agosto 29, 2004

Porque

 

 


 

 

recuso abrir o sarcófago

dos múltiplos encontros

que provocaste

no gume dos sentidos

invadindo todas as frestas

como chuva em casa esburacada

 

Publicado por barbant em 05:15 PM | Comentários (7)

agosto 25, 2004

Passeio. A pé









De toda a viagem e do seu fogo de convívio restam na memória os momentos de milagre que ocorrem acesos à maneira de slides. A selecção será diversa se acontece na agenda contemporânea do acontecimento, se é feita um dia, vários dias ou anos após. Esta última é a mais correcta, pois corresponde ao cristal exacto daquilo que dos actos perdura. Mas façamos a de um dia após:

de madrugada, saltar da cama e combater o frio junto do forno em labareda ou nas chamas da lareira: primeiras horas de lume, com utilização simultânea para o arroz loiro e o frango assado;

entrada na manhã enfarruscada, irmã das do falecido Fevereiro, com as troixas pendentes do braço, as pernas aptas e as palavras faiscantes de ânimo pelas bocas exaltadas;

não nasce o sol no céu de chuvadas suspensas, apenas os regatos correm barulhentos para os fundos, e os pássaros anunciam um dia novo, ainda que cinzento;

nomearemos a mina, uma simples mina há anos mudada em farsa religiosa, com vozes e aparições no interior, de que ainda resta uma caixota de madeira com seu buraco de esmolas toda borrada de cera e com um pedaço de tecto enegrecido pelo lume de antigas velas;

deste outro local falaremos do ambiente de silêncio fortíssimo devido à amálgama de troncos e às poças de água que os  campos pedem;

por ali acima vai um bando de jovens desordenados nos gestos e nos palavrões e nas atitudes que, fingindo libertinagem ou pura acrobacia vital de falas ou de corpos, acaba por se confundir com exibicionismo: passam, curiosamente, perto de duas casas, casas não, paredes onde outrora foi erguido o teatro que a vida familiar origina, e que agora são habitadas pelas gordas hastes dos silvedos;

rente do estradão há uma casa alta, bifurcada, no meio de altíssimo arvoredo e pujante pululação de arbustos: é destas casas isoladas que são o personagem principal e centro neválgico de filmes de terror, por onde passa o medo a cavalo no vento e brancos fantasmas se iluminam nas negras noites de trovoada: como não pensar nos negros fantasmas que povoam as nossas brancas noites de insónia?;

a chuva, que finalmente aparece, insistente, fria, entrando por todos os lados, encharcando agora os pés, depois os joelhos, mais tarde os cotovelos, e os braços, as pernas, o cabelo, enquanto escorregamos na lama que decora os caminhos de cabra de entre-campos, em que ficam impressos, por instantes, os encurvados desenhos dos sapatos;

em casa, a roupa que se arroja como uma praga, a lareira, a concluir com lume uma viagem que, desde o início, a lume fora escrita.   



Publicado por barbant em 02:43 PM | Comentários (6)

agosto 22, 2004

O corpo: doação


Munch

 

a criança de outrora apercebe-se
da evolução genética o seio a púbis
e o corpo de mulher é de outra
baseado funcionando
como um duplo n
o espelho
permite a separação das águas até
que os rapazes se aproximam demasiado
e torna-se extremamente difícil
o gesto de abrir a blusa
um só botão mas muito mais
se no centro das pernas eles ensaiam
conseguir
fragmentada ela retrai-se a si
vê que os gestos e posições julgadas se invertem
e que é brutal forçoso
disponibilizar o seu próprio corpo
senão resistir com base em vozes múrmuras
e em qualquer dos casos
as mãos colocar em redor da cabeça
convulsas de choro por dentro da noite

 

Publicado por barbant em 12:26 PM | Comentários (1)

agosto 17, 2004

O blog




 

          Se meu pai fosse vivo, tentaria usar de sua autoridade, que sempre defrontei, mandar-me-ia sentar na cadeira (que começava a ficar eléctrica), e dir-me-ia:

          - Rapaz, essa história dos bloks, ou berlogues ou lá o que é, não te auguro grande futuro.
          - Nem eu.
          - Tens que pensar em coisas práticas, o trabalho, a família, o estatuto social. Isso da net é um desperdício de tempo e dinheiro, um luxo que só acolhe a quem é rico.  
          - Sim.
         - E agora, ao que parece, que eu bem noto em ti, andas metido com uma mulher que não conheces de lado nenhum, se calhar brasileira, é ou não verdade?
          - É.
         - Então, meu filho, não sabes nada dela, se é nova ou velha, se é branca ou preta, e insistes nessa perfídia? Não sabes, pois não?
         - Não. Mas, para mim é jovem e bonita (pelo menos de espírito), brilhante a escrever, meiga, e manda-me muitos beijos virtuais.
         - Beijos quê? Ora, meu filho, tem juízo, manda isso às urtigas. Ainda por cima, brasileiras, que são umas cadelas. Tens que acabar com isso de uma vez! É uma ordem, ouviste?
         
          Ainda bem que eu digo "Se o meu pai fosse vivo". Porque, se fosse, matava-o.  

Publicado por barbant em 12:09 AM | Comentários (5)

agosto 13, 2004

Vocação de lume




 

Há palavras que sem te aperceberes

poisam nos lábios.

Não sabes a direcção mas decerto

vêm de sul.

Deves soltá-las.

Se o não fizeres encaminhar-se-ão

para o interior queimando com seu lume

primeiro a garganta.

Agora tens que optar.

Entre um incêndio. E outro.


Publicado por barbant em 11:53 AM | Comentários (5)

agosto 04, 2004

A (in)definição da mulher



Mulher
Se numa palavra
Pudéssemos definir o seu significado
Mulher  não daria a palavra exacta
Pois Mulher não tem fórmula
Logo Mulher não tem  resultado.
Então, o que define a  mulher
Além do esforço e do trabalho
Lavar, passar e cozinhar ... não é.
Pois a Mulher, é muito mais ,
Já  conquistou seu espaço
Mulher não significa indefesa
Mulher pode ser frágil na queda, mas é
 inteligência viva, forte e ágil  no saber.
E nesse ponto, Mulher está certa
Mulher  usa a cabeça e o coração
Mulher é forma de vida
Que salta pelas pupilas
De quem com ela conspira.
Mulher determinada é como a luz
Que ressoa no silêncio do deserto
Mulher é o começo de uma partida
Com destino ainda que ferida
Mulher é enfim o que resta da vida
Quando a vida acontece.

(Poema e post de uma querida amiga)


Publicado por barbant em 10:23 AM | Comentários (4)