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1
Ao anoitecer daquele sábado abordaste-a
na bica. Entre a timidez face a um desconhecido e a ternura aberta que
molda a juventude, cedeu-te a informação de que iria à desfolhada na
Quinta do Paço. Pelas onze da noite aproximas-te das espigas, do barulho,
das raparigas. Já haviam comparecido os namoros, e das espigas eram mais
as que se atiravam pelos ares, contra alguém ou algo, do que as que eram
esfolhadas da camisa. Erguendo-se como único e válido motivo, num
instante o baile preparou-se e incendiou-se. Dançar! Apertar nos braços
a maciez sôfrega de uma cachopa rubra, encostar-se disfarçadamente ao
seu calor! Ainda que por breves instantes. Sem o cinismo desaprovador dos
pais, nem das mães, nem da moral. Dançaste com elas, quase todas, mas
sobretudo dançaste com ela. E, subtil, estranhamente, um ainda leve cinto
começou a cercar-te.
2
Depois, na festa de S. Miguel o Anjo, em Maio, aprofundaste a relação. Ela era
jovial, forte, bem proporcionada, de grandes olhos, quase te guiava. Foi
nessa festa que surgiu a confusão que não mais esqueceste: dançavas com
ela, quando o Clemente de Cete tentou roubar o par. Seguraste-a com força
e ele atirou-se a ti provocando larga zaragata. Ela recuou entontecida,
dando pequenos gritos histéricos, mas o sangue que jorrou foi escasso.
Depois saíste com ela na festinha da Senhora da Paz, pelas vindimas e,
sobretudo, em
Outubro estiveste com ela no S. Simão, bem lá no alto da capela, donde
se divizam como de avião dois concelhos completos. Era uma mole de gentes,
vinda de todo o mundo, a pé, de mota, de cavalo, de excursão, fazes uma
visita descontraída aos comerciantes, às doceiras, aos barracões onde
se come frango e vinho doce, aos passos arrastados no interior da capela,
às velas acesas queimando promessas. Este local propício ao vento está
deformado: alor, gritaria, sons tresmalhados, sobrevoando tudo o estoiro
dos foguetes e as frases ridículas dos propagandistas.
Ao entardecer pediste-lhe um beijo. Mata a sede que nunca se apaga, rapaz
de fora, se ela aceitar, o santo que é bom apóstolo não se vai importar.
3
Aldeia que se preze deve ter, grande ou pequeno, o seu rio ou ribeiro.
Aqui desliza sereno o Sousa, em brando declive paralelo aos grandes
lavradores: Quinta do Paço, Quinta da Vinha, Quinta da Fonte, Quinta da Vila. As águas ainda vão limpas, a poluição da
indústria só chegará mais tarde, ainda não se nota a sua gravidez nos
tempos. Agora chegas tu junto da pequena ponte, onde o vale se estende
até à estação, vens conversando animadamente com ela, o irmãozito
mais novo (pois claro) vem um pouco atrás. A tarde declina, melros e
pequenos pássaros embrulhados atiram canções de dentro do arvoredo. Na
água quase estática é possível lobrigar um peixe de passeio. Mandas o
irmão à loja comprar rebuçados. E, entretanto, puxando-lhe o braço que
resiste um pouco em conformidade com as orientações recebidas, logras
encostar-te rosto com rosto. Com o entusiasmo não te apercebes, mas anos
mais tarde ela confessar-te-á: um pouco pálida, tal como as hastes dos salgueiros anoitecendo à beira do rio, ela tremia
toda!
4
De longe a longe, do mesmo modo que o sino, ouve-se o som doméstico do
combóio, o rouco rolar sobre carris, vislumbra-se o fumo enovelado nos
ares, o pasmo absorto do gado nos pastos. Os cães esses já se habituaram
ao monstro galopante, ficam quietos sem ladrar. Terras de festas e
romarias, entras no combóio e vais à Senhora do Vale, à Senhora da
Saúde, ao S. Bartolomeu, a tudo que o corpo pede. Ou então vais a pé,
pelos brancos caminhos estreitos de poeira. Bandos de raparigas avançam
assustando os campos com seus cânticos e risos. Ao entardecer, retomam o
combóio e regressam. Porque quem nasceu em Urrô, sente o sítio como um
regaço de mãe e, quando se ausenta, só pensa no regresso.
5
Voltas de novo e finalmente à igreja, assente em alto muro sobre a
estrada. O cinto está definitivamente apertado, o nó que se formou é
cego. No altar todo alumiado, é o Padre Braga que preside à cerimónia
do teu, do vosso casamento. Alegre e circunspecto, como água benta,
arremesa no vosso rosto palavras afáveis. Quando os sinos ressoam, velhos
conhecidos de todas as horas, uma emoção incontida alastra no peito,
envolve os noivos de cima a baixo. Ou de baixo a cima. Ele e ela,
respectivamente. Já no adro, durante o desfile tradicional das
fotografias, abranges com o olhar o verde vale de Urrô e avistas nele
gravada a palavra "felicidade". Felizes para sempre, é o
que sempre se sentem e sentiram os noivos acabados de casar. Serás feliz.
Por um tempo. Tu e ela. Deus te abençoe, rapaz de fora!
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