junho 30, 2004

Vieira

 


 


o polvo
            com aquele seu capelo na cabeça
                                                             parece um monge
            com aqueles seus raios estendidos
                                                             parece uma estrela
            com aquele não ter osso nem espinha
                                                             parece a mesma brandura
                                                                        a mesma mansidão

as cores
           que no camaleão são gala
                                                no polvo são malícia
as figuras
           que em proteu são fábula
                                                no polvo são verdade
                                                                  e artifício

se está nos limos
                        faz-se verde
se está na areia
                        faz-se branco
se está no lodo
                        faz-se pardo
se está na pedra
                        faz-se da cor da pedra

se está nos limos  se está na areia  se está no lodo  se está na pedra
faz-se verde  faz-se branco  faz-se pardo  faz-se da cor da pedra



Publicado por barbant em 06:07 PM | Comentários (2)

junho 21, 2004

URRÔ (Penafiel)

INTRÓITO E 5 CINTOS DE NAMORADA


INTRÓITO

Aninhada entre o rio e as colinas, Urrô, nas últimas décadas do século XX (se calhar ainda hoje), produzia uma estranha atracção sobre os jovens masculinos. Sózinhos ou em grupo, eles aportavam atraídos por uma contagiante comunhão comunicativa que deparavam nas esfolhadas, nos bailaricos, nas festas, nas romarias, nos trabalhos da semana ou nos domingos sem história. Vinham de Irivo, de Mouriz, de Bustelo, de Paço de Sousa, de todo o lado. Dizia uma típica lavradeira: "Tenho sete filhas e todas casaram com rapazes de fora!"
Foi o que aconteceu a ti também, rapaz de fora!


CINTOS

1
Ao anoitecer daquele sábado abordaste-a na bica. Entre a timidez face a um desconhecido e a ternura aberta que molda a juventude, cedeu-te a informação de que iria à desfolhada na Quinta do Paço. Pelas onze da noite aproximas-te das espigas, do barulho, das raparigas. Já haviam comparecido os namoros, e das espigas eram mais as que se atiravam pelos ares, contra alguém ou algo, do que as que eram esfolhadas da camisa. Erguendo-se como único e válido motivo, num instante o baile preparou-se e incendiou-se. Dançar! Apertar nos braços a maciez sôfrega de uma cachopa rubra, encostar-se disfarçadamente ao seu calor! Ainda que por breves instantes. Sem o cinismo desaprovador dos pais, nem das mães, nem da moral. Dançaste com elas, quase todas, mas sobretudo dançaste com ela. E, subtil, estranhamente, um ainda leve cinto começou a cercar-te.

2
Depois, na festa de S. Miguel o Anjo, em Maio, aprofundaste a relação. Ela era jovial, forte, bem proporcionada, de grandes olhos, quase te guiava. Foi nessa festa que surgiu a confusão que não mais esqueceste: dançavas com ela, quando o Clemente de Cete tentou roubar o par. Seguraste-a com força e ele atirou-se a ti provocando larga zaragata. Ela recuou entontecida, dando pequenos gritos histéricos, mas o sangue que jorrou foi escasso. Depois saíste com ela na festinha da Senhora da Paz, pelas vindimas e, sobretudo, em Outubro estiveste com ela no S. Simão, bem lá no alto da capela, donde se divizam como de avião dois concelhos completos. Era uma mole de gentes, vinda de todo o mundo, a pé, de mota, de cavalo, de excursão, fazes uma visita descontraída aos comerciantes, às doceiras, aos barracões onde se come frango e vinho doce, aos passos arrastados no interior da capela, às velas acesas queimando promessas. Este local propício ao vento está deformado: alor, gritaria, sons tresmalhados, sobrevoando tudo o estoiro dos foguetes e as frases ridículas dos propagandistas.
Ao entardecer pediste-lhe um beijo. Mata a sede que nunca se apaga, rapaz de fora, se ela aceitar, o santo que é bom apóstolo não se vai importar.

3
Aldeia que se preze deve ter, grande ou pequeno, o seu rio ou ribeiro. Aqui desliza sereno o Sousa, em brando declive paralelo aos grandes lavradores: Quinta do Paço, Quinta da Vinha, Quinta da Fonte, Quinta da Vila. As águas ainda vão limpas, a poluição da indústria só chegará mais tarde, ainda não se nota a sua gravidez nos tempos. Agora chegas tu junto da pequena ponte, onde o vale se estende até à estação, vens conversando animadamente com ela, o irmãozito mais novo (pois claro) vem um pouco atrás. A tarde declina, melros e pequenos pássaros embrulhados atiram canções de dentro do arvoredo. Na água quase estática é possível lobrigar um peixe de passeio. Mandas o irmão à loja comprar rebuçados. E, entretanto, puxando-lhe o braço que resiste um pouco em conformidade com as orientações recebidas, logras encostar-te rosto com rosto. Com o entusiasmo não te apercebes, mas anos mais tarde ela confessar-te-á: um pouco pálida, tal como as hastes dos salgueiros anoitecendo à beira do rio, ela tremia toda!

4
De longe a longe, do mesmo modo que o sino, ouve-se o som doméstico do combóio, o rouco rolar sobre carris, vislumbra-se o fumo enovelado nos ares, o pasmo absorto do gado nos pastos. Os cães esses já se habituaram ao monstro galopante, ficam quietos sem ladrar. Terras de festas e romarias, entras no combóio e vais à Senhora do Vale, à Senhora da Saúde, ao S. Bartolomeu, a tudo que o corpo pede. Ou então vais a pé, pelos brancos caminhos estreitos de poeira. Bandos de raparigas avançam assustando os campos com seus cânticos e risos. Ao entardecer, retomam o combóio e regressam. Porque quem nasceu em Urrô, sente o sítio como um regaço de mãe e, quando se ausenta, só pensa no regresso.

5
Voltas de novo e finalmente à igreja, assente em alto muro sobre a estrada. O cinto está definitivamente apertado, o nó que se formou é cego. No altar todo alumiado, é o Padre Braga que preside à cerimónia do teu, do vosso casamento. Alegre e circunspecto, como água benta, arremesa no vosso rosto palavras afáveis. Quando os sinos ressoam, velhos conhecidos de todas as horas, uma emoção incontida alastra no peito, envolve os noivos de cima a baixo. Ou de baixo a cima. Ele e ela, respectivamente. Já no adro, durante o desfile tradicional das fotografias, abranges com o olhar o verde vale de Urrô e avistas nele gravada a palavra "felicidade". Felizes para sempre, é o que sempre se sentem e sentiram os noivos acabados de casar. Serás feliz. Por um tempo. Tu e ela. Deus te abençoe, rapaz de fora!

Publicado por barbant em 01:17 PM | Comentários (2)

junho 05, 2004

Poligrafia

                  OS 10 MANDAMENTOS
1

Produzir bacanal técnica expandida
2
Misturar o vinho e o azeite in vitro
3
Dispôr todas as cenas em simultâneo, isto é, casar o ânimo do vídeo com o espaço paralelo da pintura
4
Enumerar as diversas versões dos depoimentos em juízo
5
Juntar o rio e a lagoa
6
Construir o bosque, ignorando o carvalho o pinheiro a abétola e vice-versa
7
Obrigar as palavras a fazer cócegas umas às outras, até ao sangue, tornando-se irreconhecíveis
8
Desenhar um corpo que inclua o jovem o adulto a criança a mulher a rapariga o velho o espermatozóide
9
Namorar a intertextualidade orgástica
10
Instalar o caos ordenado

Publicado por barbant em 03:23 PM | Comentários (6)

junho 03, 2004

Cesariana


 

o campo do verão o verão do campo
o campo no verão a claridade
do compasso sobre a  terra debruçado
os cabelos de trigo sobre o trigo
espalhados os ares de eiras
as eiras do sol ceifando as terras
o cume de água a luz lavada
da pedra o verrde sumo das espigas

na testa das varinas ou formigas
de dezanove rompem na branca
estrada nua em que somos os braços
de bocas barcos incidindo os frutos

e assim o rego de água o lento
vinho das carradas sobre a  campina
os carros a gemer no outeiro ou
melhor a natureza trémula de sede
encontra o verde a madureza nua
o loiro beiral de vinho na página

daí a chuva entre os poetas jovens
os arcos de silêncio frente ao verão
projecto de poemas próximos



Publicado por barbant em 01:28 PM | Comentários (1)