontal em todo o solo rodeante. Inchado nos ciprestes, ambos, que setas verdes, varam os céus. Silêncio que em tempos idos se procurava para encostar o peito e de que hoje se foge. Até o padre desarvorou, caindo em pedaços a bela casa paroquial, onde penetras familiarmente para espreitar o silêncio dos quartos, das escadas e das lojas.

 

Indiferente a humanas mutações, e não cuidando agora de pombas e pardais que ilustram as grandes cidades, o pássaro permanece. Arrepiando a pele do silêncio com seus pios, canoros ou lancinantes. Nada tendo a ver com a equação do templo. E tendo topado uma breve cova no lado direito da frontaria, sobre o lado da porta principal, aí colocou o ninho como um ornamento vivo.

 

Sobre a porta, todo trabalhado, está o arco de pedra. Belo, mas imperfeito, o que dá um ar de troça ao nacional monumento. As pedras não encaixam, a esquadria falha, a extensão é maior de um dos lados, qualquer aluno de arquitectura se arrepela.

Sentamo-nos no muro fronteiro e ouvimos os frades altercar, vociferar. Entre si e com os artífices que enxameiam e olham destroçados a grande pedra sobreposta. Chovem os impropérios. Mas seria trabalho de muito dia reestruturar tudo de novo, envolvendo à mistura risco de vidas.

 

 Contra o silêncio se batem determinados gestos. As siglas, como uma assinatura, esforçam por perpetuar personagens que se afogaram. Resiste porque o desenho foi esculpido na pedra.

Mas há outros desenhos que se apagaram. Como o daquela tarde outoniça em que o frade mais baixo, tendo penetrado subtilmente aos lameirais, surpreendeu a Zefa da Fonte, forte raparigaça, debruçada para o rego de água e bebendo a longos sorvos.

Aproximou-se sobre sandálias sem voz e sentou-se a seu lado sem que ela se apercebesse. Ela mergulhou de novo a boca nas águas e quando se soerguia, cansada, resfolegando, foi agarrada com firmeza. Apesar de bem constituída, estava enfraquecida do esforço e não pode impedir que ele a submetesse. Extenuada, nem sequer conseguiu gritar, sentindo os braços dele que a amarravam e o rosto, um pouco hirsuto, que lhe beijava bravamente o pescoço, o cabelo e as espáduas. E quando a mão direita lhe levantou os vestidos e as coxas, e quando depois em peso a voltou de barriga para cima, ela já nada podia fazer, tonta. A não ser entregar-se.

Porque o silêncio de pedra, água e ventos, irmanado a outros de rezas e sacrifícios e vigílias, criava um contraste fortíssimo para apetites corporais. Que, por vezes, se consumavam entrelaçados pelo acaso, quase impostos pela natureza, e em que dois seres se omitiam absolutamente de consequências.

 

Cai a noitinha. Um alanzoar de cães alastra pelos lugares. São latidos, gritados e aflitos como se postos perante perigo. Um canzarrão mais grosso abafa os outros: como se os comesse. Mas eles insistem nervosos, prorrompem um concerto desconexo.

E quando a noite se fecha um frémito vibra. Como se um mundo de larva tivesse acordado. Lembra a torre da Barbela*, onde os mortos vivem de noite, passeando-se no Jardim do Buxo. É um frémito que esvoaça apoiando as patas nos rumos de águas e ventos, que produz um rosto de frio e temor.

Na igreja, um dos nichos mostra dois corpos que se abraçam (serão os dois frades?), escurecidos. Mas do seu vulto escuro pareceu luzir um arreganhar de dentes. Pareceu… Breves, subtis, raios faíscam no fundo do escuro, talvez ramos que se chocam eléctricos. Juro, eu vi. E de repente e de surpresa um cisco arranha-te a orelha. Toque raspado como de asa de morcego.

É melhor ir embora. Imagine-se a decifração da última sigla, quando a noite der em madrugada morta.

* Romance de Ruben A.  

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setembro 16, 2005

Contextos



TRÍADA



               

        

            Esta é a casa de Fernanda. De pedra, assobradada, largas janelas estirando brilhos pela quinta. Aninhada no folhedo, deve-se subir à varanda para espraiar olhos nos sítios nascentes e socorrer-se do quarto dela para afundar as vistas nos tons escuros do dia que cai.

            Se fosse possível desenhar os rastos dos pés de Fernanda, a sua esteira geométrica desenhada no dia-a-dia em que gasta vida, obter-se-ia um traçado curioso. Como todos. Aparentado, ou molde, do de outras, muitas, pessoas. Tratar-se-ia de um mapa limitado, confinado, um pouco a imagem das linhas de sua mão.

            Poderíamos observar riscos finos, ténues, e outros densos, carregados. Todos, com poucas excepções, bordejando a casa, a quinta, num raio nunca superior a duas milhas. Alguns, raros, atingiriam as três milhas, as cinco, e um havia que se aproximava das dez. Não seria complicado ler a frieza daquele itinerário, o halo de hábitos e emoções ou ausência delas que o envolvia, a lenta teia e meada desenredando-se com morbidez de pedra. Sem carecer de apelar a análises subtis ou complexas.

            Os riscos mais grossos levam à horta onde colhe a couve galega, vão dar à bica de que escoa cântaros de água, à mercearia a que vai mercar o arroz e o açúcar, à casa da madrinha a quem atribui palavras, bastas, entremeadas de beijos. Quentes, calmas, as palavras, menos ainda que as que de permuta recebe. Um outro rego negro, avantajado, liga a casa de Fernanda à igreja de que ouve as missas e é catequista.

 

            Bem diferente é o mapa de Francisco, traçado aqui, a partir desta casa de lavrador, duas léguas abaixo. Com ele gastaríamos todos os conhecimentos da geometria. Imensamente riscado, todo em gatafunhos, dirige-se nas várias direcções da rosa-dos-ventos, alonga, alarga, percorre todo o concelho, grande parte dos contíguos, e atira com setas e arpões para outros distritos, para sul, mesmo ao estrangeiro. De vez em quando engrossa em determinada povoação, onde namora, depois desloca-se e acentua-se numa outra para onde transferiu o namoro. Mapa mais de cem vezes superior ao de Fernanda, orlado de, ainda que imperfeitos, círculos, sinusóides, óvulos, elipses, espirais. Exigindo escala de elevada dimensão. Curioso é o tom que se deveria ou teria de atribuir a grande parte do tracejado: nocturno. Que destoa da esteira debuxada a compasso e esquadro por Fernanda, toda batida da luz do dia. Dos dias.

 

            Este outro sítio, como todos os sítios, propicia o acontecer de tudo e de nada. É apenas uma poça onde a água se ancora, encravada entre leivas, que avista o largo das vessadas e subjaz a hortas submersas em vinhedo. Quando a noite se aproxima, o sítio escurece: o muro sobranceiro, a hera que escorre em cabelos, a erva horizontal, ofundo verde da poça, por fim a própria água. Torna-se tudo tão nostálgico, parado, acabrunhado, convidando a vago suicídio. Foi assim Francisco abordado pelo sítio na tarde daquele dia em que sentou para descansar. Na frescura intensa da erva que progressivamente lhe começou de alfinetar o peito.

 

            Fernanda está em dificuldades para manter vivo o traçado de alguns de seus sulcos. O da bica, por exemplo, onde procura não água para a sede mas a sede das palavras das raparigas e, cora de o dizer, dos rapazes. A mãe tenta atalhar-lhe os passos: porque não tem necessidade de ir à água tendo-a em casa e na quinta, porque não deve misturar-se com aquela mocidade brava e um pouco rude, porque não tem que gastar seu tempo e sentimentos no exterior mas dedicar ambos à família. A teoria do não, a que Fernanda se mostra esquiva. Pior é quando as palavras, roucas e determinadas, assomam do pai que a intima com olhos poderosos. Que a derrotam. Em lágrimas mal retidas que no quarto ao fundo esconde. De bruços na cama e ignorando o poente que prepara a escuridão da noite.

 

            Sem que ninguém se apercebesse, um novo vestígio começou a ser traçado, fundo, pelos pés de Fernanda. Sobrepondo-se em parte a terrenos por outros riscos já delineados, com outros forjava tangências, abria diagonais, esbarrava na perpendicular. 

            Desaguava no tal sítio, onde a água da poça permanecia quieta em seu espelho. Neste, poder-se-ia observar, ao fim-de-tarde, o vulto de Fernanda que outro vulto cingia, provavelmente em abraços já demasiado fechados, apenas se poderia observar o jogo que produziam suas cabeças, de rostos tocando-se e lambendo-se ou um lambendo o outro, uma mão que mergulhava nos cabelos longos e depois no pescoço, depois descia um pouco e desaparecia, mas via-se ainda o rosto dela constrangido, rasgado, de lábios abrindo-se e olhos semicerrados.

            Lentamente, também a silhueta que das duas cabeças reflectia no espelho da água desaparecia. Agora, apenas se poderia arguir uma adivinhação. Mais ou menos segura. Pena que o espelho da água não se pudesse levantar e soerguer-se e mostrar convexo o que estava acontecendo. Provavelmente estariam os dois deitados sobre a erva, a blusa solta e desapertada tendo produzido dois seios redondos, rijos, a saia repuxada acima por mãos febris, ainda mais quando as pernas, grossas e brancas de leite, faiscavam contra os olhos dele, obrigando a que as pernas dele percorressem aquela vereda de fogo, juntando-se às dela e juntando o centro crespo dos dois corpos.

            Do dela e de Francisco.

 

            Ele a obrigara a vir ali, obrigado também por visão que o deixara alucinado. Apesar das experiências já debitadas em seu passado, com mulheres de bordel da vila ou moças namoradoiras. Fora também ao entardecer, cruzou-se com ela perto da igreja. Cumprimentou-a, trocaram breves palavras, o dia rezingado de frio ameaçava de chuva. E quando ela se despedia, o vento surgiu furioso e uivante, levantou-lhe as saias sem que tivesse tempo ou jeito de o evitar. Bem acima dos joelhos, grossas, brancas, leite entornado. Que explodiu de chofre e de cachão no olhar de Francisco. Que com aquelas coxas ficou na íris bailando, enquanto ela se afastava sem dizer palavra. E sem pernas, que não sentia. Que com Francisco tinham ficado, brancas, brancas, e ia jurar quentes e rosadas apesar do escuro em que haviam desfraldado.

            Os mapas dos dois tocavam-se, entrelaçaram-se, confundem-se, ascendem ao “nós”, quase se fundem num único.

 

            Nas tardinhas combinadas, obtendo ou evitando pretextos, Fernanda desloca-se de sua casa ao sítio. Obscurecendo e intensificando cada vez mais aquele sulco, que parece já torneado por roda de carro de bois. Na face do dia que cai, o espelho da água reflecte duas cabeças em gestos próximo de loucos e revoltados. Depois, os dois vultos como um só afundam-se e desaparecem da tona de água. Pena não os poder observar mais. Pena que a água não possua ouvidos. E, de novo, só poderemos deitar mão de dons divinatórios. Para perceber os rangidos leves de roupas que se afastam, os gemidos finos dela, o rouco prazer dele quase agreste, o arfar cada vez mais lento misturando-se e confundindo-se, o som cavo e redondo de dois corpos que descaem em sentidos opostos. E que se juntam outra vez: - Gostaste?, pergunta ele e ela responde pouco convicta: - Sim. Depois acrescenta: - Tenho que ir!, e quando surge novamente no espelho da água é sempre ela a primeira a emergir, descomposta de cabelos, a blusa já se fechou e o xaile vai-se  encaixando nos braços e no busto tudo tapando.

            O mapa de Francisco, suas linhas, toma a feição do de Fernanda. Circunscreve-se, limita-se, bordeja apenas a povoação, sobe em pirâmide no sítio. Definitivamente os traçados dos dois, melhor dizendo já os tratados, escrevem uma imagem mais do que aparentada: comum.

 

            Apesar de todo o cuidado posto, a coisa descobriu-se. Ela recusava algumas visitas ao sítio para não causar suspeita no jeito desconfiado da mãe. Ela vestia roupas negras ou escuras para se confundir com o lusco-fusco. Ela dava passadas medrosas de tal modo que nem os estorninhos a pressentiam concentrados em seus ruídos álacres. Ela transportava orelhas perscrutadoras de todos os sons, e de peito estremecendo muita vez se achou surpreendida quando afinal se tratava de animal tresmalhado ou mão de vento jogando ramo contra ramo.

            Mas o mundo é maior que nosso mundo. As saídas proveram ao crescimento da intrigança. E nos caminhos da aldeia, mesmo ao anoitecer, naquele tempo circulava muita gente. Homens quase exclusivamente, que regressavam do trabalho ou de tapar o tufo de alguma poça. Como aquela. Mas a dúvida subsistia. Não já na mente e na barriga de Fernanda que tentava por todos os meios evitar que as pessoas se apercebessem do florescimento atroz de sinuosas curvas. Exteriores. Porque no interior um mundo, tremendo para ela, bulia aos pontapés.

 

            Muitos anos passaram. Muitos filhos também. Francisco senta-se no quarto de Fernanda para onde se mudara e olha na direcção do poente. Pouco lhe importa neste momento o casamento imposto pelos pais de ambos e que já não apetecia. Pouco lhe importa que aquelas coxas se tenham tornado roliças e alvo de varizes. Pouco lhe importa que Fernanda se tenha tornado mulher e usasse de uma entrega difícil, recatada, quase forçada. Desafiando sempre os brios dele, azougado e bravante.

            De cotovelos fincados no parapeito, olha o sítio. Chamado “A Poça”, o povo provoca o baptismo de todos os locais de forma mais ou menos obscura. O olhar é fito e enfronhado. As coxas, brancas de leite, mostravam-se no adro, como brasa para ele, que as arrastava para a beira do espelho de água, daquela, tentando apagar o fogo que o queimava.

            Que o queimara. Porque tudo lhe parecia agora cena de filme. Que outro vivera, não ele. E que ainda o acometia e assolava. Como se tivesse sido um dos comparsas daquele par fílmico. E não fora. Porquê o tempo tudo mata?

            De novo, uma vez mais o vento levanta aquelas pernas de sonho, elas se chocam com as suas nas ervas perto do espelho de água, e tudo acontece em seu sangue.

            Mas é tão subtil como se não acontecesse. Ou fosse apenas reflexo do que tendo acontecido se volatilizou. Drasticamente.

            Não, nada disso acontecera. Fora apenas uma alucinação. De que ainda sempre não se livra. 

 

            De certo modo, são irrelevantes as artérias que ainda constroem o mapa de sua vida. Escorrem insones no povoado, de índole fugidia, quase virtual. Dir-se-ia que as chuvas teimosas teriam apagado e delido os traços vitais, tornando-os deléveis. E que as linhas agora gravadas haviam transferido o mapa para sua mente, local único possível de traçado ambíguo e vulcânico. Onde encontra topografia para soerguer ainda as pernas de sua existência. A que vale.

                    

 

In “Contextos (contos) – Prémio Trindade Coelho 2005 – 2.º prémio.

Publicado por barbant em 09:52 PM | Comentários (1) | TrackBack

setembro 07, 2005

Contextos


 

PRÉMIO NACIONAL TRINDADE  COELHO - 2005
Capa do livro editado (1.000 exemplares)
(O 2.º prémio está em meu nome)

Publicado por barbant em 06:44 PM | Comentários (10) | TrackBack

setembro 02, 2005

Pobríncia



A RAPARIGA E A VELHA



               

         Mesmo em cima da entrada da ponte, férrea de arco, surge a placa em grandes letras. Ali vem dar a Ribeira de Muge de que se ouve um motor a tirar água para a rega, e no declive, à albufeira de olhares alargados e banhos, segue-se o parque das merendas, amplo e completo, agora apenas povoado por pardais gralhantes nos salgueiros.
        
A estrada atravessa em parcas centenas de metros a povoação, mas é do alto, onde a igreja vai colada ao cemitério, que a podes observar: branca, nova e escarolada, maciça de casa aconchegadas, pode-se desatar o bordado irregular que se escreve nas chaminés.

         É neste cenário que vamos plantar a rapariga. Que se entreviu no restaurante da vila, servindo açodada, e que por força terá de ser daqui natural e residente.
        
Ficou dela e permanece uma imagem de úbere. Rescendendo do tamanho, dos seios fartos e das largas ancas, excedendo um corpo equilibrado, de sorriso pequeno. Que, tudo coordenado, dava aquele jeito avante de levar tudo na frente, no redondo espaço aberto entre os dois braços abertos, como se reminiscência fosse de actos antigos de lavoura e açafates de grão a despejar nas leiras.
        
Apesar do rosto, nítido de boca e cingido de faces. Apesar do semilongo cabelo, loiro, não, quase branco, nórdico, lavado de roldões de sol bravo. Apesar da delicadeza das mãos que se poisavam na mesa em talher e comer. Apesar do sorriso, tímido, que de longe a longe rasgava o vácuo entreaberto dos lábios. A que se gostaria de desvendar o som dos gemidos sorvada por eventual namorado ou devasso.
        
Mas quando ela surdiu açodada e correu a acudir ao excesso de tarefas que numa mesa se incendiava, ficou só metade, porque estando de costas estas desapareceram: das pernas grossas em passadas nervosas, de brancas carnes sobrando das rachas da saia de ganga, as coxas com vontade de a rasgar excessivas, e as ancas, fortíssimas, de bovino espantado na campina, em ressaltos opulentos, úbere, úbérrima.
        
Mal empregues textos de Soeiro, Redol e Saramago. Que se esqueceram de mitificar este tipo. De mulher.

         Também neste cenário espetamos a estaca da velha. Magra, escanzelada, megera, esguia de luto e de esqueleto. Veio engrolar o terço, porque a morte deve ser preparada. E mal nos vê, pois órfã de gente, não perde a oportunidade de aceder à comunhão afectiva e aos encharcos de palavras.
        
Não sabe a origem do nome da povoação, omitindo ou ignorando que aquele espaço foi palco de caçada à raposa por parte de reis e nobres medievais. E apenas diz que ela está lá em cima, e acena para a torre, e que aqui é a Raposa de Cima e acolá a de Baixo. Nada mais. Só quando nos despedíamos, verificámos surpresos que acima dos sinos se encontrava, escultural, preta mas não cruz, a forma miniatural de uma raposa de longa cauda.
        
Mas, sobretudo, ela, a velha, enquanto esfarela conversas, agarra-se ao rapaz que nos acompanhava recém-casado. Sentado contra a fachada, um pouco acanhado, ele deixa-se apalpar os braços e arredores. Não sabendo muito bem como reagir a este ataque imprevisto e pecaminoso de quem viera para orar.

         Afinal, noutra forma, subreptícia, a raposa não estava extinta, ela vivia. Com sua manha. Não se podendo surpreender no bosque. Nem confundir com a visão aérea da freguesia, antes rectangular que alongada.
        
 Mas agindo e espreitando no sangue da velha e da rapariga. Nesta, usando a timidez, o resguardo, o corpo apetecedor, para a honra e o futuro que acalenta como toda mulher por ditame social. Naquela, como último recurso, quase arriscado, buscando ainda um hausto de calor, calor de homem, memória sobreaquecida de outros a que se abraçou quente de corpo: os namorados, envelhecidos, o marido, morto, os filhos, “arrumados”.

Publicado por barbant em 08:45 PM | Comentários (3) | TrackBack