julho 30, 2005

T'arde



A COLOCAÇÃO DA PAISAGEM, CARPA




               

Despejados ali por mão e mor da carrinha. No reino do escuro variando a cinzento. Adonde o feitiço, já breve. Restos de insectos nocturnos. Uma vara de frio, esguia, sua língua entra as frinchas do corpo. Da lagoa, alargado poço negro, a carpa sem espuma explode na água. Na cabeça.

Revérbero. Trava-se a  luta. A luz ainda apenas fragmentos de asa de borboleta. Baixa a garganta dos  insectos. E das rãs. O escuro está perdido de morte. Também o frio começa a tremer. Cadáver que deixa de o ser, voa. Num estertor. Quase inapercebido.

Só luaceiro de hóstia, amarelão pálido, gotas, ferradura, meia-lua a arder, lume inteiro, roda, o sol. Os pinheiros, verdes, as águas, pratas, os ares, brasas. Partos. Almoço para  os olhos. Aconchego, quente. Mais quente. Olha ali a sombra. Que surdiu sem patas, fora raposa.

Fio invisível, quase, a cana estremece sem motivo, pequenos elementos enrodilhados e do rio todo sai a carpa. Tal as de outros dias actua no palco, acto imprescindível ao orgasmo do que pesca. Mão côncava, brutal, aperta-lhe o dorso, mulher violada sem voz.

Cansado, desistido, aparentemente dócil e conforme, o peixe. Humidez, oval forma, olhos de carneiro. Objecto inútil e consumado, no camaroeiro esconde-se. A paisagem fecha-se. Pálpebra. 

Publicado por barbant em 07:01 PM | Comentários (3) | TrackBack

julho 21, 2005

PoliGrafia



TRITHEMIUS - 5 SUBSTANTIVOS APÓS




               

TEXTO DERIVADO

Também sabes muito bem que a minha e tua concertina de amorfismo diferem bastante da dela. Sabes como eu que a nossa fuselagem já se perpetuou e já nos demos a todos os abrandecimentos que sustentam nossas defligações, não carecendo de quaisquer outros. Lembras-te daquela raivença antiga que tinha dois amantes: um para o enlevo da almadra e outro para a saucaria do correão. Poderemos considerar que o amorfismo só se consuma na relapsão física, podemos carrear inúmeras concertinas, mas nós dois já nos damos por satisfeitos, apesar de terem faltado os amatos, as carimbações, a mapiagem no cabide, no rotativismo, no seivo, na coxia (o restringimento, viria ou não, logo se veria). Penso que adivinhaste, de mim adivinhaste quase tudo, mas vou confirmar: eu afasto em regra a segunda eteromancia: não me atrai fisicamente a mulsa de que não gosto e quando a amo já não me atrai desse modo.

TEXTO ORIGINAL

Também sabes muito bem que a minha e tua concepção de amor diferem bastante da dela. Sabes como eu que a nossa fusão já se perpetuou e já nos demos a todos os abraços que sustentam nossas definições, não carecendo de quaisquer outros. Lembras-te daquela rainha antiga que tinha dois amantes: um para o enlevo da alma  e outro para a satisfação do corpo. Poderemos considerar que o amor só se consuma na relação física, podemos carrear inúmeras concepções, mas nós dois já nos damos por satisfeitos, apesar de terem faltado os amassos, as carícias, a mão no cabelo, no rosto, no seio, na coxa (o resto, viria ou não, logo se veria). Penso que adivinhaste, de mim adivinhaste quase tudo, mas vou confirmar: eu afasto em regra a segunda etapa: não me atrai fisicamente a mulher de que não gosto e quando a amo já não me atrai desse modo.

 (Em regra: substituir cada substantivo pelo 5.º do mesmo género que aparece no dicionário)

Publicado por barbant em 10:27 PM | Comentários (3) | TrackBack

julho 14, 2005

Pobríncia



S
e Os Ares Jogam Ordens
(Soajo - Percurso Pedestre)






A mochila comprada de novo, as botas de marca e o fato-de-treino já estão à entrada da porta, junto da marquise. Agora recorre-se à cozinha para, entre chamas de gás, ténues cheiros e fumos quase invisíveis, fabricar os salgadinhos, as omeletes, os rissóis e os panados. Pode-se também arranjar filetes de pescada e umas iscas, para fazer um carinho aos amigos: hoje o pessoal alimenta-se bem. Depois meto tudo na mochila, junto uns sumos e está feito. Aterro na cama, imaginando visionariamente as ocorrências do dia seguinte, desloco-me em direcção à perspectiva ou à prospectiva e rezo para que o sono venha. De manhã, lavo-me bem, nos sítios que irão ficar sujos da poeira ou do suor (o que originará a necessidade de outro banho na volta), e corro para a carreira.

A carreira não chega. Aventam-se hipóteses, estudam-se conjecturas, fazem-se palpites. Aponta-se o dedo, bem direito à organização e erguem-se críticas. Uns apreciam o denodo com que os “cabecilhas” deitam mão de diligências, outros enumeram as falhas e as consequências, outros ainda não fazem nem uma coisa nem outra. Os telemóveis não descansam, voltar para casa ou pegar nos carros particulares? Afinal apanham o motorista, estava nas instalações novas das Ciências, nós estávamos nas velhas, aos Leões. Com uma ou duas desistências, com gritinhos de alívio e satisfação, o tubo de escape arremessa o fumo da arrancada.

No Mezio aguarda ainda não cansado o guia. Alto, escanzelado, magricelas, de dentes à mostra, barba-de-chibo, parece mais um animal montezinho. Mas depois revela-se moldável, vagamente culto, dado ao humor e à crítica política ou de políticos. Vem dos lados de Montalegre, Ginja de seu nome, oferece-se: eu sou o Ginja, o Ginja está à disposição, qualquer coisa falem com o Ginja. É tudo de ginjeira. Lá nos arrasta por entre os caminhos de terra, por entre o arvoredo, é vê-los, vermo-nos, grupo de gente urbana deslizando devagar em terras de província, quebrando o silêncio com seu barulho e assustando os pássaros. Por força do programa, e do guia, ficamos boquiabertos perante as mamoas, três, uma descoberta e duas soterradas, e a ladainha do guia aborda temas e termos aparentemente históricos. De que forma cada um, e seria divertido cotejar as diferenças, terá imaginado ali o homem pré-histórico, semi-nu, com pele de carneiro nas virilhas, aos saltos de rocha em rocha, nestas ou noutras. Deitemos fora o filme.

 

Entramos agora no coração do dia. No coração do mundo, do entusiasmo, da emoção, do passeio. No coração do evento. Já aquece e depois do aperitivo das mamoas dessedentam-se no fontanário. Agora é penetrar no fundo do bosque, no seio das sombras, calcar os carreiros em que a areia estala. Aqui tudo é possível enquanto os pés avançam e o olhar investiga: tocar os cavalos selvagens e mesmo os potros com seu dorso sedoso e observar as libélulas nos restos do ribeiro; mirar a floresta densa e a serra escalvada; descer nos fundos frescos e trepar ao inferno dos penedos; correr em gincana entre as filas de choupos e sentar-se ouvindo as tretas do guia acompanhadas de descanso reparador.

O corpo vibra todo: ouvem-se os ossos que se articulam estalando e produzindo a caminhada; as mãos tocam ou acariciam um tronco, uma folha, uma baga; sente-se o sabor fresco da sombra ou da água dos charcos e o calor quente quando faltam árvores; som dos passos, dos pássaros, de um mínimo vento ouve-se; paira o cheiro a resina, a pólen, também a cio de animais e a dejectos; a epifania do sítio e do dia incendeia a pele toda.


Tem gente de todas as idades e de todos os pesos: apesar da lentidão da marcha alguns participantes estão estafados, sobem a encosta com um esgar de sofrimento. Mas aproxima-se lá em baixo o Complexo de Equitação, será agradável pousar na esplanada ou no bar e devorar o farnel regando-o com bebidas frescas. Depois é só completar com um cafézinho, um cigarro, um documentário, e deixar escoar a sesta.

No meio da tarde o grupo aporta ao centro do Soajo, velha aldeia comunal de que pouco resta da tradição depois que se instalou o turismo rural. E os outros. Entretanto chegaram cá os cómodos todos: o restaurante, a farmácia, o banco, todo o luzido citadino. De sorte que, afugentados do calor, os “turistas” enchem o ar condicionado dos cafés ou escondem os troncos nus nas águas do Poço Negro. O grupo aborda o pelourinho, fareja a igreja, desce acompanhando um rego de água e sobe ao castelo dos espigueiros, eira enorme. E em roda ou em fila, em parelha, juntos ou desgarrados, espraiam o olhar pelos horizontes abertos e ouvem as tiradas do guia. Vai explicando a arquitectura daquelas casas de espigas, subtil e engenhosa, que guardando o produto todo de todos os campos de toda a povoação, impedia em sua construção ardilosa a subida dos ratos  e a depredação do milho.


Após atravessar todas aquelas aldeolas crivadas de curvas e o rio na barragem, chegam ao Lindoso. O dia está no fim mas o calor ainda abafa, vai-se ao café local beber um fino e ouvir os monossílabos dos residentes. Antes de subir ao castelo. Que afinal está fechado, já fechou, e então os vultos ficam na rampa ou cá embaixo sentados no muro. As vozes esmorecem. Perto está o cemitério, que também acentua o tom de final do percurso pedestre. E já nem o bailarico armado no terreiro que topam no regresso pode aquecer a  nostalgia das coisas que se acabam.

Agora é fazer a viagem de volta, tentar esbater o desânimo com anedotas e cânticos, depois a despedida perante os olhos parados dos Leões, chegar a casa onde ainda está a porta, tomar outro banho revitalizador. De imediato, cair na cama de olhar fito no tecto, fazer o rescaldo: colar as cenas que imaginaste iriam acontecer com as que efectivamente aconteceram, estas superam as primeiras, procedes à selecção costurando um percurso novo em que reténs alguns episódios e outros eliminas. Tudo bem mexido, como num coctail, permites que muitas das vivências deslizem para o esquecimento e as relevantes colocas depositadas num certo espaço mental onde sempre se guardam as emoções a que depois de arrefecidas se dá o nome de recordação: na memória. 

Fotos: Dina Moreira          

Publicado por barbant em 09:24 PM | Comentários (1) | TrackBack