maio 25, 2005

T'arde



Conjugação

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Como de outras vezes, fugia espavorido da casa de infância e ia até ao início do campo de trigo. O cigarro ainda no lábio não acendido. Apaziguado.

Os campos jazem de braços caídos. Além, as casas que formam o lugar erguidas sem murmúrio. O pinhal mais alto sem se mexer. Bem diferentes sítios estes dos que eram quando estava apaixonado. Da primeira mulher que não propiciava resposta física, os campos, sobretudo, funcionavam como poço fundo. De águas em que se gastaria (e gostaria) de afogar. Por não possuir mais mundo para oferecer aos pés que mal sentia.

Na era da segunda o trigo e o pinhal buliam inquietos. Pouco cuidando ele de saber se o rumo daria no enlace ou no vazio. Vendaval onde a dúvida não angustiava, e o final, como veio a acontecer, seria mais procurado que acontecido.

No terceiro caso, último mas também contemporâneo, toda a paisagem ria. O amor era pleno e mútuo e satisfeito. E ele também, possesso dela, ria de todas as eras que vivera ou imaginara olhando aquelas hastes ou aqueles ramos. A que apenas dava valor de mero cenário.

Por angústia, por castração, por saciedade, todas essas faces estavam deitadas. Como o trigo do campo. Como a folhagem no montado em que permitia repousar o olhar. Apaziguado.

Afinal, o que amara? Trincando de breve sabor o tabaco agora aceso, balbucia alto, furtando autores consagrados: 

- Amei o amor! E só!

Publicado por barbant em 04:20 PM | Comentários (4)