janeiro 11, 2010
NOZES EM CARNE VIVA (ALGUMAS BICADAS NO "MUNDO FECHADO" DE AGUSTINA)
Todo o grande escritor, e os pequenos às vezes, se Revelam por uma individualidade que consegue transportar ao texto um novo mundo, uma nova e Voz Superlativa. Emergindo das Águas de outras escritas de que é preciso arredar uma admiração, uma imitação. A repetição. Muitas vezes esse mundo demora um emergir, faz negaças, mistura-se a experiências já debatidas. Noutras, uma força da voz ou sua peculiar intuição surge logo na primeira obra pública.
É o caso de Agustina e de "Mundo Fechado". Que funciona como embrião de muita da obra da escritora. Designadamente um não urbana.
Ali se encontra desde logo o madeirame vocabular, uma fragmentária intriga, o personagem da despedaçar, o ambiente circunscrito, o jogo de contrastes, uma segunda realidade, o conflito não só semântico, uma irónica fórmula, uma força intensa, O Mistério do Redondo, que Farão uma riqueza de obras posteriores. Abordemos ao de leve cada um destes Relances. Profundos.
Desde logo, desde logo, instala-se um vocabulário muito peculiar, o nada incomodado centímetros Camilos e TCE e Aquilinos, embora uma rispidez ea pesada densidade de alguns de seus elementos POSSAM evocar primeiro eo último.
Revela-se de muitas formas, designadamente de duas.
Expondo e acumulando peças que são subtraídas um quase um dialecto próprio da terra, húmida e empapada, em que decorre a acção. Encravada em vales sulcados por gentes de ribatâmega.
Eis uma pequena lista desse linguístico Cascalho: caibro, vide, ralo, Goma, brasido, estalidos, atarantava, impontar, Caleira, batega, ALAPAR, fuligem, chiadeira, arribada, Ribanceira, Borralho, Cachaço, açapar, chocha, arrecadação, seroar, folhelho, Rasca CHUMAÇO,.
A segunda característica é eminentemente morfológica. Repisando ainda o Camiliano substantivo e Aquilino, "desprezando" o adjectivo, abeberando com minúcia o verbo, e provocando a eclosão do advérbio, e até fazer do pronome indefinido (aqui não antigo).
Vejamos. O verbo desenha Arquitecturas quando visiona o "Grito do Melro um Traçar no ar o risco negro da asa", com uma paisagem não bole gesto das crianças que iam "de corrida apedrejar o ribeiro" Devem substantivo quando uma frase nos diz que na noite da lareira "espadanar havia um" se o alguidar raspava nas Areias do soalho, recorre na sua formação ao substantivo se os rapazes permanecem "pilherando sombra surdamente na" cola-se à abstracção nenhum acto de fazer sentir à personagem "expressa uma Hermética de Todo o cenário ".
O artigo indefinido definir sentimentos, isolado, quando alguém "Teve um olhar nostálgico", ou composto, se boceja Outrem "despropósito" num, o advérbio irrompe possante, se, após enérgica frase, o autor da mesma fita o interlocutor "de soslaio , muito alerta ", o advérbio Produz equilíbrio de emoções, sopesando uma contradição na cena em que Poderosa" Teresa chorava quietamente ".
A intriga fragmenta-se, interrompe-se, adia-se, reúne-se de novo, como cenas ficam incompletas e dispersas aguardando alguém que, o leitor, encaixe de peças do quebra-cabeça algum dia. A personagem é usada, tocada de milagre e logo esquecida, afunda-se na sombra, Renasce, o texto fá-la como revoltear av espeto não, agora se compadece agride e logo, permitindo, enfim, que ela permaneça sem esconso, à espera de Glória ou sofrimento. Síndroma ou alegoria de fatalismo, colocado na boca duma das personagens, o trabalho de cada hora "que tem que ser feito até as minhas mãos não mais se mexam." E conclui: "Isto é viver."
A acção, como um vento certo ou ave de arribação que chega, circunscreve o meio, como pessoas, como Acções, como Gerações. Acima da tessitura construída pelo seu povo com a Vale, exala-se um ambiente peculiar, de Campos férvidos, de rituais repetidos, quase bíblicos, de chuvas escorrentes, de Cozinhas ardendo em brasidos Perpétuos, de Eiras expostas ao trabalho e ao olhar ocioso.
Mas é na intriga da miniatura, um ambiente estranho que se entranha. Criando uma possessão da noite, o lento angústia da sorver, como impotência lágrimas coalhadas da, o rubro calor das Lareiras, a Madressilva da Aguarela nenhum muro. E os interstícios, surda rompe a dor ou a alegria. Como um halo.
A escrita não aprecia uma conformação, as mãos se entrelaçam não, como se não depositam Águas, sempre escorre. Mesmo uma pessoa extática, tia Maria, que parece viver perene sentada à lareira, vive e vibra como vidas dos outros. É um jogo de contrastes, em que não é permitida a quietação mas uma inquietação, nem os capítulos desaguam em conclusões mesmo o último, remetendo grávidos ocorrências posteriores.
Não planas, como personagens sentem-se sucessivamente e de repente malévolas ou culpadas ou generosas ou cúmplices, e um cadáver como de Pássaro esquecem de imediato e são abandonadas. A sua sorte. Inexoravel.
Esse jogo, de verbos opostos ou espelhos ferindo-se, encaixa primorosamente nenhum conflito semântico. Sendo quase sempre este o vestuário que imprime as ideias casando-se no corpo do texto. Como quem obtém línguas de fogo de Duas Pedras mutuas que se raspam. De tal modo assim é que deparamos com uma prelecção "aos berros, insultando uma generosidade com ... Franca" e não um par de contacto é Possível com uma condescendência dele para "uma isolada tristeza dela, um pouco porque junto dessa tristeza experimentava a glória de um dominar ".
Com pernas que se códigos Apoiam em etilizados, o alfabeto e suas signos e letras, não se intenta uma reprodução da realidade. Prenhe de vida, de dedos espetados no rosto da leitura mental, uma realidade Ergue-se, caminha, faz cócegas, uma espuma que defronta e se deixa enlaçar por esse confronto.
Acontece em todas as páginas. Os exemplos são bastos como mosquitos. Atentemos só num, maior que todos. O desejo promíscuo e sedento de um dos visitantes que "viera com uma mirada posta num bom almoço, um espumar o vinho, muito áspero, e deixando uma lágrima não Caneca da vidrado". Desejo sedento que transfere e se pega ao leitor, de forma pestilencial, provando-se mais sugestivo do que uma passagem por vera adega onde se enfileiram para nós como pipas ainda com o tempo por romper concretas aranhas onde poisam.
A realidade, toda, não apenas a física, em colunas maciças que se Apoiam nenhum advérbio de quantidade. Daí a primordialidade do vocábulo "muito", muito usado, visando o suspiro "muito cantado", com as mãos "cheias duma expressão muito terna" ou o "recriminar muito cheio de fazer". Existe uma variante comum, menos, que apesar de mais abrangente em potência, mas não sente Primazia apropriação: "... a vontade de tomar esse mundo todo num abraço ...". Por paradoxal que pareça, ainda é uma quantidade menor, pelo contraste e dívida até à progressão, que E.U.A. de força maior: "Pôs-se contar uma ... A sua vida passada que se arrastava miseramente, sem esperança, e sempre um pouco mais em Mina. "
Quase tudo o que fica dito aventa minuciosa investigação. Para trazer à luz ideias e coisas e psicologias Submersas. Removendo, arredando, raspando as sucessivas camadas sobrepostas pela proximidade que CEGAM.
E assim Reluz uma segunda realidade. A autora da. Para alguns Esquisita, outros para indiferente, intuída para os demais. E que estes são um ADOPTAM e adaptam. Tornando texto, pelo enlace fazer, essa segunda em primeira realidade. Tornando-a, também, nossa.
Mais que uma procura da verdade, mais que uma exposição, ainda que fragmentária, de factos, o que nos parece Objecto primordial do livro é uma redondos desfloração de mistérios quase escusos. Porque, como diria a autora muito mais tarde (entrevista a Pedro Mexia, Diário de Notícias, 1996), "um Prudência esclarece-me mais do que a verdade".
O seu interesse, em folha novo na época, é uma metódica decifração e quase metafísica das Motivações. Não acontece que, ambíguas das direcções, dos passos que se dão, do horizonte perseguido não Cerne de atitudes, não mesclado Caleidoscópio e personalidades de atormentado. Sem preocupação com uma escrupulosa observancia do modelo rigoroso da tese, antítese e síntese, deixando que muitas fogueiras fiquem dispersas não abandonadas bosque e ainda em fogo.
Uma caneta, empurrada por este novo "génio", busca e rebusca, destacando e trazendo à luz os cristais Dilacerados de um mundo obscuro ou imprestável. E, para isso, é separar Necessário como pessoas e os ambientes, que se encontram numa jungidas Petrea osmose e fluida. E avolumar personagens como o vale, o campo, uma eira, uma gruta, o jardim, uma cozinha, uma janela. Todos e não só na cozinha a que se Refere este excerto, estão cheios de "Recantos de onde se acoit (av) am hábitos".
E uma das formas de separação das peças, pessoas e ambiente, é o recurso à ironia. Muito presente, ainda quando camuflada. Darei um exemplo pouco feliz (para quem é citado em pessoa, claro): "Pedro contagiava-se por aquele terror que parecia expandir-se em toda a cozinha, onde nos Recantos como dançavam sombras, estalidos nos fazer lume, no silêncio. Coçou a cabeça, ora ", disse, ora!", Olhando em roda, como se procurasse um inimigo de olho luzente espiando-o por detrás dos escaños. Mas só os porcos, em baixo, nas pocilgas, se mexiam às vezes, grunhindo sonolentamente "(pág. 112-3).
Dir-se-ia, diríamos, que estamos Perante um mundo que se abre. Sem dúvida, um mundo literário. Mas no que se Refere a Fisiologia, a autora, a partir da página 97 (o livro Contém 121), insiste em falar quase obscuramente de um "mundo fechado": o mundo fechado nos olhos e na alma, o mundo fechado dos simples, um mundo fechado e sagrado, um mundo fechado e sem nome que se exala "da expressão da morte, das coisas obscuras, do pequeno vale obscuro, das pessoas que riam na sombra, da folhagem agitada, ave da, do perfume e da terra. "
Diz e abunda o e texto a autora. Como se desistisse de penetrar ou esclarecer esse mundo definitivamente encerrado. Que, como Pedro, a personagem principal, Viveu e partilhou, comungar sem nunca, divorciada sociologicamente e cultural, Apartado, mas atenta e de olhar penetrante. E Cuja carne não tenta destruir, obviamente.
Voltará a esse mundo muita vez fechado, com ênfase em "O Mosteiro", e trocando uma metáfora pela "porta fechada" no terceiro volume das "Relações Humanas".
E sempre com uma Obstinação Funda de o derruir, o de explicar, de surpreender o lume vivo nenhum dos seus escaños esbarrondados. O que faz, de forma pertinaz, em "A Sibila".
Invertendo as proporções, reduziríamos esse mundo uma noz madura e uma Agustina a uma ave de rapina não carnívora. Das e sobre que Habitam nenhum cerne de uma região: Corvo, pega, gaio, entenderem o que. Um dia encontrou nenhum centro da Vessada, derrubada, uma noz. Madura no tom castanho esbranquiçado levemente aveludado do orvalho que se grudava à erva. A inteira estava noz, compacta, impenetrável. Virou-a e revirou-a, olhou em volta. Parecia de agradável sabor. Mas não se poderia engolir de uma vez. Aliás, nesse caso, apenas o gosto perduraria duro e da casca do Acre. Custasse o que custasse, Aceder Necessário era e visionar o miolo. E pacientemente, Bicadas como, destruiu uma ossatura, deixando à mostra, Fendido mas e rasgado, em carne viva, o mundo de desejo fazer todo comestível.
Esse mundo é já outro. Transfigurado. Mas não importa. É só esse que importa.
RODAPÉ
"... O romance tem por Função revelar o mundo", rasgar uma cortina ", uma obra artística é indissociável do elemento geográfico e temporal" - LM Faria, Revista Actual, Expresso n. º 1736, de 4/2-2006, a propósito de "A Cortina" de Milan Kundera.
Cortina, muro, mundo fechado, o que quiserem, é a mesma coisa.
Muito pouco pode o substrato contido em língua portuguesa. Em Machado de Assis, como facilmente se demonstraria, coexistem muitas das "invenções" atribuidas fenomenais nomeadamente um Joyce e Calvino.
O mesmo se pode dizer agora. Muito da descoberta "de Milan Kundera outrora foi desvendado nas obras de Agustina: aí por meados do século XX, ainda Kundera gatinhava.
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