outubro 26, 2004

(Pa)rábulas


BELLE DE JOUR: OUTRA



            Todas as tardes, entre as 15 e as 16, ela se dirige ao micro como se altar fosse mas na posição de sentada. De ajoelhado não se poderia falar, porque a zona corpórea que dá origem a este adjectivo se encontra tapada por calças justas.

            Então começa  e se desenrola um duelo entre os dedos de suas mãos e as teclas do computador. Como se fosse um piano.

            Sem hesitações, sem passos salientes, sem soluços nem interveniências, no écran o espaço branco vai-se negrejando. Como se aranha invisível construísse sua teia, como se a baba que no aracnídeo é redonda aqui fosse horizontal ou de quadrilátero. Também de teia se poderá dizer, que das palavras concatenadas e imbricadas o resultado só é.

            Uma tarde  alguém entreabre a porta e fica interdito. Dias depois iria jurar que ela estava em êxtase. De soçobro. De costas encurvadas, as pernas tentam prender-se ao ladrilho estremecendo, o cabelo escorria comprido, provavelmente sobre o teclado. A espaços um arrepio deslizava nas espáduas, a nuca repintada em tons vermelhos soerguia-se.

            Quando terminava, esticava os braços como se fossem asas de albatroz. Então, lentamente, dirigia-se à janela e queimava um cigarro que quase esmagava entre os dedos. Os dedos, outra vez, que prostituía em textos e agora aproximava da chama que certamente prefigurava como apoio de outras.

            No micro, repousava já enviado um texto denso, críptico, subterrâneo, sucedâneo, labiríntico. Como bisturi ou punhal. Ou coração.

            Ela vinha das terras fecundas e carvalhosas em que a abelha regressa rodopiando ao cortiço e produz doce o dourado fio de mel. Aliava as vantagens, imponderáveis e inefáveis, de quem nasceu na província e desaguou na grande cidade. Tendo acumulado e somado as qualidades de cada uma e das duas. Tendo-se libertado dos defeitos terríveis da primeira e sido incapaz de absorver os da segunda.    

            Ali, e noutro lado já, repousava vivo o texto. Como um duplo, o reverso no espelho, distante já de sua imagem.

 

            Ela não sabia que  o interlocutor utilizava para recontro a hora  nocturna.

           Ela não sabia do jeito de suas costas, da forma linfática de suas palavras, mastigadas em gestação o dia todo e corrigidas, de quando em vez, no dia seguinte.

            Ela não sabias das frases que ele podava ou acrescentava à versão original.

            Ela não sabia da veracidade de suas asserções. Dos arredores que as  camuflavam como uma gordura. Das cores falseadas que reluziam em ideias enigmáticas.

            Nem saberia jamais.

 

            Ela estilizava seu engenho de forma a atingir a conjuntura favorável, em que devindo ele grafado e frouxo lhe daria com os pés.

            Ele urdia a fórmula subtil tendente a que, na mesma conjuntura, ela não se pudesse mais soltar, amarrada de pés e mãos.

Publicado por barbant em 01:29 PM | Comentários (8)

outubro 23, 2004

Morricone's Suites

          
             
FOR ELENA



a chuva que outrora em teus cabelos
molhou meu rosto
chove no presente
ácida confundindo-se
numa única chuva
que fez desaguar nosso amor
em dois casamentos
que não o nosso
desfazendo as personalidades
minha e tua que entretanto
haviam permutado
e em carne
viva nos arrancaram forma
suprema de perpetuar
nosso amor encostado
a esta chuva
molhada de teus cabelos
projectados em haste para o sempre
de nossas noites

Publicado por barbant em 05:31 PM | Comentários (11)

outubro 19, 2004

Grafologia

CLAREANDO IDEIAS
(GLOSA A MÓNICA CARONE)



         
 
          Em termos maximamente idealistas, independente dos milhões de sinónimos a lhe atribuir, o amor deveria ser desprovido de posse e propriedade.

            Sendo embora certo que a  posse é objectivo máximo do par que se enamora ou apaixona. Mas a  propriedade, essa liberta um cheiro acre que pulveriza os  sentimentos.

            Então, mesmo o casal já definitivamente decretado proprietário do outro por civil e igreja, deveria liberar o  cônjuge: permitir, embora  tremendo de receio, que ele vivesse em pleno com os outros. Se a  relação é funda, ele regressa aos teus braços no fim do dia. Ou da noite. Se não, é porque não era.

            Mas esta noção de propriedade é algo de muito forte e determinado. Criada, desenvolvida, aprofundada e ministrada astuta e ferozmente pelo homem, vem sendo acedida pela mulher. 

            Esta noção começa a se notar logo nas primícias de uma relação.

            O par se conhece não se conhecendo de lado algum. Suas palavras são límpidas, despidas de preconceito e de intenção segunda, libertas de dúvidas.

            Então eles começam de conhecer os outros do parceiro, nos casos em que a relação contém alguma pele virtual. Ele anota inconscientemente os homens com que ela  se corresponde. Ela faz o mesmo relativamente às mulheres “dele”. E verifica, com surpresa, que ele se relaciona mais com mulheres.

            Então, como se aqueles nomes fossem ervas, sobrevém uma vontade irresistível de atirar ervicida sobre eles e os destruir de uma  vez.

            Um dia, um deles menciona no mail um daqueles nomes. Inocentemente. Do outro lado, cujos mails já espaçavam, na mesma  hora e minuto  é arremessada uma resposta eivada de franqueza. Como ainda estava com o micro nas mãos, é nestas que a resposta logo explode. Com surpresa e estupefacção.

            O alvo é atingido de forma rápida e certeira. No braço, no peito, ou na cabeça. Ou nas três zonas. No braço de certeza, pois ele (ela) já nada conseguirá escrever ao parceiro(a) nos  próximos dias.

            Vítima desta construção arcaica e feudal, a propriedade, veremos se este amor sobrevive. Ou se morre sem sequer ter  chegado  à adolescência.

Publicado por barbant em 06:13 PM | Comentários (8)

outubro 12, 2004

Pobríncia


OS NINHOS: ALGUMAS EMBAIXADAS

Tati

Colocou Deus aos pássaros na terra com suas asas e pela terra os gravetos e o musgo colocou.

Eu te saúdo arco-de-fogo, berço redondo ogiva negro cesto, oh de ternura entrançado enredado enroscado ensedivelado encardado, oh de sons pórtico oh de amor braço aro de lume em meus olhos circunferencial torrente de vida em meus dedos, oh como eles me estalam!

Dos ninhos poderemos nomear a embaixada rasteira, a da cotovia dos chascos da perdiz a mais ardorosa a que desafia a pedra da paciência o de rafeiro nariz no chão e a que se pergunta "perdeste alguma coisa?" a que quase sempre apenas alcança encontrar insectos penas de ave desperdícios cobras a bufar.

Poderemos nomear a embaixada verde,  a que entra no útero das vinhas com seus esteios como colunas de creta a que possui o azul do sulfato nas folhas e nos ovos os de melro, a  do centeio derrubado sob teus joelhos da mesma forma que rapariga de amores dobrada, mais o oiro do melro do seu bico, e os lódãos cravejados de bossas um exército de varizes ensarapolando o tronco e os seus ramos espetados como cabelo de garoto azougado onde quase não refulge do escuro o minúsculo ninho de milheira ou o de rola só dois paus paralelos sobre o paralelipípedo esteio, poisadoiro monótono de muitos ninhos de melro cujas hipóteses de sobrevivência não prevalecem.

A embaixada de pedra provoca ranhuras nas costas da mão nas falangetas no antebraço vive no duro muro onde também mora a sardinisca e a aranha e só por acaso ou horas perdidas de vigia pode  surpreender a meigengra na rota e hesitas a mão não cabe e arruínas a pedra mas já é tarde não há  ovos mas pássaros implumes, e nas covas onde cresce erva espetada como bigode de gato está aninhado o de pisco ninho e os de carriça redondinhas bolas com um furo do perímetro de dois dedos, estão pendentes ou encaixados na terra ou comprimidos no musgo mas seis deles são falsos e só o sétimo possui ovos que quase não existem e mal os tacteias com ânsia de que evaporem ou fiquem reduzidos a um níquel de mel na polpa do polegar, e no entanto como páras espantado perante esse saco redondo pendente igual aos que os  carneiros usam entre pernas e ainda te manténs espantado do milagre de haveres descortinado esse saco urdido por camaleão de tal forma agora verificas que se não distingue da erva envolvente e musgo em que se intercala.

Nos silvados pode encontrar-se a embaixada de espinhos, a que tem braços que agarram a roupa e as amoras já não interessam, a dos melros de bico preto pintassilgos toutinegra, mas há a hipótese do pau por onde se sobe em risco de cair a todo o corpo no ouriço-cacheiro enorme que é o silvado, há a hipótese da tesoura-da-poda que abre um túnel e no  entanto a camisa quer ficar para trás e os cabelos também com pequeníssimos gumes incrustados na pele, duas gotas de sangue no braço, e com os pés as entradas tapas e dissimulas com as hastes cortadas que secam antes do verão entrar.

A embaixada lôbrega prefere as minas com suas armadilhas suas terras soltas que caem na água lamacenta com um xuá rouco de rã assustada e a cara também suja de terra que terra é e dela  provém, é a embaixada dos barrancos de poços com covazinhas cujo destino era permitir a descida dos proprietários para proceder ao desentupimento das nascentes vítima de derrocada, e aqui o tacto é a  personagem principal decifra os milímetros sólidos onde o pé depois segura todo o corpo, e no escuro mede a altura da mina e o grau de viscosidade do lodo e um morcego vem contra ti a modos de granada e um só grão de terra que cai provoca um estertor terrível na água com seu eco côncavo e brumoso, e a  frescura da água tornou-se exagero e provoca arrepios da mesma forma  que os provoca a fuga nojenta dos ratos e das aranhas e a temperatura aproxima de ti o cemitério que por razões ínsitas supões frio e só frio, e estás no poço no fundo dele onde viste o pisco-ferreiro esse pássaro negrito com uma lista de café no pescoço e olhas para cima e o céu é mesmo redondo uma pequena e redonda e azul saia de mulher.

Para ti não serve já a embaixada de alta cavalaria, a dos altíssimos largos pinheiros a  das entroncadas e corcuvadas carvalhas cabeludas quase só tronco chimpanzés de pêlo verde e sargitado que se sobe roçando o peito, e também as austrálias  que vivem juntas na encosta mai-los pombos bravos que teimam em construir o ninho na ponta do ramo e mesmo  asim só o avistas quando vais a passar e ouves o barulho esbaforido da ave  só porque a bota escorregou no folhedo seco e se soubesses subir até lá ao alto todos os degraus de verde arreigado de sol onde os ramos estalam por  vezes provocando pavor na espinha sentirias o céu mais perto cada vez mais perto e do cimo voltejas o olhar contra o chão e sentirias vertigens e mal descesses sentar-te-ias no solo apaziguado de haver terra e uma mão tão longa e tão sólida a amparar-te como se houvesses quase ressuscitado.

Por fim, nomear-se-á a embaixada húmida, a que sobe e desce o ribeiro, a de toda a música a de mil sons de mil ramos e mil espumas, dos mil olhos para enterrar no verde denso dos mil ouvidos que a água condensa como uma  libelinha que sobre ela paira armada em heli, a água com seus grãos de música que se confundem com os trilos do pica-peixe, a água que cai de cachão rouca e surda e avança entre as negras filas de amieiro das quais até o tronco é verde e é verde a própria água.

Eu te saúdo ninho - pássaro de asas com bico construído em cada primavera e nas chuvas derruído, oh mel redondo oh cálice de sons leito que só tacteio de fogo arco em meus olhos derramado berço em minhas mãos.  

Publicado por barbant em 10:14 PM | Comentários (6)

outubro 09, 2004

Poemas do Dia Meio

                       
                 LEMBRANÇA



Estou a lembrar-me do dia em que te hei-de possuir.

Tem que haver uma lua de sangue
vento nas árvores
e tu hás-de sorrir está bem? sorrir ...

Tem que haver os meus braços frementes de silêncio
um silêncio de dor águas e frutos
para arremessar em tua boca pasmada.

Mas finge que me és toda embora nada sim?
Finge que és chuva escorrendo-me do rosto
ainda que te queime qualquer alvorada.

Estou-me a lembrar: vinhas bonita
escancarada de amor a carne a boca
escancarada de amor
escancarada.

Vinhas bela. Lembrar traz primavera
desolação
sorriso entretanto.

E tu amor só dóis dóis tanto!

Publicado por barbant em 10:05 AM | Comentários (9)

outubro 05, 2004

(Pa)rábulas



RELAÇÃO ...

          O quartel é um mundo de homens. Onde perpassam ideias e imagens de mulher. Mulheres de carne é proibido que apareçam, só em cerimónias públicas. E mesmo aí, prevenidas de recato quase religioso. 
         
Mas aquela, loira e opulenta, era real e dirigia-se aos aposentos do alferes. O meu amigo estranhou e  contou-me assim a  história que se abriu e decorreu.

          - Oh pá, falava-se. Ela era casada, dos lados de Braga imagine-se, e constava que se encontrava ali mesmo com o alferes, ou com o furriel ou com os dois. Nisto, como sabes, sobra sempre a dúvida, retiram-se conclusões de aparências. Resolvi tirar a coisa a limpo.
          - Mas como?
         
- Uma das minhas tarefas prendia com o escritório. Um dia, fingindo esquecer-me  de qualquer objecto, abri  a  porta de repente e entrei. Oh pá, apanhei-os. O furriel em cima  dela, no sofá. Levantei a mão em sinal de desculpa e fui à minha vida.
         
- E então?
         
- No dia seguinte ele  deu-me uma pissada. “- Oh Varela, caramba, tu sabias do  que se passava e fazes-me uma  destas! Não esperava isso de ti, foste longe demais. Raios me partam! Chiça, acontece  cada uma!”
         
- E tu?
         
- Oh pá, calei-me. Mas eu bem que tinha conseguido os meus intentos. Tinha que ser! Fodi-os! 

          Li o olhar do meu amigo. Tantos  anos passados  ainda chispava.
         
Ficava assim anulada a relação sexual que tivera lugar. A única. Não posso escrever a famosa frase: “O furriel fodia  furioso a loira logo louca”.
         
Pior, o nódulo da relação sexual desloca-se não subtilmente. Relação sexual que vira relação mental. E qual delas permanece, já que a do furriel com a loira foi brutalmente suprimida?
          A relação quase homossexual do meu amigo com o furriel? A relação sexual violadora do meu amigo com a loira? A relação promíscua e bacanalícia do meu  amigo com os dois?
         Li de novo no rosto do meu amigo: a relação sexual, plena, antropofágica, tendo-se alimentado de outra, ainda persistia viva.       

  

... ASSEXUALIZÁVEL
Publicado por barbant em 05:07 PM | Comentários (5)