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do inumerável espólio que são as aldeias deste país,
vários protótipos poderiam ser definidos. assim, nomeia-se a aldeia alta,
a redonda, a de encosta, a fluvial etc., de acordo com a sua posição
alcandorada nas colinas, os seus largos vales verdes, o seu jeito cansado
de subir aos cumes ou os seus rios de estreitas águas.
mas não é possível aprisionar assim facilmente o ser vivo que a aldeia
constitui. no emaranhado de caracteres que a limitariam a um modelo de
antemão conhecido, há uma face singular que se oferece aos cães do
conhecimento de que dispomos.
assim, dizer-se meramente que Freixo, apesar do nome ribeirinho, é uma
aldeia alta, deixaria essa face oculta e soterrada. pensarias numa aldeia
alta que conheces e esta escapava-te. acrescentar que é uma aldeia velha,
escura, medieval, de silêncios, seria parte do percurso que conduziria ao
seu coração. mas, o adjectivo que a define teria de saltar de
entre-línguas, assim a modos de lebre que salta dos matos. antiga é a
face mais próxima. vejamos os materias de que se constrói essa face. |
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1
os muros, os de pedra tosca, virgem, negra, ei-los que
são a geografia pétrea, o duro vestido que o sítio se forma: aqui
ladeiam o caminho, a magra viela estreitam, originam as tapadas, agora
deslizam lestos para os fundos, voltejam em poderosas curvas até outro
lugar, dão o fim das leiras, olha este é já esbarrondado, cansado,
bocados de carne, não, calhaus jazem fora das artérias, assim um sangue
escuro os só braços no sol denso permanece e cristaliza.
2
à pedra voltamos, ao duro e esforçado ofício de adoçar o granito em
cânticos que por vezes são leves: a igreja é em talha límpida,
pequenina como um berço e humilde como a moça que a mostrar-se não
aspira; fora da entrada principal está uma pia, um cálice lavrado com
suas rugas onduladas; nas escavações mal começadas as colunelas nascem
do campo como provindo de sementeira e pensam nos altos ares que a sua
graça abriga; muros de fino talhe crecem em direcção às raízes, uma
panela de pedra surge que será pesadíssima mas que nos provoca um banho
mental redondo e de infusa; duas minas cravadas na rocha, uma é simples
gruta, a outra é uma cruz em que entras e com um fósforo incendeias;
entre os carvalhos ovelhas passam e tens a ilusão de ver caminhar
enoveladas construções de pedra.
3
casas, nesses lugares penetramos e o tempo produz arcos em que em
silêncio te diriges centenas de anos atrás de ti, casas há alagadas com
bocados de madeira que camas ou mesas topas pelas frestas, os moradores
ausentaram-se, talvez tenham ido a aljubarrota, peles de carneiro secam
como bandeiras dos últimos bichos assassinados e em lautos festins
consumidos.
4
um casamento vem ao nosso encontro; vultos escuros contra os muros
negruscos; agora os noivos, empunhando símbolos gastos: o vestido branco
até à poeira, o fato com seu colete e sapato; mas nos acompanhantes uma
nota voluptuosa te escalda: todos levam um cravo no peito, destes rubros
retintos como cristas de galos pernaltas; e pensas: vermelho é todo o
ritual do sexo e as armas com que os actos do desejo decorrem: a vagina, o
pénis, os lábios, certos mamilos, o sangue virgem ou menstruado, os
olhos duramente cerrados: assim uma árdua festa taurina na carne nasce: o
recuo vai até à vez primeira em que desesperadas as mãos ficaram
entrelaçadas.
5
uma velhota podemos arrebatar ao seu tugúrio, ela tem o frio dos anos
empedrado nas veias, a aldeia é ela e nela circula, dirvos-á: "não
gosto de carne de qualidade nenhuma", "os meus filhos queriam
que fosse p'ra casa deles mas quero-me sózinha e com a graça de
Deus", pela porta entreaberta reparamos no dispositivo exíguo com
que o sofrimento é vivência em certos animais, a velhota fala com seu
único dente, e não é uma imagem de crise de cansaço ou indiferença,
é a sabedoria já não ardente, já apaziguada e sem vinhos ao longe. |