agosto 31, 2005

Poemas do Dia Meio



SER O QUE NÃO FOSTE



               

        

Não sofro não mas fico ciumento

desse rumor de estrelas

e voz de caravelas

que no teu corpo invento.

 

Ah! Só me resta

beber beber sobretudo o teu rosto

enquanto há cor na festa

e a carne sabe a mosto.

 

Rosto calado a fingir de céu

olhar aberto onde ele nu se mostre.

 

Boca em chamas e basta o mundo afoga

não vale a pena ser o que não foste.

Publicado por barbant em 07:16 PM | Comentários (5) | TrackBack

agosto 21, 2005

Pobríncia



CRISTALIZAÇÕES



               

         A povoação como uma concha. De longe branca, aqui com recortes escuros, o espaldar das ruas, as paredes que te encarceram.
         Sobe do povo até ao caminho que dá no cemitério, desce a dois passos nas casas comerciais, alastra aos dois lados da estrada. Se excluirmos as ruelas, fica uma cruz.
        
A igreja olha o largo matemático de Gomes Teixeira. Imitando Almada, mencionaríamos a cabeça de roda oval, o queixo tal um triângulo, o nariz apontado como uma seta. No portão da casa onde nasceu lá está o sardão de bronze, todo verde e com um rectângulo de sangue a fingir de língua. Onde nasceu, não, apenas o embrião em que se ergueu, montanhou de grande após inúmeras absorvências e limuras, com as quais carregado ali volveu.

         Fora da povoação e do coração dela rondam os campos onde se trabalha o ardor do verão e onde vamos convidados, apesar de parasitas, numa pausa em que está presente o coelho guisado e o garrafão que se debruça na caneca sempre cheia e os vinhos se misturam às bocas e à algazarra e assim desencontrada caótica aos golfões a vida se espraia.
         Mais para fora, subindo subindo, ao inverso do rego que escorre encanado. No cimo o Lenteirão, com suas águas escuras de erval. Retirar a roupa e expulsar o calor. Depois, ofegantes, com os narizes cheios de pinho resinento, arrimar o olhar.
        
Longra. Castelo. Nagosa. Manchas brancas esbranquejantes nos longes azulados dos montes. Como um símbolo coalhado de povos. Pressentidos. No sol que descai a brancura arde. Aparição ou promessa, o restolho humano deve ser igual a este.
        
Ainda duas filigranas: o ninho ao alcance da mão, no pé de milho, afirmando que o passaredo é ali respeitado ao nível da andorinha ou a canalha adultou; e o sino que se expande reboado sobrevoando montados, se calhar namorado das igrejas dos povos configurados.

         No café está apenas o dono do café e no rosto do homem do café lê-se a vontade de jogar às cartas e assim se forma a quadrilha determinando-se desde logo o perde-paga da despesa que se vai bebendo e o jogo entorta para o dono do café que perde a boa disposição quase passando de gordo a magro depois acomoda-se mesmo porque os risos guizalham nos parceiros e então ele encurrala-se na fatalidade do pagamento de que aliás  não consta dinheiro porque os produtos são da casa do consumo da casa portanto dele homem do café e é como se não pagasse e enquanto os circunstantes saem de boca rasgada ele insulta a puta da vida culpada sempre disto tudo que nós perdemos porque no ganho está sempre mérito.

         A noite expulsa os corpos da cama ou adia-os. Junta-se tudo no povo, o muro rente da estrada do largo torna-se pequeno para banco. O que obriga a benevolências e gestos e gentilezas, “Sente-se!, sente-se!”, ou a cedências parciais “Chegue-se para aqui!”. Acasos venais que às vezes juntam um casal e carnes que serão entressonhadas no mais baixo da noite.
        
Aparecem os papagaios, os tagarelas, é um mar de vozes chocando-se, latas, guizos, arraial. E se se apercebem de forasteiros, ao contrário de sítios e tempos desconfiados, acamaradam, abrem-se, romaceiam, querem saber, usam o saca-rolhas. Sempre muito mais interessados em dizer do que ouvir.
        
Alguns há que trazem as novidades da horta e, sobretudo, do pomar, em sacos, em cestinhos. A pêra, a ameixa, o figo com sua gota de oiro repousando na folha de couve. É bom o preço, arrasando o oficial que consta no mercado, surge infalível a oferta de uma ou outra peça quando o diálogo sobreaquece,

         Tinha morrido o Zé Bispo e o Manel Vinagre foi a Longra buscar o caixão que trouxe às costas derreado pela noite fora e apesar da fresca esfalfou-se nas encostas arranhou o ciclame das costelas mas aguentou-se intimamente mentalizando-se “Não posso parar, tenho de concluir a jornada” mas já perto da aldeia ali à beira do cemitério veio-lhe uma vontade súbita e inadiável não bem vontade mas necessidade que o obrigou a poisar o caixote em cima do muro e deslocou-se atrás de umas moitas e entretido naqueles gestos obrigatórios remexia no escuro à procura de folhas secas quando ouviu gritos aterrorizados e corridas desvairadas como de cavalo ou boi tresmalhado e tombos e mais gritos que foram fugindo espavoridos esbatendo-se aos poucos a gritaria pelo caminho abaixo abafados pela distância e pelas bordas e foi ver e não viu ninguém e no seguinte dia soube que tinha sido o Roque Funisca que quase rebentara ao encarar o caixão pendurado no muro da noite.  

Publicado por barbant em 05:40 PM | Comentários (3) | TrackBack

agosto 15, 2005

(Pa)rábulas



O CASAMENTO



                      

           Casei com a mulher.
        Foi um sábado glorioso, de sol e tudo.

       
Hoje, mais de mil passados, é bem diferente a perspectiva. Ou a retrospectiva.
       
Porque rapidamente verifiquei que me tinha casado, também, com a mãe dela. E as irmãs e os irmãos.
       
Depois, que já estava casado com os vizinhos. E o lugar todo. E a povoação inteira. O padre, o presidente da junta, o centro de saúde.
       
Mais tarde, apercebi-me de que me tinha casado com as neurastenias dela. As doenças, as alegrias súbitas, os carinhos, os despautérios.
       
Tive de me casar, ainda, com os filhos.
       
Depois casar-me com as nuances provocadas pelo roer dos anos.
       
Pus-me a reflectir e já estava irremediavelmente casado com o ciúme, a raiva, o desespero, os amantes, veros ou falsos.
       
Entrementes, casei-me com as idas ao mercado, ao shopping, à família, às amigas.
       
E com as boleias que tive de dar ao cabeleireiro, ao peixe, ao parque, à hortaliça, aos velórios.
       
Tentou, ainda, quotidianamente, que me casasse com as telenovelas dela.
       
Passados todos estes sóis, só posso exclamar:
       
– Grande casamento!

 

Publicado por barbant em 09:37 PM | Comentários (6) | TrackBack

agosto 09, 2005

Pobríncia



REFLUXOS

(CREIXOMIL - BARCELOS)




Foto: Clara do Vale

               

       

Entro no casulo do tempo, desço no poço aos teus e meus cinco anos, mão dada logo solta mas sempre irmanada. Usamos o feitiço a meia-dose, isto é, só nós rejuvenescidos, infantes, a aldeia não.

Olhamos a várzea única, resultante de várias várzeas encaixadas, redonda úbere, a orla a toda a volta do pinhal, a linha do horizonte de esquadro, excepto a sul onde o pinheiro penetrou a povoação. Noutros locais foi o inverso, mas tal não se torna nítido, é fácil concluir de óbices conjunturais e municipais, o urbanismo não conseguiu furar e a construção mantém-se quase imune a agressões. Provavelmente, a protecção decorre da corda de montes e do acaso, útil, da ausência de estradas primárias.

Penetramos no seio, pelos caminhos já de macadame, as casas, com pedra, quintaneiras, majestosas, rústicas com seus hortedos atrás. A fertilidade das vessadas engordou a população local. A que hipoteticamente se devem acrescentar receitas brasileiras. As datas o confirmam inscritas no frontal de granito, os séculos dezoito e dezanove expandiram a freguesia.

O coração de uma aldeia é a igreja, por isso passamos por lá. A religião atrai, atraía, foi sempre um poder ou contra. Mas os tempos não perdoam: da roda de casas que a circunda, algumas estão arruinadas e noutras a ruína já aguça os dentes para devastar o abandono. Inapelável.

Os caminhos vão do centro à orla. O milho dos campos vai até ao pinhal. Nesse percurso uma ou outra casa arrasta, que vai também. O sol vai do pinhal matutino ao nocturno. O sino vai da torre ao montado. As águas vão ao tutano e engrossam os terrenos. Os homens vão da casa ao café. As pessoas vão de todo o lado à missa. O dia vai até à fímbria da noite e nela mergulha exausto.

Vamos visitar as alminhas, todas, em especial aquela em que o arcanjo empurra para os fundos o diabrete com a espada.  Passamos os fontanários, os tanques, as minas, a mina da qual tua avó dizia “toma cuidado!”. Vamos até ao final da vessada, subimos entre o áspero tronco resinoso do pinhal e leio no teu rosto que fomos além da fronteira, estamos no longe a que a tua avó pediu para não ires: “Não vás para longe!”.

Sentámo-nos na caruma e tu dizes: a carne que eu tive em que tudo isto penetrou tornou-se interior. Posso agora fazer decorrer vários anos num minuto, misturar como em prensa esmagadas sensações de vivências múltiplas, entrechocar e entrelaçar visões e sons e ideias, cindir tudo, tudo expandir, quando entro aqui sou este corpo, ressuado, retomado.

E eu digo: não podes vencer a cegueira de não ver isto e eu posso. Porque estás próxima demais, estás colada umbilicalmente, fazes parte da sua medula. Não eu, que tenho a visão objectiva, externa. Tudo o que vejo é novo e não me comove, não produz lágrimas interiores. As formas são específicas para mim, e apesar de permanecerem depositadas não as alcanças nunca. Uma asa da paisagem, um jeito do povoado, um delinear do horizonte, determinados destaques ou ressaltos que me acodem escapam-te. Não preciso de arrancar, ao invés de ti, raízes familiares.    

E ambos: falemos de refluxos. O pouco que a cidade conseguiu trazer aqui para dentro, reduto protegido e emparedado, mas que obrigou mentes soltas a fugir desta arquitectura. Porque a resistência social sempre cairia, creio que foi a conjuntura que permitiu a ilha não expugnada. Em que faíscam alguns resíduos de actividade agrária, soldados no verde ebúrneo dos campos. O despovoar destes e das casas, mas a conta-gotas. O ar parado do presente face ao movimento atropelante, de braços e gritos, de outrora. O miscigenar que tacteamos de tempos e paisagens e situações sociológicas.   

Antes de regressarmos ao cimo do poço, aliás podemos já regressar mas mantendo a atmosfera mental: sob a quietez da tarde, penetrando na sombra das urqueiras e nos aromas fartos de milhos e vinhedos, picando os pés descalços no frio dos charcos, deixando-nos possuir pelo dorso sereno da várzea, como nos sentimos? Rigorosamente: sob o colo dos pássaros.  

Publicado por barbant em 05:41 PM | Comentários (4) | TrackBack

agosto 07, 2005

T'arde



A DO ZIMBRO, COPA



               

         A água é redonda, o montado arredonda-se, cada salto piscífero provoca rodas, o sol, o sol, o som contra as vertentes dos pássaros.
         Mas redondo, copado, o pinheiro, os pinheiros. Obra fechada, hermética, pregada na encosta.
         Não é cedro, mas aparentado. Isto é árvore importada dos países nórdicos.
         Recorrendo à investigação, evitando recurso aos residentes, detecta-se que este pinheiro nem cedro é: mas zimbro.

         Para destruir a paisagem, sua harmonia, fazer a desmontagem, é forçosa a aproximação. O terreno resvala, o restevo pica, mas mais hostil é o dito “pinheiro”. Eriçado, de agulhas, de unhas, de garras, com subtileza provoca o sanguinho que goteja. Sem pinhas mas baga. Resinosa apesar.
           Penetrar nessa casa, invadir o interior, perfurar o ventrículo da sombra. Não, a pontiaguda folha riça não o permite, arranha o rosto, impede o braço. O ser humano é insistente, violenta a violência resistente, entra protegendo o olhar.
           Seco tudo, acastanhado, deplorável, musculoso de aromas ácidos. Segunda vez a imagem se estilhaça.
          
           Afinal sobe um gaio que transparece, igualzinho aos que guarda da memória. Mas a atonia ergue-se de poderosas patas. Colocar-se no seu encalço. Como depositar ninho sem frança? Adaptar pernas, garras, bico, a este arbusto. Ou ser outro. Apreciando o verde movediço do cocuruto. Ou deixar-se esconder no túnel interior. Plasmático. Abdicando de gestos noutros locais plantados. Irmãos.    

Publicado por barbant em 05:46 PM | Comentários (3) | TrackBack

agosto 02, 2005

T'arde



A FOGUEIRA; FAZ-SE




               

Coloca-se o lume na orla da lagoa, abrigado do cerro sobranceiro que também deu a lenha. Milagre doravante: as chamas rentes da água, a labareda próxima das pernas sem direito a queimaduras, as línguas de fogo que se evaporam depositando a brasa. Quase compacta.

A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado.

A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio.

A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas.

A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. 

A fogueira: faz-se de palavras, troar delas, exaltadas, contrastantes, eufóricas, agudas como silvos e arremessadas como pedras. A teia do caos. Visando a harmónica degustação. 

A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só.

Publicado por barbant em 08:43 PM | Comentários (5) | TrackBack