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E és mácula
Não sei se és bela ou sangue
Só sei que existes e não vens
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Cansado do tumulto que invadiu
o salão e das conversas já alcoolizadas dos convivas, procurou refúgio
numa das salas adjacentes. Quando entrou, verificou estupefacto que o sofá
apetecido já estava ocupado por um casal jovem que se amava ardorosamente.
Um pouco arrepiados pelo frio
do jardim, os dois jovens recolheram-se naquela sala e naquele sofá.
Agarrando-a com dedos de medo, ele consegui desnudá-la um pouco. O
suficiente para não resistir a ter que a abraçar e meter as mãos na
pele que entretanto estava à mostra, e mesmo no calor da que se escondia
sob as roupas.
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À entrada da povoação, mesmo antes, fundo-me com tuas sombras. Isso me permite percorrer os sítios tendo-te por única companheira, apesar das companhias físicas que levo ou que surgem. Permite construir o “nós” sobre as passadas pelos pés impressas e pelo olhar delineadas. E me abriga e protege. Como uma roupa daqui típica. Melhor, como uma segunda pele. Com a qual me fundi o dia todo. O
retrato que se avista é branco. De “cal” a esmo despejada. Já pouco
resta da anterior cor escura de antiga: quase só nas pedras de raras
casas desabitadas e nalguns muros que prendem quintais. O corpo da aldeia
estende-se no vale, imensa mulher deitada branca. As pernas alongam-se na
direcção do sol que nasce, o povo de ruas estreitas que se roçam é a
barriga, a cabeça está soerguida no lado ocidental. A política local
mexeu nas coisas, criando nomes às ruas, colocando placas para seres de
museu tal o moinho e o forno público, espanejando as pontes, alguns
bancos estratégicos aguardam os corpos estáticos e tagarelas do
fim-de-tarde. As casas cresceram assobradadas, da emigração foram
transferidos os cómodos físicos. Alguns sulcos riscando na dura alma
pairante que se havia formado: mas a segunda pele, a nova,
prevalece. Etéreo,
um outro corpo se molda. Uma coroa de montes protege de norte, onde o
findar de dia torna os pinhais negros como punhos; o vale, desabrigado,
como um regaço, absorve e exige os olhares que da tardinha os vultos lhe
debruçam; nos cerros o sol inclinado faz jogos de sombra; o ribeiro, como
uma voz, boca elegida, sobe até ao alto dos caminhos. Esta é a matéria,
aparentemente volátil, cerzida de cães e pássaros e pessoas, que bole
com os naturais, os mais cultos, os sensíveis, mas todos os restantes.
Ainda que assumindo formas vagas, indefinidas, que não saberiam exprimir.
Matéria que se lhes cola, que os fisga. Na alma. Dando a esta uma pele
de que nunca mais se libertam. Envaginados. Enfrentas,
enfrentamos imagens cristalizadas que ressuscitam. Os campos negros de
humidade, vessadas usadas pelos raios de sol como estrada marítima; o
serrano quase histórico que reaparece amarrado em fila de corda ao burro
e às cabras, duas; a azeitona já negra no ramo que mordes e te excita
profundamente de amarga; e, primordialmente, o espelho de águas,
escorrentes das quebradas, quase cabelos, com seus brancos risos de garoto.
É o retorno, o reencontro, o conflito, o meu, o teu, o nosso, com seres
que já fomos. Com uma pele profunda. Minha
mente se debate e permeia em jogos platónicos. Pele virtual, quase carne
psicológica. Entrevi-te, com teu companheiro actual, no carro que me
seguia a viagem temporário. Pude vislumbrar teu busto debruçado alto na
janela de tua casa. E, quase assombro: no almoço do restaurante, eras a
miúda tagarela que esfacelava de intrepidez o casal ao meu lado e eras a
mulher esguia de loira que na mesa ao fundo repreendia a filha, ainda miúda.
Jogos mentais. Pele virtual. Que a mim não mente. Neste cenário amadurecem pessoas que não podem ficar. Permanecer. Como tu. E na cidade rapidamente substituis a pele exterior. Arrojando roupas ao chão com nojo, avermelhando os lábios, delindo os olhos de azul e negro de pincéis, arranjando outro cabelo. Mais problemático se torna mudar a pele interior. Alguns fiapos, alguns poros, alguns tecidos, soltaram-se de imediato. Outros os arrancaste fazendo sangue. Por força de raízes. Outros ressurgiram quando os julgavas soltos. E outros, teimosos, permaneceram. Tens uma pele nova, sedutora, aliciante. Mas, ainda, mesclada. Dilemática. |