janeiro 30, 2005

Poemas do Dia Meio


SER



        E és água
         no contorno da tarde adormecida.

         E és mácula
         na minha boca ressequida.

         Não sei se és bela ou sangue
         a sonhar ou doer.

         Só sei que existes e não vens
         e a tarde ven na mesma
         e eu tenho que ser.

 

Publicado por barbant em 08:42 PM | Comentários (8)

janeiro 22, 2005

(Pa)rábulas



(IN)VERSÕES


            Esta é uma sala recolhida em que entram os dois jovens, provindos do frio do jardim. Os corpos estão muito próximos e ele agarrando-a um pouco, arrasta-a para o sofá.
           
Estão já bastante entrelaçados e de respiração ofegante. É quando entra, esquivando-se ao tumulto dos convivas do salão, um homem entroncado, de gabardine imponente e rosto firme.
           
Este estaca, de olhos muito alargados, fitando os pedaços de corpo nu à mostra. Os jovens soerguem-se bruscos, inquietos.
           
Os três pensam:
           
- E agora?

            Cansado do tumulto que invadiu o salão e das conversas já alcoolizadas dos convivas, procurou refúgio numa das salas adjacentes. Quando entrou, verificou estupefacto que o sofá apetecido já estava ocupado por um casal jovem que se amava ardorosamente.
           
Dirigiu-se ao rapaz e arrancando-lhe os braços, empurrou-o para a rua, não sem lhe lançar os seguintes gritos:
           
- Estupor! Vai-te já embora daqui antes que eu te desmascare. Fora! E já! Pode ser que as roupas depois te cheguem pelo correio!
           
E sentando-se à beira dela e puxando-a, num tom de ternura embrulhado em chantagem:
           
- Agora temos um segredo. Decerto não queres que o teu namorado saiba? Quem sabe, poderíamos até ter dois segredos?
           
Ela aninhou-se-lhe no peito com um sorriso.

            Um pouco arrepiados pelo frio do jardim, os dois jovens recolheram-se naquela sala e naquele sofá. Agarrando-a com dedos de medo, ele consegui desnudá-la um pouco. O suficiente para não resistir a ter que a abraçar e meter as mãos na pele que entretanto estava à mostra, e mesmo no calor da que se escondia sob as roupas.
           
Eis  senão quando entra um homem másculo, que se dirige a ele empurrando-o e insultando-o. E desatando em seguida com ameaças. Apesar dos trajes menores em que se encontrava, o jovem levantou-se calmo e deu um murro no queixo do homem que logo se estatelou no tapete.
           
Quando se tentou levantar, o sangue escoria-lhe em jorro. Ergueu uma das mãos, como que a pedir tréguas ao rapaz que se preparava para o sovar de novo.
            Os dois jovens vestiram-se e saíram pelo jardim de há bocado.


Publicado por barbant em 04:51 PM | Comentários (6)

janeiro 15, 2005

Manhã Nunca Suave


           FOSSILIZAÇÕES

          

                                   III

o clarinete seu som punhal no interior
                   nostálgico daquela música


que fazer das pernas que foram minhas
                               mas que nunca tive?

imagina oh relação se te dissesem o que de ti
                                                           me digo!

o "a perder" por não confirmado na dúvida
                           pra sempre embrulhado

o fluir dos dias rompe o invólucro
                                    do "e agora"?

Publicado por barbant em 06:57 PM | Comentários (9)

janeiro 03, 2005

Pobríncia


DA PELE, O SORTILÉGIO
(ALDEIAS – GOUVEIA)

          

À entrada da povoação, mesmo antes, fundo-me com tuas sombras. Isso me permite percorrer os sítios tendo-te por única companheira, apesar das companhias físicas que levo ou que surgem. Permite construir o “nós” sobre as passadas pelos pés impressas e pelo olhar delineadas. E me abriga e protege. Como uma roupa daqui típica. Melhor, como uma segunda pele. Com a qual me fundi o dia todo.

O retrato que se avista é branco. De “cal” a esmo despejada. Já pouco resta da anterior cor escura de antiga: quase só nas pedras de raras casas desabitadas e nalguns muros que prendem quintais. O corpo da aldeia estende-se no vale, imensa mulher deitada branca. As pernas alongam-se na direcção do sol que nasce, o povo de ruas estreitas que se roçam é a barriga, a cabeça está soerguida no lado ocidental. A política local mexeu nas coisas, criando nomes às ruas, colocando placas para seres de museu tal o moinho e o forno público, espanejando as pontes, alguns bancos estratégicos aguardam os corpos estáticos e tagarelas do fim-de-tarde. As casas cresceram assobradadas, da emigração foram transferidos os cómodos físicos. Alguns sulcos riscando na dura alma pairante que se havia formado: mas a segunda pele, a nova, prevalece.

Etéreo, um outro corpo se molda. Uma coroa de montes protege de norte, onde o findar de dia torna os pinhais negros como punhos; o vale, desabrigado, como um regaço, absorve e exige os olhares que da tardinha os vultos lhe debruçam; nos cerros o sol inclinado faz jogos de sombra; o ribeiro, como uma voz, boca elegida, sobe até ao alto dos caminhos. Esta é a matéria, aparentemente volátil, cerzida de cães e pássaros e pessoas, que bole com os naturais, os mais cultos, os sensíveis, mas todos os restantes. Ainda que assumindo formas vagas, indefinidas, que não saberiam exprimir. Matéria que se lhes cola, que os fisga. Na alma. Dando a esta uma pele de que nunca mais se libertam. Envaginados.

Enfrentas, enfrentamos imagens cristalizadas que ressuscitam. Os campos negros de humidade, vessadas usadas pelos raios de sol como estrada marítima; o serrano quase histórico que reaparece amarrado em fila de corda ao burro e às cabras, duas; a azeitona já negra no ramo que mordes e te excita profundamente de amarga; e, primordialmente, o espelho de águas, escorrentes das quebradas, quase cabelos, com seus brancos risos de garoto. É o retorno, o reencontro, o conflito, o meu, o teu, o nosso, com seres que já fomos. Com uma pele profunda.

Minha mente se debate e permeia em jogos platónicos. Pele virtual, quase carne psicológica. Entrevi-te, com teu companheiro actual, no carro que me seguia a viagem temporário. Pude vislumbrar teu busto debruçado alto na janela de tua casa. E, quase assombro: no almoço do restaurante, eras a miúda tagarela que esfacelava de intrepidez o casal ao meu lado e eras a mulher esguia de loira que na mesa ao fundo repreendia a filha, ainda miúda. Jogos mentais. Pele virtual. Que a mim não mente.

Neste cenário amadurecem pessoas que não podem ficar. Permanecer. Como tu. E na cidade rapidamente substituis a pele exterior. Arrojando roupas ao chão com nojo, avermelhando os lábios, delindo os olhos de azul e negro de pincéis, arranjando outro cabelo. Mais problemático se torna mudar a pele interior. Alguns fiapos, alguns poros, alguns tecidos, soltaram-se de imediato. Outros os arrancaste fazendo sangue. Por força de raízes. Outros ressurgiram quando os julgavas soltos. E outros, teimosos, permaneceram. Tens uma pele nova, sedutora, aliciante. Mas, ainda, mesclada. Dilemática.      

Publicado por barbant em 12:58 PM | Comentários (7)