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O medo está contido todo nos ouvidos. É por essa porta que ele entra. O animal brutal. As primeiras visitações ocorrem na infância, provenientes de familiares e adjacentes, insuflado pelos primeiros sob a forma de protecção e pelos outros com o intuito de delir raivas. Próprias. Essas vozes, essas sugestões, esses apelos, esses arrombamentos mentais começam de entrelaçar-se com os ruídos, os gemidos, os gritos, os roucos, os silvos, os gonzos, todos os riscos de tímpano que resultam da fricção física e que estão sempre próximos das casas. E se avolumam na distância delas. Uma das suas formas é o ranger, que não sendo de dentes mas de cama, como se sabe, pode nada ter a ver com medos. A colagem do susto vai evoluindo gradualmente, colhendo argumentos e confirmações nas sombras, nos ventos desbragados, nos sótãos e nas caves, no escuro mais ou menos denso, seco ou húmido que existe sob os leitos, a lenha, os pátios, as pontes, nas grutas e desvãos. Pior é quando a noite de todo se cerra e todos os sons se tornam suspeitos, e todos os movimentos criam imaginação de vultos presentes, providos sempre de intenções e poderes demoníacos. Pior ainda quando a noite desagua no pesadelo, onde o corpo da criança é rasgado por convulsões violentas, porque o zoom de seus olhos alveja ladrões e bruxas e mortes de família, acordando invariavelmente de boca uivante e olhos saltando de terror. Muita vez, o corpo da criança mudado em homem não obtém de superar estes traumas. Quando o consegue, apercebe-se de que foi alvo de mais um ludíbrio. Que jogaram em suas costas as dimensões todas de um negro filme negro. E verifica que a noite é vazia, tal como as grutas e os sótãos. Excepto de entulho e animalejos, insectos, batráquios, morcegos, ratos, de cujo visgo ou enjoo terá também que se despojar. Porque, tal como o medo, o nojo só vive dentro de nós. E apercebe-se que o medo é demasiado crescido, possui um corpus maior que seu próprio corpo. Isto é, excedeu sua realidade. Chama-se medo, por exemplo, ao receio de um cão ou à maldade de um indivíduo. E ele agora sabe que aos dois apenas tem que os enfrentar. Nada mais. Devolvendo sensações. Obrigando o medo a fazer ricochete. Há que dar peito a toda essa colecção de teias ou de espadas que foi urdida para te fazer submergir ou baquear. Para testar tuas forças e teus íntimos poderes. E que, nalguns casos, provou ou construiu caracteres fracos, temperamentos frágeis, corpos fluidos de braços caídos e olhar esbugalhado. Se te usares na pradaria, o espaço espraiado, e os paus da tua força, obténs a construção de uma cerca onde aprisionas o medo. Cerca que vai reduzindo, minguando. Até se circunscrever à concha fechada da tua mão. |