abril 29, 2005

Poligrafia

Correntes de livros




         

Acorrentado, de forma irrecusável, pelo desafio da Maria  (http://www.putadevida.weblog.com.pt/) e pela diplomacia de Nel (http://www.falapoetica.blogger.com.br/), com inícios um pouco díspares mas já entroncados, que a seguir se transcrevem:

"É iniciada aqui uma cadeia de literatura pela blogosfera portuguesa, vou chamar-lhe o ex-libris da tugosfera. A iniciativa foi do barrie do the pink bee, que fez o primeiro post a 7 de março, e foi-me passada pelo guy do non tibi spiro para lhe dar "o sabor do sul da europa".

“Meu amigo Manoel Carlos, de Agreste, me indicou para responder a uma entrevista sobre Literatura da Língua Portuguesa”.

Usando de algum subterfúgio, eis as minhas respostas:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Talvez “O Livro de Cesário Verde”.

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Há uma particularidade em mim, que é ficar apaixonado pelo par, torcendo para que ele se possa consumar. Acho sintomático o par Simão/Teresa da perdição de amor.

Qual foi o último livro que compraste?

Suponho que “O Regresso do Soldado”, de Charles Frazier. Uma  frase: “Quando lia livros mais notáveis, os destinos crués das heroínas condenadas serviam apenas para adensar a sua tristeza”.

Qual o último livro que leste?

Sem subterfúgios, “da loucura dos homens”, de Rodrigo de Faria e Silva. Uma frase: “O tímido é antes de tudo um ávido, inepto”.

Que livros estás a ler?

“Sexus” (Henry Miller), “Mãe Apodrecida” (Malaparte) e muitos outros.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Hipótese absurda, só na altura saberia, mas direi:

- “Finisterra”, de Carlos de Oliveira;

- “Os Quatro Quartetos”, de Eliot;

- “No Caminho de Guermantes”, de Proust;

- “O Retrato de Dorian Gray”, de Wilde;

- Um livro ainda por ler, com muitas centenas de páginas.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

À Mariza (http://www.marizalourenco.blogspot.com/), na esperança de que brote uma corrente literária de ternura;

Ao Ilídio (http://www.confissoesdeumviajante.blogspot.com/), um dos grandes escritores contra-corrente;

À Lol (http://www.aseivadosolidadgo.blogs.sapo.pt/), para que tripudie disto tudo.

Publicado por barbant em 10:14 AM | Comentários (9)

abril 08, 2005

(Des)contos









AS FORMIGAS

(FINAL)



Image hosted by Photobucket.com




Regressam. A direito, pelos campos. Na mão de Jonas, pedra incrustada
vivamente ruiva, a infância se demora. Leão domado. Mas o menor ruído,
a menor desconcentração, um pássaro uma folha podem despertá-la. E
desertará. Como as joaninhas. Que afinal são insectos mais dóceis.
Porque não nos deixam ser joaninhas.


Foi
o que aconteceu ao chegarem ao Calvário. Já desde o início elas
passavam, sozinhas ou com o filhito. Como pintura de Malhoa: redondas
saias enfunadas, rosto crestado, a cesta com seu tecto branquíssimo, o
passo lento de boi na lavra. Dentro, adivinhava-se a roda amarela do pão-de-ló,
aninhada na toalha. Assim os frangos vão à feira. Assim as tripas
procuram o riacho pelas matanças. Elas passam, cruzam-se, também a velha
de rosto pregueado, olhos subtis de quem leva coisa roubada.


Mas
no Calvário a estrada alonga-se, nasce em comprimento, despoja-se de
curvas. E contra as ramadas já em botão, a cabeça e a cesta acima das
agulhas do centeio, ou toda viva no cimo da encosta, a pintura de Malhoa lá
vai, mais devagar quanto mais longe. E outra, e outra. Também a canalha,
insectos de roupas reluzentes. Quando passam, o rosto vai alumiado,
abrindo-se, a cesta encerra prodígios, as caras tornam-se doces. Tal como
a regueifa, tal como o dia. As aves estão quedas. Por vezes alguma
levanta a  voz, um fio frágil,
branco, uma gota de água no calor que cresce. A cesta é branca, não a
cesta mas a toalha, não a cesta, as cestas que em fila as mulheres
transportam em direcção a casa. Larga fila, esguia, de brancas cestas na
tarde branca, um odor amarelado escorre. As mulheres prosseguem, assim eu,
Jonas e Lucília e Rufina e Joel, estamos encerrados na branca fileira
pela via que sobe sobe suadamente. Levamos a cesta, as mulheres levam a
cesta, como um facho, devagar devagar, como um bebé precioso as vamos
depositar em casa. E as mulheres, de brancas cestas, recortam-se na
estrada. La vão. Lentas. Cansadas. De rosto aberto e alumiado. Entre o
incenso da tarde.


Formigas!

Publicado por barbant em 09:32 AM | Comentários (3)