setembro 29, 2004

PoliGrafia

TÉCNICAS LITERÁRIAS: DAS
(HOMENAGEM À "FILHA DE MARIA NOWACKI")


A arte da escrita recorre, por vezes, às técnicas de outras artes ou ciências. Muitas vezes o faz com maestria.

Vamos utilizar o texto da “Sétima revelação” integrante do blog “A Filha de Maria Nowacki” para ilustrar algumas dessas técnicas.

A frase "Sorri, furiosa" releva da pintura: é o jogo do contraste, da contraluz, podemos distinguir duas cores. O branco de "sorri" e o negro de "furiosa".

"Sobre a cama" recorre à geografia. Trata-se aqui de deslocamento de massas. O que está sobre a cama são os objectos pessoais: deslocamento para a direita. Mas, quem acaba de ler a primeira frase, pode perceber que quem estava sobre a cama era o pai: deslocamento para a esquerda. E porque não ver no texto deslocamento para ambos os lados.

Vejamos como se processa o recurso à geometria. Basta explanar a frase "Eu era o corpo, a pele branca. Cabelos, olhos e boca". Primeiro o todo, depois a parte, ou as partes.

Agora teremos que transcrever quase todo o primeiro parágrafo. Assim: “Encontrei-o em meu quarto. Sobre a cama, espalhados de qualquer jeito, preservativos misturavam-se às minhas peças íntimas”. Fizemos, de certa forma um traveling e um zoom. Recorrendo, obviamente, a fórmulas cinematográficas.

Finalmente, vamos proceder a uma fractura, a uma repartição. Roubando propriedades da física. Vamos partir um provérbio em meio, como se dividíssemos um pão em duas metades. Eis como: “Eu estava por minha própria conta. E risco”.

De que estivemos falando? Ora, da sétima revelação.
E da arte das artes: a arte da escrita.

Mas o mais importante de tudo é fazer o confronto. Reler esse texto fabuloso que é a “Sétima revelação”.

 

Publicado por barbant em 08:53 PM | Comentários (5)

setembro 25, 2004

D'Amore Si Muore





morrer
de amor
qualquer um
pode
e não pode

quem não pode
ou não quer
ou não deixa
essa morte
alastrar
no peito
apertado
apenas por quem
tem amor
para morrer

Publicado por barbant em 02:22 PM | Comentários (9)

setembro 20, 2004

Desaparição - Bruzende (Viariz - Baião)


         
          Sento-me aqui na serra alta, no sítio chamado Cocurutos, e relembro.
          Também está alta a minha vida. Tenho um marido que amo, um filho que idolatro, casa carro quintais. Sou feliz. Ainda assim, às vezes recorro aos amigos. Um deles, arguto alto desconcertante, afirma: "A felicidade não existe. Não permitas nunca que a tua emoção fique plana como uma planície".
          Fitas o lugar, Bruzende da minha vida! Para baixo, os Juncais. À esquerda a rival Viariz. À direita, não se vê mas eu bem vejo Valadares, afundada nos pinhais. Foi daí que um dia subiu um homem até ao meu altar. Que me namorou. Que me noivou. Que me espetou um filho bem no meio das coxas. Que foi preciso arrancar, salpicado de borrifos de sangue. Que aí anda, destro de pernas, no chão do mundo.
          Desço o olhar pela encosta e a meio topo no lugar. E no corpo da minha infância. Lá vou eu descalça ou de socas, tropeçando nas pedras, garrafa de azeite quebrada que comprei na loja, arrastando o cântaro da bica de água, levantando olhos arregalados para as pessoas mais velhas, o povo está cheio, vou-me iniciando e pagando as primeiras contas da aprendizagem da vida.
          O meu corpo cresce, atinge a puberdade. Ocorrem alterações brutais orgânicas. Irrefragável, vence-te uma vontade absurda de correr contra tudo, as pessoas, os hábitos, os sítios, bater até à testa em sangue. E o corpo continua a crescer, a tornar-se todo, sobretudo no centro.
          Alarga na juventude. Os sentimentos correm como rios para um mar indefinido. O namoro. A defesa e o risco. O baile. Os bailaricos. Nas festas, nas noitadas, nos serões. Danças com os rapazes. Intimamente anseias por aquele, não sabias que hoje sabes que será teu marido. Mas finges desinteresse, é uma estratégia. Ele também. Mas quando chega a vossa vez estremece o teu peito de forma exagerada. Se me surpreendem!
          Guardei-as comigo. A infância, a adolescência, a juventude. Às vezes rebentam dentro de mim, acende o olhar num brilho. Retive-as. Diria aquele meu amigo: "Os estádios da nossa vida escoam-se pelos  dedos entreabertos. Desaparecem sinuosos no enxurro dos anos. Para sempre".
          Fitas o lugar. Parece uma povoação bombardeada. Casas novas, casas ainda iguais, casas em ruínas, casas caídas pelo chão. E as pessoas abandonaram o povo, parcas permanecem para segurar nas mãos as memórias e as tradições. Os chalés, determinados pelos emigrantes na Suiça, erguendo-se em vários andares, retintos. Diz o tal meu amigo: "Eles escarram grossamente a sua vaidade no solo em que nasceram. Mas esta é a povoação. Dantes, a aldeia  era idêntica às estações do ano. Agora evolui, ainda que rumo à decadência, numa trajectória próxima da que é reservada aos seres vivos".
          Gosto de regressar. De calcorrear os caminhos do passado que estão agora também inscritos na minha fronte. De conjugar a festa da Senhora da Saúde desde a véspera até ao crepúsculo da expiração.
          Diz o meu amigo: "Planar, ser feliz! Com tanta desaparição, não é possível".
          "É", digo eu.

 

Publicado por barbant em 08:45 PM | Comentários (10)

setembro 11, 2004

Co-Respondências




 

                    5 de Maio de 2050:

Remexendo, quase por acaso, nos dejectos que jazem perto de apodrecidos nos interstícios da net, pegando com jeito páginas pessoais há muito muito em voga, o blog, foi detectado que dois grandes escritores, ela brasileira ele português, chocaram sua trajectória em todo um mês de Agosto.

 Tórrido mês.

 A custo, várias camadas podiam se descortinar imbricadas em sua estuante correspondência. Enigmáticos e esguios dizeres feito as sombras da noite. Entesouradas e ridentes cabeleiras espelhadas em searas do dia meio. Articulações plausíveis e subtis às espaldas do humor. Páginas rompentes e brutais de mar de praia em intempérie.

 No seguinte mês, eles próprios tiveram dificuldade extrema em lidar com os desperdícios decorridos da vazante.

 Deparavam com dois formatos opostos, ambos tecidos de lavosos fogachos.

 Ora se aproximavam da combustão já agonizante de dois peitos quase carbonizados.

 Ou então, como nos arredores do parto, ocorriam borrifos explodidos de sangue depositado a esmo.

 Isto ocorreu em Agosto de 2004.

                     Sérgio Simónides da Silva

Publicado por barbant em 10:41 PM | Comentários (7)

setembro 09, 2004

A verosimilhança da morte



 

 

 

há mortes ou mortos

cuja notícia

apesar de não fracturar o centro

da angústia

não se acomoda dentro de nós

e carece de pormenores

pequenos pormenores

que instalem uma evolução prévia de doença

um prenúncio algo que possa ser

a véspera que não houve

de forma a que por fim

com uns restos de dorida resistência

as pálpebras se cerrem

as pernas se estendam

e os braços se cruzem

 

Publicado por barbant em 08:03 PM | Comentários (9)