julho 27, 2004

Agustiniana

           

não foste ao encontro que não marcaste como prometeras
voluntariamente
encontro que acontece de toda a forma
ainda que virtual tornando-te
íntegra herdeira e personagem
desta corte do Norte que me exaspera
simbolizada na sogra iminente que recusa o ósculo
à noiva do filho dizendo-lhe nas barbas do casamento
"Os velhos não se beijam" visando
não ferir a muralha do respeito que contorna
a vessada da moral puxando-te implacável
para o túmulo em que te encerrei
na ausência de trinta anos e para a teia
urdida de arames de preconceito
em que afinal verifico
já não poderás liberar-te criando a distinção
entre viver e existir

 

             

Publicado por barbant em 01:24 PM | Comentários (2)

julho 24, 2004

ARCO DE BAÚLHE (Cabeceiras de Basto)

        6 VOLTAS EM DERREDOR         





1.ª
Como se vai para o Arco? Até ver, é desta forma:
Cama, casa-de-banho, porta, porta da rua, rua, Porto, via de circunvalação, A3/A4, deixas a A4 de lado rompes na A3, que a seguir também deixas de lado, auto de Guimarães, atravessas a cidade, ladeias a Penha, deixas a estrada de Felgueiras, desces para Fafe, Fafe ao lado, por Moreira de Rei, subida da serra, fonte à esquerda bica fria na boca, sobes, curva à direita, curva à esquerda, curva curva curva, contracurva, corcovos sucessivos, um lombo dá lugar a outro, voltas a descer e a subir, Vázea Cova e nova descida e nova subida, mini-alto, grande recta surpresa com seu Café da Recta ao fim, descida inclinada, gelo, cuidado!, deixas Cabeceiras ao lado, desces, Outeiro, Alvite, Santa Senhorinha, pequena subida breve salto de coelho, estás no Arco.
Tanta coisa que tiveste de abandonar, que ficou de lado! É o decreto-lei da vida. Mas estás no Arco.

2.ª
Baúlhe é misto de vila e aldeia. Animal bifronte, como o sagitário ou o gnu. A vila é o centro, a baixa, com seus cafés, confeitarias, seus largos, suas lojas, padarias, drogarias, alfaiate, pronto-a-vestir, mecânico auto, stand de carros, vestidos de noiva, ruas becos calçadas, passeios, pessoas, encontros, diálogos, vivacidade, pequeno bairro de Paris, carros, motas, bicicletas, a pé, homens donas raparigas, crianças, moinas à porta do bar, casal de gravata e vestido, velhotas muitas negras, e com jeito, se te encostares aos grupos, hás-de encontrar o médico geral, o ingenheiro, o adbogado, a enfermeira, a professora, a profissional ... até o abade pode surgir a todo o instante preto de batina.

3.ª
Em volta, designadamente a ocidente, persiste a área rural, embora contruída em azinhagas. Campos, arvoredo, pássaros, erva, poças, regos, lameiro, sapos caracóis lesmas, cheiroso loureiro, belo velho carreiro abandonado, estreito entre muros entre leiras à mercê das badaladas dos sinos do centro. É aí que ocorre a matança dos porcos. Vêm dos lados de Montalegre, numa carroça cheia de grunhidos, retiram-se quatro, prendem-se no quinteiro, estão dois agressivos bancos preparados oito homens seis mulheres e a cozinha e as panelas e a salgadeira e as facas enormes afiadas, agarra-se o primeiro, à unha, aos gritos, sete-cães-a-um-osso, vai! força! ei!, espeta-se com ele contra o banco, agarram-no com todos os braços, a confusão manda uns contra os outros, a faca entra na barbela do pescoço, o animal berra uiva atroa a aldeia, o sangue esguicha e espicha no alguidar, berra, vai resfolegando vai esperneando vai afrouxando, deixa de coicear, deixa de espernear, está morto, atira-se para o chão, venha outro, e outro e outro, trato igual, a seguir são chamuscados, os pelos, o coiro, com maçarico, são lavados com sabão e esfregados com pedra de bloco, estão loiros como leitões da Bairrada, estão lindos, agora abre-se-lhe o ventre, dois de cada vez, um em cada banco, penduram-se na loja, ao alto, contrariamente a outras regiões de focinho para cima, repara olha, duas gotas de sangue escorrem no rabicho.

4.ª
Meio-dia. Calor. Calma. Devagar, lento, tranquilamente, vais à Churrasqueira do Paço, sentas-te na sombra da mesa, vitela assada, frango assado, costeleta assada, tudo assado na brasa à mostra, vem o bife grelhado, tostado gostoso suculento, vem a infusa de vinho tinto coroado de espuma, o arroz a batata o pão a salada, já estás de coração sossegado, encostas as costas contra a cadeira, breve massagem, olhas lá para fora o ar quente, vem a sobremesa e o café, demoras um pouco mais, voltas ao centro da vila, não sem antes passar pela estação, velha suja desactivada com ferros entrelaçados pairando, apenas museu ao ladodo dito, entestas na estrada de Pedraça, mas não vais à verde Pedraça, duzentos metros à frente desces pela esquerda, deslizas escorregas quase cais na praia fluvial do Caneiro, sentas-te na areia contra o muro, metes os calções, fumas um cigarro demoradamente, olhas as vozes os gritos o barulho os vultos as pessoas, os corpos que cachoam na água, paisagem fresca e molhada, mergulhas também, o corpo torna-se de água, assim gastas a tarde.

5.ª
Curioso, tentaste obter a informação a todo o transe e nada. Afinal aonde fica o arco? "Nunca ouvi falar", "Não sei". Procuras interrogas buscas olhas. Ninguém te sabe dizer, não o encontras, nem as ruínas sequer, um arremedo. Arco só se fôr o íris quando chove. Persistente, insistes, lanças iculcas, voltas a inquirir, pedes que o façam por ti alargando o número de hipóteses. Nada, não há arco nenhum nem nunca houve. Então desistes, conformado. Arco, o arco de Baúlhe, só existe mesmo como palavra, redonda, incrustada no topónimo.

6.ª
Regressas de noite. A condução torna-se difícil. Não há terras, não há placas, apenas estrada, negra, lambida pelos faróis. No alto, onde se escondem as corcovas da serra,  nasce um banco de nevoeiro, escorre, caminha, cresce. Não se enxerga um palmo. Vais a dez à hora. No entanto, outros carros apitam para ultrapassar, passam rápidos, suicidas. O nevoeiro é um muro cerrado, cuidado, quase te despistas, os passageiros vão assustados. Mas tu tens que prosseguir, tens que teimar. Todo concentrado, arrancando os olhos, rasgas o nevoeiro, rasgas o nevoeiro, rasgas o nevoeiro, rolos e rolos escuros, porventura a estrada entrou pelo mar dentro, e aturdido cansado tenso rompes, devagar devagar caracol. Estranho! Parece uma praga! Dá a ideia que o Arco se apoderou de ti, te enfeitiçou, e exige o regresso, exige que voltes para trás, que voltes novamente para o Arco.

Publicado por barbant em 04:47 PM | Comentários (7)

UNHAIS DA SERRA (Covilhã)

 

VIDA DE MONTANHA
                 


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          ... ver rebanhos, conversar com os pastores, beber de bruços na água dos regatos, passar o dia nos pinheirais e nos soutos dos castanheiros, trepar a montanha, pisar a urze, meter as mãos no rosmaninho, andar por aqui como no seu quintal, à vontade, esquecido da gravata e das conveniências, esquecido até do mal que a gente tem dentro de si, tantas vezes apegado, nas ruas das cidades, pelas almas empecadadas irradiando maldade como uma vela acesa irradia luz.
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          No fim de quinze dias de vida de montanha, ao ar livre, levantando com os galos e deitando com as galinhas, no meio do dia dormindo a sesta à hora da calma, a inteligência de pousio e a vontade disposta para o bem; no fim de quinze dias, a saúde vem da alma para o corpo e, então, os nervos aquietam-se, os pulmões respiram à farta, o estômago digere pedras, e não há chuvada que nos constipe, nem torreira de sol que nos atordoe!
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          ... este é dos mais formosos sítios que há em Portugal. E não o espera quem, vindo de Lisboa, atravessa a Beira-Baixa - em geral seca e monótona. Da Covilhã para aqui vimos por montes, às curvas, ora subindo, ora descendo e quase sempre em terreno árido. A alguns quilómetros de  Unhais aparecem os primeiros castanheiros e, de onde a  onde, leiras de milho, amaciando o olhar desconsolado por só ver urze, montes rapados, ou pior, montanhas feitas de penedia brava, alcantilada, toda imprecações contra os altos céus que a condenaram ao desamparo da vida das serras, onde a  invernia é inclemente!
          Mais outra curva de estrada e entramos no vale de Unhais, todo verde de lameiros ensopados em água, verde de campos de milho, verde de soutos de castanheiros com as copas estreladas de ouriços amarelos. Em baixo, um ribeiro entre pedregulhos enormes, que as enxurradas vêm rebolando pelas ravinas, desde séculos; nos altos, a serra áspera, e rapada pelos invernos, formando o fundo e o lado deste vale risonho; e encostada a ela, à ilharga, num abrigo maternal, a pequena povoação de casas terrosas - da cor da broa que se come no sítio - coberta de telhas tanadas como o briche de que se reveste o montanhês desta região, pálido e soturno, que passa por  nós  com olhos de serrano, e a  larga cara ensombrada pela barba de oito dias e pela borda do  enorme chapéu de feltro, guardando-o da chuva, do sol, da neve e do vento.
          Ora aqui se tem, numa mancha, do que é Unhais. Além disso, um lindo sol, que parece não ter outra missão senão  aquecer este bocadinho da terra, e, para qualquer lado que a gente se vire, grande variedade de pontos de vista, cada qual mais pitoresco, com recortes de montanhas, com voltas de estradas, com águas caindo em açudes,  com cabradas nos outeiros, com grupos de casas pobríssimas, mas onde ri, invariavelmente, por entre toscos paus de velhas varandas alcandoradas ao poente, em fundos de bilhas e de  jarros desasados, o manjerico verde, o serpão e as blantinas escarlates. Mas há mais: há a sombra dos velhos castanheiros, que de longe chama pela gente; e o regalo de nos deitar-mos no feno bravo, vendo correr a água dos regueiros, assedada na verdura dos trevos e da margaça fina - verdura tão fresca e água tão limpa, que dá vontade de ser criança e de chapinhar nela com os braços arregaçados! E, envolvendo tudo, há o silêncio perfeito dos campos, que a toada distante dos  chocalhos parece dilatar ...
          Não será isto um canto, priveligiado de todos os requisitos de uma estação de  sossego para tomar fôlego quem passa os dias do ano nas canseiras da vida do pensamento? Decerto que é.

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                        (Antero ... de Figueiredo - "Recordações e Viagens", 1905)  

Publicado por barbant em 04:44 PM | Comentários (0)

julho 20, 2004

Le Vent Le Cri

 
 

como uma finíssima dor aguda
de fio de cabelo e de punhal gume
a música alastra e rompe
progressivamente
destruindo o sentimento acumulado e cristalizado derrubando
com seu árido vento
o cimo das dunas infectadas
música aliada
do ténue resfolegar do peito quase
morto dos braços caídos como trança
de rapariga cortada da febre
sobre os lábios secos e incapazes
de construir como conviria
para que alguma calma a ele
sobreviesse
o grito

Publicado por barbant em 01:34 PM | Comentários (3)

julho 15, 2004

Ervas







as
ervas
crescem
junto
à
manhã
com
o
sol
ou
o
corpo
não
são
ervas
são
mãos
ou
lábios
insítos
sobre
a
luz
que
é
áspera
leve
quente
como
as
ervas










quem
pode
das
maçãs
a
ternura
reter
e
os
gomos
ou
brasas
do
seu
ventre
quem
pode
conjugar
ou
será
que
as
maçãs
existem
e
o
seu
doce
brilho



eis
amor
do
amor
as
ervas
os
frutos
em
acidulada
voz
suecados
eis
o
sol
ardor-
osamente
nascendo
sobre
as
ancas
o
branco
odor
do
branco
sangue
o
branco
castelo
das
ervas
do
teu
corpo

Publicado por barbant em 10:04 PM | Comentários (3)

julho 12, 2004

VILARINHO DA SAMARDÃ (Vila Real)


        CARTA-ABERTA A CAMILO RAPAZ         



Meu caro:
Aqui estou na terra em que tu dizias (e escreveste) que passaste os únicos dias felizes da tua vida. Grande maganão!: os grandes dias, aqueles em que perpassavas com o pecado atravessado nos dentes, o pecado que sempre perseguiste, esses passaste-os no Porto. Olha, nasceram algumas casas novas fora do povo, cafés, chalés, restaurantes, o alcatrão lá em cima. Ao fim-de-semana deambulam turistas, curiosos, indiferentes, gente que vem farejar um pouco do teu sangue ainda inextinto. Verifico que os padres-sobrinhos já partiram soterrados com o seu sarrabulho teológico, apenas deixaram algumas velhas de negro derreadas com terços trémulos nas mãos, com efeito os anos procederam à barrela, até porque os braços (e cabeças) viris foram forçados a partir.

Mas o interior do povo está igual ao que se colava às tuas sandálias frenéticas. A tua casa, avantajada pelo sobrinho-padre, está na mesma, sob as latadas, apenas mais silenciada. Mas as pessoas foram-se embora, meu rapaz, poucas restam daquele forno em que te envolveste. A idade média permanece aqui, mas acabrunhada, lenta, apenas beliscada por algum cão que ladra ou o som deles.

Deambulo à procura do milagre, mas provavelmente irei embora de mãos vazias. Não lobrigo as cachopas coradas, os seus chapéus garridos roçando a penugem da nuca, nem os mocetões planejando os bailes das eiras, nem os lavradores azafamados, nem o canalhio, apenas restam duas ou três mulheres sem assunto para rosnar nas esquinas. Impossível, não enxergo a roliça tia Rita, nem a Carolina irmã, nem o cunhado-médico Francisco, nem o Padre António, muito menos a Maria do Adro e sobretudo a Luísa flor-dentre-fragas. Mas as fragas, essas sim, permanecem além, hirtas e firmes desde  o génesis, iguaizinhas às que enquadraram o molde do teu olhar, lá continuam doirando a Falperra.

Ah, afinal tudo se consuma, de forma admirável, o tempo recua 150 anos neste domingo parado: numa viela, estirada no chão, vermelha em sangue, uma ovelha estrebucha em tremuras preludiando o almoço dos acompanhantes. São dois homens e uma mulher, já entrados, sorriem cumprimentos quando os cumprimento, eis o quadro da bruteza com que tanto lidavas. Um lençol de sangue abre-se no chão empedrado, um rego rubro escorre para os campos.

Sigo a direcção desse indício. Os campos descem íngremes, ladeando de hortas os caminhos na poeira. Estão abandonados, crespos, apenas alguns legumes esverdeados e o áspero silvedo que cresce. Aonde estão os ranchos, as palavras trocadas, o  sussurro, as canções rasgadas nos ares, povoação-feira irrequieta colmeia, prenhe de vida, que te  aconteceu? Podes invadir os quintais, roubar as parcas frutas inteiridas, nada ninguém te dirá: da mesma forma, ou desta forma, a inveja, a soberba, os sentimentos gerados pela fome, esmorecem, morrem também.

No fundo da encosta encontro-me com o teu rio. Ribeiro que lambeu teu dorso jovem que pouco depois encostou a seda jovem da Joaquina de Friúme. Não está frigidíssima a água, como afirmavas n'"O Degredado", mas é porque o verão já vai em força. Sento-me debaixo da ponte rústica, observo-te dentro de águas com um estranho receio, levanto os olhos ao alto povoado, oiço por cima de mim na falda da montanha o combóio que foi desactivado, meto ao bolso alguns pássaros que deliram no arvoredo. Levo-os comigo. E contigo.

Agora, porra, vou almoçar lauto a Vila Pouca, cabrito assado regado com batatinhas loiras vinho e azeitonas recoberto com café aromático e um cigarro azul. Depois, na tarde ensolarada, rompo pelas aldeias incógnitas a que não deste nome, Vila Cova, Parada, Lamas de Olo, talvez vá às veigas do Tâmega de Santo Aleixo à procura da loira Josefa por quem um dia me perdi de amores.

Mas eu volto. E voltarei muitas vezes, na tentativa vã de substituir o teu vulto esguio e embexigado. Irei verifiicar se o fojo do lobo não está muito derrotado, conversarei com os carvoeiros da Samardã que me falarão de ti, zelarei para que as passadas no povo velho não incomodem ferozmente o teu sono ainda não declinado. Voltarei sempre. Já que tu estás cada dia mais longe de o poder fazer, uma vez que, estando vivo embora, é uma vida bastante descarrnada.

Conta comigo, rapaz de uma figa!     

Publicado por barbant em 01:22 PM | Comentários (1)