|
Não sofro não mas fico ciumento desse rumor de estrelas e voz de caravelas que no teu corpo invento. Ah! Só me resta beber beber sobretudo o teu rosto enquanto há cor na festa e a carne sabe a mosto. Rosto calado a fingir de céu olhar aberto onde ele nu se mostre. Boca em chamas e basta o mundo afoga não vale a pena ser o que não foste. |
|
A povoação como uma
concha. De longe branca, aqui com recortes escuros, o espaldar das ruas,
as paredes que te encarceram.
Tinha morrido o Zé Bispo e o Manel Vinagre foi a Longra buscar o caixão que trouxe às costas derreado pela noite fora e apesar da fresca esfalfou-se nas encostas arranhou o ciclame das costelas mas aguentou-se intimamente mentalizando-se “Não posso parar, tenho de concluir a jornada” mas já perto da aldeia ali à beira do cemitério veio-lhe uma vontade súbita e inadiável não bem vontade mas necessidade que o obrigou a poisar o caixote em cima do muro e deslocou-se atrás de umas moitas e entretido naqueles gestos obrigatórios remexia no escuro à procura de folhas secas quando ouviu gritos aterrorizados e corridas desvairadas como de cavalo ou boi tresmalhado e tombos e mais gritos que foram fugindo espavoridos esbatendo-se aos poucos a gritaria pelo caminho abaixo abafados pela distância e pelas bordas e foi ver e não viu ninguém e no seguinte dia soube que tinha sido o Roque Funisca que quase rebentara ao encarar o caixão pendurado no muro da noite. |
|
Casei
com a mulher.
|
|
Entro no casulo do tempo, desço no poço aos teus e meus
cinco anos, mão dada logo solta mas sempre irmanada. Usamos o feitiço a meia-dose,
isto é, só nós rejuvenescidos, infantes, a aldeia não. Olhamos a várzea única, resultante de várias várzeas
encaixadas, redonda úbere, a orla a toda a volta do pinhal, a linha do
horizonte de esquadro, excepto a sul onde o pinheiro penetrou a povoação.
Noutros locais foi o inverso, mas tal não se torna nítido, é fácil
concluir de óbices conjunturais e municipais, o urbanismo não conseguiu
furar e a construção mantém-se quase imune a agressões. Provavelmente, a
protecção decorre da corda de montes e do acaso, útil, da ausência de
estradas primárias. Penetramos no seio, pelos caminhos já de macadame, as
casas, com pedra, quintaneiras, majestosas, rústicas com seus hortedos atrás.
A fertilidade das vessadas engordou a população local. A que hipoteticamente
se devem acrescentar receitas brasileiras. As datas o confirmam inscritas no
frontal de granito, os séculos dezoito e dezanove expandiram a freguesia. O coração de uma aldeia é a igreja, por isso passamos
por lá. A religião atrai, atraía, foi sempre um poder ou contra. Mas os
tempos não perdoam: da roda de casas que a circunda, algumas estão
arruinadas e noutras a ruína já aguça os dentes para devastar o abandono.
Inapelável. Os caminhos vão do centro à orla. O milho dos campos vai
até ao pinhal. Nesse percurso uma ou outra casa arrasta, que vai também. O
sol vai do pinhal matutino ao nocturno. O sino vai da torre ao montado. As águas
vão ao tutano e engrossam os terrenos. Os homens vão da casa ao café. As
pessoas vão de todo o lado à missa. O dia vai até à fímbria da noite e
nela mergulha exausto. Vamos visitar as alminhas, todas, em especial aquela em que
o arcanjo empurra para os fundos o diabrete com a espada.
Passamos os fontanários, os tanques, as minas, a mina da qual tua avó
dizia “toma cuidado!”. Vamos até ao final da vessada, subimos entre o áspero
tronco resinoso do pinhal e leio no teu rosto que fomos além da fronteira,
estamos no longe a que a tua avó pediu para não ires: “Não vás para
longe!”. Sentámo-nos na caruma e tu dizes: a carne que eu tive em
que tudo isto penetrou tornou-se interior. Posso agora fazer decorrer vários
anos num minuto, misturar como em prensa esmagadas sensações de vivências múltiplas,
entrechocar e entrelaçar visões e sons e ideias, cindir tudo, tudo expandir,
quando entro aqui sou este corpo, ressuado, retomado. E eu digo: não podes vencer a cegueira de não ver isto e
eu posso. Porque estás próxima demais, estás colada umbilicalmente, fazes
parte da sua medula. Não eu, que tenho a visão objectiva, externa. Tudo o
que vejo é novo e não me comove, não produz lágrimas interiores. As formas
são específicas para mim, e apesar de permanecerem depositadas não as alcanças
nunca. Uma asa da paisagem, um jeito do povoado, um delinear do horizonte,
determinados destaques ou ressaltos que me acodem escapam-te. Não preciso de
arrancar, ao invés de ti, raízes familiares.
Antes de regressarmos ao cimo do poço, aliás podemos já
regressar mas mantendo a atmosfera mental: sob a quietez da tarde, penetrando
na sombra das urqueiras e nos aromas fartos de milhos e vinhedos, picando os pés
descalços no frio dos charcos, deixando-nos possuir pelo dorso sereno da várzea,
como nos sentimos? Rigorosamente: sob o colo dos pássaros.
|
|
|
|
A fogueira: faz-se do vegetal derrubado pela invernia e calcinado pelo estio, exangue de seiva. Do tempo demorado. A fogueira faz-se do fogareiro, arrancado mineral das entranhas térreas, em fábricas fundido, operariamente envernizado e mecanicamente transportado. Ao lugar sítio. A fogueira; faz-se com mãos hábeis dedos espertos braços robustos, colocar dispor mexer acomodar reordenar, os gravetos os paus os carvões as sarças o entrecosto a posta. Mãos conjuntas. E conjugadas. A fogueira faz-se contra o resto da paisagem, por oposição à albufeira, a favor do vento, ao invés do frio, na apologia do regaço. Por omissão de contrários. A fogueira; faz-se, aquece, em suma da energia que expelem e contagia os corpos, uns aos outros, uns nos outros, delírio balsâmico imiscuído, línguas em sede comungada, brasas, vermelhas. Alma. Só. |