maio 31, 2004

FREIXO (Marco de Canavezes)

INTRODUÇÃO E 5 MATERIAIS

 

 


Introdução

do inumerável espólio que são as aldeias deste país, vários protótipos poderiam ser definidos. assim, nomeia-se a aldeia alta, a redonda, a de encosta, a fluvial etc., de acordo com a sua posição alcandorada nas colinas, os seus largos vales verdes, o seu jeito cansado de subir aos cumes ou os seus rios de estreitas águas.
mas não é possível aprisionar assim facilmente o ser vivo que a aldeia constitui. no emaranhado de caracteres que a limitariam a um modelo de antemão conhecido, há uma face singular que se oferece aos cães do conhecimento de que dispomos.
assim, dizer-se meramente que Freixo, apesar do nome ribeirinho, é uma aldeia alta, deixaria essa face oculta e soterrada. pensarias numa aldeia alta que conheces e esta escapava-te. acrescentar que é uma aldeia velha, escura, medieval, de silêncios, seria parte do percurso que conduziria ao seu coração. mas, o adjectivo que a define teria de saltar de entre-línguas, assim a modos de lebre que salta dos matos. antiga é a face mais próxima. vejamos os materias de que se constrói essa face.

Materiais

1
os muros, os de pedra tosca, virgem, negra, ei-los que são a geografia pétrea, o duro vestido que o sítio se forma: aqui ladeiam o caminho, a magra viela estreitam, originam as tapadas, agora deslizam lestos para os fundos, voltejam em poderosas curvas até outro lugar, dão o fim das leiras, olha este é já esbarrondado, cansado, bocados de carne, não, calhaus jazem fora das artérias, assim um sangue escuro os só braços no sol denso permanece e cristaliza.

2
à pedra voltamos, ao duro e esforçado ofício de adoçar o granito em cânticos que por vezes são leves: a igreja é em talha límpida, pequenina como um berço e humilde como a moça que a mostrar-se não aspira; fora da entrada principal está uma pia, um cálice lavrado com suas rugas onduladas; nas escavações mal começadas as colunelas nascem do campo como provindo de sementeira e pensam nos altos ares que a sua graça abriga; muros de fino talhe crecem em direcção às raízes, uma panela de pedra surge que será pesadíssima mas que nos provoca um banho mental redondo e de infusa; duas minas cravadas na rocha, uma é simples gruta, a outra é uma cruz em que entras e com um fósforo incendeias; entre os carvalhos ovelhas passam e tens a ilusão de ver caminhar enoveladas construções de pedra.

3
casas, nesses lugares penetramos e o tempo produz arcos em que em silêncio te diriges centenas de anos atrás de ti, casas há alagadas com bocados de madeira que camas ou mesas topas pelas frestas, os moradores ausentaram-se, talvez tenham ido a aljubarrota, peles de carneiro secam como bandeiras dos últimos bichos assassinados e em lautos festins consumidos.

4
um casamento vem ao nosso encontro; vultos escuros contra os muros negruscos; agora os noivos, empunhando símbolos gastos: o vestido branco até à poeira, o fato com seu colete e sapato; mas nos acompanhantes uma nota voluptuosa te escalda: todos levam um cravo no peito, destes rubros  retintos como cristas de galos pernaltas; e pensas: vermelho é todo o ritual do sexo e as armas com que os actos do desejo decorrem: a vagina, o pénis, os lábios, certos mamilos, o sangue virgem ou menstruado, os olhos duramente cerrados: assim uma árdua festa taurina na carne nasce: o recuo vai até à vez primeira em que desesperadas as mãos ficaram entrelaçadas.

5
uma velhota podemos arrebatar ao seu tugúrio, ela tem o frio dos anos empedrado nas veias, a aldeia é ela e nela circula, dirvos-á: "não gosto de carne de qualidade nenhuma", "os meus filhos queriam que fosse p'ra casa deles mas quero-me sózinha e com a graça de Deus", pela porta entreaberta reparamos no dispositivo exíguo com que o sofrimento é vivência em certos animais, a velhota fala com seu único dente, e não é uma imagem de crise de cansaço ou indiferença, é a sabedoria já não ardente, já apaziguada e sem vinhos ao longe.

Publicado por barbant em 06:37 PM | Comentários (2)

maio 28, 2004

Rosto Arrefecido

 

 






   
no rosto arrefecido
     do dia como um choro doente
     a incompletude cinge-se
     aos afectos torturados
     pelo tempo e invertidos
     mão que não chega
     ao ramo e de repente
     como a sinusóide da folha
     cai contra o chão


         (BarbosaAntero)

 

Publicado por barbant em 08:31 PM | Comentários (3)