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1
Nunca uma povoação com nome macho se
revelou tão feminina. De facto, a impressão marcante após alguns passos
aproxima-se demasiado de uma mulher: começando nos altos de Santa Marta e
indo até aos campos do Sousa, não há lugar algum em que a vista possa
espraiar-se: os altos e baixos das colinas tudo tapam e não há horizonte
limpo: assim a mulher tímida se esconde: é preciso procurá-la
pacientemente, entrar-lhe junto da pele que são os caminhos escondidos
pelos muros, meter-se debaixo das suas saias que são certos montes
redondos, percorrer os seus cabelos que são os negros bosques de
pinheiros e cedros, deitar-se na barriga verde dos campos, cair nas bocas
que são certos barrancos a que carreiros como veias nos conduzem: rude e
crespa mulher, nas suas ondas nos erguemos e caímos e assim se constrói
o amor.
2
As tapadas, os seus muros correm ao lado da estrada e dos caminhos e sobem
incansavelmente ou descem a pique, limitando os atropelados conjuntos de
pinheiros mesclados de magro eucalipto e de guedelhudos carvalhos. Ali
hhá ventos e aves e águas e coelhos bravos, a liberdade que pode ser
susceptível de sabor ou caça. Estes muros são, por conseguinte, uma
barreira, o limiar dos paraísos perdidos. Mas foram construídos com todo
o rigor e segurança: altos, duros, com uma renda de pedra no cimo
ameaçadoramente inclinada para fora, onde ficam as terras de todos: alguns deixam
ver pelas frestas a larga e rubra casa senhorial, centro último da
fortaleza; mas todos têm um portal, na maioria dos casos simples
portão de ferro, às vezes é cercado por um arco de pedra lisa com
outras pedras trabalhadas decorando os cimos, em forma de vírgulas de
quadrados de setas; as pedras que formam estas tapadas estão negras e em
musgo, o que demonstra terem sido colocadas em eras de espírito
grandemente tapado, onde dois ou três senhores com pedras destas mostravam a sua
força, apenas abrindo o portão principal às visitas honrosas que
posssuíam outras tapadas noutras povoações; agora, outras forças
fundas rebentaram os muros por determinados flancos, todo o mundo pode
penetrar no parque e fazer a sua coutada, o seu picnic, negar qualquer
tipo de paraíso privado; pode entrar, há rombos fortíssimos, pedras
estão derrubadas pelo solo, algumas destas entradas foram abertas mesmo
junto ao portal de ferro entorcido, com seu ferrujento aluquete; mas o
portal ainda ali está, sério, imponente, com seu ar sobranceiro e as
pedras decoradas que lembram dentes num alargado arreganho.
3
Os caminhos, os ribeiros, a branca carne, o sangue esverdeado da maioria
das aldeias, terás que os buscar e conhecer esforçadamente: esses largos
lençóis de poeira que noutros sítios são alongadas e encurvadas coxas
te prometendo desaguar em inomináveis recantos; os carreiros que noutros
sítios são delgados braços ou pernas reluzindo ao sol bravo; os lisos
estradões onde os carros de bois vão chiando e erguendo um vendaval de
pó: onde estão? Entramos num caminho dessa teia poderosa e não sabemos
mais onde nos leva: sobe e desce, encurva, volta atrás, o muro e a erva
escondem-lhe a silhueta, será que o caminho acaba aqui?, não haverá
mais saída?, ah é por aqui, vamos, oh lá está o estradão, pensei que
viesse só dar a esta casa! E os ribeiros, esses pássaros ruidosos e
loucos de outros sítios, será que as artérias dum corpo assim robusto
de folha não têm mais pulso a percorrer? Não divisamos nada, talvez ali
ao fundo, aquelas áleas de salgueiros são um hipotético sinal, vamos,
ele ali vai, calmo calado, como de erva os bordos vão pejados. Terás de
afastar o folhedo, por vezes o sangue adora defrontar-se cara-a-cara.
4
As casas, elas também, comungam das prerrogativas das coisas chãs que
sonham ser altas: tresmalhadas, imersas no cardume de folhas, com suas
negras paredes exibindo a ancestral resistência aos elementos, lá estão
no fundo dos carreiros a pique: e nunca, como aqui, foram tão
intragáveis os tingidos casarões que a estrada e via-férrea ocasionaram:
só as de gema, as velhas casas escuras, são um rubro canto alto no verde
caótico: e seria de ver-se uma chuvada sobre estas casas, só telhados
como nas aéreas fotografias: até a chuva se mudaria vermelha ao
ressaltar.
5
A festa, por fim, a Senhora da Saúde, e o seu cíclico ritual: de manhã,
os carros, os magotes, o lento enxame cobrindo os caminhos de acesso; a
missa grossamente entoada no mosteiro de duas torres, sobre o pavimento
ainda de largas tábuas que as campas de outrora são; junto ao altar-mor
é um delírio barroco cor-de-azeite-velho; a enxurrada de pessoas que
não termina e ao recto sol do meio-dia a ocupação das quintas, dos
montes, das tapadas, das barracas; abrem-se toalhas, malas, sacos, frangos,
garrafas, bocas; o calor é pesado de mais sobre a tua cabeça, sentas-te
no quadrado corredor do velho mosteiro e em círculo passa a multidão,
intérprete e personagem do espectáculo: os jovens viris, as de
cantarinha moças, os velhos, as feias, os imberbes, os pares, as
famílias, os aleijadinhos, os exibicionistas, os gordos, toda essa fauna
dá a volta no teu olhar; deixas o centro a sangrar em poeira ruído e
entras pelos amplos arcos do aqueduto: a quinta em leiras hesitantes,
com inúmeras escadarias ladeadas por um arabesco nos lados das cancelas
desaparecidas, um ninho com ovos podes topar entre a hera, e vais passando
lento: estão de borco agora, dormem de perna-ao-léu, a canalha joga a
bola nas vessadas; regressas, os comerciantes têm olhos gulosos, os
jovens estão em fogo e o suor escorre gordo; na igreja o ar é de água
fresca, pessoas rojam joelhos no chão ou devoram convictas o terço
trémulo entre os dedos; ei-la sai a procissão, as de rectângulo
bandeiras, os andores com seu vulgar cetim multicor, mas os montes e os
campos permanecem carregados de vultos, a festa é ali junto do vinho
tinto e nas bocas que outras procuram para sorver tomadas de fogo; o sol
ainda não vai ferido de asa, mas a grande mole concorda e pelos caminhos
o roldão de cabeças vai-se embora; sair dali é como livrar a cabeça
duma rouca maceta que todo o dia percutiu; estão os outeiros partidos, as
ervas esmagadas, o papel de embrulho resvala no tojo, cães estão
devorando os ossos descarnados, e na memória dos dias futuros um dia
dirás: "há anos ...".
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