dezembro 31, 2004

Manhã Nunca Suave


           FOSSILIZAÇÕES

          

                                   II

é igual o som das marés ou das mãos bruscas
                             de cabelos sobre os ouvidos

porque mos retiras teus seios ficam
                           de pernas para o ar

vaivém de espuma nos lábios ignorantes do momento
                                                           sobreposto da tua

retira-me da frente o caderno para que não escreva
                           como quando sem o ter não escrevi

Publicado por barbant em 03:17 PM | Comentários (4)

dezembro 27, 2004

Pobríncia


MEMORIAL DOS ALTOS E BAIXOS
(BUSTELO - PENAFIEL)


1
Nunca uma povoação com nome macho se revelou tão feminina. De facto, a impressão marcante após alguns passos aproxima-se demasiado de uma mulher: começando nos altos de Santa Marta e indo até aos campos do Sousa, não há lugar algum em que a vista possa espraiar-se: os altos e baixos das colinas tudo tapam e não há horizonte limpo: assim a mulher tímida se esconde: é preciso procurá-la pacientemente, entrar-lhe junto da pele que são os caminhos escondidos pelos muros, meter-se debaixo das suas saias que são certos montes redondos, percorrer os seus cabelos que são os negros bosques de pinheiros e cedros, deitar-se na barriga verde dos campos, cair nas bocas que são certos barrancos a que carreiros como veias nos conduzem: rude e crespa mulher, nas suas ondas nos erguemos e caímos e assim se constrói o amor.

2
As tapadas, os seus muros correm ao lado da estrada e dos caminhos e sobem incansavelmente ou descem a pique, limitando os atropelados conjuntos de pinheiros mesclados de magro eucalipto e de guedelhudos carvalhos. Ali hhá ventos e aves e águas e coelhos bravos, a liberdade que pode ser susceptível de sabor ou caça. Estes muros são, por conseguinte, uma barreira, o limiar dos paraísos perdidos. Mas foram construídos com todo o rigor e segurança: altos, duros, com uma renda de pedra no cimo ameaçadoramente inclinada para fora, onde ficam as terras de todos: alguns deixam ver pelas frestas a larga e rubra casa senhorial, centro último da fortaleza; mas todos têm um portal, na maioria dos  casos simples portão de ferro, às vezes é cercado por um arco de pedra lisa com outras pedras trabalhadas decorando os cimos, em forma de vírgulas de quadrados de setas; as pedras que formam estas tapadas estão negras e em musgo, o que demonstra terem sido colocadas em eras de espírito grandemente tapado, onde dois ou três senhores com pedras destas mostravam a sua força, apenas abrindo o portão principal às visitas honrosas que posssuíam outras tapadas noutras povoações; agora, outras forças fundas rebentaram os muros por determinados flancos, todo o mundo pode penetrar no parque e fazer a sua coutada, o seu picnic, negar qualquer tipo de paraíso privado; pode entrar, há rombos fortíssimos, pedras estão derrubadas pelo solo, algumas destas entradas foram abertas mesmo junto ao portal de ferro entorcido, com seu ferrujento aluquete; mas o portal ainda ali está, sério, imponente, com seu ar sobranceiro e as pedras decoradas que lembram dentes num alargado arreganho.

3
Os caminhos, os ribeiros, a branca carne, o sangue esverdeado da maioria das aldeias, terás que os buscar e conhecer esforçadamente: esses largos lençóis de poeira que noutros sítios são alongadas e encurvadas coxas te prometendo desaguar em inomináveis recantos; os carreiros que noutros sítios são delgados braços ou pernas reluzindo ao sol bravo; os lisos estradões onde os carros de bois vão chiando e erguendo um vendaval de pó: onde estão? Entramos num caminho dessa teia poderosa e não sabemos mais onde nos leva: sobe e desce, encurva, volta atrás, o muro e a erva escondem-lhe a silhueta, será que o caminho acaba aqui?, não haverá mais saída?, ah é por aqui, vamos, oh lá está o estradão, pensei que viesse só dar a esta casa! E os ribeiros, esses pássaros ruidosos e loucos de outros sítios, será que as artérias dum corpo assim robusto de folha não têm mais pulso a percorrer? Não divisamos nada, talvez ali ao fundo, aquelas áleas de salgueiros são um hipotético sinal, vamos, ele ali vai, calmo calado, como de erva os bordos vão pejados. Terás de afastar o folhedo, por vezes o sangue adora defrontar-se cara-a-cara.

4
As casas, elas também, comungam das prerrogativas das coisas chãs que sonham ser altas: tresmalhadas, imersas no cardume de folhas, com suas negras paredes exibindo a ancestral resistência aos elementos, lá estão no fundo dos carreiros a pique: e nunca, como aqui, foram tão intragáveis os tingidos casarões que a estrada e via-férrea ocasionaram: só as de gema, as velhas casas escuras, são um rubro canto alto no verde caótico: e seria de ver-se uma chuvada sobre estas casas, só telhados como nas aéreas fotografias: até a chuva se mudaria vermelha ao ressaltar.

5
A festa, por fim, a Senhora da Saúde, e o seu cíclico ritual: de manhã, os carros, os magotes, o lento enxame cobrindo os caminhos de acesso; a missa grossamente entoada no mosteiro de duas torres, sobre o pavimento ainda de largas tábuas que as campas de outrora são; junto ao altar-mor é um delírio barroco cor-de-azeite-velho; a enxurrada de pessoas que não termina e ao recto sol do meio-dia a ocupação das quintas, dos montes, das tapadas, das barracas; abrem-se toalhas, malas, sacos, frangos, garrafas, bocas; o calor é pesado de mais sobre a tua cabeça, sentas-te no quadrado corredor do velho mosteiro e em círculo passa a multidão, intérprete e personagem do espectáculo: os jovens viris, as de cantarinha moças, os velhos, as feias, os imberbes, os pares, as famílias, os aleijadinhos, os exibicionistas, os gordos, toda essa fauna dá a volta no teu olhar; deixas o centro a sangrar em poeira ruído e entras pelos amplos arcos do aqueduto: a quinta em leiras hesitantes,  com inúmeras escadarias ladeadas por um arabesco nos lados das cancelas desaparecidas, um ninho com ovos podes topar entre a hera, e vais passando lento: estão de borco agora, dormem de perna-ao-léu, a canalha joga a bola nas vessadas; regressas, os comerciantes têm olhos gulosos, os jovens estão em fogo e o suor escorre gordo; na igreja o ar é de água fresca, pessoas rojam joelhos no chão ou devoram convictas o terço trémulo entre os dedos; ei-la sai a procissão, as de rectângulo bandeiras, os andores com seu vulgar cetim multicor, mas os montes e os campos permanecem carregados de vultos, a festa é ali junto do vinho tinto e nas bocas que outras procuram para sorver tomadas de fogo; o sol ainda não vai ferido de asa, mas a grande mole concorda e pelos caminhos o roldão de cabeças vai-se embora; sair dali é como livrar a cabeça duma rouca maceta que todo o dia percutiu; estão os outeiros partidos, as ervas esmagadas, o papel de embrulho resvala no tojo, cães estão devorando os ossos descarnados, e na memória dos dias futuros um dia dirás: "há anos ...".   

Publicado por barbant em 09:52 PM | Comentários (5)

dezembro 22, 2004

Poemas do Dia Meio


A FLOR DO SONHO


Dormes amor e a tua face
é o sorriso da vida que não tens.
Enquanto dormes longa em mim renasces
a enforcar desdéns.

Ah dorme amor dessa harmonia
madura como seara ao meio-dia!
Dorme envolta do cume meu e que não tenho
pois de ti vem
e porque o ignoras
assim morta de paz, já não é teu também.

Ah dorme tal se o mundo estanceasse
e haja apenas sonhos nas pupilas
belos como o aceno vão da tua face.

Dorme assim longa de abandono
e entra em mim aos gritos como um mar.

Ah dorme amor!, não é tão doce o sono?
e toda a dor está em acordar.

Publicado por barbant em 08:56 PM | Comentários (8)

dezembro 16, 2004

Manhã Nunca Suave


           FOSSILIZAÇÕES

          
                              I

de nós dois resto apenas eu

à luz do dia não posso me esconder
                                        na escuridão

despedida doirada dói na mesma

qual a diferença hoje entre o que possuí
                                     e o que pensei ter?

o amor joga-se no corpo todo
                 na cabeça a ruptura

amar é o contrário de querer fugir

Publicado por barbant em 01:23 PM | Comentários (12)